sexta-feira, 23 de março de 2007

Chobits, 2097

Sinopse: Chihiro, a Chi, é seduzida em uma festa pelo jovem misterioso Hideki, e desaparece. Acorda quase 100 anos depois em uma quarto branco, mergulhada em lembranças e em um mundo que ela preferia ter esquecido - ou bloqueado em seus arquivos. Mas agora é tarde demais, porque ela o ama.
Categoria: Chobits.
Gênero: Ficção, Científica, Romance, Universo Alternativo.
Timeline: independe do enredo original.
Disclaimers: o mangá e o anime são da CLAMP; o resto é meu.
Data: novembro de 2006/ 2007.
Palavras:
Alertas: morte de personagem coadjunvante, uso de drogas ilícitas, crítica a preceitos morais/ religiosos.
Nota do capítulo I: o trecho da música pertence a Yoko Ashida - White Destiny.
Nota do capítulo VII: o trecho da música pertence a Junko Iwao - Scarlet.
Nota do capítulo XI: o trecho da música pertence a Malice Mizer - Illuminati.




- capítulo I.




O som alto, a multidão, o cheiro de álcool misturado com o suor e tabaco... tudo a incomodava. Aquela festa de aniversário, anteriormente tão válida de se esperar ansiosamente por, mostrava atingir o clima de um ambiente hostil após as duas horas da madrugada. Chihiro deixou de ficar encostada a um canto e resolveu pegar uma cadeira vazia perto de tantas outras ocupadas por casais se beijando para poder se sentar em um lugar em que pudesse, ao menos, conseguir ouvir a voz em seu pensamento.
Não, aquele definitivamente não era o seu hábitat natural. Estaria muito melhor dormindo em sua cama, seu vestido rendado guardado seguro no guarda-roupa. Porém, em casa, ela estaria sozinha. Não teria nem ao menos a presença daquele que ela passara observando durante toda a celebração, esperando um olhar recíproco.
Aquele lugar era o inferno. Queria amaldiçoar o infeliz aniversariante e seu péssimo gosto de amizades, sair de lá e voltar a enxergar os movimentos completos das pessoas. Mas algo a prendia. Estava crente de que havia sido correspondida – senão, já estaria no aconchego de suas cobertas. Mas não poderia ter certeza. Sempre que o encarava, se encontrava com seus próprios olhos assustados, refletidos pelas lentes do seu belo par de lentes escuras.
Seus olhos não eram medrosos; eles davam medo. Talvez fosse por isso que o lugar ao seu lado ainda estivesse vago.
— Posso me sentar aqui? — tremulou uma voz masculina, logo acima do seu ombro.
Chihiro se virou parar ver. Lá estavam seus olhos, agora surpresos.
— Po-pode...
Ela se remexeu dentro de suas rendas tão rosadas quanto suas bochechas. Não poderia levantar a cabeça; não poderia olhá-lo com medo; não poderia engasgar em sua fala... ficaria quieta, eternamente fixa em sua cadeira, pra sempre postada a olhar seus próprios joelhos.
— Meu nome é Hideki — iniciou.
Se ao menos não houvesse o barulho da música ao fundo, ruídos de copos quebrando e de namorados ao redor, teria pairado um silêncio desconcertante no ar.
Barulho desconcertante.
— Você é a Chi? —resolveu terminar.
Não conseguiu. Abandonou os joelhos e respondeu pelo nome.
—Chihiro...
—Então, pra mim você é a Chi.
Novo barulho desconcertante.
Joelhos.
—Você está muito bonita.
Seus joelhos saíram correndo, e tudo o que ela podia ver era seu próprio rosto, radiante — refletido nos óculos escuros. O barulho acabou.


Unmei wa tsukamu mono kono te jiyuu ni nobaseba ii
Kimerareta ashita wa nai

Damatte ite mo wakaru ano hi deai wa guuzen janai
Tooi hitomi ni eien kanjita...

O destino foi feito para ser agarrado
Não há nenhum amanhã decidido
Eu sei que nosso encontro naquele dia não foi por acaso
Eu senti a eternidade no seu olhar distante


A música foi sugada por seus ouvidos, dissolveu-se e ficou martelando em sua cabeça. Destino? Destino? Seria o destino que a encarava com aqueles olhos assustados?
— Não quer viver um pouco? — e ela nadou em direção à superfície daquele mar de versos. Quando retomou o fôlego novamente em sua mente, via-se o perdendo no meio de um sorriso, enquanto seu corpo e o de Hideki embalavam-se num ritmo incessante.
De repente o inferno transformou-se em paraíso, de repente as bochechas vermelhas de vergonha tornaram-se coradas de dançar, de repente a longa noite pareceu curta demais. Seu reflexo não mais lhe importava; imaginava-lhe os mais diversos olhares, todos cobertos de paixão e felicidade —assim como os seus.
Na verdade, aqueles eram os seus.
Mas... ah, tudo era tão loucamente empolgante...
Os longos e prateados cabelos de Chihiro enroscavam-se deliciosamente em seu vestido e no negro tecido do terno de Hideki. Seus movimentos alternados compunham um embriagante dançar, onde cada música durava menos que milésimos de segundo. Os flashs do teto cortavam injustamente seus passos, e assim cada um desejava poder ver mais o outro, sem parar, sem parar, sem parar... E quando ele a apertou para junto de si, aproximou seu rosto ao dela e tirou as lentes que o escondiam, ela simplesmente não pôde parar de pensar:
“Persocom.”
Seus lábios inconscientemente moveram-se aos trejeitos da palavra.
— O que foi que disse?
Tudo parou.
A música, a dança, o movimento, a empolgação, o sentimento, o olhar, os sorrisos, as pessoas, o mundo, tudo, tudo, tudo escorreu para um ponto ínfimo longe dali, deixando-lhe apenas um pensamento bizarro e uma dor de cabeça entorpecente.
Persocom.
Persocom.
Persocom.
Não queria saber o que era. Só queria que parasse.
Viu um borrão de Hideki estendendo-lhe algo, e enfiou-o garganta a baixo. Era líquido, gelado e pesado. Num segundo momento, pronunciou um “Chi”, igualmente pesado.
— Módulo de segurança X, chobitS.
Foi tudo o que ouviu antes que os borrões de pensamento e realidade se confundissem, e tudo a sua volta fosse tragado pela escuridão.


Chobits, 2097

- capítulo II.




Escuridão.
Tap. Tap. Tap.
Os passos rápidos subiam a escada com euforia, levando Chi para perto do menino que brincava com algumas peças eletrônicas no chão.
— Minoru-kuuuuuun! —ela pulou em cima do irmão — Papai me deu um programa novo!
— O que você pode fazer agora? — seus olhos brilhavam tanto quanto os da irmã.
— Agora a Chi pode se apaixonar de verdade!
Ele fez cara de nojo.
— Isso é ruim...
— Não é! Não isso que as princesas sentem pelos príncipes nos contos de fada..?
— É.
— E eles não acabam felizes para sempre?
— Sim...
— Então! Agora a Chi pode ser feliz para sempre também! — ela deu um sorriso inocente, compatível a sua imagem de uma menina de 10 anos de idade —Vou encontrar a pessoa só para mim...
Eles ouviram um suspiro de choro, ao fundo. Observando da porta, Chitose Hibya procurava calar suas lágrimas com o lenço, mas era inevitável. Estava chegando a hora.
Chi aproximou-se da mãe devagarinho e abraçou-lhe pela cintura.
— Não chore, mamãe... por favor...
Chitose abaixou até ficar na altura de seus olhos de criança.
— Logo, logo, a Chi vai embora... vou sentir saudades...
— O que é saudade?
— Saudade... saudade é uma dor bem aqui — ela pegou a mão de Chi e a encostou no próprio peito, à altura do coração — que a gente sente quando está longe de alguém de que gosta...
— Eu não quero que doa — com muito esforço, escorreu-lhe uma lágrima fina — Não quero que a mamãe sinta dor.
— Eu também não quero que doa na Chi.
— Eu tenho que ir embora mesmo? — uma vez executado o programa, as lágrimas eram inevitáveis.
— Tem, Chi. Tem muitas pessoas malvadas aqui... você tem que ajudá-las, Chi.


Escuridão.
Pi. Pi. Pi.
Aqueles sons mostravam o esforço que o coração fazia para não parar de bater. Mas ela sabia que era em vão.
Adeus, queria dizer adeus, queria dizer que amava... mas não podia se mexer... não podia...
Alguém pegou sua mão. Sentiu as palpitações de um coração.
— Sinta, meu amor...
Piiiiiiiiii....


Luz.
Luz branca, muito forte.
Seus olhos ardiam. Consegui abri-los para ver o suficiente de todo o branco que a cercava, desde paredes e telas até cabos e fios — muitos cabos e fios. Por todo o seu corpo.
Deixou escapar um grito de desespero, e por um segundo sentiu-se forte o bastante para arrancar-se de tudo que a prendia e correr até a porta.
Caiu no meio do caminho.
O ardor dos olhos ainda era muito forte, mas eles funcionaram suficientemente bem para reconhecer o corpo negro estatelado no chão. Hideki.

“— Então, pra mim você é a Chi.”

Festa, barulho, flashs seqüenciais. Persocom.
Persocom.
Persocom.
Tateou às cegas à procura de uma maçaneta a sua frente. Girou a mais próxima, e enfim encontrou-se num nível normal de claridade. Corredor, portas, muitas portas. Uma janela mais ao fundo.
Alcançou-a. E, através dela, viu tudo acontecer como num filme.
Prédios, prédios, prédios, prédios. Infinitos ao olhar, todos ultrapassando a altura das nuvens, perdendo-se no meio de uma espessa névoa cinzenta. Mas eram poucos; além deles, havia uma depressão, quase uma cratera. Terra vermelha, muito vermelha, chocando-se com o cinza de cima. E casas, todas tentando quebrar as leis da Física, empilhadas, amontoadas, caindo umas às outras, à semelhança de tocas de animais.
Persocom.
Persocom.
Pontinhos sujos arrastavam-se na terra vermelha, como formigas num formigueiro. Na parte cinzenta, as pessoas tinham mais forma: alguns tinham pressa, mal-humor, coisas a fazer; outros, orelhas engraçadas.
Persocom.
Aquela era seu mundo, sua casa. O tinha deixado para salvá-lo, e lá estava, nova e inexplicavelmente.
— Chi é uma persocom.
Tap. Tap. Tap. Novos passos apressados.Como daquela vez...
— Então a Chi se lembra?
Mas a voz era masculina.
Ela se virou para trás, o olhar em direção ao som. Ao lado de uma das muitas portas, estava uma menino. Seu rosto muito jovem se chocava estrondosamente com suas as roupas muito formais.
— Minoru-kun..?
O abraço foi longo, longamente forte, longamente nostálgico.
— Minoru-kun... está tão grande...
— Já se passaram sete anos desde que você foi embora. Dez anos pra você, sete pra mim. Estamos em 2097, Chi.
Ela não se deixou abalar pelo tempo. Com a mesma inocência de criança, ela sorriu, passando os finos dedos pelo rosto do irmão. Ah, era muito saber que ele estava bem... que não havia morrido de verdade... era uma pena ter uma memória tão suscetível a bloqueio de programas.
— Onde está a mamãe?
— Onde está o papai?
Uníssono, seguido de um silêncio desconfortável.
Minoru abriu um leve sorriso.
— Venha, primeiro eu vou verificar se não há erros no seu HD. Depois pomos a conversa em dia.
Ele a levou até o recinto brilhante, tomando o cuidado de diminuir a claridade antes de entrarem. Hideki agora não era mais um borrão para Chi, já formava uma figura completa, e conseguia se levantar como uma.
— Minoru-san, desculpe-me — ele fez uma reverência — Meu sistema apresentou um erro. Estou no modo de segurança.
Elegantemente o menino ajeitou seu blazer. Aquela era sua forma de desviar a atenção das pessoas para sua mão, de forma que ninguém percebesse o movimento dos seus olhos pelo canto superior. Estava ponderando cada possibilidade como se apenas estivesse interessado no botão de seu terno. Pequena tática para desconcentrar o inimigo.
Não que qualquer um dos persocons ali presentes fosse considerado inimigo. Inconcientemente, ele somente sentia um enorme desconcerto perante as novas formas da irmã.
— Chi, Hideki. Por favor, vamos até a outra sala, onde posso checar seus erros.

Chobits, 2097

- capítulo III.




