- capítulo VII.
A caminhada dos três pelos subterrâneos do Japão foi curta e calada. Logo, eles se viram seguramente presos entre as paredes do luxuoso apartamento de Minoru – confortavelmente seguros e repugnantemente sujos, com suas roupas pingando de lama e terra. Cada um se dirigiu para um aposento, deixando um rastro de poeira atrás.
Chi encostou a porta do quarto e ligou o chuveiro da suíte, e assim todo o cômodo ficou envolto pelo vapor quente. Despiu-se e enfiou-se embaixo da cascata de água, deixando com que toda a sujeira e o cansaço da manhã fossem embora pelo ralo. Eram duas horas da tarde.
Todos os dias, naquele horário, seu pai a chamava do escritório e para lá ela ia, quando se sentavam lado a lado e ele se punha a contar-lhe histórias. Abria livros antigos e imagens no computador, mostrava feitos de pessoas que há muito tempo já se tinha ido, lugares que há muito já se tinham perdido... um Japão diferente daquela massa fria e escura.
“Aqui, as pessoas eram felizes e não sabiam”, disse-lhe uma vez. “A busca pela felicidade resultou no inferno que vivemos hoje. Não é proibido ser feliz, Chi; o grande problema é o egoísmo.
Hoje eu vou lhe dar um último programa. Você sabe que você é quase uma menina. Como nós, você sente, você ama. Você não ama papai, mamãe e Minoru-kun?”
“Amo”, disse a voz de uma Chi menininha, nas suas lembranças.
“Mas esse amor não é humano. Ele não é egoísta. Ele é amplo, geral. Você gosta da mamãe, mas não se importa se não tiver o amor dela só para você. Não se importa de ter que dividi-lo com seu irmão, não é?”
“Isso é errado?”
“Não, pelo contrário, isso é lindo. Todos deveriam ser assim, mas ninguém é. Não nos importamos coma felicidade do ser amado, mas sim se o sentimento é recíproco. E se não for, sofremos muito.
Apesar disso, o programa que vou lhe dar é exatamente para lhe dar essa característica: se apaixonar. A paixão é um sentimento incondicional, avassalador, repentino. Ele traz o ciúme. O amor egoísta.
Não quero que faça essa cara de choro, Chi. Você tem que ficar feliz com o que estou lhe dando. Agora, você se tornou mais próxima ainda de uma humana. Você é capaz de nos entender – e a melhor maneira de se consertar um defeito, é conhecendo-o profundamente. Você vai poder ajudar a humanidade a progredir, a fugir do seu destino sombrio. Vai poder ser feliz do lado da pessoa só sua.”
“A pessoa só para a Chi..?”
“Sim. É ela que vai cuidar de você, quando papai e mamãe estiverem bem velhinhos, quando você for pra nunca mais voltar... Ela vai cuidar de você e te guiar, porque ela vai ser perfeita pra você. Será você quem vai escolhê-la, e saberá quem ela é no momento certo Você será feliz para sempre, como uma princesa dos contos de fada..”
O fim daquela lembrança acordou Chi com um solavanco do seu corpo. Desligou o chuveiro assustada e foi procurar uma toalha, molhando todo o chão do banheiro. Quando encontrou, envolveu-se no seu tecido felpudo, como se aquilo pudesse lhe consolar do passado.
Seu pai tinha-lhe planejado toda uma vida atrás no tempo, em 1997. Queria que casasse, queria que fosse independente, queria que salvasse... o mundo? E não seria ele grande demais para uma persocom só? – ou seriam dois, ela e Hideki..?
Hideki. Levantou-se de súbito.
Seu pai não considerava uma possível volta para o futuro. Quando você for pra nunca mais voltar. Mas então, como poderia estar casada com Hideki no passado? Será você quem vai escolhê-la, e saberá quem ela é no momento certo. Será que o que sentiu por Hideki quando o viu na festa o marcava como a pessoa só para ela..? Mesmo que hoje ela não sentisse mais nada daquilo..?
Afinal, o que sentia por Hideki?
Encostando-se na parede úmida do banheiro, ela fechou os olhos e limpou a mente. Concentrou-se bem fundo no seu ser, na sua própria figura, esperando a resposta do seu coração.
Foi então que ela ouviu a voz.
~ Você voltou? ~
Não respondeu.
~ Veio me ajudar? ~
Era ela. Sabia, apenas sabia.
~ Papai também voltou para mim? ~
Chi forçou-se a abrir os olhos e espantar aquela voz para fora de sua mente. Não, não podia suportá-la falando de seu pai, aquele que tanto sofreu por causa dela. Por causa da outra.
Procurou alegria, mas em resposta seu coração doeu. Mas aquilo não tinha nenhuma ligação com Hideki. Não podia ter. Não queria que tivesse.
Escolheu um vestido qualquer no guarda-roupa e saiu.
— Hideki?
O corredor estava vazio.
— Minoru-kun?
