Sinopse: O trauma que influenciou algumas passagens do último livro da série.
Categoria: Harry Potter
Gênero: Paródia, Suspense, Universo Alternativo
Timeline: janeiro de 2007
Disclaimers: Harry Potter pertence à Rowling e à Warner Brothers. Jo e Jessica são elas mesmas. Qualquer outro personagem (por maiores que sejam as semelhanças) me pertence.
Data: novembro de 2007/ fevereiro de 2008.
Palavras:
Alertas: Morte de personagem coadjunvante.
Spoilers: para qualquer um dos sete livros.
Notas: inspirado no filme "Obsessão".
18h56.
O silêncio entre a platéia era estático.
— Então a senhora definitivamente terminou o último livro da série? — a entrevistadora lambia a ponta da caneta verde-ácido de uma maneira muito característica.
— Sim, sim. Na verdade, os últimos capítulos já estavam prontos há bastante tempo, veja bem. Agora a versão final está trancada na minha casa a sete chaves.
— A senhora não mandou para editora, ainda? É só a gente invadir a sua casa e ler?
— Se você souber como usar um Alohomorra — Rowling deu uma risada educada, que foi acompanhada por todos os presentes.
— Ha-ha, bem-humorada como sempre! Me diga, Jo, me diga, como a senhora se sente agora com o final de Harry Potter? Triste? Feliz? Aliviada? Preocupada?
— Hum, não posso dizer que tenha sido realmente fácil terminá-lo, porque Harry Potter tem estado do meu lado desde 1995...
— Ooooh, gente, gente, ela está com lágrimas nos olhos!
Um “ooooh” de comoção percorreu a platéia e a autora pareceu ficar levemente irritada.
— Não precisa exagerar, senhora Skeeter —
— Já te disse, pare com essas formalidades! Pode me chamar só de Chica.
— Tudo bem, então, mas eu ainda queria frisar que —
— Ainda temos uma pergunta da platéia, Jo, seria que você poderia matar uma última curiosidade antes de se despedir?
Respirou fundo e procurou ignorar o corte em sua fala. Intimamente, estava contente consigo mesma – eu realmente me inspirei na personagem certa, pensou, ao lembrar da sua jornalista dos livros.
— Claro, claro.
— Ali, ali, a garota morena lá no fundo. O que você quer saber, querida?
Uma jovem de mais ou menos vinte anos se levantou em meio às pessoas, parecendo tímida. Colocou os longos cabelos negros para trás e, ao fazer sua pergunta, sua voz tinha um timbre misto de exaltação e preocupação.
— Eu queria saber se é verdade o que os boatos estão dizendo, se o Harry vai mesmo morrer no sétimo livro.
Chica Skeeter correu os olhos estreitos até a escritora, atenta. Rowling sorriu.
— Me desculpe — disse —, mas esse é o tipo de pergunta que não posso responder. Vocês todos vão saber no fim. Só esperem mais um pouco.
— Ah, esses leitores curiosos... — Skeeter forçou um largo sorriso — Eu fico muito feliz de ter tido a companhia de vocês durante esta entrevista maravilhosa! Obrigada por ter respondido as nossas perguntas, Jo.
— Foi um prazer, Chica.
— Não se esqueça que você será sempre muito bem-vinda no nosso programa — entrevistadora e entrevistada deram as mãos, ainda sentadas —, e boa sorte em sua nova carreira sem Harry Potter.
— Acho que ainda vou ter muito tempo junto desse menino — as palmas do público abafaram seu segundo riso educado. Rowling se levantou sob o show de luzes para se despedir propriamente e logo desapareceu na escuridão dos camarins.
19h32.
As linhas do asfalto passavam quase lentas por baixo do Golf cor-de-vinho. Joanne ‘Kathleen’ Rowling deu um suspiro longo e aumentou um pouco do som do seu CD do The Smiths. Desejava no fundo no seu íntimo chegar logo em casa, dar um beijo nos três filhos, ligar para Neil, deitar e dormir. Estava cansada.
Espero que termine logo, e parou o carro no semáforo fechado.
Ela não falava de Harry Potter, claro que não – era a chuva do lado de fora que a deixava amargurada e cada vez mais sonolenta.
Aquele tempo para um fim de tarde de domingo era perfeito para se estirar em cima do sofá e assistir o noticiário. De fato, não havia ninguém na rua àquela hora. Não fosse uma tímida lâmpada brilhando na cabine do posto de gasolina da esquina – e o carro que acabava de parar atrás do seu –, estaria sozinha. Não gostava disso, nem um pouco. Claro, pois não era falta de espaço em sua casa que a levava a escrever dentro de pubs e cafés.
Fechou os olhos e afundou a cabeça no encosto do banco. Naqueles últimos dias, sentia-se profundamente só. Neil tinha viajado há uma semana para um congresso de medicina em Chicago, e Jessica passava quase o dia todo na escola. David e Mackenzie eram ainda pequenos demais. Normalmente ela era chamada para dar entrevistas e encontrava diversos fãs pelo caminho, mas ainda assim não era o mesmo que uma boa conversa...
E Harry... ah, Harry, sua mais presente companhia há mais de dez anos. Lá estava seu fim, dolorido fim, escrito justamente por ela.
Muito digno, de qualquer modo, convenceu seus próprios botões, e resolveu abrir os olhos. O sinal estava verde, talvez há muito tempo já, e ela se apressou a pisar no acelerador – e nada aconteceu.
O automóvel tinha desligado sozinho e ela nem percebera. Distraída, pensou balançando a cabeça e girando a chave da ignição. Barulho, barulho, nada. Giro novamente. Barulho, barulho, nada. Terceiro giro. Barulho, barulho.
Nada.
Segurando um grande repertório de palavrões ingleses, Jo abriu a porta e saiu em direção ao capô do carro. Não soube ao certo o que impulsionara tal ação, olhar todas aquelas engrenagens e tubos era o mesmo que ler grego – ou não, porque ainda achava o segundo muito mais fácil do que o primeiro. Desejou terrivelmente ter instruções em grego naquele momento. Tirou o cabelo molhado do rosto e pegou o celular do bolso para –
— Tá tudo bem, ma’am?
A voz vinda do nada a assustou até a morte, a fez pular, gritar, perder o controle e deixar o celular cair. Teve ainda a oportunidade de acompanhar o objeto em câmara lenta, perfeitamente alinhado à poça d’água mais cheia e próxima.
Por um momento, não deu muita atenção a isso. A figura estranha a sua frente era ligeiramente mais preocupante.
— Quem é você?!
— Desculpe, ma’am, eu sinto muito, não quis te assustar...
— Você – você — a silhueta se delineou sob a luz da janelinha do posto — Você é a menina do show.
Sem dúvidas, o timbre exaltado e preocupado que queria saber da morte de Harry Potter era o mesmo.
— Sim, ma’am. Meu nome é Beatriz. Beatriz Lestrange. Desculpe se te assustei, não era minha intenção...
— Não se preocupe — mexeu a mão para lá e lembrou-se então do paradeiro molhado do seu novo Nokia. Dessa vez o palavrão foi inevitável. — Era só o que me faltava — acrescentou ao apertar o botão e ver que a luz não acendia. Talvez carregasse alguma maldição que quebrasse as coisas ou –
— O que tem de errado com seu carro? — Beatriz achou melhor abrigar a escritora debaixo de seu guarda-chuva.
— Não sei, ele simplesmente não liga.
— Eu posso te ajudar?
— Você entende de mecânica?
— Eu não, mas meu namorado trabalha naquele posto ali — apontou para o da esquina — Eu estava vindo buscar ele, posso ir chamar ele pra você!
Não precisou pedir nem negar, pois no segundo seguinte a menina já fugia em direção à luz. Com o qüinquagésimo sexto suspiro do dia, a seguiu.
Ainda chovia.
20h02
O namorado da menina – que assustadoramente se chamava Tony Riddle (talvez o problema realmente fosse mau agouro) – fora muito simpático e prestativo. Ao ver que se tratava da madame Rowling, não precisou nem pestanejar para tirar o automóvel da chuva. Encostou-o a um canto coberto do posto e analisou seus interiores por alguns longos instantes.
— É, ma’am — ele finalmente disse — É problema do motor. Seu carro é novo, não é?
— Pra falar verdade, é...
— Então provavelmente veio assim de fábrica. Não posso fazer muito pela madame aqui no posto, estou praticamente sozinho... — com cara de desgosto apontou para a cabine dona da luz da rua, onde se podia ver uma cabeça apoiada na cadeira, de costas — Snape sempre dorme a essa hora.
— Snape..? — Jo achou que tivesse ouvido errado.
— Severino Snape, é — Tony explicou casualmente, mas mesmo assim o coração de Rowling pareceu de funcionar um pouco. Maldição, sim, maldição de algum fã louco...
— Madame Rowling — a voz distante de Beatriz a acordou dos seus pensamentos conspiratórios —, a senhora não pode ficar fora de casa sozinha à noite!
— Não, não, vou deixar o carro aqui e amanhã passar num mecânico. Agora eu vou — vou coisa nenhuma!, xingou a Rowling da sua cabeça ao tirar o celular imprestável do bolso da calça — Eu ia ligar para um táxi... De qualquer modo, minha casa nem é tão longe assim, posso ir andando —
— De modo algum! Nós te levamos pra casa, meu carro está aqui do lado!
— Eu não quero atrapalhar mais vocês, vocês já foram tão gentis comigo...
— Não foi nada, madame Rowling, de coração. A carona será um prazer.
— Nós fazemos questão.
Coçou a cabeça para ajudar um pouco a pensar. Eles eram um casal simpático, de qualquer modo, e uma gentileza naquela noite detestável não cairia tão mal...
— Se não for incômodo, eu aceito...
— Nunca! Nunca! Por favor, entre, fique à vontade...
A escritora pegou sua bolsa e ligou o alarme do Golf, para em seguida sentar no banco do passageiro do automóvel da moça. Soltou seu qüinquagésimo sétimo suspiro quando Tony deu a partida e engatou a primeira marcha.
— O caminho mais rápido é você virar à direi —
— À direita na rua Arlington, sim, sim, ma’am — Tony riu — Nós sabemos onde a senhora mora.
— Sabem..? — aquilo era meio constrangedor.
Sentiu Beatriz roçar o braço em seu cabelo quando ela se apoiou no encosto do banco do motorista a sua frente, abrindo um largo sorriso:
— Nós somos seus maiores fãs, madame Rowling. Nós lemos Harry Potter pela primeira vez em 1997, nós amamos a série, amamos a história, amamos você mais do que qualquer coisa no universo.
— Ahn... obrigada — não; aquilo era constrangedor.
20h17
O Ford estacionou silenciosamente na garagem aberta da mansão. Os três passageiros – dois deles mal respirando – desceram em direção à porta da frente logo depois que sua dona, muito educadamente, tinha oferecido um convite para dentro como retribuição de gentileza.
Infelizmente, ela não poderia ter se dado conta do grande erro que cometia.
Ou talvez fosse felizmente – mas esta é uma outra questão.
De qualquer forma, quando entraram, a primeira coisa que se podia ver era um grande lance de escadas de madeira muito bem encerada, que certamente levava ao piso superior. Depois disso, dava-se conta de se estar num pequeno cômodo inicial, composto por mancebos, armários, cabides e casacos pendurados vindos da rua, e que tinha cinco passagens principais: a da escada, obviamente; a de trás das escadas, que levava até a cozinha; a da primeira porta à esquerda, que levava a uma sala de visitas e à copa; a da segunda à esquerda, que levava um discreto banheiro no corredor; e à única à direita, que guiava a uma sala de estar e um escritório.
Jo sorriu fino para seus dois acompanhantes afobados e foi em direção à sala de estar, somente iluminada pelo perceptível brilho da televisão. Na frente do aparelho, afundada no sofá gigantesco, estava uma senhora.
— Ana, querida! Obrigada por ter ficado até essa hora me esperando.
Com o que pareceu ser um grande esforço, Ana Bela Figg desgrudou os olhos da tela de plasma. Levantou-se e deu um abraço apertado na vizinha.
— Não há de quê, meu bem. Você sabe que eu amo as suas crianças.
— Eles estão dormindo?
— Acabaram de pegar no sono. E até que não foi tão difícil não, viu? A Jessica me ajudou, muito boazinha ela, um amor de menina. Aliás, acabou de sair pro aniversário do —
— Aniversário? Que aniversário, Ana?
— Como “que aniversário”? Ela está te falando disso há dias, Jo!
Deu-se um tempo para fechar os olhos e balançar a cabeça doída. Não era a primeira vez que esquecia dos compromissos da filha. Da família. Muitas coisas a fazer, muito a escrever, muitos personagens a matar, afinal de contas.
— É verdade. A festa de Derick Diggory.
— Hum, e ele veio buscar ela de carro e tudo o mais, uma graça aquele menino, uma graça! — Ana Bela deu uns tapinhas divertidos no ombro da amiga e riu, como sempre — Agora eu preciso ir, querida. Tenho que alimentar os gatos.
— Claro, e eu te segurando, desculpe...
Acompanhou a senhora até a porta sem se dar conta de estar sozinha ao fechá-la. O casalzinho simpático estava com ela até há pouco, e agora..? Vasculhou a sala de estar com o olhar e engoliu a má impressão que surgiu em sua garganta. Eles eram estranhos, afinal, quem sabe – mas e se só estivessem perdidos? Dirigiu-se até as portas de correr do escritório com o passo firme e tentando manter o sorriso demasiado forçado no rosto. Será —?
— Madame Rowling! — Beatriz Lestrange saltou para fora do chão quando as portas se abriram de súbito — Que susto!
— Oh, eu não queria assustar vocês, desculpem — o sorriso surpreendentemente conseguiu se alargar mais.
— Não, não, nós que temos que pedir desculpas — começou Tony —, nós entramos assim sem pedir permissão nem nada... Sinto muito. Mas a curiosidade... veja bem, ma’am, veja bem, estar aqui para nós é como se – como se fosse um sonho! Você – você realmente escreve suas histórias aqui?
O jovem, aparentemente mais pálido do que o normal – ou talvez do que ela pudesse ter percebido –, apontou com o indicador para uma escrivaninha de mogno, centrada na sala. Às suas costas havia uma estante de livros, a sua direita um divã, e a sua frente mais algumas poltronas.
— Não seja tolo, Tony! — a rudeza da garota foi assustadora — Há quanto tempo você lê os livros dela? Ela-não-escreve-em-casa!
— Pra dizer a verdade — o assunto resolveu se intrometer antes que a briga do casal fosse longe demais —, às vezes eu escrevo, sim. Eu prefiro reler o que eu escrevi aqui. O último livro, por exemplo.
Joanne se adiantou para a parte de trás da mesa, ao mesmo tempo em que tirava um cordão do pescoço – ali estava pendurado um leve molho de chaves estranhas, das quais uma ela cuidadosamente pegou para sumir entre o monte de gavetas lustrosas. Não se deteve muito e logo apareceu, um bolo de folhas A4 recicladas pesando sobre seus braços.
— Isso – isso é — — Sim — não podia contentar-se de orgulho — É Harry Potter and the Deathly Hallows.
Seria verdade ou apenas impressão de que aqueles dois pares de olhos fanáticos acabavam de se encher de lágrimas? Jo abraçou-se ainda mais os papéis como se quisesse escondê-los entre os braços. Tinha medo que eles os vissem demais. Poderiam sofrer um ataque cardíaco.
— Será que a gente poderia —?
— Só – só por um instante —
— Um minutinho ou dois —
— O suficiente pra saber —
— Só o final, o final, o finaaaal —
— Sinto muito — ela era realmente boa em dar sorrisos educados —, mas não posso. Vocês vão saber de tudo em —
— NÃO! — o rosto de Beatriz se contorceu de fúria, e por pouco ela teria chegado à mesa não fosse o namorado tê-la segurado.
— Acalme-se, Bea — a voz dele era firme e resoluta.
— Eu – eu só – me perdoe — ela baixou a cabeça — Me perdoe, madame Rowling...
Claro, sua maluca, eu sei que você só quis me matar. Nada de mais.