Minoru guiou Chi e Hideki para fora do quarto branco em direção à terceira porta da direita. Ela escondia um cômodo pequeno, formado apenas por uma cama ao fundo e um computador rente à parede. Não havia janelas, mas o sistema de ventilação o mantinha fresco.
— Sentem-se. Vou conectá-los ao computador.
Os dois persocons sentaram-se lado a lado na cama, Chi mais próxima da máquina, o olhar muito apreensivo. Intimamente, ela sabia o que seria feito, mas suas lembranças mais recentes ainda entravam conflito com as antigas. Sabia que Minoru iria conectá-la ao computador pelos terminais e... – terminais?! Levou a mão às orelhas, e sentiu-as extrapolarem as curvas do cabelo, mais largas e baixas. Seus terminais de persocom.
Persocom. Sim, ela era uma.
Era?
Conectou-se, ainda que naturalmente, ao microcomputador, esperando algum sinal na tela. Minoru franzia muito a testa enquanto digitava.
— Vá me dizendo em orem cronológica de eventos tudo o que se lembra, Chi. Vou ver se consigo quebrar o bloqueio.
Respirou bem fundo, até sentir seus pulmões completamente cheios.
Pulmões... artificiais?!
— A Chi se lembra primeiro... quando papai fez a Chi. Ele sorriu muito e abraçou a Chi. A mamãe também ficou feliz. Mas parecia preocupada — ela fechou os olhos — A Chi ama muito os dois...
Ela espiou a tela a que estava conectada, avistando apenas símbolos verdes e seqüenciais. Lá suas lembranças deveriam aparecer em cenas — de alguma forma, sabia disso —, mas a conexão parecia não ter sido estabelecida propriamente. Talvez um programa seu a bloqueasse...
Programa?!
— A Chi também lembra quando Minoru-kun nasceu... Mamãe parecia mais feliz. Papai parecia mais preocupado. Chi ficou feliz, muito feliz com o irmãozinho... ele era pequenininho, menor do que a Chi quando a Chi nasceu. Não sabia fazer nada sozinho... — ela deu uma leve risada, que foi acompanhada por algumas vibrações do monitor.
— Quando anos a Chi tinha? — perguntou Minoru, atento à imagem, esperançoso.
— Fazia dois anos desde que papai tinha terminado a Chi. Mas a Chi já tinha cinco...
Nenhum movimento.
Suspiro.
— O que a Chi fazia?
— A Chi brincava com Minoru-kun — respondeu sorrindo —, até ele crescer. Minrou-kun tinha aulas com a mamãe em casa, e a Chi recebia os programas que o papai fazia pra Chi. Quase sempre tinha um novo, porque a Chi tava crescendo, e o papai... o papai não sabia arrumar direito a Chi... ele dizia que a Chi era especial, e por isso tinha que ser programada com carinho...
A descrição mais detalhada levou a uma nova movimentação na tela, onde se podiam distinguir vultos. Em cima da cama, o abalo a fazia tremer.
— A Chi teve que ir embora por causa das pessoas pra quem papai fez a Chi... papai ia dar a Chi pra ajudar as pessoas, mas elas foram más... iam fazer a Chi triste... como... como... — ela pôs as mãos sobre os terminais — como aconteceu com a outra... lembra quando papai falava da outra..?
Minoru desviou toda a atenção do computador à irmã, ajeitando o blazer.
— Não.
— Papai falava triste... como as pessoas eram egoístas — lágrimas peroladas rolavam desesperadas pelo seu rosto pálido —, como eram más, como a faziam sofrer... papai falava que a Chi não iria mais pra perto deles, porque a Chi era especial demais pra que papai e mamãe vissem a Chi sofrendo... então a Chi foi pra longe... ajudar outras pessoas... encontrar alguém s-só para a Chi..
Soluços já não podiam mais ser travados pela garganta, engasgando em sua já mal formada fala. E quando Hideki pousou levemente a mão sobre seu ombro, num gesto de consolo, ela deu um pulo, fitando o rosto do jovem persocom numa mistura de surpresa e pavor.
Festa, barulho, flashs seqüenciais.
Ela era Chihiro? Ou ela era a Chi?
— Minoru-kun... papai e mamãe não queriam ficar longe da Chi, porque eles amavam a Chi... a Chi também ama papai e mamãe... mas é de verdade? É do mesmo jeito? Ou é só um programa da Chi?
Profundo suspiro.
— A Chi não ama de verdade? É tudo mentira?
Soluço.
— Papai disse que a Chi é especial, não disse? — perguntou Minoru, sério.
Confirmação com a cabeça.
— E você acredita no papai, não é?
Nova confirmação.
— A Chi é especial pro papai não só porque papai te ama. A Chi é uma persocom especial, diferente dos outros, porque é quase uma pessoa de verdade. Você, Chi, tem um sistema orgânico também.
Silêncio.
— Você foi chamada de Chobit pelo papai, assim como eu chamo o Hideki de Chobit também. Vocês dois têm partes orgânicas, só que são princípios diferentes.
Silêncio. Desconfortável.
— O Hideki foi criado por mim a partir de um corpo congelado por criogenia, método que o mantém intocado, e depois foram instaladas suas partes inorgânicas – de persocom – que comandam funções que não podem ser cumpridas por tecidos mortos. Mas o Hideki tem um cérebro humano, e por mais que ele seja comandado por um computador interno, eu acredito que ele seja capaz de sentir como um ser humano.
— Você, Chi — ele continuou —, foi feita pelo papai por um princípio inverso, quando ele primeiro fez seu computador e depois criou a menina Chi in vitro, desenvolvendo os sistemas orgânico e inorgânico ao mesmo tempo. Você também tem um cérebro humano e sente como uma pessoa de verdade.
— Quer uma prova de que isto não é mentira? — ele se aproximou e pegou na mão dos dois — Vocês são tão humanos que estão em constante envelhecimento, como eu. O computador poderá continuar condenando suas funções, mas células envelhecidas chegam a um tal estágio que devem ser trocadas, até que vocês se tornem persocons completos.
— Mas vocês ainda não chegaram nesse nível. São tão jovens quanto eu — ele deu um sorriso sincero.
Silêncio. Não havia mais soluços.
— Por isso... por isso que o papai ficava instalando programas na Chi toda hora?
— Como você disse, o papai não sabia como era ter uma menina crescendo com um sistema inorgânico. Ele tinha que cuidar da Chobit dele pra que nada desse errado, sempre atualizando o que fosse necessário, e a Chi crescer direito. E ele fazia tudo isso com muito carinho, não é?
Ela sorriu, desconcertada.
— E a outra..?
Os botões do blazer se tornaram interessantes.
— Eu trouxe você aqui pra me ajudar a respeito dela.
— A Chi lembra pouco do que o papai falava... eu lembro que ela... que ela é bem parecida com a Chi...
O bloqueio finalmente cedeu. Agora, as antigas lembranças percorriam-lhe como novas dentre os neurônios e chips, revelando livremente sobre a tela do computador a imagem que lhe vinha à cabeça: uma cinza Chi mergulhada num sono cinzento, preso a diversos cabos feios e cinzas.
Poderia parecer, mas não era a Chi.
Minoru salvou a única imagem obtida, e em seguida abraçou a irmã, com vontade.
— Estou muito feliz de ter você por perto de novo.
Ela sorriu, numa sincera retribuição. Voltou-se para Hideki.

“— Então, pra mim você é a Chi.”

Então, pra ela, ela era a Chihiro, a Chi.
— Posso te levar até o seu antigo quarto? Seria bom que você descansasse um pouco agora — Hideki se levantou, a postos – na verdade, envergonhou-se perante o olhar da menina.
— Ainda não conferi seus dados e —
— Foi somente um pequeno erro no sistema, Minoru-san, não se preocupe.
E estendo a mão para a jovem, os dois persocons deixaram que o garoto pensasse com os botões do seu terno, só.

Chobits, 2097

- capítulo IV.




No dia seguinte, Chihiro acordou deitada em uma cama macia e familiar. Os lençóis ainda tinham aquele cheiro de terem sido lavados por mãe, coisa que há muito ela havia esquecido. Os móveis tinham a mesma disposição no quarto que um dia lhe pertencera, o guarda-roupa à esquerda, o criado-mudo à direita, a cama ao centro. Sentada nela, podia ver bem seu reflexo no espelho à frente.
Tudo estava igual, exceto aquela Chi mais velha que ocupava o lugar da pequenininha Chi. E aquela silêncio pesado, ocupando o lugar dos choros do bebê Minoru das suas lembranças e os risos de um papai que achava graça da vida.
Ouviu batidas na porta. Mamãe..?
— Senhorita Chihiro, posso entrar? — perguntou tímida a voz de Hideki.
— Pode! — ela saltou da cama — Bom dia!
Instantaneamente, ele desviou o olhar para baixo. Não se sentia bem ao fitar a garota apenas de camisola.
— Bom dia, senhorita Chihiro.
— Não chame a Chi de senhorita, Hideki-kun! — ela aproveitou-se daquele quase momento particular e tirou a camisola, pondo-se a escolher um vestido dentro do guarda-roupa.
Hideki virou de costas, vermelho.
— Senhori... ahn, Chihiro, Minoru-san pediu pra que eu a levasse para um passeio antes do café-da-manhã...
— Passeio? Que legal! — ele imaginou uma Chi muito feliz por trás de suas costas. Procurava imaginar somente o rosto.
Pausa em que ela se atrapalhava para pôr o vestido.
— Ai... Hideki-kun, me ajuda?
— Ahn, eu... ahn... mas...
Ele podia jurar que, se não fosse seu computador interno, seus hormônios já teriam tomado conta de seu corpo. Das duas, uma: ou teria ficado eternamente paralisado em sua posição, ou teria rapidamente avançado.
Mas tudo continuou calmo, e ele apenas cerrou seus olhos enquanto ajudava a arrumar o forro do vestido e seus botões. Suas mãos se mantiveram no lugar. Bendito seja o programa de boas maneiras!
— Não é lindo? — Chi sorriu, girando dentro de seu vestido rendado.
“Adoravelmente bela”, pensou. Na verdade, apenas comentou um “Sim, senhorita” bem polido.
— Minha mãe o fez pra Chi. Sempre os fazia, grandes e pequenos, para a Chi ficar bonita a qualquer hora, ela dizia.
Ela fez cara de choro. Era bom lembrar, e mesmo assim, doía.
Voltou ao momento presente.
— Hideki-kun é muito bonzinho. Gosta muito de Minoru-kun, não é? — ela pegou de leve na mão dele — A Chi sabe que você pegou a Chi desprevenida e enganou porque Minoru-kun pediu. Por isso, a Chi não tem medo e nem mágoa de Hideki-kun — sorriu, com graça e sinceridade juvenis.
Ele rezou para que seus programas funcionassem e bloqueassem a ação dos hormônios. Rápido.
Não era atração sexual que sentia. Era... era algo relativamente hormonal que o deixava se sentindo um idiota no meio do mundo. Ou, vergonha.
— A Chi gostaria muito que Hideki-kun cuidasse da Chi como cuida de Minoru-kun.
— É minha obrigação protegê-la, senhorita Chihiro... — ah, santa tecnologia! Já voltava às suas cores normais.
— Não era Chi pra você? — ela perguntou, rindo.
— Chi-chan?
Careta.
— É feio... pode ser só Chi?
— Claro. Mas então eu serei apenas Hideki, ok? Vamos ser justos.
— Tá! — e mais uma vez veio o sorriso que trazia o rubro às bochechas do persocom.
Mas era gostoso sentir-se assim. Humano. Pegou-a pelo braço e juntos saíram.
Não iria mais se deixar levar por seu sistema orgânico. Sabia dos planos do seu senhor, e sabia que deveria cuidar bem de Chi para que tudo fosse conforme o esperado. Estava seguro, e passaria toda sua segurança para ela.
Já dentro do elevador que os levava para fora do apartamento do irmão, Chi forçava seus neurônios e chips a recompor as imagens do lado de fora. Não eram muitas, pois também nunca fora permitido deixar o prédio sozinha; mas aquelas poucas já lhe traziam sentimentos que apertavam seu coração.
Chegaram ao hall de entrada. Era cinza, frio, quieto e vazio.
— É igual...
Sim, era igual ao de suas lembranças, e também era exatamente igual ao cenário do lado de fora. Somente era mais vazio e mais quieto.
A poluição encheu os pulmões dos dois persocons, felizmente já preparados com filtros especiais. Mesmo assim, Chi tossiu um pouco, e seus olhos começaram a lacrimejar. Era a fumaça das torres, a névoa cinzenta e o pó vermelho de baixo. Teve que se apoiar em Hideki até sentir-se apta a enxergar novamente.
Vistos do térreo, os infinitos arranha-céus pareciam ainda maiores. Todos eles eram cheios de placas e propagandas, transmitindo imagens digitais planas e tridimensionais, piscando e brilhando. Mas todas as cores eram apagadas pela névoa, que lhe tirava a vida.
Parada, Chi levou um encontrão com uma figura apressada e mal-humorada, e quase caiu. Decidiu seguir o caminho de Hideki, o som de seus passos abafado pela música alta e o barulho de máquinas.
Alguém a puxou pela barra do vestido.
— Você é o modelo novo que saiu?
Era uma menina de no máximo quatro anos de idade, cheia de presilhas alucinógenas no cabelo.
— Chi? — ficou confusa com todas as luzes e ruídos que vinham da cabeça daquele ser minúsculo.
— Você parece ser meio podre — ela fez uma careta — PAAAAI!
Chi levantou a cabeça e se deparou com homem tão baixo quanto a filha. Felizmente, sua careca não permitia presilhas bizarras.
— Fale, docinho.
— Quero esse persocom. É novo.
— Chi? — ela rodou o olhar à procura de Hideki.
— Mas eu acabei de comprar a Sumomo pra você, pudinzinho — ele estendeu uma persocom, que lhe cabia na palma da mão.
— E daí? Essa é pequena, eu preciso de mais um modelo grande.
— Mas você já tem duas, chuch —
— EU QUERO!
— Meu amor, veja que —
— FICA QUIETO, EU QUERO!
— Desculpem atrapalhar — Hideki tomou a frente de Chihiro —, mas esta persocom já pertence a alguém.
— Você é só outro! — bradou a menina, as luzinhas do cabelo piscando em sinal de perigo — Qual é a sua loja?!
— Nós pertencemos a Minoru Kokubuji — ele respondeu rispidamente, tirando de dentro do casaco uma espécie de documento. Esfregou-o na cara da criança e, em seguida, pegou Chi pelo braço, deixando pai e filha acertarem as contas para trás.
— O que é isso, Hideki? — ela perguntou, pegando a caderneta. Era azul, e dentro vários caracteres japoneses pulavam rápido para cima, agrupando-se no contexto de leis maçantes.
— Meu registro. O governo detém conhecimento sobre todos os persocons comprados e montados até hoje. Por isso, tome cuidado pra nenhum fiscal te achar.
Ao guardá-lo de volta no bolso do paletó, Hideki diminuiu o passo, finalmente parando. Deixara cair um papel do bolso, aquele onde ia guardar a licença. Estava dobrado num origami amorfo e divertido.
— O que..? — murmurou para si mesmo, observando a figura atentamente. — Lembre-me de mostrar isso a Minoru-san, Chi.
Não houve confirmação.
— Chi?
Ao seu redor, pessoas passavam rabugentas. Hideki não conseguiu encontrar nenhum sorriso. Perdera Chi.