Não havia vozes além das paredes.
— Yoshiyuki-san?
O único som que se podia ouvir era um cantar, bem suave, no quarto ao lado.
Tatoe tookute mo
Kitto tadoritsukeru
Tsuyoku shinjite’ta
Ano hi no watashi ga
Ima mo kokoro de nemutte-iru...
Eu costumava acreditar, sem duvidas
Que poderia alcançar meus sonhos
Não importando o quão distantes eles estivessem
Mas o “eu” daquele tempo agora está adormecido em meu coração
Chihiro encostou levemente o rosto da porta de madeira e pôs-se a ouvir. Conhecia aquela música, conhecia aquela voz. Estava mais velha e mais cansada, e tinha um tom de tristeza também. Mas ainda assim pertencia àquela pessoa que ela tanto amava.
Sua mãe.
Abaixou a maçaneta e entrou, sem fazer barulho.
A primeiro momento, não conseguiu identificar o cômodo. Ele estava mergulhado na escuridão, profunda demais para seus olhos acostumados à claridade das lâmpadas fluorescentes. Aos poucos, formas começaram a se delinear, e Chi pôde identificar uma figura sentada numa cama larga e alta. Ela estava encolhida a um canto, envolvendo os dois joelhos com os braços, balançando no ritmo melancólico da música.
Chi se aproximou até ficar frente a frente com a mulher. Seus cabelos cobriam-lhe o rosto bonito das lembranças da filha.
Chitose Hibya deu um pulo ao vê-la.
— Quem é você?! — estava rouca, como se há muito não falasse..
— Sou a Chi, mamãe.
— Você é muito grande para ser a minha pequenina Chi. Além do mais — ela acrescentou, com uma voz de choro —, ela foi embora com Ichirô. Ele prometeu que um dia voltaria. Mas a minha filhinha não volta nunca mais.
Chihiro sentiu um nó na garganta. Deixou uma lágrima escorrer enquanto ouvia os murmúrios de sua mãe.
— Aaaah, meu Ichirô. Meu amor. Meu querido. Você disse que voltava. Volta, não é mesmo? Eu sei que volta. Volta sim. Volta. Volta. Volta. Meu amor. Vai cuidar da nossa filhinha e vai voltar. Volta. Vamos nos divertir tanto quando você voltar. Vai ser quando éramos jovens. Quando você voltar. Volta. Volta...
Ela cantava aquelas palavras na melodia da música anterior. As notas enchiam o ar com uma depressão densa, negra, úmida de lágrimas e congelante de corações. Sua mãe estava feia, triste, fraca; ela estava morrendo, se matando, na espera vã do seu amado.
Chi não pôde suportar por muito tempo. Mesmo que a mãe não a reconhecesse, ela não deixava de estar lá, e não deixaria também de lhe ajudar. Deu-lhe um abraço.
Chitose empurrou com sua pouca força e deu um grito insano.
— Sai! SAI! EU SEI QUEM VOCÊ É!
— Mamã —
— VOCÊ É A OUTRA PERSOCOM! SAI! SAI, SUA NOJENTA!
Ela ficou de pé na cama e, segurando Chi, começou a chacoalhá-la violentamente.
— VOCÊ FEZ ICHIRÔ SOFRER! VOCÊ O FEZ CHORAR! VOCÊ O TRAIU COM AQUELAS PESSOAS, SUA COISA!
A porta do quarto escancarou-se e por ela prorrompeu Minoru, Hideki e Yoshiyuki, todos com os rostos alarmados.
— MINORU! — ela se jogou nos braços do filho — Minoru, a Freya está aqui, ela entrou para judiar de mim, para me lembrar de coisas horríveis — SAIAM DAQUI VOCÊS! NOJENTOS DO GOVERNO, SUJOS —
Novamente, ela começou a gritar descontroladamente, agora em direção a Hideki e a Yoshiyuki, quem ela não reconhecia. Eles levaram Chi para fora do quarto, fugindo dos berros descontrolados.
— Calma, mamãe, eles já estão indo embora — Minoru passava a mão carinhosamente sobre seus braços, fracos e pálidos — Eles nunca mais voltarão —
— Quem é você para me chamar de mamãe? Pensa que pode me enganar, com fez a outra, dizendo-se o Minoru? Sai daqui! SAI!
Ele saiu correndo de dentro, tomando o cuidado de trancar a porta atrás de si.
Novamente, a casa foi tomada pelo silêncio. No fundo, só se ouvia uma música a ser cantada, bem suave.
Hito wa hitori da to
Wakariaitai no ni
Nante muzukashii
Kotoba wa muryoku de
Toki ni wa gin no NAIFU ni naru...
Mesmo que estejam sozinhas as pessoas querem compartilhar seus sentimentos
mas às vezes, é tão difícil.
Palavras são impotentes para expressar os sentimentos de alguém
E às vezes elas machucam como facas prateadas
sexta-feira, 23 de março de 2007
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