— Eu só perdôo com uma condição — sumiu por baixo da mesa novamente, lacrando seu bebê antes que fosse tarde demais —, que vocês parem de me chamar por “madame”. É só Jo.
Aquilo que não a compelira a arrastar as duas figuras para fora de sua casa fora resultado de anos e anos de convivência com entrevistadores mal-intencionados e fãs aficionados demais. Escrever Dumbledore também tinha feito parte de sua terapia.
— Claro, Jo — suas bocas amarelas falaram em uníssono.
No fim, viu-se apenas respirando fundo e oferecendo uma xícara de chá – e depois não viu mais nada, porque quando chegou à porta sentiu o abajur afundando forte em sua cabeça, e tudo mais desapareceu.
terça-feira, 6 de novembro de 2007
O seqüestro de madame Rowling
00h58
Na casa da frente
— Cara, eu não sei se quero fazer isso...
— Você tava com vontade até agora.
— Não isso! Eu estou, mas... seus tios estão lá! E eles estão acordados ainda, olha lá!
— E daí? É a minha casa e eu convido quem eu quiser pra entrar nela, vem.
Larry Potter estacionou a viatura de qualquer jeito perto da calçada e puxou o amigo para dentro de sua casa, uma bela construção de dois andares que tinha herdado do pai. A partir dela, um fato era bastante óbvio: Larry, com seus vinte e poucos anos, já era um cara muito rico. Um policial dedicado, acima de tudo, e extremamente teimoso – Donald Weasley sentia toda aquela teimosia na pele, literalmente, enquanto o companheiro o empurrava para dentro do sobrado.
Sua primeira visão ao entrar não poderia ser pior e mais intimidante: dois pares de olhos esbugalhados e mal-humorados, que deixavam a televisão justamente para o encarar, pertencentes a pessoas cujo parentesco Potter era questionável. Os dois eram Venom e Pecúnia Dursley, o primeiro gordo até a morte e a segunda magra até morte, nenhum dos dois muito simpático.
— Dá licença — Donald gemeu baixinho e fez questão de limpar o pé no carpete por tempo demorado sob o olhar de Pecúnia. Ela não transpareceu nenhuma expressão positiva.
— Tio, tia, esse é meu amigo do trabalho, o Donald. Não temos muito tempo pra conversar, ele precisa usar o banheiro e já vamos sair — Larry apontou o caminho da salvação, e o outro saiu correndo.
Seguiu-se um silêncio desconfortável entre sobrinho e tios, até Pecúnia decidir se levantar e ir bisbilhotar os vizinhos pela janela da frente. Aquele era seu sinal de incômodo maior. E ela era uma pessoa realmente incomodada, porque tendia a fazer isso o dia inteiro.
O mecanismo de mostrar incômodo de Venom era diferente. Ele preferia resmungar, brigar e chutar. E ele também era alguém extremamente incomodado com a própria vida.
— Você sabe que nós não gostamos de pessoas da sua laia perto da gente — fora direto e resoluto — Policiais são todos sujos e incompetentes, estão todos metidos em alguma coisa ilegal por fora.
— Hum — Larry só coçou a cabeça e suspirou, porque estava acostumado com as crises existenciais permanentes do homem. Seu ato maior foi o de se jogar no sofá e roubar o controle remoto. Mudou de canal, pôs na MTV. Ah, como aquilo deixava seu tio irritado! Podia até vê-lo subindo pelas paredes.
— É só isso que você vai fazer a respeito? Falar “hum”?
— O que quer que eu faça? Que eu chame a polícia? — e riu, até perceber que o tom vermelho do rosto de seu tio não poderia piorar. Ah, como aquilo era divertido!
Mas a alegria logo foi jogada fora pela fofoca da janela.
— Venom, querido — a voz de Pecúnia soou irritante por baixo das cortinas — Aquela escritora maluca da frente está recebendo gente na casa dela a essa hora, acredita?
— Quem é, dá pra ver? — ainda falava bravo, nada de novo.
— Um Ford azul, e ainda por cima velho. Que nojo. Tem dinheiro e nem sabe escolher as companhias.
— Azul? Se fosse o preto eu ia dizer pra gente já se preparar, porque é daquela cunhada dela escandalosa e capenga de filhos...— os ouvidos de Larry já estavam prestes a derreterem de futilidade quando Donald finalmente surgiu do banheiro.
— Já?
— Alarme falso — e acrescentou, com as orelhas vermelhas: — Melhor esperar um pouco pra entrar lá.
— Aaahn... obrigado por avisar. Vamos.
Larry até mesmo chegou girar a maçaneta da porta da frente sem perceber que Donald não estava nem um pouco interessado em lhe acompanhar. Talvez tivesse com medo de que aquela primeira má impressão dos Dursley fosse algo pessoal, ou algum sentimento de culpa por ter deixado sua “marca” no banheiro – Larry jamais entendia certos comportamentos educados para com seus tios, viessem de qualquer um. De qualquer modo, quando voltou-se para procurar pelo amigo, encontrou-o próximo à janela também, tentando travar um diálogo amistoso com Pecúnia.
— Essa aí é aquela que escreve Harry Potter, não é?
— Um-hum — ela limitou-se para somente abrir a boca ao marido: — Veja, Venom, veja, ela acendeu todas as luzes da casa!
— Ela deve estar escrevendo aquele livro maluco dela — o homem resmungou, sem mover-se do sofá.
— Ela não gosta de escrever em casa. Prefere cafés e pubs. O preferido dela é o Elephant House.
Os três se viraram para o ruivo com uma digna surpresa.
— Você também sabe qual é o número do sapato dela, é?
— Qualé, Larry! É que... a Hermelinda, sabe, ela ama Harry Potter...
Com as orelhas vermelhas, e sem que Larry pudesse impedi-lo, voltou para a viatura.
Um pouco antes, 00h31
Na mansão Rowling
A cabeça martelava, martelava, martelava. A última vez que se sentira tão mal assim fora na noite em que inventara a idéia do Whiskey Flamejante. Agora, por algum motivo desconhecido, a mesma bebida não saía da sua cabeça. Será que tinha mesmo bebido whiskey? Ou, não – será que tinha sido mesmo Whiskey Flamejante?
Isso é só coisa do seu livro, Jo, disse a voz da sua consciência ainda não tão consciente assim, mas ainda melhor do que seu ego.
O livro. É verdade. Eu terminei de escrever Harry Potter and the Deathly Hallows. Até dei uma entrevista sobre ele, não foi? É. Com aquela mulher irritante. É. E foi... onde foi mesmo? Aliás – aliás, onde diabos eu estou?
Aquela era uma pergunta difícil de ser respondida enquanto seus olhos se mantinham fechados. Estavam pesados demais para serem forçados a qualquer movimento, assim como o resto do seu corpo. Tudo estava tão confortável que ela sentia que poderia ficar daquele jeito para todo, todo o sempre... não fosse a sensação desagradável que sua consciência lhe fazia sentir inexplicavelmente.
Com o qüinquagésimo oitava suspiro, resolveu abrir os olhos. A visão imediata da estranha figura masculina caiu em sua mente com um forte baque, e de repente tudo veio à tona: o semáforo, a chuva, a carona, Ana Bela, o sétimo livro, o abajur, a escuridão. A sensação de conforto de seu corpo começou a incomodar quando percebeu que, na realidade, ela não podia senti-lo, não podia movê-lo. Estava atada a lençóis em sua própria chaise-longue.
— Bom dia — Tony Riddle estava sentado a uma cadeira imediatamente à frente da escritora —, ou boa noite, como preferir, porque só se passaram quatro horas.
— Quatros horas..?
— Desde que nós chegamos aqui, sim. Talvez você esteja ainda muito confusa. Bea não sabe controlar seus impulsos violentos, desculpe, ma’am. Deixe-me recapitular os fatos pra você. Nós te encontramos no —
— No semáforo, sei, sei, quando vocês milagrosamente me salvaram e tentaram me matar — aquela noite desagradável estava passando dos limites das noites desagradáveis —. Minha memória está intacta o suficiente para testemunhar contra vocês depois, obrigada.
— Nossa, ainda bem que os nós de Bea são seguros — ele riu de um jeito nada engraçado —. Fique calma, madame – digo, Jo –, fique calma. Eu só quero conversar com você.
— Eu não. Me solte.
— Eu vou te soltar, é só você me ouvir um pouco. Eu vou cumprir o que falo, e você não tem nada a perder.
Ficou quieta, mas não porque tivesse concordado com o trato, mas sim porque aquelas palavras do jovem lhe atingiram o ouvido de modo assustador. Era como se já as tivesse ouvido antes, sempre as tivesse ouvido, dentro da sua mente, dentro... dos seus livros.
— Ótimo, então eu vou continuar — e continuou: — Nós te encontramos no semáforo, sim, conforme o combinado. Seu carro parou e nós conseguimos te colocar dentro do nosso —
— Espera – “conforme o combinado” — ? Vocês já tinham planejado tudo? Como — ?
— Detalhes não são importantes — o tom de voz dele realmente a convenceu — Continuando, agora espero que sem interrupções: conseguimos te colocar dentro do nosso carro e entrar na sua casa. O que foi um grande feito, lógico, porque você jamais teria permitido que míseros fãs como nós entrassem aqui. Mas nós conseguimos, e ainda como recompensa por nossa bondade você gentilmente nos mostrou seu último livro. O último livro. Harry Potter and the Deathly Hallows. Basicamente do mesmo tamanho do anterior, bem mais sombrio, oh sim, mais detalhado e complicado também, cheio de personagens novos e jogados. E você realmente tem lido muitas fanfics, Jo, devo dizer que eu e Bea esperávamos que RAB seria alguém mais interessante que Regulus Black e aquela historinha óbvia da Horcrux no medalhão...
— Vocês – vocês leram!
— É lógico — aquilo era um pecado —, mas que fique bem claro que pedimos sua permissão antes de roubar ele de você.
— Vocês não tinham direito!
— Não, Jo, você está errada. Você não tinha direito de ter feito o que fez. Nós esperamos por esse livro há anos, anos, desde que pusemos os olhos pela primeira vez no mistério da família Potter. Não, ssh — ele não permitiu que ela interrompesse, e mesmo sua delicadeza parecia uma grande perversidade — Nós queríamos saber por que Voldemort queria tanto matar Potter. Você nos deu a profecia. Você nos disse que um não poderia viver enquanto o outro sobrevivesse. Então, você mata Harry Potter – e o Menino Que Sobreviveu se torna o Menino Que Reencarnou! Como você pôde ter escrito uma atrocidade destas? Como..?
— A história é minha.
— NÃO! — agora o jovem simpático revelava finalmente sua forma bruta — HARRY POTTER NÃO MERECIA VIVER! ELE ESTAVA MORTO! MOR-TO!
— Você queria um final triste?
— Não; eu queria um final coerente! Um em que Voldemort tivesse conseguido o que queria, e não um em que Harry Potter sobrevive pela milésima vez e tem uma penca de filhos!
— Você realmente está me dizendo que queria que o mocinho tivesse morrido no fim..?
— Mocinho?! Potter era somente o protagonista, ele só dava nome à série – porque Voldemort sim fazia jus à história, ele é a pessoa que mais sofreu em todos os livros, ele que teve a infância solitária, ele que foi o jovem incompreendido, ele que foi perseguido por todo o mundo bruxo! Voldemort quase foi morto duas vezes na sua história, enquanto Harry Potter sobreviveu duas vezes! Você acha que isso é justiça? Você acha — mas ele não conseguia mais continuar, porque de algum modo seu corpo tremia de raiva — Olha, o fato é que o Lorde Voldemort é meu personagem preferido entre todos os outros, e o de Bea também, e você – você – VOCÊ ESTRAGOU TUDO!
Jo mal atrevia a respirar debaixo de suas atas. Sua raiva descomunal tinha se transformado drasticamente em um pavor imenso de contradize-lo. Por um momento até que considerou todas as observações gritadas do jovem e sentiu uma ponta de arrependimento por tudo o que tinha feito ao ‘pobre’ vilão – e assim ela gemeu um “sinto muito” bem por baixo da respiração.
— Eu sabia que você sentiria — foi o que ela surpreendentemente ouviu daquela voz masculina que, antes descontrolada, agora soava novamente gentil. Viu ele se levantar, se agachar ao seu lado e se pôr a desfazer suas amarras — E é por isso que eu e Bea ainda estamos aqui.
— Tudo o que nós queríamos era saber o final — continuou —, que, você sabe, ficou horrível. Pavoroso. Decepcionante. Um desastre. Então, como primeiros leitores da sua obra, nós decidimos lhe dar mais uma chance. Nós queremos — e por fim livrou-a — que você reescreva o fim.
— Reescrever..? — ela realmente tinha dificuldades em entendê-lo.
— Sim, sim, um que seja justo com nosso verdadeiro herói — deu uma piscadela e chegou extremamente perto do rosto da autora — Por favor, ma’am, não nos entenda mal. Nós te amamos, amamos mais do que qualquer coisa. Desculpe se foi grosso, te desrespeitei, ou... Tivemos que te prender porque sabíamos o quanto você ia ficar brava com a gente. Mas já passou, não é? O motivo é justo, não é?
Ah, claro, respondeu internamente a voz em sua cabeça – mais sarcástica, impossível.
— Vou te deixar pensar agora. Qualquer coisa não hesite em nos pedir — viu ele se levantar, e teve um ímpeto de chamá-lo antes que saísse:
— Meus filhos! — falou alto — O que vocês — ?
— Não se preocupe, ma’am, eles estão afundados no sono desde que chegamos, lembra? Bea colocou a Nanny — e apontou o aparelho de monitoramento à distância em cima da escrivaninha, semelhante a um walkie-talkie — pra você poder ouvir eles. Ela é muito atenciosa com essas coisas.
Tony se virou de volta a seu caminho, e Jo não pôde continuar segurando sua questão – a resposta era quase óbvia, mas era como se ela tivesse que ser ouvida de verdade para movimentá-la a fazer algo concreto.
— Riddle – e se eu achar a história já basta? E se eu não quiser escrever um novo final?
Se pudesse, teria voltado atrás e evitado a pergunta. O sorriso que o jovem deu foi terrivelmente perigoso, fez suas entranhas se revirarem de geladas, e por muito tempo depois não pôde esquecê-lo.
— Você quer.
Quando ele deixou o escritório, o fez com um click de trinco girando.
01h15
Ainda na mansão Rowling
Sem telefones, sem celulares, sem computador, sem internet, sem fax, sem qualquer meio de comunicação com o mundo externo. Também estava sem as chaves que sempre carregava no pescoço. A única janela do recinto estava igualmente fechada, com algum obstáculo do lado de fora – nada significante, aliás, porque apontava para o jardim de trás, longe da vista dos transeuntes. Jo constatara tudo isso nos longos e aflitos minutos que se sucederam à conversa “amistosa” com Tony.
A única passagem para fora era a porta.
Ah, se eu soubesse como fazer um Alohomorra agora, pensou nervosa, enquanto revirava os cabelos antes elegantemente preparados para a entrevista. Ela já tinha lido tantos livros na vida, tantos policiais, tantos em que aquele truque tinha dado certo... impossível não funcionar na vida real... pronto! Segurou entre os dedos trêmulos o fino grampo que lhe prometia a liberdade.
Traçou o plano: abriria a porta, procuraria por uma saída, provavelmente se esconderia embaixo do sofá, de onde teria uma visão completa. Dali, decidiria o que fazer; provavelmente a porta da frente estaria fechada, e teria que procurar por um celular no andar de cima. Nada muito garantido, mas o melhor que poderia fazer até o momento.
Encostou o ouvido na porta de madeira enquanto encaixava o grampo no buraco da fechadura. Procura sentir as engrenagens, encaixa-lo da maneira perfeita. Girou, girou, já funcionou em tantos filmes, girou, girou, vamos, querido, vamos, até que... click! Lá estava a porta, destrancada perante seus olhos.
Abriu uma fresta.
Encarou a sala de estar, silenciosa.
Livre.
Sorriu consigo mesma.
Abriu-a mais um pouco, o suficiente para deixar passar seu corpo todo.