Chobits, 2097

- capítulo V.




Chi não se desesperou nem um pouco ao ver-se perdida no meio daquela louca multidão. Deixou-se guiar pelos seus instintos — isto é, por seus possíveis radares de localização e por suas ralas memórias.
Caminhou de cabeça baixa até seus pés a guiarem até um trecho sem saída, onde seus olhos verificavam o término do chão de cimento e o início da terra avermelhada. Entre ela e o resto do mundo, havia uma pequena cerca de poliestireno. Levantou o olhar.
Se os prédios eram infindos até o céu, o horizonte que se projetava adiante conseguia aparentar ser ainda mais vasto. Manchas vermelhas alcançavam até onde a vista se cansava, cheias de pontinhos assustados e desorganizados. Eles arrastavam-se na terra suja, alguns concentrados em grupos em torno de fogueiras recém-formadas, espantados com aquela forma de energia mágica. Outros punham-se depressivamente a regar pequenas hortas, secas e mal-cuidadas, na vã esperança de novos frutos. Havia também uma grande maioria que tentava reerguer precárias construções, onde aparentemente moravam, fazendo e amontoando bolas de lama.
Mais perto de Chi, um grupo razoavelmente grande de crianças brincava de uma espécie de pega-pega selvagem. Os escolhidos pegadores ferozmente corriam atrás de seus colegas, avançando sobre eles e desferindo mordidas e arranhões nos pegos. Um jogo de caça.
Chi observava de longe enquanto a turma de pegadores estrategicamente se unia em torno de uma mesma criança, primeiro os menores e vagarosos, “engolindo-a” em seguida, tomando-a como novo integrante do grupo. A cada soco, ela escondia os olhos entre os dedos.
Mas ela não pôde deixar de notar os gritos desesperados da última menina que sobrara. Ela pulou a cerca de plástico e, equilibrando-se para não escorregar, pôs-se entre os choros e os berros.
— Não!
Instantaneamente, eles pararam, como que congelados. Pareciam assustados. Ela então aproveitou a deixa e virou-se, estendendo a mão para ajudar a pequena menina que ainda soluçava atrás de seu vestido.
— A menininha está be —
— Bruxa! — Chi foi recebida com um ardido tapa na palma da mão — Sai daqui! Deixa a gente em paz!
A primeira pedra havia sido jogada. Literalmente. Chi afagou o machucado da cabeça e, por pouco, teria recebido outra pedrada no estômago.
— Bruxa! Vai embora!
— Bruxa!
— BRUXA!
Logo, uma roda formava-se em torno da persocom, e mesmo a menininha chorosa estava agora rosnando e mostrando os dentes. Sim, era uma alcatéia de pequenos lobos, lobos humanos, e Chi não era, visivelmente, aceita. Antes que o círculo se fechasse, ela voltou correndo pelo mesmo caminho que viera, fugindo das agressões físicas e orais.
Felizmente, à altura da cerca, ninguém mais parecia estar mais disposto a espantá-la. Voltaram todos sorridentes, mostrando as presas, felizes por terem sido capazes de defender “a tribo”. Caçadores.
— Chi!
Atrás da cerca, a voz de Hideki ecoou para seus ouvidos.
— O que aconteceu?
Ela estava suja, ferida e prestes a chorar. Seu vestido, antes branco, estava vermelho. Vermelho sangue, vermelho terra, vermelho violência.
Hideki pulou a cerca e abraçou a persocom.
— A Chi foi tentar ajudar a menininha... e as crianças brigaram com a Chi, espantaram a Chi, machucaram, odiaram! — disse, afagando-se no peito de Hideki — Por que... por que a Chi é uma bruxa?
Hideki pegou um lenço de um dos muitos bolsos do seu paletó e começou a enxugar delicadamente o sangue que escorria em uma das bochechas e nos braços de Chihiro. Deu um longo suspiro.
— Vê aqueles prédios atrás de mim, os maiores?
Ela assentiu.
— Lá moram e trabalham as pessoas mais ricas e influentes da região. Fazem parte direta ou indiretamente do governo, o que quer dizer que ou são políticos, ou ajudam políticos. São poucos os que têm essa “sorte” — ele enfatizou negativamente a palavra —. Minoru-san é um deles, porque o pai de vocês criou a tecnologia dos persocons.
Tirou do mesmo bolso uma espécie de remédios e passou a fazer curativos.
— Aquele bolo cinza domina muito bem a tecnologia disponível. Ou melhor, os governantes dominam toda a tecnologia a favor deles mesmos e da economia. O resto da população, a grande maioria, não tem acesso a nada, mesmo a coisas simples como isqueiros ou canetas...
— Políticos são pessoas tão más assim..? — perguntou, num tom triste — Por que os outros não podem viver igual?
— Estes são muito egoístas... egocêntricos... e medrosos. Minoru-san disse-me uma vez que tudo isso é medo de perderem o controle. Quanto mais ignorante a população for, menos revoltosos e menos crises existirão. Mas eles ainda dependem daqueles que lhe fornecem o conforto, e por isso a Massa Cinza mantém um tamanho razoável.
Ficou inquieta, e não deixou Hideki terminar de limpar o corte em seu rosto.
— Mas a Chi não entende... como eles podem viver tão perto e não saber de nada?!
— O governo tem tudo sob controle. Freqüentemente algum representante vem à população para mantê-la calma. Também existem os fiscais que não permitem que ninguém da Ilha Cinza se aproxime da Terra Vermelha. Eles são os E.L.F.O.s: Elementos Ligados às Forças Organizacionais.
— Mas as pessoas daqui não sabem o que significa a sigla — continuou —. Os conhecem apenas por elfos. Para eles, os elfos são aqueles que os protegem. E bruxos e bruxas são aqueles de quem eles não podem se aproximar, ditos como maus pelo governo, mas que são somente aqueles sem o uniforme, e fora da cúpula do poder.
— Por isso a Chi é uma bruxa... mas a Chi é boazinha...
— Eu sei disso. Mas se você não tem o uniforme com o símbolo do Parlamento, é vista como perigosa. Essas pessoas, Chi, são selvagens porque não têm a oportunidade de conhecer outros modos de vida. E quanto mais animais eles forem, mais e mais eles serão controlados.
— Isso é errado...
Chihiro mais uma vez encostou-se no peito de Hideki. Fechou os olhos. Não queria olhar para nenhum dos lados, nem para a Ilha Cinza, nem para a Terra Vermelha. Sentia uma dor, um pesar tremendo no coração, algo mais parecido com pena. Sim, coitados daqueles que não vêem – porque não querem e porque não podem.
Claramente ouviu as palavras de seu pai em seu ouvido. “São ingratos. Eu desenvolvi os persocons para ajudar a humanidade, e não só para um grupo de macacos egoístas”.
“Por isso você vai pra longe, Chi. Para ajudar a humanidade, e impedir que eles voltem a ser macacos no nosso presente”.
— Que lindo casal de persocons!
Eles pularam ao serem surpreendidos pela cínica voz feminina. Ela pertencia a uma persocom de aparência humana, menor que os dois, e que estava acompanhada por outro, masculino, muito mais alto. Usavam trajes escuros, com um brasão verde estampado na frente.
O símbolo do Parlamento.
— Seus registros, por favor. Seus mestres não disseram que esta área é proibida?
— Nós caímos sem querer — respondeu Hideki, com um sorriso simpático. Mas não houve reciprocidade.
— Deu pra ver. Ela tá acabada.
— Dita, seja mais delicada, por favor... — falou o persocom mais alto.
— Estou trabalhando, Ziemma! Onde estão os registros?
Hideki entregou em suas mãos seu documento azul e mais um outro. Na verdade, aquele fora pertencente à Chi na época em que seu pai a registrara, e a foto portanto forneceria uma imagem de uma Chihiro muito mais nova.
— Ha-ha. Muito engraçado. Todos nós pertencemos a Ichirô Mihora — Dita olhou para Chi, se referindo ao nome do mestre —. Quero seus documentos verdadeiros, mocinha.
— Mas este é o documento da Chi de verdade — respondeu, reconhecendo-o.
— Ziemma, faça com que ela diga a verdade.
— Por favor, minha querida, não temos que invadir o sistema dela. Basta colocá-los do outro lado da cerca e estará tudo OK... — ele parecia calmo e paciente.
— Não me chame de querida! Siga seu programa e trabalhe! — bufou, tirando do casaco de Ziemma um cabo negro, e conectou na orelha de Chihiro. A outra ponta, ela estendo para o companheiro — Eu não te alcanço. Tente não me irritar e trabalhar direito agora.
Hideki achou melhor não contrariá-los. Disfarçadamente, mandou um e-mail para Minoru com um breve vídeo do acontecimento, e ansiosamente esperou por uma resposta rápida e direta. Enquanto isso, apenas contentou-se em observar o persocom invadindo a configuração e os registros de sua acompanhante, calado.
Mas foi por pouco tempo. Poucos segundos depois de estabelecida a conexão, Ziemma desfaleceu. Ou, para um persocom, apresentou um erro no sistema e ficou inativo até reiniciar em modo de segurança. Dita olhou de Chihiro para o colega caído no chão, numa mistura de choque e pavor.
— O que..?
Hideki não aguardou por uma resposta de Minoru. Antes que Dita voltasse a olhá-los, agarrou a mão de Chi e saiu correndo.

Chobits, 2097

- capítulo VI.




— Hideki, está me ouvindo?
— Sim... Minoru-san...
— Por que demorou tanto pra atender a ligação?
— Porque... senhor... estamos fugindo... da fiscal... — ele mandou os vídeos em tempo real para seu mestre, enquanto ambos Hideki e Chi corriam descontroladamente entre o pó vermelho, sem olhar para trás.
A voz de Minoru soava dentro da cabeça do seu persocom.
— O mapa está aberto na minha frente. Eu vou lhes dizer para aonde vocês devem se dirigir. Não saiam de lá até encontrarem com alguém mandado por mim, entendido?
— Sim... Minoru-san...
— Daqui a 7 metros, virem à esquerda.
Viraram; entraram num corredor estreito de cabanas caindo e pessoas andando. Pararam um pouco pra pensar. Hideki segurou a mão de Chi ainda mais forte pelo pulso e seguiram reto novamente, não diminuindo a velocidade enquanto se desviavam dos obstáculos.
— Direita, agora.
O corredor estreitou-se ainda mais.
Alguns segundos depois de terem se infiltrado na multidão, uma das cabanas desmoronou, à direita.Hideki puxou Chi para mais junto de si, protegendo-a dos destroços. No momento seguinte, o contingente de pessoas se desviou até o acidente, liberando caminho.
— Vire à esquerda no corredor mais escuro.
Não tiveram dificuldades para encontrar o lugar a que Minoru se referia. Caminharam mais alguns passos e logo viram um canto mais abandonado, que se estendia até o dito local. Uma névoa espessa dificultava a visibilidade. O ar sombrio afastava os passantes. Começaram a aparecer chiados na comunicação.
— Esta é a área amaldiçoada. Dificilmente eles rastreiam ligações aqui, mas não vamos arriscar. Você sabe aonde deve ir. Boa sorte.
Desligou.
— O que é aqui, Hideki..? — soou a voz de Chi, impressionada.
— O governo diz que as casas daqui são mal-assombradas — disse, adentrando — Na verdade, foram construídas para esconder alguns locais da civilização antiga, que sobreviveram e um dia lhes foram úteis. Ninguém da Terra Vermelha pode chegar aqui. Há muita informação por trás dessas paredes feias.
Ele se postou em frente de umas das casas mais ao fundo. Como as outras daquele corredor e diferente das que a população vivia, ela era de madeira. Isso garantia a maior sustentabilidade e dificultava a entrada de pessoas indesejadas. Suas portas e paredes estavam trancadas, pregadas por tábuas disformes em forma de X, impossibilitando a passagem.
Contudo, Hideki não se intimidou. Aumentando a força dos músculos da perna, ele deu um chute na porta. A madeira velha, depois de uma seqüência de cinco chutes, finalmente cedeu. Mais daquela névoa negra saiu de dentro.
Às tosses, entraram. Logo à entrada, foram obrigados a descer por uma ladeira muito íngreme. Tinham que se manter agachados e se segurar no chão para não escorregarem. Mas Chi deu um passo em falso.
— Aaaaaaiii..!
Ela trombou com o Hideki que estava a sua frente e juntos eles rolaram pelo chão, batendo em pedras e pedaços de madeira. A escuridão linearmente se tornava mais densa, até que finalmente eles não podiam mais ver um ao outro.
— ChIiIIiiiiIIIii — gritou Hideki, a entonação de voz mudando a cada virada que seu corpo dava — cAaAAAadêÊ — AI!
Chi ouviu um estrondo de duas coisas pesadas se chocando, até que ela foi a próxima a sentir seu próprio corpo encontrando-se violentamente contra uma parede de madeira.
Luz. Os olhos de Chihiro ficaram momentaneamente cegos com o feixe de luz que apontava diretamente para seu rosto.
— Hideki, apague isso! A Chi não enxerga!
O persocom apagou a lanterna que segurava em sua mãos. Era mais um dos muitos objetos que surpreendentemente carregava nos bolsos do paletó.
— Desculpe — ele voltou a acendê-la em outra direção — Você está bem?
— A cabeça da Chi dói... mas a Chi consegue ficar de pé.
Ela levantou-se se apoiando na irregularidade da parede, e o mesmo fez Hideki. Ele iluminou o espaço a sua direita, revelando um novo corredor. Seus dois lados eram ocupados por estantes, cheias de jornais antigos. Chi se adiantou até um, pegando-o. Parecia novo.
— Ele é de... 1972?! Mas como não estraga?
— É essa névoa escura. Ela é uma substância que preserva papel antigo.
— E por que as pessoas más precisam dessas coisas tão velhas..?
— Quando se sabe a história de um país e de um povo, Chi, fica mais fácil saber de seu futuro — respondeu, sério — Vamos andando que deve ter alguém nos esperando pra lá.
Deram as mãos e continuaram caminhando juntos.
Aquelas estreitas paredes revelaram pertencer a uma parte de uma antiga biblioteca. Logo tiveram acesso ao centro do recinto, e ali viram pilhas e mais pilhas de livros preservados. As paredes dos cantos haviam cedido, o que dificultava o caminhar; por isso, eles se mantiveram pelo mesmo corredor.
Cada estante correspondia a um ano vivido por aquela região do Japão, e logo Chi descobriu isso. Como se esquecesse que estavam no meio de uma fuga, sua alegria de criança novamente voltava, e assim ela passeava por entre os jornais. Divertia-se com seus escritos, lembrando de um ou outro acontecimento que presenciara antes de Hideki ir buscá-la na festa.
Foi na 2013ª estante que Chi soltou um grito.
— É a Chi... e o Hideki...
Ela estendeu até o persocom a manchete do jornal japonês que datava 07 de outubro. Havia uma grande foto do casal em meio a pessoas, com os dizeres garrafais:

