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[...]
-- Chora, não, Miguilim, de quem eu gosto mais, junto com Mãe, é de você...
E o Dito também não conseguia mais falar direito, os dentes dele teimavam em ficar encostados, a boca mal abria, mas mesmo assim ele forcejou e disse tudo:
-- Miguilim, Miguilim, vou ensinar o que agorinha eu sei, demais: é que a gente pode ficar sempre alegre, alegre, mesmo com toda coisa ruim que acontece acontecendo. A gente deve de poder ficar então mais alegre, mais alegre, por dentro!...
E o Dito quis rir para Miguilim. Mas Miguilim chorava aos gritos, sufocava, os outros vieram, puxaram Miguilim de lá.
[...]
Todos os dias que depois vieram, eram tempo de doer. Miguilim tinha sido arrancado de uma porção de coisas, e estava no mesmo lugar. Quando chegava o poder de chorar, era até bom -- enquanto estava chorando, parecia que a alma toda se sacudia, misturando ao vivo todas as lembranças, as mais novas e as muito antigas. Mas, no mais das horas, ele estava cansado. Cansado e como que assustado. Sufocado. Ele não era mais o mesmo. Diante dele, as pessoas, as coisas, perdiam o peso de ser. Os lugares, o Mutum -- se esvaziavam, numa ligerireza, vagorosos. E Miguilim mesmo se achava diferente de todos.
[...]
Ora vez, tinha raiva. Das pessoas, não. Nem de Deus; não. Mais não sabia, de quem ou de que. Tinha raiva. Não conseguia, nem mesmo queria, se recordar do Dito vivo, relembrar o tempo em que tinham vivido juntos, conversado e brincado. Queria, isso sim, se fosse um milagre possível, que o Dito voltasse, de repente, em carne e osso, que a morte dele não tivesse havido, tudo voltando como antes, para outras horas, novas, novas conversas e novos brinquedos, que não tinham podido acontecer -- mas devia de ter para acontecer, hoje, depois, amanhã, sempre.
-- Hoje, o que era que o Dito ia dizer, se não tivesse morrido? O quê?!...
Então, chorava mais.
[...]
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quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
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2 comentários:
preciso ler essa história... MESMO
Como você já chegou no dia 16 de Dezembro e eu ainda tô no começo do ano? hahaha
Não sabia que você tinha blog, Bruna. E o pior, há muito tempo haha Como eu sou desatualizada...
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