sexta-feira, 23 de março de 2007

Chobits, 2097

- capítulo VI.




— Hideki, está me ouvindo?
— Sim... Minoru-san...
— Por que demorou tanto pra atender a ligação?
— Porque... senhor... estamos fugindo... da fiscal... — ele mandou os vídeos em tempo real para seu mestre, enquanto ambos Hideki e Chi corriam descontroladamente entre o pó vermelho, sem olhar para trás.
A voz de Minoru soava dentro da cabeça do seu persocom.
— O mapa está aberto na minha frente. Eu vou lhes dizer para aonde vocês devem se dirigir. Não saiam de lá até encontrarem com alguém mandado por mim, entendido?
— Sim... Minoru-san...
— Daqui a 7 metros, virem à esquerda.
Viraram; entraram num corredor estreito de cabanas caindo e pessoas andando. Pararam um pouco pra pensar. Hideki segurou a mão de Chi ainda mais forte pelo pulso e seguiram reto novamente, não diminuindo a velocidade enquanto se desviavam dos obstáculos.
— Direita, agora.
O corredor estreitou-se ainda mais.
Alguns segundos depois de terem se infiltrado na multidão, uma das cabanas desmoronou, à direita.Hideki puxou Chi para mais junto de si, protegendo-a dos destroços. No momento seguinte, o contingente de pessoas se desviou até o acidente, liberando caminho.
— Vire à esquerda no corredor mais escuro.
Não tiveram dificuldades para encontrar o lugar a que Minoru se referia. Caminharam mais alguns passos e logo viram um canto mais abandonado, que se estendia até o dito local. Uma névoa espessa dificultava a visibilidade. O ar sombrio afastava os passantes. Começaram a aparecer chiados na comunicação.
— Esta é a área amaldiçoada. Dificilmente eles rastreiam ligações aqui, mas não vamos arriscar. Você sabe aonde deve ir. Boa sorte.
Desligou.
— O que é aqui, Hideki..? — soou a voz de Chi, impressionada.
— O governo diz que as casas daqui são mal-assombradas — disse, adentrando — Na verdade, foram construídas para esconder alguns locais da civilização antiga, que sobreviveram e um dia lhes foram úteis. Ninguém da Terra Vermelha pode chegar aqui. Há muita informação por trás dessas paredes feias.
Ele se postou em frente de umas das casas mais ao fundo. Como as outras daquele corredor e diferente das que a população vivia, ela era de madeira. Isso garantia a maior sustentabilidade e dificultava a entrada de pessoas indesejadas. Suas portas e paredes estavam trancadas, pregadas por tábuas disformes em forma de X, impossibilitando a passagem.
Contudo, Hideki não se intimidou. Aumentando a força dos músculos da perna, ele deu um chute na porta. A madeira velha, depois de uma seqüência de cinco chutes, finalmente cedeu. Mais daquela névoa negra saiu de dentro.
Às tosses, entraram. Logo à entrada, foram obrigados a descer por uma ladeira muito íngreme. Tinham que se manter agachados e se segurar no chão para não escorregarem. Mas Chi deu um passo em falso.
— Aaaaaaiii..!
Ela trombou com o Hideki que estava a sua frente e juntos eles rolaram pelo chão, batendo em pedras e pedaços de madeira. A escuridão linearmente se tornava mais densa, até que finalmente eles não podiam mais ver um ao outro.
— ChIiIIiiiiIIIii — gritou Hideki, a entonação de voz mudando a cada virada que seu corpo dava — cAaAAAadêÊ — AI!
Chi ouviu um estrondo de duas coisas pesadas se chocando, até que ela foi a próxima a sentir seu próprio corpo encontrando-se violentamente contra uma parede de madeira.
Luz. Os olhos de Chihiro ficaram momentaneamente cegos com o feixe de luz que apontava diretamente para seu rosto.
— Hideki, apague isso! A Chi não enxerga!
O persocom apagou a lanterna que segurava em sua mãos. Era mais um dos muitos objetos que surpreendentemente carregava nos bolsos do paletó.
— Desculpe — ele voltou a acendê-la em outra direção — Você está bem?
— A cabeça da Chi dói... mas a Chi consegue ficar de pé.
Ela levantou-se se apoiando na irregularidade da parede, e o mesmo fez Hideki. Ele iluminou o espaço a sua direita, revelando um novo corredor. Seus dois lados eram ocupados por estantes, cheias de jornais antigos. Chi se adiantou até um, pegando-o. Parecia novo.
— Ele é de... 1972?! Mas como não estraga?
— É essa névoa escura. Ela é uma substância que preserva papel antigo.
— E por que as pessoas más precisam dessas coisas tão velhas..?
— Quando se sabe a história de um país e de um povo, Chi, fica mais fácil saber de seu futuro — respondeu, sério — Vamos andando que deve ter alguém nos esperando pra lá.
Deram as mãos e continuaram caminhando juntos.
Aquelas estreitas paredes revelaram pertencer a uma parte de uma antiga biblioteca. Logo tiveram acesso ao centro do recinto, e ali viram pilhas e mais pilhas de livros preservados. As paredes dos cantos haviam cedido, o que dificultava o caminhar; por isso, eles se mantiveram pelo mesmo corredor.
Cada estante correspondia a um ano vivido por aquela região do Japão, e logo Chi descobriu isso. Como se esquecesse que estavam no meio de uma fuga, sua alegria de criança novamente voltava, e assim ela passeava por entre os jornais. Divertia-se com seus escritos, lembrando de um ou outro acontecimento que presenciara antes de Hideki ir buscá-la na festa.
Foi na 2013ª estante que Chi soltou um grito.
— É a Chi... e o Hideki...
Ela estendeu até o persocom a manchete do jornal japonês que datava 07 de outubro. Havia uma grande foto do casal em meio a pessoas, com os dizeres garrafais:

CASAL PACIFISTA JAPONÊS É VÍTIMA DE ATENTADO TERRORISTA

Hideki sentiu a face paralisar ao ver sua imagem num jornal tão antigo. Sabia que hoje era um persocom graças à geladeira que manteve seu corpo intacto após sua morte como pessoa. Sabia, assim, que tivera uma vida antes desta. Mas não se recordava de nada naturalmente, e jamais passou-lhe pela cabeça a possibilidade de saber sobre seu eu antigo.
Não conseguiu mais se mover. Apenas ouviu o movimento que Chi fazia ao revirar as páginas do jornal, e em seguida sua voz lendo a notícia completa, assustada.

Chihiro e Hideki Motosuwa, famoso casal por ganhar o Prêmio Nobel da Paz do ano passado, sofreu uma série de ataques enquanto negociava sanções de paz com o governo da Coréia do Norte. As bombas que os atingiram não tem origem conhecida, mas autoridades desconfiam que pertençam a um grupo terrorista da região.
Depois de resgatados dos destroços do palácio norte-coreano, foram levados diretamente ao Hospital Ikuno Chuo. Hideki Motosuwa, entretanto, não resistiu aos ferimentos e veio a falecer dentro da ambulância. Sua esposa, Chihiro Motosuw,a chegou levemente ferida ao hospital, mas apresentou uma brusca piora nas 24 horas que se seguiram. A equipe de médicos que a atendeu ainda investiga os fatores que levaram à sua parada respiratória e o seu conseqüente falecimento.

Chi não pôde ler mais em voz alta. Seus olhos passaram rapidamente sobre o resto da reportagem, perdendo-se entre divagações de médicos e homenagens de políticos. Nas suas mãos, aquelas notícias passadas guardavam seu futuro. Ela sairia de 2097 e voltaria para 1997, casar-se-ia, e morreria como uma salvadora. Será que estes seriam os verdadeiros planos de seu pai..?
Segurou a mão de um Hideki estático, preso nos próprios pensamentos. Ele se forçava a lembrar de alguma coisa que lhe remetesse a sua época de humano, pacificador, esposo – sim, marido daquela que estava diante dos seus olhos. Mas sua memória não ajudava. Seus circuitos não pareciam mais conseguir assimilar as informações, e lá ele ficou, parado.
— Hideki... se lembra? — Chi perguntou, segurando levemente sua mão.
— Não — foi tudo o que pôde pronunciar.
— Quando a Chi voltar para o passado, a Chi vai tentar fazer com que isso não aconteça mais.
Sua inocência fê-lo movimentar o olhar. Não, ela jamais poderia impedir que isso acontecesse – senão, nunca poderia estar lá, onde estava, e ser um persocom, como era. Mas aquilo não era inteiramente triste; na verdade, Hideki não estava triste por ter morrido. O que mais lhe incomodava era o fato de ter sido alguém de quem ele não conseguia se lembrar.
— Dói não lembrar, não é, Chi?
Ela acenou afirmativamente com a cabeça.
— A Chi entende Hideki.
Ela lhe deu um abraço forte, confortável, que o encheu de energias novamente. Um dia, eles tinham se amado, lutado juntos e morrido lado a lado. Será que o passado estaria prestes a se repetir..?
— Que belo casal de persocons!
Pela segunda vez em menos de 24 horas, eles ouviram a mesma frase, no mesmo tom cínico. Agora, no entanto, ela pertencia a um homem, um humano de verdade, que surgia dentre as muitas estantes.
— Finalmente consegui achá-los! A essa altura, Minoru deve estar morto de preocupação, e vocês, pombinhos, ficam se amassando no escurinho!
— Yoshiyuki-san — respondeu Hideki, muito formalmente.
Chi soltou o abraço e passou a observar o novo indivíduo que conhecia, um jovem que usava óculos e um jaleco branco. Yoshiyuki aproximou-se da persocom e deu-lhe um largo sorriso.
— Huuuum, você é mais bonitinha do que eu imaginava! Quem sabe depois que resolvermos tudo o Minoru não te empresta pra mim e —
— Ham-ham — Hideki forçou propositalmente a garganta — Podemos ir, Yoshiyuki-san?
— Ah, sim, sim, claro. Estamos atrasados..
Ele os guiou até a saída, em direção novamente à Ilha Cinza.

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