CASAL PACIFISTA JAPONÊS É VÍTIMA DE ATENTADO TERRORISTA

Hideki sentiu a face paralisar ao ver sua imagem num jornal tão antigo. Sabia que hoje era um persocom graças à geladeira que manteve seu corpo intacto após sua morte como pessoa. Sabia, assim, que tivera uma vida antes desta. Mas não se recordava de nada naturalmente, e jamais passou-lhe pela cabeça a possibilidade de saber sobre seu eu antigo.
Não conseguiu mais se mover. Apenas ouviu o movimento que Chi fazia ao revirar as páginas do jornal, e em seguida sua voz lendo a notícia completa, assustada.

Chihiro e Hideki Motosuwa, famoso casal por ganhar o Prêmio Nobel da Paz do ano passado, sofreu uma série de ataques enquanto negociava sanções de paz com o governo da Coréia do Norte. As bombas que os atingiram não tem origem conhecida, mas autoridades desconfiam que pertençam a um grupo terrorista da região.
Depois de resgatados dos destroços do palácio norte-coreano, foram levados diretamente ao Hospital Ikuno Chuo. Hideki Motosuwa, entretanto, não resistiu aos ferimentos e veio a falecer dentro da ambulância. Sua esposa, Chihiro Motosuw,a chegou levemente ferida ao hospital, mas apresentou uma brusca piora nas 24 horas que se seguiram. A equipe de médicos que a atendeu ainda investiga os fatores que levaram à sua parada respiratória e o seu conseqüente falecimento.

Chi não pôde ler mais em voz alta. Seus olhos passaram rapidamente sobre o resto da reportagem, perdendo-se entre divagações de médicos e homenagens de políticos. Nas suas mãos, aquelas notícias passadas guardavam seu futuro. Ela sairia de 2097 e voltaria para 1997, casar-se-ia, e morreria como uma salvadora. Será que estes seriam os verdadeiros planos de seu pai..?
Segurou a mão de um Hideki estático, preso nos próprios pensamentos. Ele se forçava a lembrar de alguma coisa que lhe remetesse a sua época de humano, pacificador, esposo – sim, marido daquela que estava diante dos seus olhos. Mas sua memória não ajudava. Seus circuitos não pareciam mais conseguir assimilar as informações, e lá ele ficou, parado.
— Hideki... se lembra? — Chi perguntou, segurando levemente sua mão.
— Não — foi tudo o que pôde pronunciar.
— Quando a Chi voltar para o passado, a Chi vai tentar fazer com que isso não aconteça mais.
Sua inocência fê-lo movimentar o olhar. Não, ela jamais poderia impedir que isso acontecesse – senão, nunca poderia estar lá, onde estava, e ser um persocom, como era. Mas aquilo não era inteiramente triste; na verdade, Hideki não estava triste por ter morrido. O que mais lhe incomodava era o fato de ter sido alguém de quem ele não conseguia se lembrar.
— Dói não lembrar, não é, Chi?
Ela acenou afirmativamente com a cabeça.
— A Chi entende Hideki.
Ela lhe deu um abraço forte, confortável, que o encheu de energias novamente. Um dia, eles tinham se amado, lutado juntos e morrido lado a lado. Será que o passado estaria prestes a se repetir..?
— Que belo casal de persocons!
Pela segunda vez em menos de 24 horas, eles ouviram a mesma frase, no mesmo tom cínico. Agora, no entanto, ela pertencia a um homem, um humano de verdade, que surgia dentre as muitas estantes.
— Finalmente consegui achá-los! A essa altura, Minoru deve estar morto de preocupação, e vocês, pombinhos, ficam se amassando no escurinho!
— Yoshiyuki-san — respondeu Hideki, muito formalmente.
Chi soltou o abraço e passou a observar o novo indivíduo que conhecia, um jovem que usava óculos e um jaleco branco. Yoshiyuki aproximou-se da persocom e deu-lhe um largo sorriso.
— Huuuum, você é mais bonitinha do que eu imaginava! Quem sabe depois que resolvermos tudo o Minoru não te empresta pra mim e —
— Ham-ham — Hideki forçou propositalmente a garganta — Podemos ir, Yoshiyuki-san?
— Ah, sim, sim, claro. Estamos atrasados..
Ele os guiou até a saída, em direção novamente à Ilha Cinza.

Chobits, 2097

- capítulo VII.




A caminhada dos três pelos subterrâneos do Japão foi curta e calada. Logo, eles se viram seguramente presos entre as paredes do luxuoso apartamento de Minoru – confortavelmente seguros e repugnantemente sujos, com suas roupas pingando de lama e terra. Cada um se dirigiu para um aposento, deixando um rastro de poeira atrás.
Chi encostou a porta do quarto e ligou o chuveiro da suíte, e assim todo o cômodo ficou envolto pelo vapor quente. Despiu-se e enfiou-se embaixo da cascata de água, deixando com que toda a sujeira e o cansaço da manhã fossem embora pelo ralo. Eram duas horas da tarde.
Todos os dias, naquele horário, seu pai a chamava do escritório e para lá ela ia, quando se sentavam lado a lado e ele se punha a contar-lhe histórias. Abria livros antigos e imagens no computador, mostrava feitos de pessoas que há muito tempo já se tinha ido, lugares que há muito já se tinham perdido... um Japão diferente daquela massa fria e escura.

“Aqui, as pessoas eram felizes e não sabiam”, disse-lhe uma vez.
“A busca pela felicidade resultou no inferno que vivemos hoje. Não é proibido ser feliz, Chi; o grande problema é o egoísmo.
Hoje eu vou lhe dar um último programa. Você sabe que você é quase uma menina. Como nós, você sente, você ama. Você não ama papai, mamãe e Minoru-kun?”
“Amo”,
disse a voz de uma Chi menininha, nas suas lembranças.
“Mas esse amor não é humano. Ele não é egoísta. Ele é amplo, geral. Você gosta da mamãe, mas não se importa se não tiver o amor dela só para você. Não se importa de ter que dividi-lo com seu irmão, não é?”
“Isso é errado?”
“Não, pelo contrário, isso é lindo. Todos deveriam ser assim, mas ninguém é. Não nos importamos coma felicidade do ser amado, mas sim se o sentimento é recíproco. E se não for, sofremos muito.
Apesar disso, o programa que vou lhe dar é exatamente para lhe dar essa característica: se apaixonar. A paixão é um sentimento incondicional, avassalador, repentino. Ele traz o ciúme. O amor egoísta.
Não quero que faça essa cara de choro, Chi. Você tem que ficar feliz com o que estou lhe dando. Agora, você se tornou mais próxima ainda de uma humana. Você é capaz de nos entender – e a melhor maneira de se consertar um defeito, é conhecendo-o profundamente. Você vai poder ajudar a humanidade a progredir, a fugir do seu destino sombrio. Vai poder ser feliz do lado da pessoa só sua.”
“A pessoa só para a Chi..?”
“Sim. É ela que vai cuidar de você, quando papai e mamãe estiverem bem velhinhos, quando você for pra nunca mais voltar... Ela vai cuidar de você e te guiar, porque ela vai ser perfeita pra você. Será você quem vai escolhê-la, e saberá quem ela é no momento certo Você será feliz para sempre, como uma princesa dos contos de fada..”

O fim daquela lembrança acordou Chi com um solavanco do seu corpo. Desligou o chuveiro assustada e foi procurar uma toalha, molhando todo o chão do banheiro. Quando encontrou, envolveu-se no seu tecido felpudo, como se aquilo pudesse lhe consolar do passado.
Seu pai tinha-lhe planejado toda uma vida atrás no tempo, em 1997. Queria que casasse, queria que fosse independente, queria que salvasse... o mundo? E não seria ele grande demais para uma persocom só? – ou seriam dois, ela e Hideki..?
Hideki. Levantou-se de súbito.
Seu pai não considerava uma possível volta para o futuro. Quando você for pra nunca mais voltar. Mas então, como poderia estar casada com Hideki no passado? Será você quem vai escolhê-la, e saberá quem ela é no momento certo. Será que o que sentiu por Hideki quando o viu na festa o marcava como a pessoa só para ela..? Mesmo que hoje ela não sentisse mais nada daquilo..?
Afinal, o que sentia por Hideki?
Encostando-se na parede úmida do banheiro, ela fechou os olhos e limpou a mente. Concentrou-se bem fundo no seu ser, na sua própria figura, esperando a resposta do seu coração.
Foi então que ela ouviu a voz.
~ Você voltou? ~
Não respondeu.
~ Veio me ajudar? ~
Era ela. Sabia, apenas sabia.
~ Papai também voltou para mim? ~
Chi forçou-se a abrir os olhos e espantar aquela voz para fora de sua mente. Não, não podia suportá-la falando de seu pai, aquele que tanto sofreu por causa dela. Por causa da outra.
Procurou alegria, mas em resposta seu coração doeu. Mas aquilo não tinha nenhuma ligação com Hideki. Não podia ter. Não queria que tivesse.
Escolheu um vestido qualquer no guarda-roupa e saiu.
— Hideki?
O corredor estava vazio.
— Minoru-kun?
Não havia vozes além das paredes.
— Yoshiyuki-san?
O único som que se podia ouvir era um cantar, bem suave, no quarto ao lado.


Tatoe tookute mo
Kitto tadoritsukeru
Tsuyoku shinjite’ta
Ano hi no watashi ga
Ima mo kokoro de nemutte-iru...


