- capítulo V.
Chi não se desesperou nem um pouco ao ver-se perdida no meio daquela louca multidão. Deixou-se guiar pelos seus instintos — isto é, por seus possíveis radares de localização e por suas ralas memórias.
Caminhou de cabeça baixa até seus pés a guiarem até um trecho sem saída, onde seus olhos verificavam o término do chão de cimento e o início da terra avermelhada. Entre ela e o resto do mundo, havia uma pequena cerca de poliestireno. Levantou o olhar.
Se os prédios eram infindos até o céu, o horizonte que se projetava adiante conseguia aparentar ser ainda mais vasto. Manchas vermelhas alcançavam até onde a vista se cansava, cheias de pontinhos assustados e desorganizados. Eles arrastavam-se na terra suja, alguns concentrados em grupos em torno de fogueiras recém-formadas, espantados com aquela forma de energia mágica. Outros punham-se depressivamente a regar pequenas hortas, secas e mal-cuidadas, na vã esperança de novos frutos. Havia também uma grande maioria que tentava reerguer precárias construções, onde aparentemente moravam, fazendo e amontoando bolas de lama.
Mais perto de Chi, um grupo razoavelmente grande de crianças brincava de uma espécie de pega-pega selvagem. Os escolhidos pegadores ferozmente corriam atrás de seus colegas, avançando sobre eles e desferindo mordidas e arranhões nos pegos. Um jogo de caça.
Chi observava de longe enquanto a turma de pegadores estrategicamente se unia em torno de uma mesma criança, primeiro os menores e vagarosos, “engolindo-a” em seguida, tomando-a como novo integrante do grupo. A cada soco, ela escondia os olhos entre os dedos.
Mas ela não pôde deixar de notar os gritos desesperados da última menina que sobrara. Ela pulou a cerca de plástico e, equilibrando-se para não escorregar, pôs-se entre os choros e os berros.
— Não!
Instantaneamente, eles pararam, como que congelados. Pareciam assustados. Ela então aproveitou a deixa e virou-se, estendendo a mão para ajudar a pequena menina que ainda soluçava atrás de seu vestido.
— A menininha está be —
— Bruxa! — Chi foi recebida com um ardido tapa na palma da mão — Sai daqui! Deixa a gente em paz!
A primeira pedra havia sido jogada. Literalmente. Chi afagou o machucado da cabeça e, por pouco, teria recebido outra pedrada no estômago.
— Bruxa! Vai embora!
— Bruxa!
— BRUXA!
Logo, uma roda formava-se em torno da persocom, e mesmo a menininha chorosa estava agora rosnando e mostrando os dentes. Sim, era uma alcatéia de pequenos lobos, lobos humanos, e Chi não era, visivelmente, aceita. Antes que o círculo se fechasse, ela voltou correndo pelo mesmo caminho que viera, fugindo das agressões físicas e orais.
Felizmente, à altura da cerca, ninguém mais parecia estar mais disposto a espantá-la. Voltaram todos sorridentes, mostrando as presas, felizes por terem sido capazes de defender “a tribo”. Caçadores.
— Chi!
Atrás da cerca, a voz de Hideki ecoou para seus ouvidos.
— O que aconteceu?
Ela estava suja, ferida e prestes a chorar. Seu vestido, antes branco, estava vermelho. Vermelho sangue, vermelho terra, vermelho violência.
Hideki pulou a cerca e abraçou a persocom.
— A Chi foi tentar ajudar a menininha... e as crianças brigaram com a Chi, espantaram a Chi, machucaram, odiaram! — disse, afagando-se no peito de Hideki — Por que... por que a Chi é uma bruxa?
Hideki pegou um lenço de um dos muitos bolsos do seu paletó e começou a enxugar delicadamente o sangue que escorria em uma das bochechas e nos braços de Chihiro. Deu um longo suspiro.
— Vê aqueles prédios atrás de mim, os maiores?
Ela assentiu.
— Lá moram e trabalham as pessoas mais ricas e influentes da região. Fazem parte direta ou indiretamente do governo, o que quer dizer que ou são políticos, ou ajudam políticos. São poucos os que têm essa “sorte” — ele enfatizou negativamente a palavra —. Minoru-san é um deles, porque o pai de vocês criou a tecnologia dos persocons.
Tirou do mesmo bolso uma espécie de remédios e passou a fazer curativos.
— Aquele bolo cinza domina muito bem a tecnologia disponível. Ou melhor, os governantes dominam toda a tecnologia a favor deles mesmos e da economia. O resto da população, a grande maioria, não tem acesso a nada, mesmo a coisas simples como isqueiros ou canetas...
— Políticos são pessoas tão más assim..? — perguntou, num tom triste — Por que os outros não podem viver igual?
