quarta-feira, 21 de março de 2007

Rose of Pain

Sinopse: Seis desaparecimentos inexplicáveis. Um garoto inocente. Uma garota tímida. Uma paixão avassaladora. Cabelos vermelhos. Rosas brancas. Uma morte. Ou seria... mais uma morte?
Categoria: Originais
Gênero: Darkfic, Songfic, Tragédia
Disclaimers: O títuto e a letra da música pertencem à banda X Japan - Rose of Pain.
Data: dezembro de 2006
Palavras:
Alertas: Violência explícita.




- caminho para a escola.




Why are you scared?
What have you seen?
In the castle with the silent roses
I ask again and again

Por que você está assustada?
O que você viu?
No castelo com as rosas silenciosas
Eu te pergunto de novo e de novo


— Você está bem, Yoko..?
Lá fora, chovia uma triste chuva de resignação. As lágrimas que rolavam pelo rosto da menina seguiam o mesmo ritmo melancólico, mesclando-se com seus fios de cabelo muito vermelhos.
— Por que você está triste?


Why are you sad?
What pain are you feeling?
Oh, I ask of the rose with its petals of blood
But the rose of blood can’t answer me till the end

Por que você está triste?
Que dor você está sentindo?
Oh, eu pergunto da rosa com suas pétalas de sangue
Mas a rosa de sangue não pode me responder até o fim


Dentro da sala de aula A26A, os alunos evitavam o contato visual com Yoko. Quando isso não era possível, eles cumprimentavam à distância, numa calada timidez. Ninguém tinha achado as palavras certas para lhe dirigir. Ninguém sabia como lidar com aquela situação delicada. Kazuo saberia. Mas Kazuo...
Toshi pousou a mão levemente em um dos seus ombros e afastou os cabelos muito vermelhos da garota. Tudo o que fez foi olhá-lo, fitá-lo tristemente com o negrume de seus olhos. Contudo, seus lábios não formaram uma palavra sequer.
— Quando Kazuo voltar, ele vai querer te ver com um sorriso no rosto. Por isso, por favor, não chore.
Mas era inevitável. Lágrimas rolavam pelo seu rosto pálido como pérolas na areia branca. Apesar de tudo, o consolo do amigo não era verdadeiro; ela sabia, no fundo do coração, que seu namorado jamais voltaria ao seu lado. Sabia disso antes mesmo que as autoridades o tivessem considerado como morto, após um mês de desaparecimento sem pistas. Kazuo era apenas mais uma vítima dos raptos inexplicáveis que vinham acontecendo naquela pequena região do Japão.
— Yoko —
O sinal bateu.
— Não perca a esperança.
O professor entrou. Toshi voltou para sua carteira, sabendo que não conseguiria prestar atenção na aula. Yoko cruzou os braços entre sua blusa de frio e dormiu.
— Yoko...



Todos os dias suspirava durante todas as aulas, até que finalmente fossem dispensados. E todas as tardes, o garoto a acompanhava até sua casa, uma construção modesta num bairro distante dali. Foram assim todos os trinta e um dias do mês de março. Em nenhum deles, foi mantida uma conversa entre os dois.
Quando começou abril, as coisas ficaram diferentes. Dia primeiro.
— Não pense que eu esqueci — começou Toshi, a caminho da casa da amiga — que hoje é seu aniversário. Parabéns.
Ele lhe estendeu um embrulho, bonito e bem arrumado. Yoko desviou o olhar da calçada de cimento e voltou-se ao pequeno presente nas mãos do rapaz. Seus olhos brilharam, pela primeira vez, depois de muito tempo.
Era um colar de pérolas pequeninas e delicadas. O marfim de sua cor quase enegrecia contrastando com a brancura de uma rosa branca que a enfeitava. Femininamente lindo, singelamente puro. Ela não pôde resistir. Sorriu, um sorriso naturalmente de seus recém dezessete anos.
— Obrigada.
E sua voz se calou pelo resto do dia.
Contudo, depois daquela milagrosa manifestação de tímida alegria, Toshi não desistiu. Continuava a perguntar, todos os dias, como ela estava. Perguntava-lhe coisas triviais, da escola, de casa, comida, música, qualquer coisa que lhe viesse à cabeça. Todos os dias recebia acenos com a cabeça, sorrisos pelo canto da boca, sinais de desinteresse.
Se chegava a desenhar alguma palavra, esta era um agradecimento quando o moço lhe dava um rosa branca. Suas preferidas.
— É a minha preferida também — chegou um dia a dizer.
— Por que? — ele tentou.
— Porque se pode pintá-la da cor que se quiser. Pode-se usar a imaginação.
— Você gosta de usar a imaginação? Você escreve, desenha, pinta —
— Eu pinto.
— Quadros?
— Meus cabelos.
Toshi dissimulou uma risada fina pelo canto da boca.
— É triste ver como eles vão perdendo a cor... — emendou, passando os dedos por entre suas madeixas cor de core, não mais vermelhas.
— É como se perdessem a vida, não é?
O olhar da menina, antes direcionado para o chão, agora se concentrava em fita-lo. Parecia profundamente mais negro do que o normal. Eram sombrios. E tristes.
— Agora, quando você o tingir, lhe dará vida de novo! — ele sorriu — E vai ficar bela como an —
— Ninguém neste mundo é capaz de criar vida. Um ser morre para permitir o nascimento de um novo. A vida e a morte andam de mãos dadas. Essa é a regra da natureza.
Um arrepio correu-lhe a espinha. Respirou fundo.
— Kazuo não morreu, Yoko. Não fique pensando nessas coisas.
E então, como se aquele diálogo não tivesse sido processado por seu cérebro, ela se calou. Voltou a abaixar o olhar.
— Eu sei que não posso substituí-lo, mas...