Eu costumava acreditar, sem duvidas

Que poderia alcançar meus sonhos
Não importando o quão distantes eles estivessem
Mas o “eu” daquele tempo agora está adormecido em meu coração


Chihiro encostou levemente o rosto da porta de madeira e pôs-se a ouvir. Conhecia aquela música, conhecia aquela voz. Estava mais velha e mais cansada, e tinha um tom de tristeza também. Mas ainda assim pertencia àquela pessoa que ela tanto amava.
Sua mãe.
Abaixou a maçaneta e entrou, sem fazer barulho.
A primeiro momento, não conseguiu identificar o cômodo. Ele estava mergulhado na escuridão, profunda demais para seus olhos acostumados à claridade das lâmpadas fluorescentes. Aos poucos, formas começaram a se delinear, e Chi pôde identificar uma figura sentada numa cama larga e alta. Ela estava encolhida a um canto, envolvendo os dois joelhos com os braços, balançando no ritmo melancólico da música.
Chi se aproximou até ficar frente a frente com a mulher. Seus cabelos cobriam-lhe o rosto bonito das lembranças da filha.
Chitose Hibya deu um pulo ao vê-la.
— Quem é você?! — estava rouca, como se há muito não falasse..
— Sou a Chi, mamãe.
— Você é muito grande para ser a minha pequenina Chi. Além do mais — ela acrescentou, com uma voz de choro —, ela foi embora com Ichirô. Ele prometeu que um dia voltaria. Mas a minha filhinha não volta nunca mais.
Chihiro sentiu um nó na garganta. Deixou uma lágrima escorrer enquanto ouvia os murmúrios de sua mãe.
— Aaaah, meu Ichirô. Meu amor. Meu querido. Você disse que voltava. Volta, não é mesmo? Eu sei que volta. Volta sim. Volta. Volta. Volta. Meu amor. Vai cuidar da nossa filhinha e vai voltar. Volta. Vamos nos divertir tanto quando você voltar. Vai ser quando éramos jovens. Quando você voltar. Volta. Volta...
Ela cantava aquelas palavras na melodia da música anterior. As notas enchiam o ar com uma depressão densa, negra, úmida de lágrimas e congelante de corações. Sua mãe estava feia, triste, fraca; ela estava morrendo, se matando, na espera vã do seu amado.
Chi não pôde suportar por muito tempo. Mesmo que a mãe não a reconhecesse, ela não deixava de estar lá, e não deixaria também de lhe ajudar. Deu-lhe um abraço.
Chitose empurrou com sua pouca força e deu um grito insano.
— Sai! SAI! EU SEI QUEM VOCÊ É!
— Mamã —
— VOCÊ É A OUTRA PERSOCOM! SAI! SAI, SUA NOJENTA!
Ela ficou de pé na cama e, segurando Chi, começou a chacoalhá-la violentamente.
— VOCÊ FEZ ICHIRÔ SOFRER! VOCÊ O FEZ CHORAR! VOCÊ O TRAIU COM AQUELAS PESSOAS, SUA COISA!
A porta do quarto escancarou-se e por ela prorrompeu Minoru, Hideki e Yoshiyuki, todos com os rostos alarmados.
— MINORU! — ela se jogou nos braços do filho — Minoru, a Freya está aqui, ela entrou para judiar de mim, para me lembrar de coisas horríveis — SAIAM DAQUI VOCÊS! NOJENTOS DO GOVERNO, SUJOS —
Novamente, ela começou a gritar descontroladamente, agora em direção a Hideki e a Yoshiyuki, quem ela não reconhecia. Eles levaram Chi para fora do quarto, fugindo dos berros descontrolados.
— Calma, mamãe, eles já estão indo embora — Minoru passava a mão carinhosamente sobre seus braços, fracos e pálidos — Eles nunca mais voltarão —
— Quem é você para me chamar de mamãe? Pensa que pode me enganar, com fez a outra, dizendo-se o Minoru? Sai daqui! SAI!
Ele saiu correndo de dentro, tomando o cuidado de trancar a porta atrás de si.
Novamente, a casa foi tomada pelo silêncio. No fundo, só se ouvia uma música a ser cantada, bem suave.

Hito wa hitori da to
Wakariaitai no ni
Nante muzukashii
Kotoba wa muryoku de
Toki ni wa gin no NAIFU ni naru...


Mesmo que estejam sozinhas as pessoas querem compartilhar seus sentimentos

mas às vezes, é tão difícil.
Palavras são impotentes para expressar os sentimentos de alguém
E às vezes elas machucam como facas prateadas

Chobits, 2097

- capítulo VIII.



Chihiro se jogou nos braços de Hideki, apavorada.
— Não leve nada disso que você ouviu em consideração, Chi — disse o persocom, passando a mão em seus cabelos prateados —, Chitose-san está fora de si já há sete anos.
— Desde que a Chi foi embora... não é?
Seu olhar de abandono foi o suficiente para calar os três homens a sua volta, todos procurando as palavras certas para falar-lhe. Minoru pôs-se a mexer em seus botões.
— Papai disse que voltaria, Chi. Ele iria te levar ao passado, reconstruiria uma máquina do tempo adequada à época em que vocês estivessem, e voltaria assim que pudesse para o futuro, no mesmo momento da sua partida, como se nada tivesse acontecido. Mas não o fez. Mamãe e eu ficamos esperando por ele durante esses sete anos e nunca —
— Não fale como se papai não gostasse da mamãe e do Minoru-kun! A Chi viu como papai se importava com vocês. Ele sempre me disse que mamãe e o irmãozinho tinham morrido... era nisso que a Chi acreditava até se lembrar de tudo... mas papai guardava um porta-retrato com a foto da família perto da cama, e sempre, sempre, conversava com a foto! Papai dizia sentir muita falta da mamãe, e a Chi acredita no papai. A Chi tem certeza que se papai tivesse feito a máquina do tempo ele voltaria.
— Este é o grande problema, Chi. A máquina foi feita. Senão, você e Hideki jamais teriam voltado para o futuro.
Silêncio.
Não havia solução. Chitose Hibya enlouquecera. Ichirô Mihora jamais voltara.
Certos pensamentos incomodavam e doíam, e por isso eles foram ignorados por todos os presentes do corredor.
Yoshiyuki preferiu não se meter naquelas questões familiares.
— Minoru, será que não tínhamos aquela conversa pra hoje..?
— Ah, sim, claro, claro. Vamos pra sala.
— Um pouco de chá e biscoitos faria bem, não acha, Hideki? — ele abriu um largo sorriso safado e suplicante. Disfarçando palavras de mau humor, o persocom se dirigiu à cozinha, trazendo logo em seguida o café da tarde.
Pousou-o na mesinha de centro, transparente e brilhante. Ao seu redor, almofadas acomodaram seus recentes visitantes. Não havia janelas; a luz era artificialmente branca.
O chá fumegava quente no meio deles.
— Gostou do passeio, Chi?
Ela olhou desconfiada para o irmão, balançando negativamente a cabeça.
— Nem um pouco.
— É, achei que não. Posso perguntar por quê?
— A Chi lembrou como aqui tudo é feio e todos são egoístas. É muito triste.
Minoru soltou um suspiro demorado.
— Exatamente o que eu penso. Yoshiyuki também, não é?
O jovem de jaleco confirmou com uma chuva de farelo de bolacha no tapete.
— Tanto achamos isso — continuou —, que lideramos um movimento revolucionário em favor do retorno da República. A Aliança Rebelde.
Chihiro ergueu ambas as sobrancelhas, espantada.
— Minoru-kun tem quantos anos pra isso?!
— Ahn... não dê uma de irmã mais velha agora! — ele corou — Vamos falar sério. Nossa Aliança é o motivo da sua volta. Precisamos da sua ajuda, e para isso eu pedi que Hideki lhe levasse num passeio em que pudesse relembrar bem do nosso mundo.
— Como a Chi pode ajudar?
Minoru teve que esperar Yoshiyuki parar de engasgar com o chá para poder voltar a falar.
— Amanhã nós vamos invadir o Computador Central. É ele que coordena todas as ações do governo, todos os seus persocons, desde os barmen e fiscais até auxiliares parlamentares. Só você pode fazer isso, Chi.
As sobrancelhas se mantiveram erguidas.
— Você, Chi, é capaz de se infiltrar em sistemas operacionais sem precisar se conectar a eles, independentemente da distância, do programa, da condição, da vontade do dono ou do próprio sistema. Em contrapartida, seu programa de bloqueio é tão forte que barra qualquer tipo de entrada, invertendo o contato. Ou seja, você invade sem ser invadida.
— Minoru-san — Hideki chamou o patrão, perplexo —, então é por isso que eu não pude me conectar à Chihiro quando ela chegou à Sala Branca?
— Exato. Lembra-se que eu o encontrei caído no chão, funcionando em modo de segurança? Então, o mesmo aconteceu àquele fiscal, Ziemma. Vocês dois tentaram se infiltrar no HD da Chi, mas suas invasões ricochetearam sobre vocês mesmos. A Chi viu coisas sobre vocês, e não o contrário.
— Mas a Chi se lembra que ontem Minoru-kun invadiu o sistema da Chi por um computador, a Chi viu a imagem que veio da cabeça da Chi na tela...
— Aquele computador não se infiltrou em você. Ele funcionava como uma mera extensão da sua memória, daquilo que você via em suas lembranças.
Yoshiyuki disfarçou um arroto. Hideki lançou-lhe um olhar mortal.
— Mas... por que a Chi? Hideki também é um Chobit. Minoru-kun não poderia programar Hideki para funcionar como a Chi, em vez de trazer a Chi de volta?
— Na verdade, eu não criei Hideki sozinho. Eu sei construir persocons, mas a tecnologia Chobit é muito complexa, e não existem estudos divulgados sobre isso. Papai foi o pioneiro. Ele fez você, Chi, e tinha já começado a preparar para montar Hideki antes de ir, mas nunca chegou a completá-lo. Um dia, eu achei seu corpo no laboratório, junto a rascunhos de desenhos e teorias. Dar continuidade a Hideki foi o modo que encontrei de manter ativos os trabalhos do papai, para que quando ele voltasse —
Súbito silêncio. Seu blazer começou a ficar amarrotado de tanto que mexia.
— Enfim, Hideki ainda está em fase de experimentação. A tecnologia que comanda seu bloqueio ainda é muito complexa para que eu possa dominá-la.
— Ah, agora pare de tentar falar bonito e diga a verdade — falou Yoshiyuki com a boca cheia de biscoitos da sorte.
— Chi?
— Ele sentia saudades sua, Chi, essa é a verdade! Mas o homenzinho aqui está com vergonha de admitir, não é?
Minoru teve que se segurar na mesa para não cair com o tapa que recebeu nas costas pelo amigo.
— Eu... ahn... é verdade — corou —. E eu também achei que papai voltaria se fôssemos buscá-los. E mamãe também poderia sarar se visse toda a família reunida de novo. Mas eu deveria saber que a possibilidade de planos paralelos darem certo é muito remota.
Quando ele finalmente levantou a cabeça, seu sorriso parecia sinceramente mais triste do que feliz. Era difícil largar os botões num momento necessário e fingir estar bem, assim, sem mais nem menos. Ainda assim, tentou faze-lo, como se nada tivesse acontecido.
— Então, Chi — ele continuou —, amanhã vamos invadir o Computador Central do governo. Vamos conectá-la a outro sistema que seja mais difícil de localizar, na sede da Aliança. Uma vez que for estabelecida a conexão, estaremos no comando. Particularmente, eu espero que eles fiquem dispostos a negociar...
— Querias... — resmungou Yoshiyuki, enfiando as últimas bolachas na boca.
— Enfim... isso é tudo. Agora é melhor —
— Senta aí, baixinho, que isso ainda não acabou.
Yoshiyuki segurou o garoto pelo braço quando ele fez menção de se levantar.
— Eu pensei melhor, talvez seja melhor não dizermos nada. Pode afetar a finalização —
— Minoru, esse é o nosso Ás da manga, e você quer jogá-lo fora? Francamente, tenho que ensiná-lo a jogar pôquer qualquer dia — ele tomou o restante do chá, virando em seguida em direção à persocom — Chi, a Aliança desconfia que o Computador Central seja Freya, a outra Chobit do seu pai.
— A outra..?
— Hideki, será que você poderia nos mostrar a imagem que a Chihiro nos forneceu ontem?
— Às vezes você poderia falar “por favor”.
— Por favorzinho, meu docinho de coco? — zombou, fazendo biquinho.
Ainda com a cara de desgosto, Hideki levantou-se e conectou os fios de seus terminais à tela de plasma que se estendia por uma grande parte da parede da sala. No segundo seguinte, a figura de uma Chi cinzenta envolta a cabos apareceu.
— Ela não é a Chi.
— Tem certeza?
— É a outra. Papai deu essa imagem pra Chi pequenininha, para que a Chi tomasse cuidado com as pessoas.
— Como assim?
— Para que a Chi não tivesse o mesmo fim que a outra nas mãos de pessoas más.
— E você lembra como a Freya foi parar lá?
— Papai não falava da outra pra Chi, porque quando falava ficava muito triste...
Yoshiyuki soltou um longo suspiro. Minoru sabia que aquela era a hora de calar-se e prestar atenção em seus devaneios. Muitas vezes, eles eram úteis.
Levantou-se para chegar mais perto na tela, observando-a atentamente, quase esfregando o nariz.
— Os rostos são idênticos. Tudo leva a crer que vocês duas são resultado da fecundação do mesmo óvulo, são embriões gêmeos. Concorda, Minoru?
Ele confirmou com a cabeça.
— Mesmo a foto sendo antiga, a aparência de Freya já é adulta... seu embrião foi desenvolvido antes da Chi. É. É. Tudo se encaixa.
Todos, exceto o Hideki inconsciente no momento, pareceram aumentar mais as orelhas para ouvirem melhor. Estavam esperançosos. O mistério seria desvendado.
— Vocês podem me dar mais um tempinho pra pensar?
Foi como se levassem um soco no estômago. Caíram de decepção.
— Ok. Pode ir até cozinha e pegar mais doces pra pensar.
Yoshiyuki abriu um largo sorriso infantil e foi saltitante para o cômodo ao lado. Minoru observou à cena cheio de decepção e, com um suspiro desanimado, desplugou os fios que ligavam Hideki à televisão de plasma.
— Minoru-san — falou assim que abriu os olhos —, lembrei-me agora. Encontrei isso comigo hoje de manhã, não sei quando apareceu...
E entendeu-lhe o origami que havia encontrado no bolso do paletó, algumas horas antes. Foi o suficiente para devolver o sorriso alegre de garoto a seus lábios.
Desfê-lo vorazmente, contente, certo do que encontraria. E suas certezas se concretizaram.
O origami era, na verdade, uma carta.
E ela fora assinada por seu pai.

Chobits, 2097

- capítulo IX.



Antes, aqueles papéis cor-de-rosa estavam mal agrupados no que tentava formar um origami, mas não passava de uma figura dobrada e amorfa. Naquele momento, porém, Minoru já o havia desdobrado e se punha a alisar as folhas amassadas, na esperança de entender melhor a feia caligrafia de seu pai.
Chi observava-o do chão da sala, curiosa, até que decidiu descobrir do que se tratava aquela felicidade momentânea. Por trás dos ombros do irmão, acompanhou a leitura da carta.


