- capítulo XI.
A música eletrônica da boate repercutia entre as paredes finas do elevador.
Sukuwarenu karada de odoru shigusa wa
Semiramisu no youni
Utsukushiku
Mi yo udane mogaki kuruimaru karada wo
Holy grail de itadaki e to
Noboritsumereba ii
E o jeito q esse corpo sem salvação dança,
é belo como a Semíramis
Confiantemente se esforça ao dançar loucamente,
e basta levar até o topo
Santo Graal.
O coração de Chihiro pulsava louco ao ritmo da música. Ao mesmo tempo, calafrios começaram a lhe percorrer, uma sensação desagradável lhe encheu o estômago. Algo ansioso, empolgante, assustado e levemente enjoado.
Festa, barulho, flashes seqüenciais.
Virou o pescoço para trás. Voltou a encontrar seus olhos amedrontados nas lentes espelhadas dos óculos de Hideki.
Podia sentir sua respiração de longe. Lembrava-a quente de quando dançavam, entrecortada por seus movimentos, empolgada, empolgante... Por um momento, só mais um, Hideki voltou a ser seu objetivo, sua vontade, sua conquista. Novamente, ela queria tê-lo para si, para dançarem juntos, para serem felizes. Desejava, do fundo de seu coração, que ela pudesse sair de lá, não tivesse que se envolver em questões tão complicadas, não precisasse a encarar aquele mundo tão sujo... Tudo o que queria era viver por viver, como uma menina comum, alheia e ignorante ao seu redor, fútil e inútil.
— Subsolo quatro — a voz do elevador soou sintética aos seus ouvidos, fazendo-a a mergulhar na realidade.
A porta do elevador estava no meio daquele andar em forma de H. Os corredores seguiam a mesma decoração do primeiro andar, negros e brilhantes, iluminados por algumas luzes brancas bem sutis rentes ao chão. O final do segundo corredor, a última porta à direita, escondia os aposentos da suíte presidencial.
Minoru adiantou-se e pressionou toda sua mão esquerda sobre a chapa sensorial metálica. Os circuitos automaticamente reconheceram o visitante previamente cadastrado e com um estalo permitiram que a porta escura fosse aberta.
Dentro, tudo estava na penumbra amarelada. Uma cachoeira artificial fina cobria toda uma parede, conduzindo suas águas para uma piscina de águas espumosas e borbulhantes, em L.Uma cama king size se estendia redonda e vermelha do lado oposto, do lado de um conjunto de frigobar, dois computadores e armários trancados.
Yoshiyuki deixou escapar uma risadinha. Lembrava do conteúdo daqueles armários fechados.
— Ainda bem que está tudo... limpinho — Minoru parecia envergonhado — Ahn... vamos... vamos ligar os computadores.
Enquanto os dois humanos se concentravam no meio de bolos de cabos e conexões, a mente de Chi divagava entre seus dedos e as bolhas mágicas da piscina, seu olhar muito longe dali.
— Está com medo?
Hideki ajoelhou-se ao seu lado.
— Não. A Chi já falou com a outra antes.
-— Antes.?
— Sempre que a Chi se concentra, que a Chi tenta ouvir o próprio coração, acontece. A Chi estava tentando chegar até ela agora. A Chi sabe como é importante. Mas...
Ela abaixou a cabeça.
— A Chi não queria ser tão importante assim. A Chi queria ser normal, pra ser só feliz com Hideki.
Ele sentiu seus hormônios voltarem à ação.
— Mas se você não fosse, nunca poderíamos ter nos conhecido.
A persocom pareceu considerar. Levantou a cabeça e voltou com seu sorriso juvenil.
— É! Tem razão, Hideki!
— Chi, pode vir — a voz de Minoru soava trêmula por trás de seus ombros — Estamos prontos — entre suas mãos que esfregava ansiosamente, um cabo cinza enrolava-se de um lado para o outro.
Automaticamente, Chi abriu um de seus terminais e estabeleceu em si mesma a conexão. No segundo seguinte, ela via em sua mente informações correndo numa velocidade extraordinária, todas elas completando umas às outras.
— Bom, por esse computador lhe damos cobertura. Só dependemos de você para entrarmos no Computador Central. Boa sorte, Chi.
Antes de fechar seus olhos desanimados, Chihiro olhou uma última vez para Hideki. No lugar de seu olhar, encontrou somente sua própria expressão, sóbria e indiferente.
Sim, se não fosse especial jamais o teria conhecido...
~ Conhecido quem? ~
Achou que fosse demorar mais. Não, fora tudo muito rápido. Cinco segundos.
~ Conhecido papai? ~
Também. Afinal, fora ele quem a tinha feito assim...
Pensou alto demais.
~ Assim como? ~
~ Especial. ~
~ Eu também sou especial ~
Minoru, Yoshiyuki e Hideki acompanhavam extasiados a tela do computador. Perante suas vistas estava todo o sistema do Computador Central, detalhe por detalhe, real, como um livro aberto.
Um livro já impresso, que não poderia ser editado. Precisavam que a persocom avançasse mais um pouco para dentro de Freya e pudesse quebrar por completo toda a proteção de seu programa primário.
