- capítulo X.
Oh, céus.
As informações das últimas 48 horas vinham como avalanches para cima dos circuitos de Chihiro, que fazia força para guardar e recordar todos os acontecimentos.
Desistiu. Sua cabeça doía. Não esperou por uma primeira ordem; foi direto para sua cama e lá adormeceu, não se importando que ainda fossem quatro horas da tarde, ou que ainda estivesse de vestido. Precisava parar de pensar um pouco, antes que seus neurônios entrassem em curto com seu sistema inorgânico.
~ Uma vez que você tenha me acessado, não pode mais quebrar a conexão ~
Teve sonhos muito conturbados. Estava numa paisagem negra, olhando para seu próprio reflexo no espelho.
Mas aquele reflexo não era Chi.
~ Por que você não quer falar comigo? ~
~ Dói ~, respondeu.
~ Por que? ~
~ A Chi lembra do papai triste ~
Quando ela fechou seu sorriso, seu reflexo pareceu preocupado.
~ Papai está triste..? ~
Se aquele fosse realmente um espelho, teria visto seu próprio olhar de desdém. Por que estava triste?! Por tantas coisas... oras, nem mesmo em sonhos podia parar de pensar naquelas questões complicadas.
Acordou zonza. Tinham se passado apenas três horas.
— Espero que esteja descansada. Minoru-san decidiu agir hoje à noite — ela ouviu a voz de um Hideki que a observava do batente da porta.
Realmente, não havia como se desligar daquelas questões complicadas.
Como se esquecesse seus trejeitos de criança, suas bochechas subitamente enrubesceram. Voltou a lembrar da notícia do jornal, das recordações no banheiro, e assim não pôde mais agir naturalmente com Hideki – seu futuro esposo.
Novamente, aquilo martelava em sua cabeça. Afinal, o que sentia por ele..?
— Você está bem?
Ao sentar-se, pôs-se a encarar seus próprios joelhos. Como da primeira vez que se encontraram.
A primeira vez...
— Hideki?
— Sim?
“Será você quem vai escolhê-la, e saberá quem ela é no momento certo.”
— O que foi aquilo que a Chi sentiu quando viu Hideki na festa?
— Os persocons têm um sistema de reconhecimento automático, por isso quando tirei os óculos você pôde se lembrar, mesmo que inconscientemente, que eu também possuo uma parte inorgânica.
— Não isso. Antes de Hideki tirar os óculos.
— Antes..?
— A Chi estava nervosa. Ansiosa. Com medo. E depois... feliz... muito feliz.
O persocom entrou por completo no quarto, encostando levemente a porta atrás de si.
— A Chi se lembra que papai deu pra Chi um programa para se apaixonar. Aquilo é paixão?
— Eu não sei, Chi... não tenho esse programa...
— Mesmo assim, é tudo sintético, não é..? A Chi não pode gostar de verdade...
— Não acredita no que Minoru-san disse?
— Sim, mas Minoru-kun também disse que não entende direito de Chobits —
Hideki sentou-se do seu lado da cama e, sem avisar, pegou em sua mão, trazendo-a, junto a sua, até o coração de Chihiro.
— Sente batendo..?
Ela confirmou com a cabeça.
— Essa é a prova de que você também é humana. Enquanto ele se mantiver nesse ritmo, esteja certa de que seus sentimentos vêm direto daqui.
Silêncio. Confortável.
— O coração da Chi bate forte por Hideki.
Não pôde mais controlar seus hormônios. Agora era sua vez de envergonhar-se. Respirou fundo e tentou se manter sério.
— Não deixe que o futuro interfira nas suas decisões presentes.
É. Estava certo. Mas... ah, tudo era tão confuso...
— Vamos pra sala? — ele mudou de assunto antes que se sentisse orgânico demais para poder continuar a conversa. Não poderia deixar o passado interferir nas suas decisões presentes.
Algo o incomodou profundamente naquela conversa. Não sabia o que era, tentou ignorar. Concentrou todas as suas forças no âmbito de voltar suas atenções, como que normalmente, ao sorriso da Chobit. Voltaram para sala, onde Minoru e Yoshiyuki já os aguardavam, ansiosos.