“Meu filho,

espero que esta minha carta possa confortar seu pequeno coração.Acabo de conversar com Hideki — não sabe como sinto-me orgulhoso de vê-lo vivo, parabéns —, e enquanto ele gentilmente vai buscar Chi na festa eu prometi que lhe escreveria algumas pequenas coisas. Ele me deu um breve resumo do futuro, e só de ouvi-lo eu volto a ficar triste. Faço idéia de como você deve estar se sentindo.
Não se sinta culpado por mamãe. Também não me julgue precipitadamente. Desculpe-me por deixá-lo, mas... por favor ouça — leia — meus motivos antes. Sei que deve estar me odiando por não voltar junto com sua irmã. Pois é, eu também estou me odiando.
Já que você se mostrou capaz de entender sozinho conceitos de Anatomia humana, faço questão de explicar-lhe meu erro. Gosta de Física?
As quatro grandezas que regem a vida na Terra são comprimento, largura, altura e tempo — ou seja, o espaço-tempo —, todos lineares. Assim como posso pôr as condições de espaço em um gráfico — coordenadas x, y e z —, posso também compreender o tempo como uma reta, infinita. Sendo assim, seria óbvio para mim que, para mudar o futuro, bastaria viajar no tempo para o passado — como 1997 — e muda-lo, alterando automaticamente o futuro — 2097.
Percebe o grande erro? Se eu já vivia em um 2097 tumultuado pela Massa Cinzenta e pela Terra Vermelha, quer dizer que estas condições são fatos já desencadeados por condições passadas. Ou seja, nosso tempo é imutável, pelo simples fato de existir do modo que é.
Não quero dizer com isso que nossas vidas já venham programadas, ou que haja um “destino escrito”. Acredito que não exista somente uma linha temporal, mas sim infinitas, cada uma definida a partir de ações que nós mesmos escolhemos. A cada escolha nossa, abre-se um leque de possibilidades, cada uma presente em uma linha temporal diferente.
Assim, quando eu voltei com a Chi no passado, tudo o que aconteceu foi a abertura de uma linha temporal, onde possivelmente a Chi foi capaz de consertar nossa época. A linha daonde vim — e onde ainda estou, pois não vejo modo de viajar por essas diferentes “dimensões” — não sofreu modificações no futuro. Você a presencia agora e por isso é prova de que ela existe desse modo.
O que eu concluo, deste modo, é que venha acontecer algo, o aparecimento de um obstáculo, por exemplo, que impeça a Chi de atingir seu objetivo de mudar a nossa época. Espero que não ela não morra. Mas não diga nada a ela.
Enfim, minha viagem foi inútil.
E eu não posso nem ao menos voltar. De alguma maneira inesperada — que não pude equacionar ainda —, meu corpo envelheceu antes do tempo. Certamente eu não estava na flor da idade quando parti, mas diria que envelheci por volta de 15 anos. Minhas costas doem, minha visão embaçou, meus movimentos se tornaram limitados, constantemente eu esqueço das coisas. Devo ter passado dos 60. Arriscar minha saúde a voltar para o futuro seria envelhecer mais 20 anos e possivelmente morrer depois de duas semanas. Não quero voltar para o meu velório.
Desculpe, não posso mais voltar. Vamos juntos pagar pelo meu erro. Desculpe.
Estranhamente, somente o sistema inorgânico de Chi foi afetado com a viagem. Ela perdeu alguns programas, chegou falando errado. Talvez ela esteja falando em terceira pessoa aí também, nada que afete o computador central. Quando ela voltar, eu a atualizo novamente.
Sim, ela vai voltar.
Hideki me contou sobre o seu plano maluco de se meter com o Parlamento.
Você é realmente igual a mim, não sabe como fico feliz! — e triste também, porque tenho medo que acabe como eu. Não digo que não ponha seu plano em prática; só peço que, primeiro, saiba com quem está lidando.
Vou lhe contar a minha história.


Minoru deu um grande suspiro antes de prosseguir para a próxima folha.
Sentiu um beijo molhado de lágrima estalar na sua bochecha. Chi também sentia falta do pai.


Logo que casei com sua mãe, o Japão era um caos. Todos os dias, ouvíamos notícias de assassinatos e desaparecimentos. Aconteciam aos montes, aos milhares. Ninguém saía de casa com medo de ser morto — até que chegou uma hora que eles também invadiam as casas, e ninguém mais tinha proteção.
Naquela época nós nos escondíamos no laboratório, que ficava no porão da antiga casa que morávamos. Passando horas a fios lá embaixo, eu terminei meu projeto dos persocons e comecei a trabalhar no dos Chobits. Sua mãe me deu um óvulo. Eu criei dois embriões. O primeiro a ser desenvolvido foi o de Freya.
Ao mesmo tempo, vendemos a idéia de persocons para o governo. No mês seguinte, o primeiro-ministro já tinha conseguido pôr nas ruas pelotões de persocons policiais. Eu fui coroado por ele como herói e, bem, não posso dizer que não gostei.
Mas as coisas não pareciam melhorar. Por um período, os criminosos pareciam controlados, mas nunca eram pegos. Ficaram fora de circulação por, digamos, seis meses. Até que os persocons começassem a apresentar problemas absurdos e inusitados, e saíssem de circulação. O caos começou de novo, indo e vindo como uma onda por 10 anos.
Uma parte da população morrera, outra desaparecera, mais uma deixara o país. Mais da metade das pessoas já não se encontrava mais no Japão quando a pior notícia fora divulgada: o imperador fora encontrado morto.
Sua mãe chorou muito aquele dia. Eu também. Ficamos com muito medo. Mas não pude deixar o Japão. Eu tinha me comprometido com a Dieta(*) — muitos primeiros-ministros passaram por ela — a ajudá-la com a situação. Eu lhes entregaria um novo persocom, capaz de coordenar todos os setores do governo, a fim de que ele somente tomasse conta de segurança.
Por isso, cinco anos depois, eu lhes entreguei Freya, certo de que fazia um bem para o país. Última vez que confiei no governo.
Nos meses seguintes, a imprensa foi descaradamente censurada. Além das notícias de morte e assassinato, começaram a ficar comum também os boatos correntes sobre tortura e estupro. Pessoas desaparecidas surgiam do nada, abobadas, esquecidas, estúpidas. A maioria não conseguia nem formular pequenas frases.
Antes que o primeiro-ministro da época fosse deposto e uma pequena cúpula de poderosos da Dieta — o atual Parlamento — desse o golpe de Estado, já ficara óbvio — tarde demais, infelizmente — para todos o que vinha acontecendo. Os crimes contra a população eram encomendados pelos próprios governantes, a fim de expulsa-la e segrega-la. A parte que politicamente era mais interessante permaneceu intacta, gradualmente remanejada para apartamentos que compuseram a Ilha Cinza. O restante da população sofreu intensos traumas e lavagens cerebrais: ficou idiota e submissa, tornando-se o povo da Terra Vermelha.
E como você deve ter percebido, o Parlamento esperou o momento ideal para tomar o poder: a chegada de Freya. Ela é o Computador Central, controlando cada pequena máquina e gerenciando o país. Com ela, os cinco integrantes nojentos do Parlamento podem sentir-se à vontade para fazerem o que quiserem, porque ela os obedece e comanda tudo.
E eu a vendi para eles.
Felizmente, àquela altura Chi tinha acabado de abrir os olhos. A primeiro momento, eu implantaria nela os mesmos programas de Freya, porque antes eu também queria vê-la dentro do governo — mas a tempo pude desenvolver novos programas nela, que a ajudariam quando voltasse para o passado... para consertar a burrada que fiz...
E no fim, Chi também não poderá completar seu objetivo.
Minoru, eu fiz planos como você, que envolviam mexer com as pessoas erradas. Cuidado com essas mesmas pessoas. Eu destruí — sim, indiretamente e sem saber, mas destruí — muitas vidas inocentes. Por favor, não siga os meus passos.


Sua letra começou a ficar mais feia à medida que se espremia no rodapé da página que acabava.


Mas se você achar que pode consertar tudo, então salve essas vidas que seu pai destruiu. Boa sorte. Eu te amo muito, e sinto muito a sua falta. Fale pra Hideki não esquecer de entregar a outra carta a sua mãe Cuide bem da Chi. Seu pai, Ichirô.


— Hideki, tem outro origami no seu bolso?
O persocom fez uma breve busca e logo encontrou mais uma bola de papel amorfa. Minoru a pegou, sério, dando em troca a carta desamassada que tinha em mãos.
— Fale pro Yoshiyuki ler isso enquanto eu vou falar com mamãe.
Chi ficou observando o irmão e Hideki até perdê-los de vista, embaralhando-os em seus próprios devaneios.




(*) A legislatura nacional japonesa é chamada Dieta. A Dieta tem duas câmaras: a Câmara dos Deputados e a Câmara dos Conselheiros. O primeiro-ministro é membro da Dieta.
(tirado de http://www.culturajaponesa.com.br/htm/japao_governo.html)

Chobits, 2097

- capítulo X.





Oh, céus.
As informações das últimas 48 horas vinham como avalanches para cima dos circuitos de Chihiro, que fazia força para guardar e recordar todos os acontecimentos.
Desistiu. Sua cabeça doía. Não esperou por uma primeira ordem; foi direto para sua cama e lá adormeceu, não se importando que ainda fossem quatro horas da tarde, ou que ainda estivesse de vestido. Precisava parar de pensar um pouco, antes que seus neurônios entrassem em curto com seu sistema inorgânico.
~ Uma vez que você tenha me acessado, não pode mais quebrar a conexão ~
Teve sonhos muito conturbados. Estava numa paisagem negra, olhando para seu próprio reflexo no espelho.
Mas aquele reflexo não era Chi.
~ Por que você não quer falar comigo? ~
~ Dói ~,
respondeu.
~ Por que? ~
~ A Chi lembra do papai triste ~