Pôs uma perna para fora, depois a cabeça, depois —
Encontrou os olhos faiscantes de Beatriz Lestrange, furiosos em sua direção, muito próximos ao seu rosto, quase colados aos seus próprios.
— Nós aprendemos uma valiosa lição com seus livros, sabia, madame Rowling?
— Aaahn... amor?
Beatriz empurrou-a volta para dentro de um tal modo que a porta se escancarou, batendo com força na parede, ao mesmo tempo em que Rowling caía de costas no carpete. Bateu o cotovelo no chão, e por alguns instantes ficou cega pela dor – isso não a impediu de ouvir as gargalhadas agudas da mulher, distantes, loucas e cruéis.
— Amor..! Há! Amor! — ainda rindo, agachou-se ao lado da escritora e agarrou-a pelas bochechas, suas unhas afiadas quase perfurando seu rosto — Não, querida... Vigilância constante! Ainda rindo, deixou-a largada no chão, trancando a porta atrás de si.
Não chovia mais.
02h20
Na viatura
O rádio passava barulhento a noite toda.
— (chiado) ... KAP, KAP! Assalto na Baker Street com Privet Drive... Baker com Privet Drive... (chiado) ... Positivo, a caminho! ... (chiado) ... KAP, pichadores na Arlignton Street com Elm Street... (chiado)
— É nosso! — Larry pegou o microfone — Positivo, a caminho! — e virou à direita na esquina mais próxima.
— Deve ser a gangue do Malfoy de novo... — Donald se lamentou, escondendo o rosto entre as mãos.
Um pouco antes, às 02h02
Na mansão Rowling
Sem ter qualquer noção do tempo, Jo continuou deitada no chão. Alguns outros planos surgiram em sua cabeça, todos muito absurdos e mirabolantes, prováveis efeitos de sua longa convivência com Harry Potter. Suspirou seu – e já até tinha perdido a conta – suspiro. Se pudesse matá-los como matava seus personagens, tudo seria tão mais fácil...
Jo!, censurou-se, e não pensou mais nisso – até o exato instante em questão, quando teve a ligeira impressão de que algo passava por debaixo da porta. Ergueu a nuca e, de fato, encontrou um cartão.
Em sua frente, havia uma feia caligrafia de forma:
A esta altura, você já deve ter percebido que nosso livro favorito é o quarto, não é?
No verso, ao contrário, uma letra de mão muito bem floreada. Era um poema assustadoramente familiar...
Não se esqueça de que estamos na sala de estar,
Ansiosos pelo livro que vamos ver,
E se quiser fugir, pense bem:
Levamos o que lhe fará muita falta,
Uma hora inteira você deverá escrever,
Para recuperar o que lhe tiramos,
Mas passada a hora – adeus esperança de achar.
Tarde demais, foi-se, ela jamais voltará.
CONTINUE ESCREVENDO.
Jo lembrava-se detalhe por detalhe das circunstâncias em que tinha escrito versinhos parecidos. Eles pertenciam ao quarto livro. Sim, o quarto livro, o favorito de sua dupla de seqüestradores, aquele em que Bellatrix Lestrange aparecia pela primeira vez, aquele em que Lorde Voldemort ressurgia em definitivo, aquele em que Diggory era assassinado sem motivo algum.
Diggory, o menino que tinha buscado Jessica em casa..?
Tarde demais, foi-se, ela jamais voltará.
Tomada pelo ódio e pela angústia, não pôde se dar conta de que tinha investido furiosamente contra a porta, desferindo seus socos e chutes mais fortes.
— JESSICA! O QUE VOCÊS FIZERAM COM A MINHA JESSICA? O QUE VOCÊS FIZERAM COM ELA? JESSICA! JESSICA! JESSICA..!
Depois, cansada e torturada, voltou-se para seu bloco de papel.
Não havia mais nada a fazer, senão escrever.
O seqüestro de madame Rowling
03h01
Na mansão Rowling
O último modelo do carro esportivo do momento acabava de estacionar na calçada dos Rowling. De dentro, saiu uma Jessica Rowling sorridente, embrulhada em um vestido cor-de-rosa de festa. Ainda mandando beijos pelo ar a Derick Diggory, abriu a porta de casa e entrou.
Um pouco antes, às 02h28
Na esquina da Arlington Street com Elm Street
A viatura virou a curva cantando pneu, correu o mais rápido possível. Ainda assim, quando os policiais chegaram à cena do crime, a rua estava vazia, sem gangue, sem tinta, sem pichadores. Na realidade, era sempre assim. A quinta vez, já, com a dupla policial em questão. A gangue de Paco Malfoy – Os Herdeiroz, como se auto-intitulavam – sumia nas ruas como picolé gratuito no verão.
Larry não agüentava mais ser feito de palhaço. Socou o volante com raiva e revolta, depois de estacionar perto do mais novo muro pichado da rua – o qual já tinha perdido seu aspecto natural de parede de tijolos para se tornar a mais horrível mistura de cores e panfletos, dos mais variados tipos. Agora, o que cobria toda sua extensão era a propaganda de um pub, em letras garrafais, e a pichação de Malfoy:
A CÂMARA DOS SEGREDOS FOI ABERTA!
(sextas, sábados e domingos, das 19h às 7h – com música ao vivo!)
INIMIGOS DOS ERDEIROZ, CUIDADO!
— Tem alguma coisa estranha por aqui — Donald saiu do carro.
— Falta o “h” — a voz de Larry saiu mais fina do que o normal, enquanto ele tentava controlar a dor do seu soco no volante.
— Não, não, ali, ó, no posto. Reconhece aquele carro?
Ele olhou para a direção que o amigo apontava: sua vista alcançou um Golf vermelho escuro escondido sob as luzes apagadas do posto de gasolina da esquina.
— Não.
— É o carro da Rowling!
— Quem, Don?
— Rowling, a escritora, a sua vizinha!
— Pera, pera — também saiu do carro — É verdade, parece com o dela, mas não posso dizer com certeza que – hey, como você sabe que é dela?
— A Hermelinda – ela me disse que ela tinha comprado um carro novo — e desviou o olhar, fechando a porta da viatura — Não é melhor a gente confirmar?
Sem muita alternativa, atravessaram a rua. A escuridão do lugar não era o suficiente para ocultar as belezas do automóvel. Pois, sim, o Golf era moderno, estiloso, de muito bom gosto e cuidado: estava intacto, arrumado, tinindo, exceto pelas marcas de pingo de chuva no vidro – e pela batata na saída do escapamento.
É. Uma batata. Os dois policiais mal puderam acreditar nos próprios olhos. Por ter sido disposta naquela exato local de forma calculada, possivelmente bastaram segundos para que o motor deixasse de funcionar. Quem tivera a perspicácia de enfiar ali o tubérculo comestível (cinzento, na verdade, e por isso agora nem tão comestível assim) para fazer o carro parar certamente era de uma imaginação louvável.
Donald puxou-a para fora com o olhar perplexo.
— Você acha que seqüestraram ela?
— A minha vizinha? Não, tinha gente na casa dela quando a gente saiu, nem deve ser o carro dela.
— E por que ela estaria na casa dela se o carro dela tá na rua há quarteirões de distância?
— Porque não deve ser o carro dela, Don! Vai ver a gangue do Malfoy viu ele aqui e resolveu enfiar a batata nele, mas a gente chegou mais cedo e conseguiu estragar a brincadei – que que você tá fazendo?
— Vou ligar pro meu irmão — segurava o celular pelo ombro, ainda observando o vegetal — pra confirmar a placa.
— Cara..! — pôs as mãos na cintura, segurando o segundo impulso de socar algo por nervosismo — Ah, tá bom, tá bom. Eu... eu vou lá dentro ver se consigo falar com alguém sobre isso.
Às vezes Donald o tirava do sério. Como naquelas situações em que ficava com um incontrolável medo de aranhas, ou era gentil com os Dursley, ou simplesmente não conseguia enxergar a culpa de Malfoy por um crime. A gangue estivera ali há minutos atrás, não estivera? Não estivera? Não estivera?! – tinha vontade de bater no companheiro com essas perguntas, mas felizmente a dor em seu dedo médio mantinha sua calma. Contentava-se em caminhar com passos largos, duros e perigosos em direção à cabine do posto, esperando machucar o maior número de formigas possível.
Alcançou a tímida luzinha que brilhava no compartimento, ocupada somente por uma mini-televisão ligada em estática e um homem cabeludo apoiado por um cadeira, de costas. Como a janela não tinha vidros, estendeu sua mão até cutucar o ombro masculino.
— Com licença, senhor, sou o policial Larry Po – bloody hell!
Mal pôde encostar. Ao primeiro toque, o corpo do homem cambaleou até o chão, virando-se de frente para revelar seu crachá de – ex – frentista “Severino Snape”. Sua garganta estava dilacerada em vermelho.
No segundo seguinte, quem Larry cutucava era Donald Weasley.
— Don, Don – o cara tá morto. Rasgaram a garganta dele. Ras-ga-ram.
— Droga! — e voltou ao celular, possivelmente pelo chamado do irmão — Oi, Phil, pode falar. Aham... aham... entendi. Valeu, valeu. — desligou — A placa do carro pertence a Joanne Rowling, 42 anos, Edimburgo. A própria.
— Ótimo, ótimo! — passou a mão para bagunçar os cabelos bagunçados — Tá, tá. Vamos com calma, né? Vamos fazer o seguinte: você liga agora para o Departamento de Homicídios e espera eles chegarem, enquanto isso eu vou ver se consigo alcançar a gangue do Malfoy —
— Malfoy, Larry? Do que você tá falando? Ele é um pichador, e não um assassino! Não, cara, a gente liga pro Departamento de Homicídios e depois passamos os dois juntos na casa dela, pra certificar. É mais seguro.
Potter suspirou. Ainda bem que tinha o amigo para lhe abrir os olhos.
Ainda bem que o amigo tinha Hermelinda para lhe abrir os olhos.
— Tem razão, é... Liga aí, então. Eu só espero que quando a gente chegue lá ela ainda tenha pescoço.
03h10
Na mansão Rowling
Larry Potter deu duas batidas gentis na porta.
— Aqui é a polícia civil! Abra a porta, por favor!
Trocaram olhares, tempo de esperar alguns segundos.
Nada. Novas batidas.
— Polícia civil! Tem alguém aí?
Agora, tiveram a ligeira impressão de ouvirem um barulho, algo como alguém batendo doloridamente o joelho em uma mesa.
Ainda assim, não houve resposta direta.
—Abra a porta AGORA — surrou a porta —, ou seremos obrigados a entrar!
A movimentação na parte de dentro se tornou mais intensa, mais afobada. Larry perdeu a paciência, Donald respirou fundo.
— Um... dois... trê —
— Espere!
Quem respondera fora a voz aguda de uma garota, aparentemente assustada, quando se seguiu o som de alguns passos apressados. Depois de que vários trincos giraram por dentro, a porta abriu, relevando os olhos marejados de uma Jessica descabelada:
— Desculpem.... M-Mas é que eu... eu não co-consigo encontrar minha mãe..!
Sem que pudesse evitar, jogou-se sobre os braços de Donald.
Algum tempo antes, às 02h48
Na mansão Rowling
Sair daqui, tenho que sair daqui.
Não havia relógio, então teve de se guiar pelo seu bom censo. Pouco mais de meia hora tinha se passado, qualquer coisa assim, pouco mais de meia hora desde que o casal maluco de seqüestradores tinha feito o anúncio fatal. Naquele instante, tinha pegado o bloco de notas para começar a escrever o novo livro. Depois, constatou que terminá-lo naquele prazo era impraticável. Agora, voltava a segurá-lo em suas mãos e, apesar de ainda acreditar que não poderia escrever qualquer coisa, lá estava ela, ali, escrevendo.
Vou sair daqui!, tentou reafirmar para si mesma.
Arrancou a folha do bloco, dobrou-a no meio e escolheu uma página em especial de seu Harry Potter e a Ordem da Fênix para colocá-la. Depois disso, levantou-se e chutou a porta do escritório.
— Hey! Tem alguém aí? Eu-não-consigo-pensar!
Silêncio. Esmurrou-a de novo.
— Aqui é muito silencioso! Preciso de pessoas, de barulho, de um café – eu quero ir num pub!
Pôde ouvir algo que parecia “ela está doida?” do outro lado, o que a fez sorrir consigo mesma.
— Vocês não querem um livro novo? Aqui é tudo igual, as idéias não fluem — tentava explicar de maneira realista —E, vamos lá, vocês me conhecem, sabem que eu não consigo escrever dentro de casa.
Aguardou contados 15 segundos até que a porta fosse destrancada, e Beatriz Lestrange a puxasse pelo braço.
— Vamos!
— Agora?
— Algum problema? — levantou uma das sobrancelhas.
Jo abriu mais um sorriso do seu acervo de sorrisos educados.
— Lógico que não. Eu só estou... contente!
Ao longe, pôde escutar Tony Riddle dando a partida do velho Ford azul.
Algum tempo depois, às 03h13
Na mansão Rowling
De forma muito desajeitada, o policial Donald Weasley finalmente conseguira se desvencilhar da garota e fazer com que ela se acalmasse. Entraram; Larry, logo atrás, aproveitou para fazer uma breve inspeção no andar inferior. Enquanto Jessica tentava controlar seus soluços através de longos goles de água com açúcar, tudo o que Larry pôde encontrar fora lençóis fora de lugar e um abajur quebrado.
— Está melhor? — agora estavam os três sentados ao redor da mesinha de centro da sala de estar, inevitavelmente presos na profundidade fofa do sofá.
— A-ham. Obrigada, senhor.
— Agora você poderia nos contar o que aconteceu com sua mãe?
Jessica explicou como tinha se despedido da famosa senhora Rowling às seis hora da tarde daquele mesmo domingo, para que ela, a mãe, fosse participar de uma entrevista na televisão; e como ela, ainda a mãe, tinha saído atrasada e esquecido de dizer a que horas voltava; e como ela, a filha, tinha deixado a casa com a vizinha e saído para uma festa de aniversário; e como ela, ainda a filha, tinha chegado apenas há dez minutos atrás e como tinha encontrado a casa completamente vazia; e, por fim, com ela, novamente a filha, acreditava que ela, a mãe, já deveria ter voltado, já que o lugar da entrevista não era tão longe assim.
Falou tudo isso da mesma forma confusa e ininterrupta. Donald achou que a garota fosse desmaiar por falta de fôlego.
— OK, vamos ser bem sinceros com você — Larry lançou um olhar de esguelha para o companheiro, que automaticamente disfarçou com a cabeça (nenhum dos dois tinha muito jeito com o desespero feminino, tendo convivido longos anos com Hermelinda Granger), sinal óbvio de desamparo — Nós... nós encontramos o carro da sua mãe na rua, perto de uma cena de homicídio.
— Ela está —?
— Não sabemos de nada ainda. Viemos investigar. Por favor, fique calma, nós vamos fazer o nosso melhor.
Com muito custo, deixou o conforto do sofá e foi em direção ao trabalho que lhe aguardava na sala ao lado. Antes, porém, que pudesse chegar perto da chaise-longue e seu conjunto de lençóis desarrumados, encontrou algo que lhe fugira da vista em um primeiro momento: um papel no chão, as ameaças da dupla seqüestradora e seu conjunto mal-feito de versinhos plagiados.
— Eu acho – eu acho que tem algum fã maluco metido nisso. Vem cá, Don, vem cá. Não é ela que você disse que escreve aquele Harry Potter?
Leram em voz alta em um uníssono muito mal sincronizado. Havia muito pouco para ser entendido, mas que logo bastou para que pudessem formular suas suspeitas – um livro, será? Queriam que ela escrevesse um livro em troca de algo que tinham roubado? Não podiam estar tão errados assim, afinal os versos eram brancos, livres e desprovidos de qualquer carga poética.
Trocaram sorrisos (ainda que fossem sorrisos de preocupação e trabalho) e prepararam-se para sair, até que finalmente suas consciências clamaram por sensibilidade e eles puderam perceber a presença chorosa de Jessica. Ela estava afundada a um canto, em frente à escrivaninha de mogno, segurando um livro entre os braços e o aborrecimento.