— Prontos?
Confirmaram com a cabeça e, no momento seguinte, cruzavam a porta do hall de entrada que os separava da multidão efervescente. Seus pensamentos foram instantaneamente dissolvidos pela velocidade dos passantes na rua; mais uma vez, seus pensamentos foram deixados de lado. Era hora de trabalhar.
À noite, a fumaça das torres parecia se dissipar para cima, cobrindo como um véu grosso as estrelas no céu. Os letreiros de propagandas adquiriam mais cor e mais brilho, guiando os espremidos contingentes de pessoas e persocons até seus destinos. Com eles não pôde ser diferente. Depois de uma breve caminhada, se viram passando através de uma larga porta contornada por néon vermelho, por baixo dos dizeres que indicavam o nome do local.
Yumi no Ai. Um bar – ou ao menos aparentava ser um –, cujo interior estava tão lotado e barulhento quando seu exterior.
O recinto inicial era muito amplo. Logo à entrada, havia um extenso balcão de bebidas, rodeado por todos os lados por muitas mesas, que abrigavam casais conversando. As paredes eram cobertas por cetim e camurça escuros, tão pretos que pareciam absorver luz. A um canto, havia uma lance de escadas e um elevador que levavam aos andares inferiores.
Sentaram-se diante do balcão.
— Boa noite, Yumi — sorriu Minoru para a atendente, uma jovem de cabelos curtos e negros — Muito trabalho por aqui?
— Como sempre! — respondeu muito alto, reconcertando a voz em seguida — Eu não os esperava até amanhã.
— Nenhuma anfetamina sua poderia deixar alguém mais empolgado que este jovem Minoru, minha cara Yumi! — exclamou Yoshiyuki, fazendo-se ouvir em meio a música alta.
— Isso me deixou feliz. Comprova tudo o que andamos suspeitando. Leia — o garoto entendeu-lhe a carta do pai por baixo da manga do paletó —, e nos prepare o seu melhor estimulante.
Ao inclinar-se discretamente para alcançar o papel, Yumi se adiantou um pouco mais para frente, aproximando-se de Minoru.
— A garota é a sua irmã? — sussurrou.
— A minha preferida — respondeu num sorriso malicioso.
Por um instante, a jovem sumiu atrás do balcão, perdida no meio de garrafas coloridas e clientes carentes. Quando voltou, suas feições eram irritadas. Trouxera consigo dois copos compridos e uma série de frascos disformes, daonde tirou grãos moídos, além de cápsulas minúsculas e arredondadas. Bateu tudo junto a liquido espesso e escuro e... voi là! Estava pronto o coquetel de anfetaminas.
— O que é isso? — perguntou Chi ao ouvido de Hideki.
— Drogas estimulantes. — explicou — Elas mantêm o pessoal daqui animado pra... ahn... mais tarde.
— Isso não faz mal?
— Em doses controladas, não. Mas, pra lhe dizer a verdade, não há limite imposto pelo governo. Cada um toma o quanto quer. As conseqüências futuras são responsabilidade de cada um.
Ela fez cara de preocupada. Adiantou-se para se interpor entre a bebida e o irmão, mas o persocom a deteve.
— Então me deixe experimentar um pouco, se isso não faz mal! — falou, emburrada.
— Você não pode, Chi. Aliás, eu também não — admitiu —. Os efeitos das anfetaminas nos persocons são opostos aos dos humanos, trazendo-lhes sono e fadiga ao invés de excitação e ânimo. Como nós somos formados por ambos os sistemas, esse paradoxo de informações nos desliga.
— Pra sempre?!
— Não... digamos que ficamos em modo de espera — sorriu —, com o programa de proteção inativo. Não temos consciência, e assim não agimos por conta própria. Ficamos à mercê de quem tiver a nossa senha.
A conversa dos dois foi interrompida por um sonoro arroto de Yoshiyuki.
— Senhoritas... e senhor — acrescentou ao encontrar o olhar furioso de Hideki —, me desculpem.
— Estou acostumada — respondeu Yumi, por trás da mão que lhe escondia a risada — Mas voltando ao assunto... eu não os esperava até amanhã. A suíte presidencial está locada.