Quando ela fechou seu sorriso, seu reflexo pareceu preocupado.
~ Papai está triste..? ~
Se aquele fosse realmente um espelho, teria visto seu próprio olhar de desdém. Por que estava triste?! Por tantas coisas... oras, nem mesmo em sonhos podia parar de pensar naquelas questões complicadas.
Acordou zonza. Tinham se passado apenas três horas.
— Espero que esteja descansada. Minoru-san decidiu agir hoje à noite — ela ouviu a voz de um Hideki que a observava do batente da porta.
Realmente, não havia como se desligar daquelas questões complicadas.
Como se esquecesse seus trejeitos de criança, suas bochechas subitamente enrubesceram. Voltou a lembrar da notícia do jornal, das recordações no banheiro, e assim não pôde mais agir naturalmente com Hideki – seu futuro esposo.
Novamente, aquilo martelava em sua cabeça. Afinal, o que sentia por ele..?
— Você está bem?
Ao sentar-se, pôs-se a encarar seus próprios joelhos. Como da primeira vez que se encontraram.
A primeira vez...
— Hideki?
— Sim?
“Será você quem vai escolhê-la, e saberá quem ela é no momento certo.”
— O que foi aquilo que a Chi sentiu quando viu Hideki na festa?
— Os persocons têm um sistema de reconhecimento automático, por isso quando tirei os óculos você pôde se lembrar, mesmo que inconscientemente, que eu também possuo uma parte inorgânica.
— Não isso. Antes de Hideki tirar os óculos.
— Antes..?
— A Chi estava nervosa. Ansiosa. Com medo. E depois... feliz... muito feliz.
O persocom entrou por completo no quarto, encostando levemente a porta atrás de si.
— A Chi se lembra que papai deu pra Chi um programa para se apaixonar. Aquilo é paixão?
— Eu não sei, Chi... não tenho esse programa...
— Mesmo assim, é tudo sintético, não é..? A Chi não pode gostar de verdade...
— Não acredita no que Minoru-san disse?
— Sim, mas Minoru-kun também disse que não entende direito de Chobits —
Hideki sentou-se do seu lado da cama e, sem avisar, pegou em sua mão, trazendo-a, junto a sua, até o coração de Chihiro.
— Sente batendo..?
Ela confirmou com a cabeça.
— Essa é a prova de que você também é humana. Enquanto ele se mantiver nesse ritmo, esteja certa de que seus sentimentos vêm direto daqui.
Silêncio. Confortável.
— O coração da Chi bate forte por Hideki.
Não pôde mais controlar seus hormônios. Agora era sua vez de envergonhar-se. Respirou fundo e tentou se manter sério.
— Não deixe que o futuro interfira nas suas decisões presentes.
É. Estava certo. Mas... ah, tudo era tão confuso...
— Vamos pra sala? — ele mudou de assunto antes que se sentisse orgânico demais para poder continuar a conversa. Não poderia deixar o passado interferir nas suas decisões presentes.
Algo o incomodou profundamente naquela conversa. Não sabia o que era, tentou ignorar. Concentrou todas as suas forças no âmbito de voltar suas atenções, como que normalmente, ao sorriso da Chobit. Voltaram para sala, onde Minoru e Yoshiyuki já os aguardavam, ansiosos.
— Prontos?
Confirmaram com a cabeça e, no momento seguinte, cruzavam a porta do hall de entrada que os separava da multidão efervescente. Seus pensamentos foram instantaneamente dissolvidos pela velocidade dos passantes na rua; mais uma vez, seus pensamentos foram deixados de lado. Era hora de trabalhar.
À noite, a fumaça das torres parecia se dissipar para cima, cobrindo como um véu grosso as estrelas no céu. Os letreiros de propagandas adquiriam mais cor e mais brilho, guiando os espremidos contingentes de pessoas e persocons até seus destinos. Com eles não pôde ser diferente. Depois de uma breve caminhada, se viram passando através de uma larga porta contornada por néon vermelho, por baixo dos dizeres que indicavam o nome do local.
Yumi no Ai. Um bar – ou ao menos aparentava ser um –, cujo interior estava tão lotado e barulhento quando seu exterior.
O recinto inicial era muito amplo. Logo à entrada, havia um extenso balcão de bebidas, rodeado por todos os lados por muitas mesas, que abrigavam casais conversando. As paredes eram cobertas por cetim e camurça escuros, tão pretos que pareciam absorver luz. A um canto, havia uma lance de escadas e um elevador que levavam aos andares inferiores.
Sentaram-se diante do balcão.
— Boa noite, Yumi — sorriu Minoru para a atendente, uma jovem de cabelos curtos e negros — Muito trabalho por aqui?
— Como sempre! — respondeu muito alto, reconcertando a voz em seguida — Eu não os esperava até amanhã.
— Nenhuma anfetamina sua poderia deixar alguém mais empolgado que este jovem Minoru, minha cara Yumi! — exclamou Yoshiyuki, fazendo-se ouvir em meio a música alta.
— Isso me deixou feliz. Comprova tudo o que andamos suspeitando. Leia — o garoto entendeu-lhe a carta do pai por baixo da manga do paletó —, e nos prepare o seu melhor estimulante.
Ao inclinar-se discretamente para alcançar o papel, Yumi se adiantou um pouco mais para frente, aproximando-se de Minoru.
— A garota é a sua irmã? — sussurrou.
— A minha preferida — respondeu num sorriso malicioso.
Por um instante, a jovem sumiu atrás do balcão, perdida no meio de garrafas coloridas e clientes carentes. Quando voltou, suas feições eram irritadas. Trouxera consigo dois copos compridos e uma série de frascos disformes, daonde tirou grãos moídos, além de cápsulas minúsculas e arredondadas. Bateu tudo junto a liquido espesso e escuro e... voi là! Estava pronto o coquetel de anfetaminas.
— O que é isso? — perguntou Chi ao ouvido de Hideki.
— Drogas estimulantes. — explicou — Elas mantêm o pessoal daqui animado pra... ahn... mais tarde.
— Isso não faz mal?
— Em doses controladas, não. Mas, pra lhe dizer a verdade, não há limite imposto pelo governo. Cada um toma o quanto quer. As conseqüências futuras são responsabilidade de cada um.
Ela fez cara de preocupada. Adiantou-se para se interpor entre a bebida e o irmão, mas o persocom a deteve.
— Então me deixe experimentar um pouco, se isso não faz mal! — falou, emburrada.
— Você não pode, Chi. Aliás, eu também não — admitiu —. Os efeitos das anfetaminas nos persocons são opostos aos dos humanos, trazendo-lhes sono e fadiga ao invés de excitação e ânimo. Como nós somos formados por ambos os sistemas, esse paradoxo de informações nos desliga.
— Pra sempre?!
— Não... digamos que ficamos em modo de espera — sorriu —, com o programa de proteção inativo. Não temos consciência, e assim não agimos por conta própria. Ficamos à mercê de quem tiver a nossa senha.
A conversa dos dois foi interrompida por um sonoro arroto de Yoshiyuki.
— Senhoritas... e senhor — acrescentou ao encontrar o olhar furioso de Hideki —, me desculpem.
— Estou acostumada — respondeu Yumi, por trás da mão que lhe escondia a risada — Mas voltando ao assunto... eu não os esperava até amanhã. A suíte presidencial está locada.
— Então expulse o locador, ou quantos forem, de lá! — falou Minoru, entre os dentes — Você não poderia ter permitido isso, não antes do combinado. Não quero nenhum tipo de... sujeira por lá.
— Ah, desculpe-me, esqueci que a criança vai entrar — ela mostrou a língua, em deboche — Hoje em dia não há mais censuras desse tipo, não deveria se sentir tão incomodado.
— Minoru é um garoto de família... — zombou Yoshiyuki, sussurrando logo depois um “antiquado!” quase imperceptível.
— Passeiem por aqui. Não é bom que nos vejam numa conversa tão longa. Quando vocês chegarem lá, tudo vai estar vazio. E limpo.
Mais uma vez, ela sumiu entre garrafas e clientes.
Minoru ajeitou o blazer, chegando perto de Hideki.
— Você pode fazer a gentileza de explicar como funciona o lugar..?
— Claro, Minoru-san — ele voltou-se para a Chobit —. Neste primeiro piso, os casais se conhecem. Normalmente, homens se encontram com os persocons femininas que trabalham aqui, mas também existem os masculinos —
— Ah, pare com esse floreio todo, até parece que isto aqui é uma lanchonete! — Yoshiyuki se impacientou.
— Mas não é..? — Chi fez cara de dúvida.
— Na verdade —
— Claro que não! Isto aqui é um bordel!
Chi levou as mãos à boca ao mesmo tempo em que Minoru corou violentamente, pondo-se a girar os botões do blazer. Yoshiyuki, muito pelo contrário, não apresentou sinais de vergonha.
— Seu irmão é do milênio passado, querida. Deixe-me te ensinar as regras do fim do século XXI — com um largo sorriso, ele abraçou Chihiro de lado —. Esta é a maior casa noturna da Ilha Cinza. Os políticos, pensados e cientistas da região, quando se enjoam das suas vidinhas folgadas, vêm “relaxar” aqui. Se entopem de anfetaminas e transam com todos as persocons, até esgotarem as baterias. Hoje, as coisas boas não têm mais censura ou restrição; por isso, até seu pequeno irmão pode entrar livremente e fazer o que quiser com qualquer persocom —
— Mas eu não faço nada disso! — acrescentou Minoru rapidamente, fazendo sinal de abstenção com os braços.
— Os persocons daqui têm diversas aparências, desde crianças a velhos, e diversas orientações sexuais. A maioria trabalha o dia inteiro, e para que seus computadores não surtem eles também se enchem de drogas. Como o efeito neles é inverso — explicou Hideki, olhando para o chão —, eles podem descansar um pouco.
— Agradeça por não trabalhar aqui, haha! — Yoshiyuki riu uma risada própria do coquetel — Vou te dar um mapa daqui. Primeiro andar: encontro de pessoas e persocons. Segundo andar: banho comunitário. Terceiro andar: boate. Quarto andar: quartos comunitários, particulares e a suíte presidencial. O maior centro de diversão underground. Literalmente.
Chi ouviu a tudo isso encarando os próprios pés, embaraçada. Não se atrevia a olhar nos olhos dos três homens que a acompanhavam.
— Não aja com se isso fosse horrível. É natural, e deixa as pessoas felizes!
— Mas... por que a sede da Aliança tinha que ser aqui..? — ela voltou seu rosto para Minoru, desconfiada.
— Hey, não me o-olhe assim! — gaguejou — Aqui, estamos debaixo dos narizes de todos aqueles que nos odeiam. Os políticos não desconfiam daqueles que fazem parte do seu círculo social, e sim quem está fora dele.
— Não é só isso. Todas as reuniões e os aparelhos da Aliança estão na suíte presidencial. O lugar mais privado da região. O único lugar que o Parlamento não quer vigiar – ou melhor, que o vigiem — Yoshiyuki deu uma piscadela maliciosa.
Chi fez força para não imaginar o tipo de coisa que se passava dentro daquelas quatro paredes. Concentrou-se, sim, em aceitar os fatos. Aquele futuro estranho era, a final de contas, o seu mundo. E ela o amava.
Respirando fundo, seguiu-os até o elevador.

Chobits, 2097

- capítulo XI.




A música eletrônica da boate repercutia entre as paredes finas do elevador.


Sukuwarenu karada de odoru shigusa wa
Semiramisu no youni
Utsukushiku
Mi yo udane mogaki kuruimaru karada wo
Holy grail de itadaki e to
Noboritsumereba ii

E o jeito q esse corpo sem salvação dança,

é belo como a Semíramis
Confiantemente se esforça ao dançar loucamente,
e basta levar até o topo
Santo Graal.


O coração de Chihiro pulsava louco ao ritmo da música. Ao mesmo tempo, calafrios começaram a lhe percorrer, uma sensação desagradável lhe encheu o estômago. Algo ansioso, empolgante, assustado e levemente enjoado.
Festa, barulho, flashes seqüenciais.
Virou o pescoço para trás. Voltou a encontrar seus olhos amedrontados nas lentes espelhadas dos óculos de Hideki.
Podia sentir sua respiração de longe. Lembrava-a quente de quando dançavam, entrecortada por seus movimentos, empolgada, empolgante... Por um momento, só mais um, Hideki voltou a ser seu objetivo, sua vontade, sua conquista. Novamente, ela queria tê-lo para si, para dançarem juntos, para serem felizes. Desejava, do fundo de seu coração, que ela pudesse sair de lá, não tivesse que se envolver em questões tão complicadas, não precisasse a encarar aquele mundo tão sujo... Tudo o que queria era viver por viver, como uma menina comum, alheia e ignorante ao seu redor, fútil e inútil.
— Subsolo quatro — a voz do elevador soou sintética aos seus ouvidos, fazendo-a a mergulhar na realidade.
A porta do elevador estava no meio daquele andar em forma de H. Os corredores seguiam a mesma decoração do primeiro andar, negros e brilhantes, iluminados por algumas luzes brancas bem sutis rentes ao chão. O final do segundo corredor, a última porta à direita, escondia os aposentos da suíte presidencial.
Minoru adiantou-se e pressionou toda sua mão esquerda sobre a chapa sensorial metálica. Os circuitos automaticamente reconheceram o visitante previamente cadastrado e com um estalo permitiram que a porta escura fosse aberta.
Dentro, tudo estava na penumbra amarelada. Uma cachoeira artificial fina cobria toda uma parede, conduzindo suas águas para uma piscina de águas espumosas e borbulhantes, em L.Uma cama king size se estendia redonda e vermelha do lado oposto, do lado de um conjunto de frigobar, dois computadores e armários trancados.
Yoshiyuki deixou escapar uma risadinha. Lembrava do conteúdo daqueles armários fechados.
— Ainda bem que está tudo... limpinho — Minoru parecia envergonhado — Ahn... vamos... vamos ligar os computadores.
Enquanto os dois humanos se concentravam no meio de bolos de cabos e conexões, a mente de Chi divagava entre seus dedos e as bolhas mágicas da piscina, seu olhar muito longe dali.
— Está com medo?
Hideki ajoelhou-se ao seu lado.
— Não. A Chi já falou com a outra antes.
-— Antes.?
— Sempre que a Chi se concentra, que a Chi tenta ouvir o próprio coração, acontece. A Chi estava tentando chegar até ela agora. A Chi sabe como é importante. Mas...
Ela abaixou a cabeça.
— A Chi não queria ser tão importante assim. A Chi queria ser normal, pra ser só feliz com Hideki.
Ele sentiu seus hormônios voltarem à ação.
— Mas se você não fosse, nunca poderíamos ter nos conhecido.
A persocom pareceu considerar. Levantou a cabeça e voltou com seu sorriso juvenil.
— É! Tem razão, Hideki!
— Chi, pode vir — a voz de Minoru soava trêmula por trás de seus ombros — Estamos prontos — entre suas mãos que esfregava ansiosamente, um cabo cinza enrolava-se de um lado para o outro.
Automaticamente, Chi abriu um de seus terminais e estabeleceu em si mesma a conexão. No segundo seguinte, ela via em sua mente informações correndo numa velocidade extraordinária, todas elas completando umas às outras.
— Bom, por esse computador lhe damos cobertura. Só dependemos de você para entrarmos no Computador Central. Boa sorte, Chi.
Antes de fechar seus olhos desanimados, Chihiro olhou uma última vez para Hideki. No lugar de seu olhar, encontrou somente sua própria expressão, sóbria e indiferente.
Sim, se não fosse especial jamais o teria conhecido...
~ Conhecido quem? ~
Achou que fosse demorar mais. Não, fora tudo muito rápido. Cinco segundos.
~ Conhecido papai? ~
Também. Afinal, fora ele quem a tinha feito assim...
Pensou alto demais.
~ Assim como? ~
~ Especial. ~
~ Eu também sou especial ~



Minoru, Yoshiyuki e Hideki acompanhavam extasiados a tela do computador. Perante suas vistas estava todo o sistema do Computador Central, detalhe por detalhe, real, como um livro aberto.
Um livro já impresso, que não poderia ser editado. Precisavam que a persocom avançasse mais um pouco para dentro de Freya e pudesse quebrar por completo toda a proteção de seu programa primário.
Desejavam que fosse logo. Estavam lá há quatro horas.