— Esse-estúpido-Harry-Potter! — chorou, enquanto revirava as páginas d’A Ordem da Fênix — Ele é o grande herói do mundo, oh, sim, ele pode salvar t-todo mundo, qualquer bruxo, qualquer trouxa, me-menos a minha mãe, menos – mas o que é isso?
Secando as mãos das lágrimas (e talvez do nariz escorrido), pegou do chão um fino pedaço de papel mal-rasgado e dobrado, vindo do meio das páginas inglesas amareladas. Não lhe passou pela cabeça entregá-lo para a dupla policial; fez o contrário, aliás, e o leu, porque agora era a sua vez de ser insensível e ignora-los.
Forçou a entrada pela porta fechada, empurrou com violência as cadeiras e caixas que havia pelo caminho. Avançou com a varinha estendida, e sorriu para sua companheira por trás de seu ombro – porque aquela certamente era uma noite especial, a noite mais especial, e Lorde Voldemort jamais poderia deixar de compartilhá-la com sua serva mais leal.
— Eu vou matá-lo!
A outra garota gritou, fosse talvez de desespero ou intimidação. Apertou ainda mais o filho entre os braços, como se acreditasse que ali poderia escondê-lo para sempre...
— Não! O Harry não, por favor, o Harry não... eu farei qualquer coisa...
— Qualquer coisa? — os olhos vermelhos brilharam maliciosos na escuridão — Bom, neste caso... Sim, sim, existe algo que eu quero que você faça.
Voldemort chamou com a varinha três das caixas que tinha dispensado anteriormente, e fez delas assentos improvisados para si, Bellatrix e Lily. Depois, tirou das vestes uma pena e um pergaminho, cruzou as pernas e preparou-se para os negócios.
— Veja bem, madame Potter, existe uma coisa muito ruim por aqui. Quero conversar com você.
— Pois não, seu Voldemort.
— Acontece que, esses dias, um dos meus Comensais mais fiéis ouviu uma profecia que falava sobre um menino que não poderia me deixar viver enquanto estivesse vivo. Meio perturbador, não acha? Pois é. Essa criança é o seu filho.
— Nossa! Sinto muito, seu Voldemort. Mas acredito que é assim que as coisas devam ser.
Ele estreitou os olhos, mal-humorado.
— Não, as coisas não devem ser assim — sibilou — Você está muito enganada. Eu não mereço perder todos os poderes que demorei anos para conquistar, por causa de um fedelho remelento que acaba de nascer. Seu filho, madame, é pequeno demais para ter consciência do que acontece a sua volta. Se ele morrer, nem vai perceber. E eu? Ah, eu sou velho demais pra isso, minha alma já está despedaçada demais pra encarar a morte mais uma vez. Não concorda?
— É, seu Voldemort...
— Então! Já que você disse que faria qualquer coisa, aqui está a minha proposta: saia da casa e me deixe matar o menino em paz. Assim não vai acontecer toda aquela problemática do feitiço antigo ativado por seu amor materno e blá blá blá – e você ainda vai poder sair viva pra tirar uma casquinha de Severus Snape, que, aliás, está afim de você há muito tempo.
— Hum, até que ele é bonitinho — pareceu considerar — Mas, agora não dá, porque estou indo no Três Vassouras pra tomar uma cerveja amanteigada.
Pulou pela janela e fugiu.
— O quê?! — Donald não pôde controlar o impulso de se jogar contra Jessica e arrancar o papel de sua mão — Mas a história não é assim!
— Lógico que não — Larry, não por qualquer impulso, tirou a folha da mão do companheiro —, porque ela não queria escrever uma história, mas sim uma mensagem que passasse despercebida pelos olhos dos seqüestradores.
— E o que a minha mãe quis dizer com ela?
— Eu-eu não sei — tentou se desvencilhar do companheiro uma segunda vez, até que por fim entregou a folha escrita em suas mãos — Sinceramente não sei. Nunca li os livros, e talvez nunca vá ler, porque não ia conseguir entrar com um deles em casa. Minha tia iria queimar ele.
— Pra mim está bastante óbvio — a voz de Donald soou séria por trás do bendito pedaço de papel — Voldemort e Bellatrix são os seqüestradores. Eles negociaram com Lily Potter, que, no caso, é a mãe de Jessica, para que ela mudasse a história, ou seja, para que a Rowling mudasse a história, ou escrevesse um novo livro. Isso se encaixa com aquela parte do poema que diz “Não se esqueça de que estamos na sala de estar/ Ansiosos pelo livro que vamos ver”.
A dupla de policial e menina entrou em um estado de puro silêncio contemplador.
— Cara... faz sentido...
— Mas e aí? Onde a minha mãe está?
— No Três Vassouras, lógico!
— Onde? — a última vez em que Larry tinha se sentido tão desinformado assim tinha sido há uma semana atrás, ao tentar, em vão, se guiar por uma revista de costura para pregar um botão.
— Um bar, Larry, um bar. Lembra que eu disse que ela não gosta de escrever em casa?
De repente, tudo fez sentido. Em sua mente, a visão de uma camisa perfeitamente remendada brilhou na escuridão.
— São três e meia agora — olhou no relógio do pulso — A essa hora, não devem ter muitos pubs abertos. Jessica, vá pôr um casaco, que a gente vai sair agora pra procurar a sua mãe.
Os olhos da adolescente Rowling brilharam com certeza e determinação, e assim ela subiu as escadas correndo em direção a seu quarto. Donald pôs o papel no bolso (por quanto será que eu consigo leiloar isso?) e quase chegou à porta do escritório – quase, sim, se não fosse a mão que o segurou pelo ombro.
A expressão de Larry Potter estava séria demais para seu gosto.
— Antes, eu preciso falar com você.
— Que foi, que que aconteceu?
— Don... você sabe que esses livros que a minha vizinha escreve são pra crianças, não sabe?
— Ahn? — ergueu uma das sobrancelhas — Não, Larry, não! Você não sabe, Harry Potter na verdade é uma metáfora muito elaborada que trata sobre a morte e... e.... e sobre outros fatores muitos complicados que a Hermelinda vive tentando me explicar — engoliu fundo —, mas que obviamente eu não presto atenção, porque Harry Potter é pra crianças.
Sentindo cada parte de seu corpo arder vermelha, voltou para a viatura.
Na mansão Rowling
O último modelo do carro esportivo do momento acabava de estacionar na calçada dos Rowling. De dentro, saiu uma Jessica Rowling sorridente, embrulhada em um vestido cor-de-rosa de festa. Ainda mandando beijos pelo ar a Derick Diggory, abriu a porta de casa e entrou.
Um pouco antes, às 02h28
Na esquina da Arlington Street com Elm Street
A viatura virou a curva cantando pneu, correu o mais rápido possível. Ainda assim, quando os policiais chegaram à cena do crime, a rua estava vazia, sem gangue, sem tinta, sem pichadores. Na realidade, era sempre assim. A quinta vez, já, com a dupla policial em questão. A gangue de Paco Malfoy – Os Herdeiroz, como se auto-intitulavam – sumia nas ruas como picolé gratuito no verão.
Larry não agüentava mais ser feito de palhaço. Socou o volante com raiva e revolta, depois de estacionar perto do mais novo muro pichado da rua – o qual já tinha perdido seu aspecto natural de parede de tijolos para se tornar a mais horrível mistura de cores e panfletos, dos mais variados tipos. Agora, o que cobria toda sua extensão era a propaganda de um pub, em letras garrafais, e a pichação de Malfoy:
A CÂMARA DOS SEGREDOS FOI ABERTA!
(sextas, sábados e domingos, das 19h às 7h – com música ao vivo!)
INIMIGOS DOS ERDEIROZ, CUIDADO!
— Tem alguma coisa estranha por aqui — Donald saiu do carro.
— Falta o “h” — a voz de Larry saiu mais fina do que o normal, enquanto ele tentava controlar a dor do seu soco no volante.
— Não, não, ali, ó, no posto. Reconhece aquele carro?
Ele olhou para a direção que o amigo apontava: sua vista alcançou um Golf vermelho escuro escondido sob as luzes apagadas do posto de gasolina da esquina.
— Não.
— É o carro da Rowling!
— Quem, Don?
— Rowling, a escritora, a sua vizinha!
— Pera, pera — também saiu do carro — É verdade, parece com o dela, mas não posso dizer com certeza que – hey, como você sabe que é dela?
— A Hermelinda – ela me disse que ela tinha comprado um carro novo — e desviou o olhar, fechando a porta da viatura — Não é melhor a gente confirmar?
Sem muita alternativa, atravessaram a rua. A escuridão do lugar não era o suficiente para ocultar as belezas do automóvel. Pois, sim, o Golf era moderno, estiloso, de muito bom gosto e cuidado: estava intacto, arrumado, tinindo, exceto pelas marcas de pingo de chuva no vidro – e pela batata na saída do escapamento.
É. Uma batata. Os dois policiais mal puderam acreditar nos próprios olhos. Por ter sido disposta naquela exato local de forma calculada, possivelmente bastaram segundos para que o motor deixasse de funcionar. Quem tivera a perspicácia de enfiar ali o tubérculo comestível (cinzento, na verdade, e por isso agora nem tão comestível assim) para fazer o carro parar certamente era de uma imaginação louvável.
Donald puxou-a para fora com o olhar perplexo.
— Você acha que seqüestraram ela?
— A minha vizinha? Não, tinha gente na casa dela quando a gente saiu, nem deve ser o carro dela.
— E por que ela estaria na casa dela se o carro dela tá na rua há quarteirões de distância?
— Porque não deve ser o carro dela, Don! Vai ver a gangue do Malfoy viu ele aqui e resolveu enfiar a batata nele, mas a gente chegou mais cedo e conseguiu estragar a brincadei – que que você tá fazendo?
— Vou ligar pro meu irmão — segurava o celular pelo ombro, ainda observando o vegetal — pra confirmar a placa.
— Cara..! — pôs as mãos na cintura, segurando o segundo impulso de socar algo por nervosismo — Ah, tá bom, tá bom. Eu... eu vou lá dentro ver se consigo falar com alguém sobre isso.
Às vezes Donald o tirava do sério. Como naquelas situações em que ficava com um incontrolável medo de aranhas, ou era gentil com os Dursley, ou simplesmente não conseguia enxergar a culpa de Malfoy por um crime. A gangue estivera ali há minutos atrás, não estivera? Não estivera? Não estivera?! – tinha vontade de bater no companheiro com essas perguntas, mas felizmente a dor em seu dedo médio mantinha sua calma. Contentava-se em caminhar com passos largos, duros e perigosos em direção à cabine do posto, esperando machucar o maior número de formigas possível.
Alcançou a tímida luzinha que brilhava no compartimento, ocupada somente por uma mini-televisão ligada em estática e um homem cabeludo apoiado por um cadeira, de costas. Como a janela não tinha vidros, estendeu sua mão até cutucar o ombro masculino.
— Com licença, senhor, sou o policial Larry Po – bloody hell!
Mal pôde encostar. Ao primeiro toque, o corpo do homem cambaleou até o chão, virando-se de frente para revelar seu crachá de – ex – frentista “Severino Snape”. Sua garganta estava dilacerada em vermelho.
No segundo seguinte, quem Larry cutucava era Donald Weasley.
— Don, Don – o cara tá morto. Rasgaram a garganta dele. Ras-ga-ram.
— Droga! — e voltou ao celular, possivelmente pelo chamado do irmão — Oi, Phil, pode falar. Aham... aham... entendi. Valeu, valeu. — desligou — A placa do carro pertence a Joanne Rowling, 42 anos, Edimburgo. A própria.
— Ótimo, ótimo! — passou a mão para bagunçar os cabelos bagunçados — Tá, tá. Vamos com calma, né? Vamos fazer o seguinte: você liga agora para o Departamento de Homicídios e espera eles chegarem, enquanto isso eu vou ver se consigo alcançar a gangue do Malfoy —
— Malfoy, Larry? Do que você tá falando? Ele é um pichador, e não um assassino! Não, cara, a gente liga pro Departamento de Homicídios e depois passamos os dois juntos na casa dela, pra certificar. É mais seguro.
Potter suspirou. Ainda bem que tinha o amigo para lhe abrir os olhos.
Ainda bem que o amigo tinha Hermelinda para lhe abrir os olhos.
— Tem razão, é... Liga aí, então. Eu só espero que quando a gente chegue lá ela ainda tenha pescoço.
03h10
Na mansão Rowling
Larry Potter deu duas batidas gentis na porta.
— Aqui é a polícia civil! Abra a porta, por favor!
Trocaram olhares, tempo de esperar alguns segundos.
Nada. Novas batidas.
— Polícia civil! Tem alguém aí?
Agora, tiveram a ligeira impressão de ouvirem um barulho, algo como alguém batendo doloridamente o joelho em uma mesa.
Ainda assim, não houve resposta direta.
—Abra a porta AGORA — surrou a porta —, ou seremos obrigados a entrar!
A movimentação na parte de dentro se tornou mais intensa, mais afobada. Larry perdeu a paciência, Donald respirou fundo.
— Um... dois... trê —
— Espere!
Quem respondera fora a voz aguda de uma garota, aparentemente assustada, quando se seguiu o som de alguns passos apressados. Depois de que vários trincos giraram por dentro, a porta abriu, relevando os olhos marejados de uma Jessica descabelada:
— Desculpem.... M-Mas é que eu... eu não co-consigo encontrar minha mãe..!
Sem que pudesse evitar, jogou-se sobre os braços de Donald.
Algum tempo antes, às 02h48
Na mansão Rowling
Sair daqui, tenho que sair daqui.
Não havia relógio, então teve de se guiar pelo seu bom censo. Pouco mais de meia hora tinha se passado, qualquer coisa assim, pouco mais de meia hora desde que o casal maluco de seqüestradores tinha feito o anúncio fatal. Naquele instante, tinha pegado o bloco de notas para começar a escrever o novo livro. Depois, constatou que terminá-lo naquele prazo era impraticável. Agora, voltava a segurá-lo em suas mãos e, apesar de ainda acreditar que não poderia escrever qualquer coisa, lá estava ela, ali, escrevendo.
Vou sair daqui!, tentou reafirmar para si mesma.
Arrancou a folha do bloco, dobrou-a no meio e escolheu uma página em especial de seu Harry Potter e a Ordem da Fênix para colocá-la. Depois disso, levantou-se e chutou a porta do escritório.
— Hey! Tem alguém aí? Eu-não-consigo-pensar!
Silêncio. Esmurrou-a de novo.
— Aqui é muito silencioso! Preciso de pessoas, de barulho, de um café – eu quero ir num pub!
Pôde ouvir algo que parecia “ela está doida?” do outro lado, o que a fez sorrir consigo mesma.
— Vocês não querem um livro novo? Aqui é tudo igual, as idéias não fluem — tentava explicar de maneira realista —E, vamos lá, vocês me conhecem, sabem que eu não consigo escrever dentro de casa.
Aguardou contados 15 segundos até que a porta fosse destrancada, e Beatriz Lestrange a puxasse pelo braço.
— Vamos!
— Agora?
— Algum problema? — levantou uma das sobrancelhas.
Jo abriu mais um sorriso do seu acervo de sorrisos educados.
— Lógico que não. Eu só estou... contente!
Ao longe, pôde escutar Tony Riddle dando a partida do velho Ford azul.
Algum tempo depois, às 03h13
Na mansão Rowling
De forma muito desajeitada, o policial Donald Weasley finalmente conseguira se desvencilhar da garota e fazer com que ela se acalmasse. Entraram; Larry, logo atrás, aproveitou para fazer uma breve inspeção no andar inferior. Enquanto Jessica tentava controlar seus soluços através de longos goles de água com açúcar, tudo o que Larry pôde encontrar fora lençóis fora de lugar e um abajur quebrado.
— Está melhor? — agora estavam os três sentados ao redor da mesinha de centro da sala de estar, inevitavelmente presos na profundidade fofa do sofá.
— A-ham. Obrigada, senhor.