Scream without raising you voice
Iki wo koroshite mitsumeru


Grite sem elevar sua voz
Segure sua respiração e olhe fixamente


— Eu quero te ver feliz, Yoko. Quero te ver viva. Deixe-me fazer parte de você. Eu... eu... — segurou o fôlego e falou tudo em uma única ininteligível vez — eu-te-amo-muito.
Ela sorriu um sorriso tímido. Cruel.

Rose of Pain

- caminho para a morte.



O primeiro beijo de muitos não demorou a vir. Todos eles eram muito quietos, silenciosos, calavam as já escassas palavras trocadas pelo casal. Cada vez mais, Toshi podia sentir a felicidade que corria em sua pele e na dela, refletida por arrepios e calafrios divertidos. Estavam envolvidos como jamais, como ninguém.
“Kazuo deve estar morto”, pensava Toshi.
“Morto de inveja”.
— Quero lhe fazer uma surpresa, hoje.
Estavam voltando juntos da escola, como sempre. Andavam de mãos dadas, prendendo entre os dedos um botão de rosa branco. Era ele quem normalmente quebrava o silêncio. Mas, naquele dia, foi diferente.
— Vou te mostrar meu ateliê — Yoko continuou, alargando os lábios.
Avançaram adiante no caminho de sua casa, passaram por algumas outras, por carros, por pessoas – até que as ruas pavimentadas enfim acabassem e o campo aberto se estendesse perante seus olhos. Era outono. Tudo era amarelo e tons pastéis.
Perdida no meio da vegetação seca e fria, havia uma construção acinzentada. Uma fábrica antiga, pequena, talvez um galpão. Parecia abandonada. Mas Yoko tinha a chave de lá, e a usou antes de empurrar a pesada porta de metal que fechava o local.
Ela bateu com um estrondo às suas costas.
Mergulharam no escuro.
— Vá mais pra frente. Faz parte da surpresa.
Surpresa? Mas que tipo de — ?
Acenderam-se as luzes.
O grito de horror de Toshi encheu o recinto quando o jovem se viu cara a cara com o cadáver de Kazuo Kojiro, pendurado no teto. Seus narizes gelados se encostavam, suas expressões de pavor complementavam uma à outra.


Kuroi hitomi no oku shinbi ni michita hohoemi o ukaberu
Himei to tomo ni nagareru kurushimi o mitsumete


Profundamente nos olhos negros cheios de mistério de encontro com a sua face
Contemple os gritos que fluem com a dor


Por trás, Yoko o acertava com um bastão metálico na sua cabeça.
Perdeu os sentidos.



A música alta explodiu em seus ouvidos.
Ao seu redor, tudo era mescla de preto e cinza, roxo de hematomas e vermelho de sangue. Seis corpos pendiam do teto, seis meninos lindos e desfigurados, seis vidas despedaçadas por cortes e machucados expostos.
Toshi tentou levantar, mas suas pernas não mais respondiam aos seus comandos. Procurou-as com o olhar, mas não pôde achá-las; haviam sido substituídas por figuras disformes e retorcidas, quebradas em diversos ângulos, cobertas por vermelho escuro. Logo a seus pés, Yoko Ashida se contorcia de prazer.
Explícita insanidade.


Shiroi suhada ni shikyuu no kubi-kazari o yosooi
Kyouki no chi to ta tawamure, odori-hajimeru


Use um colar de pérolas em sua pele branca
Paquerando o sangue gritante, você começa a dançar


Esfregava sua cabeça nas poças de sangue, rindo.
Parou ao perceber que estava sendo vigiada de perto.
— O quê? Você não queria me ver bonita? Não era isso que queria ver?
— Todos... — ele apontou com a cabeça para os cadáveres pendurados — todos concordaram... em lhe embelezar?
— Todos disseram que me amavam. Que queria me ver mais alegre, mais viva.
Ela se aproximou dele, comprimindo suas bochechas, cortando-as com um canivete. Lambeu seu rosto.
— E é a morte que permite a vida.
Pavorosamente, mas ainda que de forma delicada, ela passava a faca sobre sua pele pálida. Coletava o fino risco de sangue com a ponta dos dedos e os emendava por entre os cabelos, trazendo de volta a cor de fogo. Tingia-os.
Sua pintura. Sua arte.