~ Papai também me fez especial. Eu sou muito especial. Eu coordeno todo o mundo, sabia? ~
~ A Chi precisa que pare de fazer isso ~
Ouviu a risada da outra na escuridão.
~ Parar? Não posso. Papai me pôs aqui ~
~ Este mundo é horrível. Cruel. As pessoas pra quem você trabalha são más ~
~ Papai... você me falou de papai da última vez... ~
~ As pessoas do governo são egoístas. Elas pegam tudo para elas, e tiram de todos ~
~ Por que papai está triste? ~
~ Esse mundo feio é coordenado por você ~
~ Por que papai está triste? ~
Freya perdera-se em seus próprios pensamentos, ficara presa a uma única questão. Não queria mais ouvir. Chi começou a perder sua paciência.
~ Você não pode mais permitir que essas coisas ruins continuem acontecendo ~
~ Por que papai está triste? ~
~ Por favor, escute, a Chi precisa de você... ~
~ Por que papai está triste? ~
~Pare com isso, ajude, escute ~
~ Por que papai está triste? ~
~ Papai está triste porque você decepcionou papai! ~



Onze horas depois de terem chegado, o dia já amanhecia. Não sabiam disso pelo nascimento do sol, invisível a muitos metros de terra e concreto acima de suas cabeças, mas sim através do tilintar de relógios e de seus estômagos, famintos.
— Novidades? — a voz de Hiroyasu Ueda, outro membro a Aliança, vinha acompanhada por uma bandeja de café da manhã.
Eles avançaram.
— Quase — resmungou Yoshiyuki de boca cheia — estamos quase lá.
— Vocês não deveriam ter começado isso sem avisar o resto do pessoal. Podiam pelo menos ter marcado uma prévia reunião de emergência.
— Esta fase não precisa de mais ninguém além da Chi — falou Minoru —, quando estiver tudo terminado vamos organizar todo mundo de novo...
— É, pode voltar a trabalhar, senão a Yumi vai começar a desconfiar... três homens juntos na melhor suíte, sozinhos... — Yoshiyuki zombou — Não que eu queira alguma coisa, mas é que o tapa dela dói muito.
Rindo, Ueda deixou o quarto.



~ Eu ... o... decepcionei? ~
~ Sim! Você comanda esse mundo feio, onde as pessoas são egoístas e más! ~
~ Mas eu estou fazendo o que ele pediu. Ele estava feliz quando me deixou aqui ~
~ Papai queria ajudar o Japão a melhorar. Você estragou o Japão. Papai está triste com a Freya, porque Freya traiu papai ~
~ É mentira! ~
~ A Chi não mente. A Chi foi feita pra consertar o que a Freya fez de errado ~
~ Você está invadindo meu sistema de modo suspeito. Saia agora.~
~A Chi não vai sair enquanto a Freya não escutar ~
~ Saia agora ~
~ Não ~
~ Saia! Saia! Saia, saia, saia, saia, saia, saia, saia, saia, saia, SAIA! ~




Foi um pouco antes de completar dezesseis horas de permanência monótona na suíte que eles se assustaram. Caíram da cama king-size onde os três descansavam juntos ao ouvirem o estrondo forte de uma Chi avançando para o chão, estática, gelada.
Com o coração querendo deixá-lo pela boca, Minoru rapidamente arrancou todos os fios que a envolviam. Perderam todas as informações quando programa do computador se desligou instantaneamente. Mas a fisionomia da persocom se manteve a mesma.
— Chi, por favor, acorde...
— Com licença, Minoru-san.
Hideki afastou o abraço do jovem sobre a irmã com um de seus terminais já abertos.
— Não vai conseguir invadi-la, seu sistema é inferior ao dela.
— Senhor, a conexão não cessou somente porque ela foi desconectada do computador. A senhorita Chihiro me disse que ela independe de qualquer máquina ou aparelho para chegar até o Computador Central. Não podemos prever o que está acontecendo. Eu tenho que entrar.
E antes que Minoru pudesse impedi-lo, Hideki se plugou à persocom.
Apagou logo em seguida.



~A Chi não vai sair enquanto a Freya não escutar! ~
A escuridão se dissipou em si mesma, sugando a outra para longe, para o nada. Talvez não tivesse feita força o suficiente, ou talvez seu corpo já não mais suportasse os esforços da mente contra o bloqueio...
Tudo o que sabia é que era o fim. Era o fim, estava acabado, foi-se. Uma enorme dor no peito surpreendentemente surgiu, uma angústia inexplicável, uma vontade infinda de poder falar, se despedir...
Pi. Pi. Pi.
Agora não era a escuridão, era a claridade que havia diante dos olhos. O ambiente chacoalhava muito a sua volta, e uma figura familiar segurava uma de suas mãos, levando-as até seu coração. Ah, mas que dor...
Dor física. Dor mental.
Adeus, diga adeus, mexa-se boca, concretize-se palavra! O mínimo que lhe devia era o adeus, a despedida eterna.
Mas nada acontecia.
— Sinta, meu amor...
Piiiiiiii...

Chobits, 2097

- capítulo XII.




Quando o corpo de Hideki também atingiu o chão, seu computador interno preparando-se para reiniciar em modo de espera, Minoru sabia que era o fim. Passou as mãos pelo rosto até senti-lo vermelho, tentou oxigenar o cérebro movimentando as pernas, andando de um lado para o outro. Em vão. Não conseguia pensar.
Abraçou a irmã.
— A... adeus... adeus... deus...
Os lábios da persocom inconfundivelmente se delinearam numa última surda despedida.
Acabou.
— Yoshiyuki..!
A voz do menino chamando-o era trêmula e amedrontada. O desespero criou um zumbido irritante nos ouvidos de Yoshiyuki e desligou seu cérebro momentaneamente. Antes que pudesse cair em si, já tinha atravessado a porta da suíte, deixando-a escancarada às suas costas.
Veludo, veludo, veludo, rosto desconhecido, veludo, veludo, rosto, veludo. Elevador! Botão. Apertou-o repetidas vezes. Sentiu alguém se esfregando nele por trás. Deu meio volta e empurrou a pesada porta vermelha das escadas de emergência. Degrau, degrau, degrau, degrau, casal desconhecido, degrau, degrau, degrau, degrau, degrau... a música pulsante o lembrou de que havia atingido a boate.
Instantaneamente seus cinco sentidos pararam de funcionar. As luzes piscantes o cegaram, a batida lhe ensurdecia, a fumaça lhe enjoava, a grande quantidade de corpos pálidos se aproximando lhe tirou a noção completa do tato. Entorpecido, tentou se guiar até o bar, no lado oposto, onde talvez pudesse recuperar uma noção mais ampla.
Ah, ali! Baixa, cabelos curtos, próxima ao balcão.
— Yumi! — gritou com todas suas forças, quase sem vê-la — Minoru, problemas, suíte presidencial, invasão, Computador Central, ajuda, rápido!
Não poderia ser mais claro de outra forma. Ao vê-la concordar com o polegar, fez sinal de que subiria para encontrar ajuda nos outros andares e desapareceu entre a multidão.
Dita sorriu para si mesma. Não poderia obter uma informação mais clara de outra forma. Com uma das mãos presas à arma carregada na cintura, dirigiu-se para os elevadores. No meio tempo, mandou um e-mail para Ziemma.
Peguei uns engraçadinhos tentando invadir o Computador Central. Pare de se divertir e vá buscar reforços agora.
Foi assobiando no caminho. Boate, corredor, elevador, corredor. Tudo deveria ser muito escuro, mas seus olhos artificiais sempre a ajudavam a enxergar as mínimas coisas. Se pisava e esbarrava nas pessoas enquanto andava, era proposital. Tinha sido programada por uma pessoa bastante impaciente.
Não teve problemas em identificar a suíte. Sua porta ainda se mantinha aberta. Arrumou os óculos escuros e entrou com a arma já em punho.
— Acabou a brincadeira.
E se viu apontando o revólver para um garoto de catorze anos, cujos olhos estavam vermelhos, inchados e arregalados, de medo e choro.
Não se comoveu.
— Literalmente. Acabou a brincadeira.
Avançando um pouco mais para dentro do quarto, ela teve que se desviar dos dois corpos estendidos no chão. Não pisaria porque precisava reconhecê-los. E reconhecia. Eram os dois persocons da manhã anterior, aqueles que fugiram depois que Ziemma —
— Esses dois persocons são seus, mocinho?
Minoru nunca se vira em situação parecida. O raciocínio e a lógica vagarosamente lhe abandonavam, sua mente parava e esvaziava-se, até que toda calma finalmente fosse substituída por uma sensação nova, um aperto no coração, uma dor no fundo do estômago, uma desconcentração inevitável. Naquele momento, não saberia responder aquela pergunta, porque nem mesmo lembrava como falar.
Uma voz lhe salvou.
— São meus. Deixe o garoto em paz.
Yoshiyuki estava acompanhado pelo gerente Ueda e a dona da casa Yumi. Àquelas alturas, já percebera a confusão que fizera e agora seu coração palpitava desesperadamente em seu peito. Desejava que não fosse tarde demais.
Mudou de idéia quando viu o cano da arma apontar para seu rosto.
— Sabia que um deles quase ferrou com o sistema do meu colega?
Oh, céus. De qualquer forma, já era tarde demais mesmo.
— Talvez ele tivesse merecido.
Ouviu um estalo não muito agradável.
— Você vai merecer uma bala se não calar a boca!
— Que grosseria toda é essa, Dita?
Ziemma empurrou os três humanos para dentro do recinto e fechou a porta delicadamente. Estava desacompanhado.
— Não queremos tumulto, não é mesmo?
— E o resto? E os reforços?
— Achei que só quisesse a minha companhia.
O chute dela quebrou o aquecedor de água da cachoeira artificial.
— Quantos coquetéis você tomou pra aumentar sua lerdeza, hein?
Por alguns segundos, seu olhar saiu de foco. Foi mandar o e-mail por si mesma.
Yoshiyuki aproveitou a oportunidade.
— Meu caro amigo fiscal — ele se aproximou e o abraçou de lado —, acho que sua colega está agindo de forma um tanto quanto precipitada...
— Eu não faria isso se fosse você. O programa dela é impaciente, ciumento e violento.
— O que podemos fazer pra fingir que nada aconteceu? — Ueda abriu a carteira.
— Não somos subordináveis, sinto muito.
— Nem mesmo uma troca de óleo..?
O persocom levantou uma sobrancelha para Yoshiyuki em sinal de reprovação.
— Contenha os seus impulsos. Logo mais E.L.F.O.s chegarão, não há nada que possam fazer.
— Ou que possam tentar fazer — Dita completou, seus olhos já de volta a cor normal —, por isso, calem a boca.
Yoshiyuki passou o olhar da porta, inevitavelmente trancada, para Minoru, indefeso e desesperado. O pior de tudo, incapaz de raciocinar. Não saberia calcular tão rapidamente suas possibilidades. Não poderia arquitetar um plano articulável naqueles últimos instantes. Não. Não tinham mais chances de sobrevivência.
Tudo o que tinha em mente era manter a cabeça do grupo intacta.
— O garoto não tem nada a ver com isso. Solte-o.
Ziemma suspirou, Dita bufou. Impacientes.
— Negativo — disse o persocom.
— Ele não deveria estar aqui. Na verdade, ele atrapalhou tudo.
— Negativo.
— Ele é inocente!
— Pare de insistir!
— Eu insisto!
— Se ele for realmente inocente, o governo o reconhecerá como tal.
— Aaah, por favor! Isso é só mais uma daquelas mentiras que vocês são programados a dizer! Provavelmente ele vai ser torturado só por saber ler e escrever!
— Fique —
— As atitudes que o governo tomará não dizem respeito a nós — Ziemma se pôs na frente de Dita, mantendo firme e imutável o tom de voz —. Não se exalte.
— Não dizem respeito a vocês? Vocês tomam conta dessa população que seus superiores massacram. Massacram! E vocês ainda dizem não ter nada a ver com isso? Soltem-no!
Dita voltou a segurar o revólver. Ziemma não perdeu a postura.
— Controle-se, senhor.
— Não enquanto não pudermos controlar o Computador Central. Não enquanto não pudermos trazer justiça e cidadania de volta para o país — ainda falava muito alto, embora fosse de forma mais pausada e pensada —. Vão solta-lo?
— Não.
O monossílabo soou em seus ouvidos como um chute no estômago. A dor subiu até o coração, explodiu em forma de raiva. Sua mente apagou antes que se desse conta de que havia empurrado o persocom a sua frente, arrancando-lhe a arma da cintura. Já com o objeto em mãos, retomava a consciência. Suas mãos não se moviam à mesma velocidade dos pensamentos. Jamais seria rápido o suficiente.
Droga.
De qualquer forma, já era tarde demais mesmo.
Mirou. Pensou em puxar o gatilho.
Dita concluiu antes.
Ouviu o som rasgante da bala saindo do cano, quase sentiu uma dor perfurando-lhe a cabeça. Mas fora mais rápido do que poderia sequer pensar.
Caiu morto no chão.
— O que pensa que fez? — Ziemma se levantou, mal-humorado.
— Só estou livrando um pouco de espaço na sala — Dita guardou a arma, ainda séria —. Daqui a pouco, isto aqui vai estar cheio de fiscais.
— Não deveria ter matado um civil da Ilha. Pode ser apagada.
— Haha, não se preocupe, lerdinho. Eu gravei a confissão dele. Ele era um caótico, um bruxo, foi homicídio justificado.
— Você sempre consegue justificar.


Minoru não assimilara o último diálogo. O som do tiro ecoava infinitamente em seus ouvidos, como um grito ensurdecedor. Como? O que? Quem? Por que..?
Nos seus braços, Chihiro permanecia fria e estática. Sua pele branca confundia-se com seus cabelos prateados. Mas... algo vermelho atrapalhava o cenário.
Vermelho. Sangue.
Ao voltar o olhar para a recente poça de sangue formada ao seu lado, sua vista voltou a ficar cega pelas lágrimas.
Não seria capaz de pensar. Preferiu ficar inconsciente para nunca mais lembrar daqueles instantes.
— A... adeus... adeus... deus...