— Agora você poderia nos contar o que aconteceu com sua mãe?
Jessica explicou como tinha se despedido da famosa senhora Rowling às seis hora da tarde daquele mesmo domingo, para que ela, a mãe, fosse participar de uma entrevista na televisão; e como ela, ainda a mãe, tinha saído atrasada e esquecido de dizer a que horas voltava; e como ela, a filha, tinha deixado a casa com a vizinha e saído para uma festa de aniversário; e como ela, ainda a filha, tinha chegado apenas há dez minutos atrás e como tinha encontrado a casa completamente vazia; e, por fim, com ela, novamente a filha, acreditava que ela, a mãe, já deveria ter voltado, já que o lugar da entrevista não era tão longe assim.
Falou tudo isso da mesma forma confusa e ininterrupta. Donald achou que a garota fosse desmaiar por falta de fôlego.
— OK, vamos ser bem sinceros com você — Larry lançou um olhar de esguelha para o companheiro, que automaticamente disfarçou com a cabeça (nenhum dos dois tinha muito jeito com o desespero feminino, tendo convivido longos anos com Hermelinda Granger), sinal óbvio de desamparo — Nós... nós encontramos o carro da sua mãe na rua, perto de uma cena de homicídio.
— Ela está —?
— Não sabemos de nada ainda. Viemos investigar. Por favor, fique calma, nós vamos fazer o nosso melhor.
Com muito custo, deixou o conforto do sofá e foi em direção ao trabalho que lhe aguardava na sala ao lado. Antes, porém, que pudesse chegar perto da chaise-longue e seu conjunto de lençóis desarrumados, encontrou algo que lhe fugira da vista em um primeiro momento: um papel no chão, as ameaças da dupla seqüestradora e seu conjunto mal-feito de versinhos plagiados.
— Eu acho – eu acho que tem algum fã maluco metido nisso. Vem cá, Don, vem cá. Não é ela que você disse que escreve aquele Harry Potter?
Leram em voz alta em um uníssono muito mal sincronizado. Havia muito pouco para ser entendido, mas que logo bastou para que pudessem formular suas suspeitas – um livro, será? Queriam que ela escrevesse um livro em troca de algo que tinham roubado? Não podiam estar tão errados assim, afinal os versos eram brancos, livres e desprovidos de qualquer carga poética.
Trocaram sorrisos (ainda que fossem sorrisos de preocupação e trabalho) e prepararam-se para sair, até que finalmente suas consciências clamaram por sensibilidade e eles puderam perceber a presença chorosa de Jessica. Ela estava afundada a um canto, em frente à escrivaninha de mogno, segurando um livro entre os braços e o aborrecimento.
— Esse-estúpido-Harry-Potter! — chorou, enquanto revirava as páginas d’A Ordem da Fênix — Ele é o grande herói do mundo, oh, sim, ele pode salvar t-todo mundo, qualquer bruxo, qualquer trouxa, me-menos a minha mãe, menos – mas o que é isso?
Secando as mãos das lágrimas (e talvez do nariz escorrido), pegou do chão um fino pedaço de papel mal-rasgado e dobrado, vindo do meio das páginas inglesas amareladas. Não lhe passou pela cabeça entregá-lo para a dupla policial; fez o contrário, aliás, e o leu, porque agora era a sua vez de ser insensível e ignora-los.
Forçou a entrada pela porta fechada, empurrou com violência as cadeiras e caixas que havia pelo caminho. Avançou com a varinha estendida, e sorriu para sua companheira por trás de seu ombro – porque aquela certamente era uma noite especial, a noite mais especial, e Lorde Voldemort jamais poderia deixar de compartilhá-la com sua serva mais leal.
— Eu vou matá-lo!
A outra garota gritou, fosse talvez de desespero ou intimidação. Apertou ainda mais o filho entre os braços, como se acreditasse que ali poderia escondê-lo para sempre...
— Não! O Harry não, por favor, o Harry não... eu farei qualquer coisa...
— Qualquer coisa? — os olhos vermelhos brilharam maliciosos na escuridão — Bom, neste caso... Sim, sim, existe algo que eu quero que você faça.
Voldemort chamou com a varinha três das caixas que tinha dispensado anteriormente, e fez delas assentos improvisados para si, Bellatrix e Lily. Depois, tirou das vestes uma pena e um pergaminho, cruzou as pernas e preparou-se para os negócios.
— Veja bem, madame Potter, existe uma coisa muito ruim por aqui. Quero conversar com você.
— Pois não, seu Voldemort.
— Acontece que, esses dias, um dos meus Comensais mais fiéis ouviu uma profecia que falava sobre um menino que não poderia me deixar viver enquanto estivesse vivo. Meio perturbador, não acha? Pois é. Essa criança é o seu filho.
— Nossa! Sinto muito, seu Voldemort. Mas acredito que é assim que as coisas devam ser.
Ele estreitou os olhos, mal-humorado.
— Não, as coisas não devem ser assim — sibilou — Você está muito enganada. Eu não mereço perder todos os poderes que demorei anos para conquistar, por causa de um fedelho remelento que acaba de nascer. Seu filho, madame, é pequeno demais para ter consciência do que acontece a sua volta. Se ele morrer, nem vai perceber. E eu? Ah, eu sou velho demais pra isso, minha alma já está despedaçada demais pra encarar a morte mais uma vez. Não concorda?
— É, seu Voldemort...
— Então! Já que você disse que faria qualquer coisa, aqui está a minha proposta: saia da casa e me deixe matar o menino em paz. Assim não vai acontecer toda aquela problemática do feitiço antigo ativado por seu amor materno e blá blá blá – e você ainda vai poder sair viva pra tirar uma casquinha de Severus Snape, que, aliás, está afim de você há muito tempo.
— Hum, até que ele é bonitinho — pareceu considerar — Mas, agora não dá, porque estou indo no Três Vassouras pra tomar uma cerveja amanteigada.
Pulou pela janela e fugiu.
— O quê?! — Donald não pôde controlar o impulso de se jogar contra Jessica e arrancar o papel de sua mão — Mas a história não é assim!
— Lógico que não — Larry, não por qualquer impulso, tirou a folha da mão do companheiro —, porque ela não queria escrever uma história, mas sim uma mensagem que passasse despercebida pelos olhos dos seqüestradores.
— E o que a minha mãe quis dizer com ela?
— Eu-eu não sei — tentou se desvencilhar do companheiro uma segunda vez, até que por fim entregou a folha escrita em suas mãos — Sinceramente não sei. Nunca li os livros, e talvez nunca vá ler, porque não ia conseguir entrar com um deles em casa. Minha tia iria queimar ele.
— Pra mim está bastante óbvio — a voz de Donald soou séria por trás do bendito pedaço de papel — Voldemort e Bellatrix são os seqüestradores. Eles negociaram com Lily Potter, que, no caso, é a mãe de Jessica, para que ela mudasse a história, ou seja, para que a Rowling mudasse a história, ou escrevesse um novo livro. Isso se encaixa com aquela parte do poema que diz “Não se esqueça de que estamos na sala de estar/ Ansiosos pelo livro que vamos ver”.
A dupla de policial e menina entrou em um estado de puro silêncio contemplador.
— Cara... faz sentido...
— Mas e aí? Onde a minha mãe está?
— No Três Vassouras, lógico!
— Onde? — a última vez em que Larry tinha se sentido tão desinformado assim tinha sido há uma semana atrás, ao tentar, em vão, se guiar por uma revista de costura para pregar um botão.
— Um bar, Larry, um bar. Lembra que eu disse que ela não gosta de escrever em casa?
De repente, tudo fez sentido. Em sua mente, a visão de uma camisa perfeitamente remendada brilhou na escuridão.
— São três e meia agora — olhou no relógio do pulso — A essa hora, não devem ter muitos pubs abertos. Jessica, vá pôr um casaco, que a gente vai sair agora pra procurar a sua mãe.
Os olhos da adolescente Rowling brilharam com certeza e determinação, e assim ela subiu as escadas correndo em direção a seu quarto. Donald pôs o papel no bolso (por quanto será que eu consigo leiloar isso?) e quase chegou à porta do escritório – quase, sim, se não fosse a mão que o segurou pelo ombro.
A expressão de Larry Potter estava séria demais para seu gosto.
— Antes, eu preciso falar com você.
— Que foi, que que aconteceu?
— Don... você sabe que esses livros que a minha vizinha escreve são pra crianças, não sabe?
— Ahn? — ergueu uma das sobrancelhas — Não, Larry, não! Você não sabe, Harry Potter na verdade é uma metáfora muito elaborada que trata sobre a morte e... e.... e sobre outros fatores muitos complicados que a Hermelinda vive tentando me explicar — engoliu fundo —, mas que obviamente eu não presto atenção, porque Harry Potter é pra crianças.
Sentindo cada parte de seu corpo arder vermelha, voltou para a viatura.
O seqüestro de madame Rowling
03h23
No pub Câmara dos Segredos
Eram poucos aqueles que não se intimidavam pela grande placa em formato de bode no lado de fora. Mesmo que o lugar fosse bonito e bem acabado, confortável e aconchegante, apesar de pequeno: havia um balcão extenso de bebidas, um canto reservado para os músicos da noite, e algumas poucas mesinhas de madeira, nada mais. A decoração à moda antiga dos anos 20 e a iluminação bastante sutil tornava agradável a estadia de algumas horas ali, e certamente pedia por mais – mas ninguém nunca vai descobrir isso, pensava triste o barman atrás do balcão, por causa da maldita placa de bode!
Não havia nada no mundo que ele detestasse mais do que ela – ou não, talvez houvesse, mas não, não, Dumbledore, brigou consigo mesmo, não são coisas, são pessoas, apesar de você não conseguir vê-las assim. Eram duas. A primeira, sem dúvida, era seu irmão e sua bizarra proximidade com bodes e afins. A segunda, no topo da lista, era sua mãe e sua horrível paixão por bandas suecas. Não tivesse ele nascido em 1976 e em pleno sucesso do single Dancing Queen, não teria recebido seu nome vergonhoso: Abba Dumbledore.
Punha-se a refletir sobre isso enquanto lavava copos. Não pôde evitar ficar nervoso, deixou um deles pular de sua mão e se espatifar no mármore preto. Respirou fundo e tentou se controlar; afinal, era sempre assim. Não conseguia fugir de seu passado, e não conseguiria nunca. Aquelas questões familiares lhe atrapalhariam a vida para sempre. Contentou-se por, pelo menos, ver-se livre para fazer feio e deixar quebrar quanta louça quisesse: estava sozinho. Ou praticamente só, pois duvidava que qualquer um dos presentes se incomodasse com o barulho de seus descuidos.
Nada que fosse surpreendente. Era considerável o fato de que duas das poucas pessoas dali já estavam fazendo o maior barulho do recinto: era a música ao vivo contratada da noite, a dupla Frederico & Georgiano de um arrasta-pé bem brabo. Os melhores, sim, se diziam os melhores do estilo. Abba não conseguia concordar muito com isso, no entanto. Eles não podem ser sérios, o pensamento estalava em sua cabeça sempre que virava para olhar a dupla de irmãos gêmeos sorridentes, cobertos por capas esquisitas.
Além deles, havia os ocupantes da mesa 713, sérios demais para se importarem com qualquer coisa (é interessante frisar que o pub, na verdade, só tinha espaço para abrigar quinze mesas; a numeração a começar pelo 700 – e as pequenas placas novamente em forma de bode que numeravam cada móvel – tinha sido outra idéia excêntrica do caçula Dumbledore). Eram três: um homem de aparência arrogante, uma mulher de gestos grosseiros e uma segunda, quieta e de expressão cansada. Viu-os abrirem a porta ruidosamente e se sentarem em silêncio. Quando se aproximou, somente a morena lhe dirigiu a palavra; entre os outros dois, um se punha a observar o teto e a outra escrevia sem parar.
— Um café expresso simples e uma Coca light — sua voz era tão dura que seria capaz de esmagá-lo.
— Só temos Pepsi, senhora, pode ser?
— Não.
Não se atreveu a lhe ofereceu qualquer outra bebida. Ficou com medo de se manter muito próximo e levar um soco no estômago. Só se viu a salvo novamente quanto se pôs separado da mulher pelo outro lado do balcão.
Ou não. Infelizmente havia se esquecido de uma terceira presente, uma que estava ali todas as noites, que não se intimidava com qualquer balcão, e que certamente tinha se incomodado com o tímido ruído de copo quebrando – se “incomodar” fosse realmente um sinônimo de “se aproveitar de uma situação para se aproximar novamente”.
Quando se lembrou, já era tarde demais. O par de óculos de lentes quadradas já estava o observando de perto, abraçado ao peitoril.
— Querido, aconteceu alguma coisa? Você se machucou?
— Não, senhora Unilever. Está tudo bem, obrigado.
— Quer ajuda pra recolher os cacos de vidro?
— Não se incomode, senhora Unilever...
— Não é incômodo nenhum, querido, pelo contrário! Fico preocupada com você, você pode se cortar com os —
— A senhora quer alguma coisa? — não agüentava suas justificativas melosas.
— Ora, ora! — riu-se — Nós dois sabemos muito bem o que eu quero, querido.
Por favor, não diga, não diga, não diga —
— Você, querido.
Não pôde evitar. Ela disse, com o mesmo tom de voz de todas as noites, quase se jogando pelo balcão.
— Senhora, por favor, não foi isso que eu quis dizer — corou sob os óculos em meia-lua — A senhora gostaria de algo para comer? Alguma coisa – algum tipo de comida?
— Bom, querido, já que agora você me deixou sem opção... É, é, eu adoraria que você me trouxesse uma porção de batatas fritas na minha mesa. Só pra eu poder te ver de novo daqui alguns minutos... — piscou uma daquelas piscadelas cheia de segundas intenções.
— Vou providenciar, senhora Unilever. Pode se sentar.
— E pára com essas formalidades, querido! Pra você, é só Minerva — soprou um beijo pelo ar, voltou de onde veio. Felizmente.
Dumbledore anotou o pedido tremendo com a caneta. Por que ela precisava ser tão descarada assim? Por que não podia parar de dar em cima dele pelo menos – pelo menos – por uma noite? Era insuportável! E decididamente sua adorável família estava envolvida nisso (não poderia se esquecer jamais do dia em que sua mãe os trancou a sós no banheiro – doera demais quebrar o nariz ao pular pela janela). Era a Minerva isso, a Minerva aquilo, a Minerva assim, a Minerva assado – será que ninguém conseguia perceber que ele não queria nada com ela?!
Colou o pedido das fritas no vidro da cozinha, para que Gegê o achasse mais fácil. Gegê, o cozinheiro. Não, na realidade seu nome verdadeiro era Geraldo Grindelwald – Abba o chamava de Gegê como um apelido carinhoso.
Suspirou. Era tão difícil assim que alguém percebesse que ele era gay?!
Suspirou de novo, e por um momento deixou-se ouvir a música. Levantou a cabeça para olhar a dupla do arrasta-pé, mas logo tornou a abaixá-la: chegava a ser irônico contratar músicos que se diziam os melhores e que, no entanto, tinham juntos apenas uma orelha.
03h30
Na mesa 713
Tony Riddle empurrou o café expresso que Dumbledore lhe entregara errado. Jo Rowling deu um gole apressado para não queimar a boca e continuou a escrever. A caneta corria rápida; sua mente estava em todos os lugares, exceto acompanhando seus movimentos.
Eu não deveria ter posto a folha no livro. E se ninguém achar? E se ninguém ler? E se ninguém... der pela minha falta, e nunca entrar em casa? Parou por um momento, só pra se assegurar de que suas linhas se mantinham retas. Que absurdo, Jo, isso é impossível! Virou a cabeça para Beatriz Lestrange, que lhe encarou com um sorriso maldoso. Sempre vai ter um fã maluco que vai perceber que sumi.
— Você está pensando a mesma coisa que eu, não está, Jo?
A fã maluca mais próxima interpretara mal sua olhadela devaneadora. Tirou mais um sorriso educado do seu repertório.
— Ahn... estou?
— Você sabe pra quem escreve, sabe o que eu tenho em mente.