— Estes são muito egoístas... egocêntricos... e medrosos. Minoru-san disse-me uma vez que tudo isso é medo de perderem o controle. Quanto mais ignorante a população for, menos revoltosos e menos crises existirão. Mas eles ainda dependem daqueles que lhe fornecem o conforto, e por isso a Massa Cinza mantém um tamanho razoável.
Ficou inquieta, e não deixou Hideki terminar de limpar o corte em seu rosto.
— Mas a Chi não entende... como eles podem viver tão perto e não saber de nada?!
— O governo tem tudo sob controle. Freqüentemente algum representante vem à população para mantê-la calma. Também existem os fiscais que não permitem que ninguém da Ilha Cinza se aproxime da Terra Vermelha. Eles são os E.L.F.O.s: Elementos Ligados às Forças Organizacionais.
— Mas as pessoas daqui não sabem o que significa a sigla — continuou —. Os conhecem apenas por elfos. Para eles, os elfos são aqueles que os protegem. E bruxos e bruxas são aqueles de quem eles não podem se aproximar, ditos como maus pelo governo, mas que são somente aqueles sem o uniforme, e fora da cúpula do poder.
— Por isso a Chi é uma bruxa... mas a Chi é boazinha...
— Eu sei disso. Mas se você não tem o uniforme com o símbolo do Parlamento, é vista como perigosa. Essas pessoas, Chi, são selvagens porque não têm a oportunidade de conhecer outros modos de vida. E quanto mais animais eles forem, mais e mais eles serão controlados.
— Isso é errado...
Chihiro mais uma vez encostou-se no peito de Hideki. Fechou os olhos. Não queria olhar para nenhum dos lados, nem para a Ilha Cinza, nem para a Terra Vermelha. Sentia uma dor, um pesar tremendo no coração, algo mais parecido com pena. Sim, coitados daqueles que não vêem – porque não querem e porque não podem.
Claramente ouviu as palavras de seu pai em seu ouvido. “São ingratos. Eu desenvolvi os persocons para ajudar a humanidade, e não só para um grupo de macacos egoístas”.
“Por isso você vai pra longe, Chi. Para ajudar a humanidade, e impedir que eles voltem a ser macacos no nosso presente”.
— Que lindo casal de persocons!
Eles pularam ao serem surpreendidos pela cínica voz feminina. Ela pertencia a uma persocom de aparência humana, menor que os dois, e que estava acompanhada por outro, masculino, muito mais alto. Usavam trajes escuros, com um brasão verde estampado na frente.
O símbolo do Parlamento.
— Seus registros, por favor. Seus mestres não disseram que esta área é proibida?
— Nós caímos sem querer — respondeu Hideki, com um sorriso simpático. Mas não houve reciprocidade.
— Deu pra ver. Ela tá acabada.
— Dita, seja mais delicada, por favor... — falou o persocom mais alto.
— Estou trabalhando, Ziemma! Onde estão os registros?
Hideki entregou em suas mãos seu documento azul e mais um outro. Na verdade, aquele fora pertencente à Chi na época em que seu pai a registrara, e a foto portanto forneceria uma imagem de uma Chihiro muito mais nova.
— Ha-ha. Muito engraçado. Todos nós pertencemos a Ichirô Mihora — Dita olhou para Chi, se referindo ao nome do mestre —. Quero seus documentos verdadeiros, mocinha.
— Mas este é o documento da Chi de verdade — respondeu, reconhecendo-o.
— Ziemma, faça com que ela diga a verdade.
— Por favor, minha querida, não temos que invadir o sistema dela. Basta colocá-los do outro lado da cerca e estará tudo OK... — ele parecia calmo e paciente.
— Não me chame de querida! Siga seu programa e trabalhe! — bufou, tirando do casaco de Ziemma um cabo negro, e conectou na orelha de Chihiro. A outra ponta, ela estendo para o companheiro — Eu não te alcanço. Tente não me irritar e trabalhar direito agora.
Hideki achou melhor não contrariá-los. Disfarçadamente, mandou um e-mail para Minoru com um breve vídeo do acontecimento, e ansiosamente esperou por uma resposta rápida e direta. Enquanto isso, apenas contentou-se em observar o persocom invadindo a configuração e os registros de sua acompanhante, calado.
Mas foi por pouco tempo. Poucos segundos depois de estabelecida a conexão, Ziemma desfaleceu. Ou, para um persocom, apresentou um erro no sistema e ficou inativo até reiniciar em modo de segurança. Dita olhou de Chihiro para o colega caído no chão, numa mistura de choque e pavor.
— O que..?
Hideki não aguardou por uma resposta de Minoru. Antes que Dita voltasse a olhá-los, agarrou a mão de Chi e saiu correndo.
sexta-feira, 23 de março de 2007
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