- capítulo III.
Minoru guiou Chi e Hideki para fora do quarto branco em direção à terceira porta da direita. Ela escondia um cômodo pequeno, formado apenas por uma cama ao fundo e um computador rente à parede. Não havia janelas, mas o sistema de ventilação o mantinha fresco.
— Sentem-se. Vou conectá-los ao computador.
Os dois persocons sentaram-se lado a lado na cama, Chi mais próxima da máquina, o olhar muito apreensivo. Intimamente, ela sabia o que seria feito, mas suas lembranças mais recentes ainda entravam conflito com as antigas. Sabia que Minoru iria conectá-la ao computador pelos terminais e... – terminais?! Levou a mão às orelhas, e sentiu-as extrapolarem as curvas do cabelo, mais largas e baixas. Seus terminais de persocom.
Persocom. Sim, ela era uma.
Era?
Conectou-se, ainda que naturalmente, ao microcomputador, esperando algum sinal na tela. Minoru franzia muito a testa enquanto digitava.
— Vá me dizendo em orem cronológica de eventos tudo o que se lembra, Chi. Vou ver se consigo quebrar o bloqueio.
Respirou bem fundo, até sentir seus pulmões completamente cheios.
Pulmões... artificiais?!
— A Chi se lembra primeiro... quando papai fez a Chi. Ele sorriu muito e abraçou a Chi. A mamãe também ficou feliz. Mas parecia preocupada — ela fechou os olhos — A Chi ama muito os dois...
Ela espiou a tela a que estava conectada, avistando apenas símbolos verdes e seqüenciais. Lá suas lembranças deveriam aparecer em cenas — de alguma forma, sabia disso —, mas a conexão parecia não ter sido estabelecida propriamente. Talvez um programa seu a bloqueasse...
Programa?!
— A Chi também lembra quando Minoru-kun nasceu... Mamãe parecia mais feliz. Papai parecia mais preocupado. Chi ficou feliz, muito feliz com o irmãozinho... ele era pequenininho, menor do que a Chi quando a Chi nasceu. Não sabia fazer nada sozinho... — ela deu uma leve risada, que foi acompanhada por algumas vibrações do monitor.
— Quando anos a Chi tinha? — perguntou Minoru, atento à imagem, esperançoso.
— Fazia dois anos desde que papai tinha terminado a Chi. Mas a Chi já tinha cinco...
Nenhum movimento.
Suspiro.
— O que a Chi fazia?
— A Chi brincava com Minoru-kun — respondeu sorrindo —, até ele crescer. Minrou-kun tinha aulas com a mamãe em casa, e a Chi recebia os programas que o papai fazia pra Chi. Quase sempre tinha um novo, porque a Chi tava crescendo, e o papai... o papai não sabia arrumar direito a Chi... ele dizia que a Chi era especial, e por isso tinha que ser programada com carinho...
A descrição mais detalhada levou a uma nova movimentação na tela, onde se podiam distinguir vultos. Em cima da cama, o abalo a fazia tremer.
— A Chi teve que ir embora por causa das pessoas pra quem papai fez a Chi... papai ia dar a Chi pra ajudar as pessoas, mas elas foram más... iam fazer a Chi triste... como... como... — ela pôs as mãos sobre os terminais — como aconteceu com a outra... lembra quando papai falava da outra..?
Minoru desviou toda a atenção do computador à irmã, ajeitando o blazer.
— Não.
— Papai falava triste... como as pessoas eram egoístas — lágrimas peroladas rolavam desesperadas pelo seu rosto pálido —, como eram más, como a faziam sofrer... papai falava que a Chi não iria mais pra perto deles, porque a Chi era especial demais pra que papai e mamãe vissem a Chi sofrendo... então a Chi foi pra longe... ajudar outras pessoas... encontrar alguém s-só para a Chi..
Soluços já não podiam mais ser travados pela garganta, engasgando em sua já mal formada fala. E quando Hideki pousou levemente a mão sobre seu ombro, num gesto de consolo, ela deu um pulo, fitando o rosto do jovem persocom numa mistura de surpresa e pavor.