— Bea, assim você a atrapalha... Não acredito que este seja o momento correto para falarmos.
— Mas — e parou, derrotada — Certo, Tony, querido.
Segui-se um silêncio longo, forçando Jo a voltar a seu bloquinho de notas. Ficou feliz; não estava pronta para o que quer que eles fossem falar, não conseguiria contornar mais ainda a situação. Demoraria o máximo possível para reescrever aquelas partes finais. Não poderia sair daquele pub jamais. E nunca antes desejara tanto que sua vizinha da frente esticasse o pescoço pela janela, só para bisbilhotar..!
Ganhe tempo, Jo. Escreva, escreva, escreva, escreva.
A paz durou pouco, contudo. A música era demasiado ruim para os seqüestradores, ou para qualquer um. Beatriz lançou um olhar impaciente para o namorado e ele respondeu com um gesto da mão significativo. Podia falar.
— Madame Rowling... Jo — por um momento, ela pareceu ser novamente a garota tímida do programa de entrevistas — Não queria atrapalhar... Sei que tem muita concentração... Mas eu... Ah, seria tão, tão maravilhoso, e tão importante pra mim, pra nós, se a madame... se você... não deixasse de considerar a nossa fonte de inspiração, e mostrasse aos fãs como eles, nós, podemos fazer parte deste mundo mágico que a madame, que você, criou, e —
— Em suma, queremos que você nos escreva uma dedicatória — Tony interrompeu-a quase como naturalmente, sem sequer levantar os olhos; ela somente mexeu a cabeça freneticamente, em sinal afirmativo.
— Vocês o quê? — largou a caneta.
— De-di-ca-tó-ria. A homenagem que você sempre deixa no começo dos seus livros.
— Eu sei o que é uma dedicatória, obrigada – mas vocês não acham que estão pedindo demais? Quero dizer — tentou consertar —, eu já dediquei este livro a meus fãs... lembra, sete partes, forma de raio, etecétera e tal
? — Mas agora o livro é diferente! — o grito de Beatriz foi bem audível, e ignorável — Nós fomos sua fonte de inspiração direta! Nós salvamos a história! Pessoas do mundo inteiro vão ler Harry Potter, e elas precisam saber quem foram os heróis que pouparam elas de um final pavoroso!
— Você não poderia estar cogitando a possibilidade de nos confrontar — o único homem da mesa sorriu —, poderia, madame Rowling?
Ela não ouviu aquelas palavras... ela as leu. Sentiu um arrepio dos pés à cabeça, mas forçou-se a se manter resoluta.
— Eu-eu quero outro café — empurrou a xícara vazia —. Por favor.
— Pois não, Jo — Tony a pegou, sorrindo um sorriso de causar arrependimento profundo — Trocar sua filha por uma xícara de café expresso me parece justo.
Fez que ia levantar a mão para chamar o garçom, mas Rowling foi mais rápida. — NÃO! Não foi isso que eu quis dizer! Eu-eu... Veja — rabiscou bem rápido, e depois estendeu o caderno até a vista do casal — Faço questão de dedicar este livro pra vocês, OK? E com amor.
— Amor? Ah, que graça, querida — Beatriz mostrou todos os dentes —, mas dispensamos as palavras de Dumbledore. Ele não era um personagem importante. — Impertinente, eu diria, e bastante irritante — o namorado ainda acrescentou, puxando para si as anotações —, sempre se achando o grande bruxo, chefe supremo disso, presidente daquilo, o melhor dire – o que é isso?
Jo sentiu o estômago deslizar até o pé, de uma vez só, como se fosse líquido. Pensou mesmo em tentar arrancar seu escrito das mãos de Riddle, sair correndo até a rua e fazer um escândalo escandaloso – nada disso passou de pensamentos, no entanto, porque seus braços se mantiveram fixos e bem grudados no assento da cadeira. Ele vai me matar, eu sei. Já podia ver a ira saltando-lhe dos olhos. Oh, não, ele não está gostando nada disso, constatava para si mesma, enquanto ele lia, incrédulo, página após página, virando-as ininterruptamente com as pontas dos dedos. Eu sabia. Sabia. Escolheu, por fim, se manter quieta. Quem sabe se parasse de respirar ela conseguisse ficar momentaneamente invisível.
Contou um, dois, três segundos com a respiração contida. Soltou-a: Tony Riddle tinha atirado o caderno contra seu rosto. Continuou com ele abaixado o suficiente para ler sua própria letra largada no chão, desenhando as palavras idênticas e repetidas:
Eu não devo contar mentiras
Eu não devo contar mentiras
Eu não devo contar mentiras...
— Ninguém — bateu com o punho forte na mesa —, eu disse ninguém, tenta enganar Tony Riddle e consegue. Ouviu bem? Nin-guém.
Inspire, expire, inspire, expire. Calma, Jo, ele só é um fã maluco. Ele não é um Riddle do jeito que você pensa. Ele é um trouxa, Jo, só um trouxa! Olhe ao seu redor. Você está cercada de pessoas. É só gritar que o garçom vem correndo te proteger – oh, céus, Dumbledore vem, eu tenho Dumbledore do meu lado!
Eu não preciso ter medo. Não vou ter. Eles são uns trouxas. Uns trouxas!
— Não fique bravo, querido. Nós temos Jessica — a gargalhada de Beatriz foi a mesma, causadora de arrepios — A pequena Jessy, a coitadinha!
— Vocês também não devem contar mentiras — e, pela primeira vez nas últimas três horas, a voz de Rowling era firme e decidida — Eu sei que vocês não podem machuca-la. Quando chegamos, ela já tinha saído. O único encontro possível entre vocês teria sido na minha casa. E, se vocês realmente a tiverem pegado, ela estará lá, há quilômetros de vocês. Vocês não têm Jessica.
— Eu deveria ter sabido que não poderíamos te enganar, madame — Tony muito bruscamente impediu que a namorada falasse. Algumas gotas de suor nervoso escorriam por sua testa. —. Você se deteve nos detalhes de sua história por 10 anos. Os detalhes desta também não poderiam lhe escapar.
Rowling tinha que virar o pescoço para trás para poder enxergar a porta de saída. Não conseguia deixar de fazê-lo. Seus olhos iam de lá para Riddle, seu rosto e suas mãos – ou o que podia imaginar que elas estivessem fazendo embaixo da mesa. Não vê-las a deixava preocupada. Calma, Jo, calma. Não é como se ele estivesse segurando a varinha para lançar um Avada Kedavra a qualquer momento. Ele não vai. Isso é só da sua cabeça, Jo. Só da sua cabeça...
De qualquer maneira, já tinha discretamente posicionado o corpo para correr loucamente caso pressentisse algum movimento suspeito. Ela tinha escrito o livro. Ela conhecia os gestos necessários de uma magia.
— Eu deveria ter sabido, Jo, que não poderíamos esperar que atendesse ao nosso pedido. Afinal, a história é sua, certo? Você é a autora. Nós somos os fãs. Se queremos que aconteça qualquer coisa, devemos nos contentar com nossas próprias fanfics.
— Tony, querido, o quê — ?
Sim! O que diabos ele está dizendo?!
— Ah, Bea, ela está certa. O sétimo livro já está perdido, não há mais volta.
— Não, não, Tony, não podemos pensar assim! Ainda dá pra mudar, ainda dá!
— Eu também acho, meu amor. Mas também reconheço minha derrota. Nossa única salvação está nas mãos do fanon, e... — tomou uma grande golada de ar — Ah, Bea, você escreve tão bem, é uma ficwritter fabulosa, escreve Sirius/ Remus como ninguém... Ah, meu amor, meu amor, será que você não gostaria de nos escrever o seu final?
A expressão contorcida de ira de Beatriz iluminou-se instantaneamente. Por um momento, Jo se assustou – então essa menina consegue sorrir de alegria?!
— O meu..? Sério, Tony? Você quer mesmo?
— E por que não? Eu ficaria muito feliz.
Trocaram juras de amor e se beijaram por um tempo bastante demorado. Joanne também não pôde deixar de sorrir. Aquele era um final feliz para uma noite de terror. Deixou-se relaxar em seu assento novamente. Tudo estava bem.
Ou não.
— Mas não se esqueça, madame — Tony se desvencilhou da namorada, agora contraindo o rosto de um modo ainda mais perigoso —, de que nosso propósito inicial era o de poupar os fãs de ler o seu final pavoroso. Ele ainda é.
— Você-você acabou de dizer que não pode mudar ele — engasgou.
— Não podemos.
— Então o que você pretende fazer? Publicar um livro de fanfiction ou — ?
— Não, não, madame. Eu prefiro pensar grande.
— Você não pode impedir as pessoas de lerem o livro.
— Eu não terei que impedi-las se não houver livro algum para ser lido.
Oh-oh.
As mãos de Riddle então se ergueram, e a escritora não parou para pensar duas vezes quando encarou a varinha – a faca, Jo, a faca! – prateada que ele tinha entre os dedos: num único movimento levantou seu corpo para fora da cadeira, quase a derrubando, sem nunca deixar de fitar os olhos do inimigo.
Correu como nunca achou que poderia correr.
Por quatro segundos.
E então muitas coisas aconteceram ao mesmo tempo.
Num quinto, tentou voltar sua cabeça para frente: seu cabelo comprido cegou-a enroscando-se pelos cílios e engasgou-a entrando pela boca aberta – um passo em falso antecipou um provavelmente certo, enlaçando suas pernas e dobrando seus joelhos – voou em câmera lenta em direção ao pobre Abba Dumbledore, mal posicionado, inocentemente levando batatas à senhora Unilever – parar, tinha que parar –
Com gritos em uníssono, Joanne despencou sobre o garçom assustado, no que pratos e talheres lançaram-se pelo ar como pássaros sem asas. Não chegaram a sentir o chão – sentiram, sim, o ardor da queimadura de batatas pelando –, pois no meio da caminho as portas duplas de entrada abriram de supetão: posteriormente Larry, Donald e Jessica se arrependeriam de não terem sido mais delicados e desejariam ter evitado o arremessar das duas vítimas ao lado oposto, contra a parede, contra a cristalheira belamente posicionada em sua decoração de anos 20.
Não pôde calcular a dor: entre sua vista meio aberta, Jo enxergou apenas o suficiente para pensar – e por muito ficar refletindo – como aquela única vasilha de batatas fritas poderia ter assustadoramente se multiplicado em outras dúzias de mais vasilhas, além de copos, xícaras, pratos, pires, jarras, cálices, louça delicada e frágil, quebrável, rasgando sua pele com vidro e calor insuportável, afundando-a sob uma cascata de cristal infinita...
— ALI! Pega, pega!
— Não, pare!
— Mamãe!
— Onde está ela? Onde?
— Meu Deus, isso é caro!
— Madame Rowling! — a última voz distante veio acompanhada de uma mão amiga que a trouxe de volta da morte. Donald Weasley suspirou de alívio.
Logo atrás, de costas para suas costas, uma cena trágica se formava: a varinha – faca – prateada tinha pulado para as mãos perigosas de Beatriz Lestrange, que ao mesmo tempo segurava Jessica numa posição horrível de refém.
— PRA TRÁS! — berrou com a voz rasgada, afastando o policial mais próximo alguns passos — Larga ele ou eu estraçalho mais um pescoço essa noite!
Larry encarou-a com profundidade, como se tentasse ler através deles suas intenções e seu potencial de matar. Depois de distanciar-se não se atreveu a mexer qualquer músculo, apesar de não seguir as instruções da seqüestradora: ainda mantinha-se segurando firmemente Tony Riddle pelos braços e de cabeça baixa, ajoelhado. Calculou. Estreitou sua visão em direção a Beatriz e por poucos instantes desviou o olhar – mas não o suficiente para que ela pudesse prever o movimento da Rowling armada atrás de si:
— NÃO A MINHA FILHA, SUA VACA!
Realmente, não poderia saber. Não teve tempo de se preparar. Antes que pudesse se dar conta, a bandeja de metal afundava forte em sua cabeça. Caiu no chão, inconsciente.
Terminado. O fim. O melhor que poderia ser.
Minutos depois, inúmeras viaturas escandalosas chegavam para fazerem suas apreensões policiais, suas observações policiais, suas averiguações policiais, suas parabenizações policiais, sua bagunça-organizada policial inglesa.
Exaustas e aliviadas, mãe e filha deixaram-se ficar abraçadas por muito tempo depois que saíram dali.
No pub Câmara dos Segredos
Eram poucos aqueles que não se intimidavam pela grande placa em formato de bode no lado de fora. Mesmo que o lugar fosse bonito e bem acabado, confortável e aconchegante, apesar de pequeno: havia um balcão extenso de bebidas, um canto reservado para os músicos da noite, e algumas poucas mesinhas de madeira, nada mais. A decoração à moda antiga dos anos 20 e a iluminação bastante sutil tornava agradável a estadia de algumas horas ali, e certamente pedia por mais – mas ninguém nunca vai descobrir isso, pensava triste o barman atrás do balcão, por causa da maldita placa de bode!
Não havia nada no mundo que ele detestasse mais do que ela – ou não, talvez houvesse, mas não, não, Dumbledore, brigou consigo mesmo, não são coisas, são pessoas, apesar de você não conseguir vê-las assim. Eram duas. A primeira, sem dúvida, era seu irmão e sua bizarra proximidade com bodes e afins. A segunda, no topo da lista, era sua mãe e sua horrível paixão por bandas suecas. Não tivesse ele nascido em 1976 e em pleno sucesso do single Dancing Queen, não teria recebido seu nome vergonhoso: Abba Dumbledore.
Punha-se a refletir sobre isso enquanto lavava copos. Não pôde evitar ficar nervoso, deixou um deles pular de sua mão e se espatifar no mármore preto. Respirou fundo e tentou se controlar; afinal, era sempre assim. Não conseguia fugir de seu passado, e não conseguiria nunca. Aquelas questões familiares lhe atrapalhariam a vida para sempre. Contentou-se por, pelo menos, ver-se livre para fazer feio e deixar quebrar quanta louça quisesse: estava sozinho. Ou praticamente só, pois duvidava que qualquer um dos presentes se incomodasse com o barulho de seus descuidos.
Nada que fosse surpreendente. Era considerável o fato de que duas das poucas pessoas dali já estavam fazendo o maior barulho do recinto: era a música ao vivo contratada da noite, a dupla Frederico & Georgiano de um arrasta-pé bem brabo. Os melhores, sim, se diziam os melhores do estilo. Abba não conseguia concordar muito com isso, no entanto. Eles não podem ser sérios, o pensamento estalava em sua cabeça sempre que virava para olhar a dupla de irmãos gêmeos sorridentes, cobertos por capas esquisitas.
Além deles, havia os ocupantes da mesa 713, sérios demais para se importarem com qualquer coisa (é interessante frisar que o pub, na verdade, só tinha espaço para abrigar quinze mesas; a numeração a começar pelo 700 – e as pequenas placas novamente em forma de bode que numeravam cada móvel – tinha sido outra idéia excêntrica do caçula Dumbledore). Eram três: um homem de aparência arrogante, uma mulher de gestos grosseiros e uma segunda, quieta e de expressão cansada. Viu-os abrirem a porta ruidosamente e se sentarem em silêncio. Quando se aproximou, somente a morena lhe dirigiu a palavra; entre os outros dois, um se punha a observar o teto e a outra escrevia sem parar.
— Um café expresso simples e uma Coca light — sua voz era tão dura que seria capaz de esmagá-lo.
— Só temos Pepsi, senhora, pode ser?
— Não.
Não se atreveu a lhe ofereceu qualquer outra bebida. Ficou com medo de se manter muito próximo e levar um soco no estômago. Só se viu a salvo novamente quanto se pôs separado da mulher pelo outro lado do balcão.
Ou não. Infelizmente havia se esquecido de uma terceira presente, uma que estava ali todas as noites, que não se intimidava com qualquer balcão, e que certamente tinha se incomodado com o tímido ruído de copo quebrando – se “incomodar” fosse realmente um sinônimo de “se aproveitar de uma situação para se aproximar novamente”.