Ai o nakushita kokoro satsuriku no yorokobi ni moeru
She will kill to make herself more beautiful
Gisei o houseki ni kaete mo


Um coração que é amor perdido
enquanto queimado com alegria do massacre
Ela matará pra se tornar mais bela
Mesmo se o sacrifício a transformar em uma jóia


E então, bateu-lhe a consciência. Era o fim, era a morte. Toshi tentou erguer-se usando apenas os braços, mas descobriu-os atados a cordas vindas do escuro. De qualquer modo, eles já estavam fracos demais; urgiam de dor a cada facada que recebiam, empalideciam, desfaleciam.
Prendeu a respiração. Quem sabe a dor parasse também.
Dor. Dor. Dor.
Não sentia mais os membros. Era apenas dor. Somente lhe restava a garganta.
Gritou, gritou com todas as suas forças, até sentir sua voz abandonando-lhe.


Higeki no subete o, iki o koroshite mitsumeru

Olhe fixamente para a tragédia em sua totalidade prendendo o fôlego


Yoko deu uma gargalhada descontrolada. O sofrimento era sua diversão, seu prazer, sua loucura. O ápice estava chegando, e ela não queria parar. Desferia golpes, socos facadas. Esfregava o sangue no rosto, nos cabelos, no corpo.
Sangue. Ah, sangue...
Aumentou ainda mais a música, movimentando-se mais voraz a cada verso.


Slice them ! Slice them till they're running in blood
nige-mawaru onna o
Tear up ! tear up till their blood runs dry
hadaka no karada o tsurushi-agete
Nikushimi ni koroshi-au toki no nagare no naka de
chi de arau karada no kagayaki motomete
yokubou ni dakareta kokoro ikiba o mi-ushinai
ai no subete o hiki-saku namida sae misezu ni


Corte-os! Corte-os! Até que eles estejam correndo em sangue
a mulher que tenta fugir
Rasgue! Rasgue até que suas veias de sangue vermelho estejam secas
e pendure os corpos deles nus
Mate um ao outro com ódio no transcurso do tempo
Eu procuro a luz do corpo lavado com sangue
O coração perdido em desejo perde seu chão, dividindo a totalidade do amor
Sem lhes mostrar um sinal de lágrimas
Rosa de dor, olhe para tudo em terror
Rosa de dor


A visão de Toshi escurecia.
Ainda assim, pôde enxergar o pequeno botão de rosa caído no chão, o mesmo que traziam entrelaçado em suas mãos dadas. Não era mais branco. Estava vermelho.
E foi escurecendo...
Dor. Dor. Dor...

The castle became a violent sea of blood
The blood covers the flower, dying it deep red


O castelo se tornou um mar violento de sangue
O sangue cobre a flor, tingindo-a profundamente em vermelho


Até que não pôde mais.
A música silenciou. Num fio de voz, ele murmurou:


— Stop ! Stop dying me red
I can't take anymore
You are too cruel!
Stop ! Please stop!


— Pare! Pare de me pintar de vermelho!
Eu não posso suportar mais
Você é muito cruel!
Pare! Por favor, Pare!


Peça. Implore.
Yoko tirou de dentro da roupa uma nova faca, como se esta tivesse sido reservada para o momento especial. Era maior, mais fina, brilhante. Assustadora.
Piscou.
No momento seguinte, sangue jogava pela jugular de um Toshi inconsciente. Morto.
O corpo de Yoko foi tomado por calafrios por inteiro, até que ela também caiu. De êxtase.


motome-ai kizutsuku ai o azakeri-warai
soita karada no uruoi-motomete
Kill them all chi-mamire no kokoro subete o mi-ushinai
ikiru zangyaku no naka de namida sae misezu ni

Desdenhosamente, ria de um amor ferido pelo desejo que sentimos um pelo outro
Procure a umidade de um corpo seco
Mate todos, coração sangrento, perca a visão de tudo
Na crueldade de viver, não lhes mostre um sinal de lágrimas


Rastejou-se até o canto oposto do galpão. Empurrou violentamente a porta de um antigo banheiro, minúsculo e sujo. Apoiou-se na pia para poder se ver melhor no espelho.
Vermelha dos pés a cabeça. O sangue escorria-lhe pelos cabelos, como se ainda corresse pelas veias de seu dono. Estava suja em algumas partes, machucada em outras. Contudo, o sorriso permanecia branco.
De repente bateu-lhe o desespero.
Não. Não podia ser.
Matara outro? Era verdade?
Voltou seu olhar sobre o ombro. O corpo de Toshi estatelado no chão era o suficiente para contar-lhe a verdade.


Rose of pain, I don't want to see
Rose of pain, kurushii
Rose of pain


Rosa de dor, eu não quero ver
Rosa de dor, você me dói
Rosa de dor


Empurrando-a vagarosamente, trancou a porta do banheiro. Ajoelhou-se no chão, pensando, lembrando, sofrendo, chorando.
Dor. Dor. Dor.
Ah, dor...
Ficaria ali, como das outras vezes, até que o sangue todo secasse em seu corpo.
Seus cabelos ficariam marcados.
Até a próxima vítima.


In eternal madness we live
Even if it was just a dream
now pain, nothing but PAIN!


Em loucura eterna vivemos nós,
Mesmo se isso fosse apenas um sonho
Agora, dor... nada mais que DOR!