Festa, barulho, flashs seqüenciais.
Ela era Chihiro? Ou ela era a Chi?
— Minoru-kun... papai e mamãe não queriam ficar longe da Chi, porque eles amavam a Chi... a Chi também ama papai e mamãe... mas é de verdade? É do mesmo jeito? Ou é só um programa da Chi?
Profundo suspiro.
— A Chi não ama de verdade? É tudo mentira?
Soluço.
— Papai disse que a Chi é especial, não disse? — perguntou Minoru, sério.
Confirmação com a cabeça.
— E você acredita no papai, não é?
Nova confirmação.
— A Chi é especial pro papai não só porque papai te ama. A Chi é uma persocom especial, diferente dos outros, porque é quase uma pessoa de verdade. Você, Chi, tem um sistema orgânico também.
Silêncio.
— Você foi chamada de Chobit pelo papai, assim como eu chamo o Hideki de Chobit também. Vocês dois têm partes orgânicas, só que são princípios diferentes.
Silêncio. Desconfortável.
— O Hideki foi criado por mim a partir de um corpo congelado por criogenia, método que o mantém intocado, e depois foram instaladas suas partes inorgânicas – de persocom – que comandam funções que não podem ser cumpridas por tecidos mortos. Mas o Hideki tem um cérebro humano, e por mais que ele seja comandado por um computador interno, eu acredito que ele seja capaz de sentir como um ser humano.
— Você, Chi — ele continuou —, foi feita pelo papai por um princípio inverso, quando ele primeiro fez seu computador e depois criou a menina Chi in vitro, desenvolvendo os sistemas orgânico e inorgânico ao mesmo tempo. Você também tem um cérebro humano e sente como uma pessoa de verdade.
— Quer uma prova de que isto não é mentira? — ele se aproximou e pegou na mão dos dois — Vocês são tão humanos que estão em constante envelhecimento, como eu. O computador poderá continuar condenando suas funções, mas células envelhecidas chegam a um tal estágio que devem ser trocadas, até que vocês se tornem persocons completos.
— Mas vocês ainda não chegaram nesse nível. São tão jovens quanto eu — ele deu um sorriso sincero.
Silêncio. Não havia mais soluços.
— Por isso... por isso que o papai ficava instalando programas na Chi toda hora?
— Como você disse, o papai não sabia como era ter uma menina crescendo com um sistema inorgânico. Ele tinha que cuidar da Chobit dele pra que nada desse errado, sempre atualizando o que fosse necessário, e a Chi crescer direito. E ele fazia tudo isso com muito carinho, não é?
Ela sorriu, desconcertada.
— E a outra..?
Os botões do blazer se tornaram interessantes.
— Eu trouxe você aqui pra me ajudar a respeito dela.
— A Chi lembra pouco do que o papai falava... eu lembro que ela... que ela é bem parecida com a Chi...
O bloqueio finalmente cedeu. Agora, as antigas lembranças percorriam-lhe como novas dentre os neurônios e chips, revelando livremente sobre a tela do computador a imagem que lhe vinha à cabeça: uma cinza Chi mergulhada num sono cinzento, preso a diversos cabos feios e cinzas.
Poderia parecer, mas não era a Chi.
Minoru salvou a única imagem obtida, e em seguida abraçou a irmã, com vontade.
— Estou muito feliz de ter você por perto de novo.
Ela sorriu, numa sincera retribuição. Voltou-se para Hideki.
“— Então, pra mim você é a Chi.”
Então, pra ela, ela era a Chihiro, a Chi.
— Posso te levar até o seu antigo quarto? Seria bom que você descansasse um pouco agora — Hideki se levantou, a postos – na verdade, envergonhou-se perante o olhar da menina.
— Ainda não conferi seus dados e —
— Foi somente um pequeno erro no sistema, Minoru-san, não se preocupe.
E estendo a mão para a jovem, os dois persocons deixaram que o garoto pensasse com os botões do seu terno, só.
sexta-feira, 23 de março de 2007
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