Quando se lembrou, já era tarde demais. O par de óculos de lentes quadradas já estava o observando de perto, abraçado ao peitoril.
— Querido, aconteceu alguma coisa? Você se machucou?
— Não, senhora Unilever. Está tudo bem, obrigado.
— Quer ajuda pra recolher os cacos de vidro?
— Não se incomode, senhora Unilever...
— Não é incômodo nenhum, querido, pelo contrário! Fico preocupada com você, você pode se cortar com os —
— A senhora quer alguma coisa? — não agüentava suas justificativas melosas.
— Ora, ora! — riu-se — Nós dois sabemos muito bem o que eu quero, querido.
Por favor, não diga, não diga, não diga —
— Você, querido.
Não pôde evitar. Ela disse, com o mesmo tom de voz de todas as noites, quase se jogando pelo balcão.
— Senhora, por favor, não foi isso que eu quis dizer — corou sob os óculos em meia-lua — A senhora gostaria de algo para comer? Alguma coisa – algum tipo de comida?
— Bom, querido, já que agora você me deixou sem opção... É, é, eu adoraria que você me trouxesse uma porção de batatas fritas na minha mesa. Só pra eu poder te ver de novo daqui alguns minutos... — piscou uma daquelas piscadelas cheia de segundas intenções.
— Vou providenciar, senhora Unilever. Pode se sentar.
— E pára com essas formalidades, querido! Pra você, é só Minerva — soprou um beijo pelo ar, voltou de onde veio. Felizmente.
Dumbledore anotou o pedido tremendo com a caneta. Por que ela precisava ser tão descarada assim? Por que não podia parar de dar em cima dele pelo menos – pelo menos – por uma noite? Era insuportável! E decididamente sua adorável família estava envolvida nisso (não poderia se esquecer jamais do dia em que sua mãe os trancou a sós no banheiro – doera demais quebrar o nariz ao pular pela janela). Era a Minerva isso, a Minerva aquilo, a Minerva assim, a Minerva assado – será que ninguém conseguia perceber que ele não queria nada com ela?!
Colou o pedido das fritas no vidro da cozinha, para que Gegê o achasse mais fácil. Gegê, o cozinheiro. Não, na realidade seu nome verdadeiro era Geraldo Grindelwald – Abba o chamava de Gegê como um apelido carinhoso.
Suspirou. Era tão difícil assim que alguém percebesse que ele era gay?!
Suspirou de novo, e por um momento deixou-se ouvir a música. Levantou a cabeça para olhar a dupla do arrasta-pé, mas logo tornou a abaixá-la: chegava a ser irônico contratar músicos que se diziam os melhores e que, no entanto, tinham juntos apenas uma orelha.
03h30
Na mesa 713
Tony Riddle empurrou o café expresso que Dumbledore lhe entregara errado. Jo Rowling deu um gole apressado para não queimar a boca e continuou a escrever. A caneta corria rápida; sua mente estava em todos os lugares, exceto acompanhando seus movimentos.
Eu não deveria ter posto a folha no livro. E se ninguém achar? E se ninguém ler? E se ninguém... der pela minha falta, e nunca entrar em casa? Parou por um momento, só pra se assegurar de que suas linhas se mantinham retas. Que absurdo, Jo, isso é impossível! Virou a cabeça para Beatriz Lestrange, que lhe encarou com um sorriso maldoso. Sempre vai ter um fã maluco que vai perceber que sumi.
— Você está pensando a mesma coisa que eu, não está, Jo?
A fã maluca mais próxima interpretara mal sua olhadela devaneadora. Tirou mais um sorriso educado do seu repertório.
— Ahn... estou?
— Você sabe pra quem escreve, sabe o que eu tenho em mente.
— Bea, assim você a atrapalha... Não acredito que este seja o momento correto para falarmos.
— Mas — e parou, derrotada — Certo, Tony, querido.
Segui-se um silêncio longo, forçando Jo a voltar a seu bloquinho de notas. Ficou feliz; não estava pronta para o que quer que eles fossem falar, não conseguiria contornar mais ainda a situação. Demoraria o máximo possível para reescrever aquelas partes finais. Não poderia sair daquele pub jamais. E nunca antes desejara tanto que sua vizinha da frente esticasse o pescoço pela janela, só para bisbilhotar..!
Ganhe tempo, Jo. Escreva, escreva, escreva, escreva.
A paz durou pouco, contudo. A música era demasiado ruim para os seqüestradores, ou para qualquer um. Beatriz lançou um olhar impaciente para o namorado e ele respondeu com um gesto da mão significativo. Podia falar.
— Madame Rowling... Jo — por um momento, ela pareceu ser novamente a garota tímida do programa de entrevistas — Não queria atrapalhar... Sei que tem muita concentração... Mas eu... Ah, seria tão, tão maravilhoso, e tão importante pra mim, pra nós, se a madame... se você... não deixasse de considerar a nossa fonte de inspiração, e mostrasse aos fãs como eles, nós, podemos fazer parte deste mundo mágico que a madame, que você, criou, e —
— Em suma, queremos que você nos escreva uma dedicatória — Tony interrompeu-a quase como naturalmente, sem sequer levantar os olhos; ela somente mexeu a cabeça freneticamente, em sinal afirmativo.
— Vocês o quê? — largou a caneta.
— De-di-ca-tó-ria. A homenagem que você sempre deixa no começo dos seus livros.
— Eu sei o que é uma dedicatória, obrigada – mas vocês não acham que estão pedindo demais? Quero dizer — tentou consertar —, eu já dediquei este livro a meus fãs... lembra, sete partes, forma de raio, etecétera e tal
? — Mas agora o livro é diferente! — o grito de Beatriz foi bem audível, e ignorável — Nós fomos sua fonte de inspiração direta! Nós salvamos a história! Pessoas do mundo inteiro vão ler Harry Potter, e elas precisam saber quem foram os heróis que pouparam elas de um final pavoroso!
— Você não poderia estar cogitando a possibilidade de nos confrontar — o único homem da mesa sorriu —, poderia, madame Rowling?
Ela não ouviu aquelas palavras... ela as leu. Sentiu um arrepio dos pés à cabeça, mas forçou-se a se manter resoluta.
— Eu-eu quero outro café — empurrou a xícara vazia —. Por favor.
— Pois não, Jo — Tony a pegou, sorrindo um sorriso de causar arrependimento profundo — Trocar sua filha por uma xícara de café expresso me parece justo.
Fez que ia levantar a mão para chamar o garçom, mas Rowling foi mais rápida. — NÃO! Não foi isso que eu quis dizer! Eu-eu... Veja — rabiscou bem rápido, e depois estendeu o caderno até a vista do casal — Faço questão de dedicar este livro pra vocês, OK? E com amor.
— Amor? Ah, que graça, querida — Beatriz mostrou todos os dentes —, mas dispensamos as palavras de Dumbledore. Ele não era um personagem importante. — Impertinente, eu diria, e bastante irritante — o namorado ainda acrescentou, puxando para si as anotações —, sempre se achando o grande bruxo, chefe supremo disso, presidente daquilo, o melhor dire – o que é isso?
Jo sentiu o estômago deslizar até o pé, de uma vez só, como se fosse líquido. Pensou mesmo em tentar arrancar seu escrito das mãos de Riddle, sair correndo até a rua e fazer um escândalo escandaloso – nada disso passou de pensamentos, no entanto, porque seus braços se mantiveram fixos e bem grudados no assento da cadeira. Ele vai me matar, eu sei. Já podia ver a ira saltando-lhe dos olhos. Oh, não, ele não está gostando nada disso, constatava para si mesma, enquanto ele lia, incrédulo, página após página, virando-as ininterruptamente com as pontas dos dedos. Eu sabia. Sabia. Escolheu, por fim, se manter quieta. Quem sabe se parasse de respirar ela conseguisse ficar momentaneamente invisível.
Contou um, dois, três segundos com a respiração contida. Soltou-a: Tony Riddle tinha atirado o caderno contra seu rosto. Continuou com ele abaixado o suficiente para ler sua própria letra largada no chão, desenhando as palavras idênticas e repetidas:
Eu não devo contar mentiras
Eu não devo contar mentiras
Eu não devo contar mentiras...
— Ninguém — bateu com o punho forte na mesa —, eu disse ninguém, tenta enganar Tony Riddle e consegue. Ouviu bem? Nin-guém.
Inspire, expire, inspire, expire. Calma, Jo, ele só é um fã maluco. Ele não é um Riddle do jeito que você pensa. Ele é um trouxa, Jo, só um trouxa! Olhe ao seu redor. Você está cercada de pessoas. É só gritar que o garçom vem correndo te proteger – oh, céus, Dumbledore vem, eu tenho Dumbledore do meu lado!
Eu não preciso ter medo. Não vou ter. Eles são uns trouxas. Uns trouxas!
— Não fique bravo, querido. Nós temos Jessica — a gargalhada de Beatriz foi a mesma, causadora de arrepios — A pequena Jessy, a coitadinha!
— Vocês também não devem contar mentiras — e, pela primeira vez nas últimas três horas, a voz de Rowling era firme e decidida — Eu sei que vocês não podem machuca-la. Quando chegamos, ela já tinha saído. O único encontro possível entre vocês teria sido na minha casa. E, se vocês realmente a tiverem pegado, ela estará lá, há quilômetros de vocês. Vocês não têm Jessica.
— Eu deveria ter sabido que não poderíamos te enganar, madame — Tony muito bruscamente impediu que a namorada falasse. Algumas gotas de suor nervoso escorriam por sua testa. —. Você se deteve nos detalhes de sua história por 10 anos. Os detalhes desta também não poderiam lhe escapar.
Rowling tinha que virar o pescoço para trás para poder enxergar a porta de saída. Não conseguia deixar de fazê-lo. Seus olhos iam de lá para Riddle, seu rosto e suas mãos – ou o que podia imaginar que elas estivessem fazendo embaixo da mesa. Não vê-las a deixava preocupada. Calma, Jo, calma. Não é como se ele estivesse segurando a varinha para lançar um Avada Kedavra a qualquer momento. Ele não vai. Isso é só da sua cabeça, Jo. Só da sua cabeça...
De qualquer maneira, já tinha discretamente posicionado o corpo para correr loucamente caso pressentisse algum movimento suspeito. Ela tinha escrito o livro. Ela conhecia os gestos necessários de uma magia.
— Eu deveria ter sabido, Jo, que não poderíamos esperar que atendesse ao nosso pedido. Afinal, a história é sua, certo? Você é a autora. Nós somos os fãs. Se queremos que aconteça qualquer coisa, devemos nos contentar com nossas próprias fanfics.
— Tony, querido, o quê — ?
Sim! O que diabos ele está dizendo?!
— Ah, Bea, ela está certa. O sétimo livro já está perdido, não há mais volta.
— Não, não, Tony, não podemos pensar assim! Ainda dá pra mudar, ainda dá!
— Eu também acho, meu amor. Mas também reconheço minha derrota. Nossa única salvação está nas mãos do fanon, e... — tomou uma grande golada de ar — Ah, Bea, você escreve tão bem, é uma ficwritter fabulosa, escreve Sirius/ Remus como ninguém... Ah, meu amor, meu amor, será que você não gostaria de nos escrever o seu final?
A expressão contorcida de ira de Beatriz iluminou-se instantaneamente. Por um momento, Jo se assustou – então essa menina consegue sorrir de alegria?!
— O meu..? Sério, Tony? Você quer mesmo?
— E por que não? Eu ficaria muito feliz.
Trocaram juras de amor e se beijaram por um tempo bastante demorado. Joanne também não pôde deixar de sorrir. Aquele era um final feliz para uma noite de terror. Deixou-se relaxar em seu assento novamente. Tudo estava bem.
Ou não.
— Mas não se esqueça, madame — Tony se desvencilhou da namorada, agora contraindo o rosto de um modo ainda mais perigoso —, de que nosso propósito inicial era o de poupar os fãs de ler o seu final pavoroso. Ele ainda é.
— Você-você acabou de dizer que não pode mudar ele — engasgou.
— Não podemos.
— Então o que você pretende fazer? Publicar um livro de fanfiction ou — ?
— Não, não, madame. Eu prefiro pensar grande.
— Você não pode impedir as pessoas de lerem o livro.
— Eu não terei que impedi-las se não houver livro algum para ser lido.
Oh-oh.
As mãos de Riddle então se ergueram, e a escritora não parou para pensar duas vezes quando encarou a varinha – a faca, Jo, a faca! – prateada que ele tinha entre os dedos: num único movimento levantou seu corpo para fora da cadeira, quase a derrubando, sem nunca deixar de fitar os olhos do inimigo.
Correu como nunca achou que poderia correr.
Por quatro segundos.
E então muitas coisas aconteceram ao mesmo tempo.
Num quinto, tentou voltar sua cabeça para frente: seu cabelo comprido cegou-a enroscando-se pelos cílios e engasgou-a entrando pela boca aberta – um passo em falso antecipou um provavelmente certo, enlaçando suas pernas e dobrando seus joelhos – voou em câmera lenta em direção ao pobre Abba Dumbledore, mal posicionado, inocentemente levando batatas à senhora Unilever – parar, tinha que parar –
Com gritos em uníssono, Joanne despencou sobre o garçom assustado, no que pratos e talheres lançaram-se pelo ar como pássaros sem asas. Não chegaram a sentir o chão – sentiram, sim, o ardor da queimadura de batatas pelando –, pois no meio da caminho as portas duplas de entrada abriram de supetão: posteriormente Larry, Donald e Jessica se arrependeriam de não terem sido mais delicados e desejariam ter evitado o arremessar das duas vítimas ao lado oposto, contra a parede, contra a cristalheira belamente posicionada em sua decoração de anos 20.
Não pôde calcular a dor: entre sua vista meio aberta, Jo enxergou apenas o suficiente para pensar – e por muito ficar refletindo – como aquela única vasilha de batatas fritas poderia ter assustadoramente se multiplicado em outras dúzias de mais vasilhas, além de copos, xícaras, pratos, pires, jarras, cálices, louça delicada e frágil, quebrável, rasgando sua pele com vidro e calor insuportável, afundando-a sob uma cascata de cristal infinita...
— ALI! Pega, pega!
— Não, pare!
— Mamãe!
— Onde está ela? Onde?
— Meu Deus, isso é caro!
— Madame Rowling! — a última voz distante veio acompanhada de uma mão amiga que a trouxe de volta da morte. Donald Weasley suspirou de alívio.
Logo atrás, de costas para suas costas, uma cena trágica se formava: a varinha – faca – prateada tinha pulado para as mãos perigosas de Beatriz Lestrange, que ao mesmo tempo segurava Jessica numa posição horrível de refém.
— PRA TRÁS! — berrou com a voz rasgada, afastando o policial mais próximo alguns passos — Larga ele ou eu estraçalho mais um pescoço essa noite!
Larry encarou-a com profundidade, como se tentasse ler através deles suas intenções e seu potencial de matar. Depois de distanciar-se não se atreveu a mexer qualquer músculo, apesar de não seguir as instruções da seqüestradora: ainda mantinha-se segurando firmemente Tony Riddle pelos braços e de cabeça baixa, ajoelhado. Calculou. Estreitou sua visão em direção a Beatriz e por poucos instantes desviou o olhar – mas não o suficiente para que ela pudesse prever o movimento da Rowling armada atrás de si:
— NÃO A MINHA FILHA, SUA VACA!
Realmente, não poderia saber. Não teve tempo de se preparar. Antes que pudesse se dar conta, a bandeja de metal afundava forte em sua cabeça. Caiu no chão, inconsciente.
Terminado. O fim. O melhor que poderia ser.
Minutos depois, inúmeras viaturas escandalosas chegavam para fazerem suas apreensões policiais, suas observações policiais, suas averiguações policiais, suas parabenizações policiais, sua bagunça-organizada policial inglesa.
Exaustas e aliviadas, mãe e filha deixaram-se ficar abraçadas por muito tempo depois que saíram dali.
O seqüestro de madame Rowling
- epílogo oficial.