— Então expulse o locador, ou quantos forem, de lá! — falou Minoru, entre os dentes — Você não poderia ter permitido isso, não antes do combinado. Não quero nenhum tipo de... sujeira por lá.
— Ah, desculpe-me, esqueci que a criança vai entrar — ela mostrou a língua, em deboche — Hoje em dia não há mais censuras desse tipo, não deveria se sentir tão incomodado.
— Minoru é um garoto de família... — zombou Yoshiyuki, sussurrando logo depois um “antiquado!” quase imperceptível.
— Passeiem por aqui. Não é bom que nos vejam numa conversa tão longa. Quando vocês chegarem lá, tudo vai estar vazio. E limpo.
Mais uma vez, ela sumiu entre garrafas e clientes.
Minoru ajeitou o blazer, chegando perto de Hideki.
— Você pode fazer a gentileza de explicar como funciona o lugar..?
— Claro, Minoru-san — ele voltou-se para a Chobit —. Neste primeiro piso, os casais se conhecem. Normalmente, homens se encontram com os persocons femininas que trabalham aqui, mas também existem os masculinos —
— Ah, pare com esse floreio todo, até parece que isto aqui é uma lanchonete! — Yoshiyuki se impacientou.
— Mas não é..? — Chi fez cara de dúvida.
— Na verdade —
— Claro que não! Isto aqui é um bordel!
Chi levou as mãos à boca ao mesmo tempo em que Minoru corou violentamente, pondo-se a girar os botões do blazer. Yoshiyuki, muito pelo contrário, não apresentou sinais de vergonha.
— Seu irmão é do milênio passado, querida. Deixe-me te ensinar as regras do fim do século XXI — com um largo sorriso, ele abraçou Chihiro de lado —. Esta é a maior casa noturna da Ilha Cinza. Os políticos, pensados e cientistas da região, quando se enjoam das suas vidinhas folgadas, vêm “relaxar” aqui. Se entopem de anfetaminas e transam com todos as persocons, até esgotarem as baterias. Hoje, as coisas boas não têm mais censura ou restrição; por isso, até seu pequeno irmão pode entrar livremente e fazer o que quiser com qualquer persocom —
— Mas eu não faço nada disso! — acrescentou Minoru rapidamente, fazendo sinal de abstenção com os braços.
— Os persocons daqui têm diversas aparências, desde crianças a velhos, e diversas orientações sexuais. A maioria trabalha o dia inteiro, e para que seus computadores não surtem eles também se enchem de drogas. Como o efeito neles é inverso — explicou Hideki, olhando para o chão —, eles podem descansar um pouco.
— Agradeça por não trabalhar aqui, haha! — Yoshiyuki riu uma risada própria do coquetel — Vou te dar um mapa daqui. Primeiro andar: encontro de pessoas e persocons. Segundo andar: banho comunitário. Terceiro andar: boate. Quarto andar: quartos comunitários, particulares e a suíte presidencial. O maior centro de diversão underground. Literalmente.
Chi ouviu a tudo isso encarando os próprios pés, embaraçada. Não se atrevia a olhar nos olhos dos três homens que a acompanhavam.
— Não aja com se isso fosse horrível. É natural, e deixa as pessoas felizes!
— Mas... por que a sede da Aliança tinha que ser aqui..? — ela voltou seu rosto para Minoru, desconfiada.
— Hey, não me o-olhe assim! — gaguejou — Aqui, estamos debaixo dos narizes de todos aqueles que nos odeiam. Os políticos não desconfiam daqueles que fazem parte do seu círculo social, e sim quem está fora dele.
— Não é só isso. Todas as reuniões e os aparelhos da Aliança estão na suíte presidencial. O lugar mais privado da região. O único lugar que o Parlamento não quer vigiar – ou melhor, que o vigiem — Yoshiyuki deu uma piscadela maliciosa.
Chi fez força para não imaginar o tipo de coisa que se passava dentro daquelas quatro paredes. Concentrou-se, sim, em aceitar os fatos. Aquele futuro estranho era, a final de contas, o seu mundo. E ela o amava.
Respirando fundo, seguiu-os até o elevador.
sexta-feira, 23 de março de 2007
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