sexta-feira, 23 de março de 2007

Chobits, 2097

- capítulo XIV.




O reflexo Freya de Chi brilhava na escuridão. Seu sorriso era quase uma vingança.
~ A única menina má é você, Chi ~
Sua voz ecoava numa vibração metálica. Seus ouvidos doeram. Seu sistema comparou a frase com os últimos diálogos salvos em sua memória recente. Aliança, governo, Computador Central, Minoru, invasão. Invasão. Invasão. In... va... são.
O cinismo da outra falava por si só. O objetivo não havia sido atingido. Falharam. Seu peito se contraiu cheio de preocupação.
~ O que... o que aconteceu..? ~
~ Vocês foram descobertos e capturados ~
~ Onde estou..?Cadê... cadê todo mundo..? ~
~ No Prédio Principal do Parlamento. Minoru e os outros membros da Aliança estão em interrogatório. Você e Hideki estão em fase de pesquisa. Yoshiyuki está morto. ~
~ Morto..? ~
~ Morto ~
~ Por que? ~
~ Porque todos vocês se comportaram muito mal. Você mentiu, Chi ~
Ela soltou um gemido de indignação. De decepção. O programa que controlava suas lágrimas começou a funcionar. Era inevitável.
Yoshiyuki era um bom rapaz, lutava por uma causa justa. Ele, seu irmão, Hideki, todos os outros. Injustiçados por tudo o que – não. Não. A culpa não era do governo tirano, dos jovens levianos. Era dela, a Chi, que lhes prometera ajuda, alimentara a esperança, lhes garantira um final feliz, apesar dela própria lamentar seu envolvimento. Não queria ter de se envolver com questões tão complicadas...
Tentou afastar o choro com um balanço de cabeça, mas não pôde. Comprimiu as pálpebras fortes e tornou a abri-las, esperando fugir da escuridão, e não conseguiu. Encontrou apenas a risada divertida de Freya, às suas custas.
~ O que foi?! ~
Sabia que a conexão não seria quebrada enquanto a outra não quisesse. Queria sair do escuro, queria ficar sozinha...
Pensou alto demais.
~ Vou lhe deixar agora. Volto para ver seu sofrimento mais tarde, menina má ~
Suas narinas foram invadidas por um forte cheiro de plástico. O ar era seco, artificialmente filtrado.
Voltou à consciência.
Sua primeira reação foi cobrir os olhos da claridade fluorescente. Depois, encolheu-se ao sentir o contato com o chão gelado. Através do toque de suas mãos, percebeu que seu corpo estava exposto, despido. Retraiu-se ainda mais. Passou os dedos no rosto, apertou os olhos para que parassem de arder. Levou-os até o topo da cabeça. Seus cabelos, anteriormente longos, agora lhe batiam na altura do queixo.
Junto com a consciência voltava sua preocupação. Culpa.
Estava sozinha. Os outros também. Sozinhos, à mercê da ganância, da injustiça, traídos. Ela não teve vontade suficiente para cumprir o prometido. Não queria ter de se envolver em questões tão complicadas – mas era tarde demais para desistir.
— Minoru-kun... Hideki... desculpem... desculpem a Chi...
Já tinha perdido a noção do tempo...



Estavam lá há um mês.
Hideki passava os dias deitado no chão, em posição fetal, as mãos tapando os ouvidos, os olhos arregalados. Tentava desesperadamente não pensar. Lutava para esvaziar a mente a todo custo.
Vagava entre o sonho e o real. O primeiro era mais freqüente. Com o tempo, aprendera a não fechar os olhos para escapar. Contudo, ainda não conseguia deixar de piscar. Suportava ao máximo a secura dos olhos, esperava até que sua visão embaçasse, tomava a decisão com um nó na garganta. Aqueles centésimos de segundo eram o inferno.
Quando piscava, um turbilhão de sensações lhe percorria a pele. Escutava sons inexistentes como se fossem verdadeiros – eram gritos, ordens, choros, explosões, máquinas. Cada repentino fechar de olhos lhe trazia uma imagem diferente, assustadora, sempre pintada de vermelho. De sangue.
Seu coração disparava, levava sobressaltos que lhe fazia imaginar que fosse morrer. Às vezes os pesadelos também lhe davam essa louca vontade de morrer, ali mesmo, logo de uma vez, antes que piorassem. Mas seus instantes de consciência e razão, seu sistema inorgânico e todos os seus programas, ainda o seguravam...
Imaginava que estivesse preso a um cativeiro, vigiado por aqueles falsos espelhos nas paredes. Sabia que estava sendo monitorado por alguma equipe de algum tipo de pesquisadores. Certamente não estava sozinho por ali: às vezes, quando era capaz, notava o aparecimento de um prato de comida num canto do recinto, ou algum novo cheiro no ar. Era como se estivesse sendo estudado – e não tinha dúvidas quanto a isso, nem quanto às circunstâncias que o haviam trazido ali.
Eram elas que atormentavam seus praticamente escassos momentos sanidade.
Tinha quase certeza de que não estava sozinho. Os outros também deviam estar encarcerados, vigiados de perto: Minoru, Yoshiyuki, Yumi, Ueda. Quem sabe até mesmo Chitose Hibya. Mas era com Chihiro que ele estranhamente se preocupava mais, fantasiando tristemente em sua mente situações em que ela estaria só, desprotegida, frágil, imóvel...
Seu peito martelava de forma incômoda. Ele jamais desconfiaria de que aquilo era saudade. Sempre que isso acontecia, ele incondicionalmente era levado a afastar as lágrimas piscando mais uma vez, mergulhando num caos de barulhos e inquietações, e esquecendo-se de todo e qualquer sentimento que não fosse o pânico.
Ao voltar a abrir os olhos, uma seqüência de frases começava a repetir incessantemente em seus ouvidos:
“Sinta, meu amor...”
“A... adeus... adeus... deus...”