Desejavam que fosse logo. Estavam lá há quatro horas.
~ Papai também me fez especial. Eu sou muito especial. Eu coordeno todo o mundo, sabia? ~
~ A Chi precisa que pare de fazer isso ~
Ouviu a risada da outra na escuridão.
~ Parar? Não posso. Papai me pôs aqui ~
~ Este mundo é horrível. Cruel. As pessoas pra quem você trabalha são más ~
~ Papai... você me falou de papai da última vez... ~
~ As pessoas do governo são egoístas. Elas pegam tudo para elas, e tiram de todos ~
~ Por que papai está triste? ~
~ Esse mundo feio é coordenado por você ~
~ Por que papai está triste? ~
Freya perdera-se em seus próprios pensamentos, ficara presa a uma única questão. Não queria mais ouvir. Chi começou a perder sua paciência.
~ Você não pode mais permitir que essas coisas ruins continuem acontecendo ~
~ Por que papai está triste? ~
~ Por favor, escute, a Chi precisa de você... ~
~ Por que papai está triste? ~
~Pare com isso, ajude, escute ~
~ Por que papai está triste? ~
~ Papai está triste porque você decepcionou papai! ~
Onze horas depois de terem chegado, o dia já amanhecia. Não sabiam disso pelo nascimento do sol, invisível a muitos metros de terra e concreto acima de suas cabeças, mas sim através do tilintar de relógios e de seus estômagos, famintos.
— Novidades? — a voz de Hiroyasu Ueda, outro membro a Aliança, vinha acompanhada por uma bandeja de café da manhã.
Eles avançaram.
— Quase — resmungou Yoshiyuki de boca cheia — estamos quase lá.
— Vocês não deveriam ter começado isso sem avisar o resto do pessoal. Podiam pelo menos ter marcado uma prévia reunião de emergência.
— Esta fase não precisa de mais ninguém além da Chi — falou Minoru —, quando estiver tudo terminado vamos organizar todo mundo de novo...
— É, pode voltar a trabalhar, senão a Yumi vai começar a desconfiar... três homens juntos na melhor suíte, sozinhos... — Yoshiyuki zombou — Não que eu queira alguma coisa, mas é que o tapa dela dói muito.
Rindo, Ueda deixou o quarto.
~ Eu ... o... decepcionei? ~
~ Sim! Você comanda esse mundo feio, onde as pessoas são egoístas e más! ~
~ Mas eu estou fazendo o que ele pediu. Ele estava feliz quando me deixou aqui ~
~ Papai queria ajudar o Japão a melhorar. Você estragou o Japão. Papai está triste com a Freya, porque Freya traiu papai ~
~ É mentira! ~
~ A Chi não mente. A Chi foi feita pra consertar o que a Freya fez de errado ~
~ Você está invadindo meu sistema de modo suspeito. Saia agora.~
~A Chi não vai sair enquanto a Freya não escutar ~
~ Saia agora ~
~ Não ~
~ Saia! Saia! Saia, saia, saia, saia, saia, saia, saia, saia, saia, SAIA! ~
Foi um pouco antes de completar dezesseis horas de permanência monótona na suíte que eles se assustaram. Caíram da cama king-size onde os três descansavam juntos ao ouvirem o estrondo forte de uma Chi avançando para o chão, estática, gelada.
Com o coração querendo deixá-lo pela boca, Minoru rapidamente arrancou todos os fios que a envolviam. Perderam todas as informações quando programa do computador se desligou instantaneamente. Mas a fisionomia da persocom se manteve a mesma.
— Chi, por favor, acorde...
— Com licença, Minoru-san.
Hideki afastou o abraço do jovem sobre a irmã com um de seus terminais já abertos.
— Não vai conseguir invadi-la, seu sistema é inferior ao dela.
— Senhor, a conexão não cessou somente porque ela foi desconectada do computador. A senhorita Chihiro me disse que ela independe de qualquer máquina ou aparelho para chegar até o Computador Central. Não podemos prever o que está acontecendo. Eu tenho que entrar.
E antes que Minoru pudesse impedi-lo, Hideki se plugou à persocom.
Apagou logo em seguida.
~A Chi não vai sair enquanto a Freya não escutar! ~
A escuridão se dissipou em si mesma, sugando a outra para longe, para o nada. Talvez não tivesse feita força o suficiente, ou talvez seu corpo já não mais suportasse os esforços da mente contra o bloqueio...
Tudo o que sabia é que era o fim. Era o fim, estava acabado, foi-se. Uma enorme dor no peito surpreendentemente surgiu, uma angústia inexplicável, uma vontade infinda de poder falar, se despedir...
Pi. Pi. Pi.
Agora não era a escuridão, era a claridade que havia diante dos olhos. O ambiente chacoalhava muito a sua volta, e uma figura familiar segurava uma de suas mãos, levando-as até seu coração. Ah, mas que dor...
Dor física. Dor mental.
Adeus, diga adeus, mexa-se boca, concretize-se palavra! O mínimo que lhe devia era o adeus, a despedida eterna.
Mas nada acontecia.
— Sinta, meu amor...
Piiiiiiii...
sexta-feira, 23 de março de 2007
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