Seis meses depois, julho de 2007
Set do programa de entrevistas
Silêncio absoluto entre a platéia. Os espectadores mal respiravam. Sentada em sua confortável poltrona de acesso visível pelas câmeras, Joanne Rowling divertia-se. Não adianta prenderem a respiração, sorria para si mesma, porque vocês não vão ficar momentaneamente invisíveis.
— Jo, querida, não tenho nem palavras para expressar a emoção de estar novamente com você aqui no meu programa. É mágico!
— Ora, obrigada, Chica. A senhora é muito gentil.
— E pensar que apenas alguns meses atrás você veio aqui exclusivamente nos contar que tinha acabado de escrevê-lo!
— Pois, é Chica, pois —
— E também foi naquela época em que você viveu aquele horrível seqüestro que envolveu sua filha e uma dupla de fãs enlouquecidos por Harry Potter!
— Exatamente. Na verdade, foi bem depois —
— E como essa experiência desastrosa influenciou a última aventura do nosso bruxinho, Jo? Você chegou a reescrever alguns trechos? Realizou a vontade dos seqüestradores? Esqueceu-os por completo?
Um, dois, três, inspire fundo. Abriu um sorriso educado e encheu-o de paciência.
— Na realidade, eu não poderia desconsiderar o acontecimento. Ele foi muito próximo do livro, foi trazido de seus próprios fãs.
— Então quer dizer que a senhora sente compaixão por aqueles pobres fãs cegos pela paixão de uma obra fantástica?
Argh. Uma bela frase para nunca ser usada num futuro livro.
— Não, não, compaixão não, eu realmente não gostaria de incentivar atitudes extremistas como essa! Por favor, não me seqüestrem se não gostarem do final do livro!
Caíram na gargalhada. Ótima válvula de escape. Melhor que isso, só Pirraça.
— A senhora poderia ler uma das passagens influenciadas? — chupou a ponta da caneta verde-limão mais próxima.
— Chica — abaixou a cabeça —, eu não sei se gostaria, não foi um acontecimento agradável e digno de ser relem —
— Voltamos logo depois do anúncio de nossos patrocinadores — a câmera deu um zoom descarado sobre a apresentadora — com a leitura inédita pela própria autora de uma das mais trágicas cenas de Harry Potter — e diminuiu a voz até um sussurro sensual — and the Deathly Hallows.
Salva de palmas, intervalo para Chica ajeitar os cachos, show de luzes, etecétera.
Teria de agüentar isso por mais quarenta e cinco minutos, no mínimo, e mais centenas de entrevistas futuras. Suspirou seu septuagésimo suspiro daquele domingo. As pessoas estavam aturdidas somente com o lançamento de seu livro, imagine só quando ela revelasse – como se ninguém tivesse percebido algo tão óbvio como isso – que Dumbledore era gay!
Rindo sozinha, deu o primeiro passo para buscar um gole d’água animador.
Teve de parar no meio do caminho. Sua perna direita estava absurdamente mais pesada.
Olhou para baixo para encontrar um pingo de gente colada a sua calça de tweed inglês.
— Madame Rowling, por favor, eu lhe imploro — o ponto minúsculo chorou com uma voz fina —, autografa meu livro..?
A figura de lua cheia de sua contra-capa era maior que sua cabeça. Não poderia negar.
— Claro, claro... qual é o seu nome? — tirou uma esferográfica da bolsa.
— Calvin Creevey, ma’am — a mancha de menino sorriu freneticamente — E eu sou seu maior fã, ma’am, o maior, o número um, ma’am, tenho 11 anos, ma’am, e minha mãe me lê Harry Potter antes de dormir desde os meus três anos...
Ah, não. Outro.
Os pêlos do seu braço arrepiaram. Rabiscou qualquer coisa na primeira página e agachou até ficar na altura dos olhos da criança.
— Eu só lhe devolvo com uma condição.
— Te chamar de só de Jo..? — Calvin brilhou cheio de desejo.
— Não.
Agarrou-o pelo braço num tranco e aproximou o ouvido da boca da maneira mais perigosa possível.
— Pare – de – ser – meu – fã – número – um!
Em seu septuagésimo primeiro suspiro do dia, levantou-se e foi ter com seu copo d’água.
Meu próximo livro vai ter slash. É, é. Harry Potter and His Unknown Crush On Draco Malfoy. Desse eu vou sair ilesa.
Seis meses depois, julho de 2007
Set do programa de entrevistas
Silêncio absoluto entre a platéia. Os espectadores mal respiravam. Sentada em sua confortável poltrona de acesso visível pelas câmeras, Joanne Rowling divertia-se. Não adianta prenderem a respiração, sorria para si mesma, porque vocês não vão ficar momentaneamente invisíveis.
— Jo, querida, não tenho nem palavras para expressar a emoção de estar novamente com você aqui no meu programa. É mágico!
— Ora, obrigada, Chica. A senhora é muito gentil.
— E pensar que apenas alguns meses atrás você veio aqui exclusivamente nos contar que tinha acabado de escrevê-lo!
— Pois, é Chica, pois —
— E também foi naquela época em que você viveu aquele horrível seqüestro que envolveu sua filha e uma dupla de fãs enlouquecidos por Harry Potter!
— Exatamente. Na verdade, foi bem depois —
— E como essa experiência desastrosa influenciou a última aventura do nosso bruxinho, Jo? Você chegou a reescrever alguns trechos? Realizou a vontade dos seqüestradores? Esqueceu-os por completo?
Um, dois, três, inspire fundo. Abriu um sorriso educado e encheu-o de paciência.
— Na realidade, eu não poderia desconsiderar o acontecimento. Ele foi muito próximo do livro, foi trazido de seus próprios fãs.
— Então quer dizer que a senhora sente compaixão por aqueles pobres fãs cegos pela paixão de uma obra fantástica?
Argh. Uma bela frase para nunca ser usada num futuro livro.
— Não, não, compaixão não, eu realmente não gostaria de incentivar atitudes extremistas como essa! Por favor, não me seqüestrem se não gostarem do final do livro!
Caíram na gargalhada. Ótima válvula de escape. Melhor que isso, só Pirraça.
— A senhora poderia ler uma das passagens influenciadas? — chupou a ponta da caneta verde-limão mais próxima.
— Chica — abaixou a cabeça —, eu não sei se gostaria, não foi um acontecimento agradável e digno de ser relem —
— Voltamos logo depois do anúncio de nossos patrocinadores — a câmera deu um zoom descarado sobre a apresentadora — com a leitura inédita pela própria autora de uma das mais trágicas cenas de Harry Potter — e diminuiu a voz até um sussurro sensual — and the Deathly Hallows.
Salva de palmas, intervalo para Chica ajeitar os cachos, show de luzes, etecétera.
Teria de agüentar isso por mais quarenta e cinco minutos, no mínimo, e mais centenas de entrevistas futuras. Suspirou seu septuagésimo suspiro daquele domingo. As pessoas estavam aturdidas somente com o lançamento de seu livro, imagine só quando ela revelasse – como se ninguém tivesse percebido algo tão óbvio como isso – que Dumbledore era gay!
Rindo sozinha, deu o primeiro passo para buscar um gole d’água animador.
Teve de parar no meio do caminho. Sua perna direita estava absurdamente mais pesada.
Olhou para baixo para encontrar um pingo de gente colada a sua calça de tweed inglês.
— Madame Rowling, por favor, eu lhe imploro — o ponto minúsculo chorou com uma voz fina —, autografa meu livro..?
A figura de lua cheia de sua contra-capa era maior que sua cabeça. Não poderia negar.
— Claro, claro... qual é o seu nome? — tirou uma esferográfica da bolsa.
— Calvin Creevey, ma’am — a mancha de menino sorriu freneticamente — E eu sou seu maior fã, ma’am, o maior, o número um, ma’am, tenho 11 anos, ma’am, e minha mãe me lê Harry Potter antes de dormir desde os meus três anos...
Ah, não. Outro.
Os pêlos do seu braço arrepiaram. Rabiscou qualquer coisa na primeira página e agachou até ficar na altura dos olhos da criança.
— Eu só lhe devolvo com uma condição.
— Te chamar de só de Jo..? — Calvin brilhou cheio de desejo.
— Não.
Agarrou-o pelo braço num tranco e aproximou o ouvido da boca da maneira mais perigosa possível.
— Pare – de – ser – meu – fã – número – um!
Em seu septuagésimo primeiro suspiro do dia, levantou-se e foi ter com seu copo d’água.
Meu próximo livro vai ter slash. É, é. Harry Potter and His Unknown Crush On Draco Malfoy. Desse eu vou sair ilesa.
O seqüestro de madame Rowling
- epílogo não-oficial.
04h00
Ainda no pub A Câmara dos Segredos
Os policiais recém-chegados corriam de um lado para o outro. Joanne, no entanto, pouco parecia se importar. Corressem mais, sim, poderiam correr o quanto quisessem, porque certamente eles eram melhores nisso do que ela.
— Onde está o dono disso aqui? — gritou um deles mais ao fundo.
— Quem? — outro berrou em resposta.
— Abba Dumbledore! Cadê ele?
— Ele está – ele – onde diabos está o dono desse pub?!
Pareciam formigas debaixo da chuva. Ou elfos domésticos, é, elfos domésticos se apressando desesperadamente para preparar o jantar dos alunos de Hog – melhor parar com isso, Jo, a-go-ra.
— Ele está na cozinha — resolveu gritar de volta para dispensar tanto os homens quanto os pensamentos.
— Na cozinha, madame? Bloody hell, o cara está fritando pastéis enquanto nós arrumamos a bagunça toda —
— Ele está muito nervoso, senhor — teve de defende-lo —, e não pôde se conter. Deve estar chorando com o namorado.
— Chorando com o namorado? Era – era só o que o me faltava – o maldito é gay?
— E não estava na cara? — levantou uma das sobrancelhas para sua platéia policial, que, como num ensaio, balançou a cabeça negativamente. Voltaram ao trabalho.
Dois deles ficaram.
— É muito bom poder ver a senhora junto a sua filha, madame Rowling — Larry Potter adiantou-se para estender-lhe a mão. Compartilharam um sorriso sincero, o primeiro da noite.
— Eu não poderia ter mais sorte do que ter um vizinho como o senhor, senhor Potter. Muito obrigada.
— Não estive sozinha, madame. Esse é Donald Weasley, meu companheiro de viatura. Um grande fã da senhora.
Empurrou-o numa braçada amigável, um daqueles movimentos em que amigo mata amigo. As orelhas de Don pegaram fogo enquanto Larry continha seus órgãos numa risada abafada.
— É-é uma pena que tenhamos nos encontrado em circunstân-tâncias tão ruins, senhora — tremeu a mão e o restante do corpo.
— Para mim não poderiam vir em melhor hora — pôs os cabelos arás da orelha —. Mas diga-me, o senhor é mesmo um fã de Harry?
— N-não! Imagine, senhora, imagine! Não posso duvidar de que seus livros sejam bons — e lançou um olhar para o amigo, corando ainda mais —, mas eles são para crianças! Nunca poderia ler eles!
— Na verdade, senhor Weasley, a maioria das pessoas que me procura são adultos, formados, com filhos até, todos bem seguros de que Harry Potter é bem maduro — sorriu.
— Ah, sim, sim, claro – minha namorada, por exemplo, madame. A Hermelinda ama seus livros. Fala sobre eles todos os dias. Tem mil teorias. E passa horas no computador escrevendo fanclips —
— Fanfics?
— Isso, isso...
— Sua namorada? — ela piscou um dos olhos — Mesmo?
Ele não conseguiu responder. Todos os seus pensamentos estava voltados à sua vergonha, e como parar de corar, e como mataria Larry depois por ter feito aquilo.
O policial mais bem vestido e imponente, que clamava por ser chamado de chefe na aparência, aproximou-se. Informou que aquela era hora da partida. Ainda havia mais bagunça-organizada policial inglesa para ser feita na delegacia. Rowling apertou muitas mãos masculinas e preparou-se para ser deixada em casa.
Ela estava indo. E quando poderia vê-la de novo..?
Donald parecia estar sofrendo um doloroso conflito interior. Jo já tinha começado a se afastar quando ele falou de supetão.
— Pode me dar seu autógrafo?
Larry se virou rindo para as viaturas, que agora já brilhavam na escuridão com suas sirenes intermitentes, quando Jo, com um ar de surpresa, mas muita satisfeita, assinou um pedaço de guardanapo para Donald.
04h00
Ainda no pub A Câmara dos Segredos
Os policiais recém-chegados corriam de um lado para o outro. Joanne, no entanto, pouco parecia se importar. Corressem mais, sim, poderiam correr o quanto quisessem, porque certamente eles eram melhores nisso do que ela.
— Onde está o dono disso aqui? — gritou um deles mais ao fundo.
— Quem? — outro berrou em resposta.
— Abba Dumbledore! Cadê ele?
— Ele está – ele – onde diabos está o dono desse pub?!
Pareciam formigas debaixo da chuva. Ou elfos domésticos, é, elfos domésticos se apressando desesperadamente para preparar o jantar dos alunos de Hog – melhor parar com isso, Jo, a-go-ra.
— Ele está na cozinha — resolveu gritar de volta para dispensar tanto os homens quanto os pensamentos.
— Na cozinha, madame? Bloody hell, o cara está fritando pastéis enquanto nós arrumamos a bagunça toda —
— Ele está muito nervoso, senhor — teve de defende-lo —, e não pôde se conter. Deve estar chorando com o namorado.
— Chorando com o namorado? Era – era só o que o me faltava – o maldito é gay?
— E não estava na cara? — levantou uma das sobrancelhas para sua platéia policial, que, como num ensaio, balançou a cabeça negativamente. Voltaram ao trabalho.
Dois deles ficaram.
— É muito bom poder ver a senhora junto a sua filha, madame Rowling — Larry Potter adiantou-se para estender-lhe a mão. Compartilharam um sorriso sincero, o primeiro da noite.
— Eu não poderia ter mais sorte do que ter um vizinho como o senhor, senhor Potter. Muito obrigada.
— Não estive sozinha, madame. Esse é Donald Weasley, meu companheiro de viatura. Um grande fã da senhora.
Empurrou-o numa braçada amigável, um daqueles movimentos em que amigo mata amigo. As orelhas de Don pegaram fogo enquanto Larry continha seus órgãos numa risada abafada.
— É-é uma pena que tenhamos nos encontrado em circunstân-tâncias tão ruins, senhora — tremeu a mão e o restante do corpo.
— Para mim não poderiam vir em melhor hora — pôs os cabelos arás da orelha —. Mas diga-me, o senhor é mesmo um fã de Harry?
— N-não! Imagine, senhora, imagine! Não posso duvidar de que seus livros sejam bons — e lançou um olhar para o amigo, corando ainda mais —, mas eles são para crianças! Nunca poderia ler eles!
— Na verdade, senhor Weasley, a maioria das pessoas que me procura são adultos, formados, com filhos até, todos bem seguros de que Harry Potter é bem maduro — sorriu.
— Ah, sim, sim, claro – minha namorada, por exemplo, madame. A Hermelinda ama seus livros. Fala sobre eles todos os dias. Tem mil teorias. E passa horas no computador escrevendo fanclips —
— Fanfics?
— Isso, isso...
— Sua namorada? — ela piscou um dos olhos — Mesmo?
Ele não conseguiu responder. Todos os seus pensamentos estava voltados à sua vergonha, e como parar de corar, e como mataria Larry depois por ter feito aquilo.
O policial mais bem vestido e imponente, que clamava por ser chamado de chefe na aparência, aproximou-se. Informou que aquela era hora da partida. Ainda havia mais bagunça-organizada policial inglesa para ser feita na delegacia. Rowling apertou muitas mãos masculinas e preparou-se para ser deixada em casa.
Ela estava indo. E quando poderia vê-la de novo..?
Donald parecia estar sofrendo um doloroso conflito interior. Jo já tinha começado a se afastar quando ele falou de supetão.
— Pode me dar seu autógrafo?
Larry se virou rindo para as viaturas, que agora já brilhavam na escuridão com suas sirenes intermitentes, quando Jo, com um ar de surpresa, mas muita satisfeita, assinou um pedaço de guardanapo para Donald.
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