“A... adeus... adeus... deus...”
As últimas palavras de sua irmã era tudo o que podia ainda resgatar de todo seu passado.
Com o passar dos dias, Minoru se assustava mais com os próprios gritos, a ponto de não reconhecer mais a própria voz. Foram doses ininterruptas de alucinógeno, ameaças, torturas psicológicas, físicas. Seu corpo estava desgastado, desidratado e subnutrido, os músculos doloridos de não levantar da mesma posição deitada, a pele ainda mais pálida de recinto escuro. Por vezes, em intervalos irregulares, seu organismo tinha espasmos de reação: sua pele começava a suar, calafrios assustadores subiam por sua espinha, a tremedeira fugia do controle. Era imprevisível. Quando a febre o acometia, seus únicos esforços eram para segurar as últimas fagulhas de lucidez.
Esta era uma batalha dura e injusta. Quando ele naturalmente parecia se recuperar, Yuzuki retornava. Somente o balançar do líquido alucinante dentro do frasco era capaz de preencher seus interiores com terror. Passado algum tempo, as baratas acabaram por fazer parte de seus sonhos mais bonitos...
Nestes últimos dias, já perdera o domínio de si. Sua mente estava completamente embaralhada, confusa, quase louca. Minoru não conseguia mais coordenar propriamente os pensamentos ou seguir uma linha de raciocínio, sequer manejar a linguagem adquirida quando criança. Seus esforços para completar ações antes automáticas eram sobre-humanos. Sua memória era rala, uma mistura de rostos e palavras.
Podia lembra-se claramente das feições de uma garota, de uma mulher, de um jovem e... sabia que os conhecia, apesar de não... não... – e qual era mesmo seu nome? Mi – mi –
Mas os movimentos de seus lábios eram únicos e incontroláveis:
— A... adeus... adeus... deus...
No quarto ao lado, três figuras fitavam-no por uma tela fina e cristalina.
— Se antes ele não abria a boca, muito menos agora! — a raiva de Shimbo, invisível na pele cirurgicamente repuxada de seu rosto, explodiu da força de seu punho no móvel mais próximo. O alumínio ficou levemente amassado.
— É o mesmo método dos últimos 30 anos, Hiromu — Takako tinha a entonação desgostosa e autoritária —, o mesmo que nos trouxe até aqui, que deixou aquelas pessoas lá fora a rastejarem feito bichos — ela apontou para a janela, franzindo os lábios com nojo —. Se você tiver uma idéia melhor, sinta-se à vontade.
— Absolutamente não — respondeu, num tom abaixo. Suspirou: — E os outros integrantes do grupo?
— Mortos. A garota Yumi entregou o esquema — disse Yuzuki —. Tinham mais três pessoas além de Yoshiyuki Kojima e Yasuhiro Ueda. Os corpos já foram levados para o refeitório.
Ela abriu um sorriso tão doente quanto o brilho de seus olhos, que passaram do líder do Parlamento até a imagem em alta resolução de um Minoru assustado, gritando. Shimbo compreendeu aquela felicidade repentina, cortando-a ao meio.
— Não. O garoto Kokubunji terá um destino mais cruel do que a morte.
— Mas —?
— Eu quero que ele fique bem perto daqueles que ele tentava defender com todas as forças... quero que ele veja quem realmente precisa de proteção. Ele vai para a Terra Vermelha.
— Totalmente desaconselhável. Ele pode iniciar um motim — retrucou Takako, séria.
— Ah, claro. Isso se ele puder se lembrar o que significa “motim”, ou mesmo conseguir falar —
— Ele é filho de Ichirô. Ichirô Mihora, lembra-se? Aquele que eu reforcei o pedido de morte, posteriormente negado — ela falou entre os dentes —, e que desapareceu sem deixar rastros.
— Sua esposa confirmou sua morte.
— Sem corpo?
— Carbonizado numa daqueles experiências loucas dele.
— Eu não acredito. Vocês não a torturam o suficiente pra que ela falasse a verdade.
— Ele não é mais uma ameaça, de qualquer modo. A questão não é o pai, é o filho. E daquele cérebro não tiramos mais nada. Se uma criança de 14 anos foi capaz de criar aquele sistema de persocom, nossos pesquisadores têm por obrigação desvendá-lo.
— Eles vêm observando a garota há um mês —
— E se não chegaram a nenhuma conclusão ainda, talvez o que falte seja liderança da sua parte.
A mulher ainda não parecia ter aceitado, mas se calou. Sabia que a próxima ameaça seria a descoberta da verdade. Não se atreveria a provar do próprio veneno, da substância que ela mesma, juntamente com sua irmã Yuzuki, tinham desenvolvido. Não gostaria de ter o mesmo fim desagradável que os outros dois membros do Parlamento, líderes do golpe de Estado de 2083.
Hiromu Shimbo gostava de causar esse impacto, mesmo entre os próprios colegas. Abrindo um sorriso que esticava todo seu rosto plastificado, se virou para Yuzuki:
— Chame dois E.L.F.O.s. Alguém vai cair do céu hoje.
E, de fato, poucas horas depois, a população da Terra Vermelha rodeava, curiosa, a nova criatura vinda do alto dos castelos metálicos, vinda do céu.

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