- capítulo XIII.
Silêncio.
Tu. Tum. Tu. Tum. Tu. Tum...
As batidas irritantes quebravam o silêncio. Eram altas, ensurdecedoras. Batiam em sua cabeça num ritmo intragável. Precisava de sossego. Precisava pensar. Lembrar o que estava acontecendo. Quem era.
Mas não conseguia.
Tu. Tu-tum. Tu. Tu-tum...
A dor aumentou, migrou para o peito. Sentiu uma pressão esquisita. O diafragma se contraía forte, bem forte, bastante forte. Seu cérebro clamava por oxigênio. Precisava respirar.
Mas não conseguia.
Tu-tum. Tu-tum. Tu-tum. Tu-tum...
Com muito esforço, abriu os olhos. Ao seu redor, tudo era amarelo, muito feio, densamente disforme e cheio de bolhas. Algumas figuras humanas dançavam além. Sim, além, porque não estavam dentro, apesar de não saber onde poderiam estar...
Parou. Ar, ar, precisava de ar, agora.
Tu-tum-tu-tum-tu-tum-tu-tum-
Involuntariamente abriu a boca, e sentiu o colóide atravessando sua garganta. Engasgou. A pressão aumentou. Queria tossir, queria vomitar, queria qualquer coisa que fosse mais gasosa do que aquilo.
Ar, ar, ar, ar. Agora.
Tum-tum-tum-tum-tum-tum-tum-tum-tum-tum-tum
Retomou os movimentos. Debateu-se.
Suas braçadas a guiaram até a superfície.
Ar!
Seu nariz e boca sentiram o toque fresco da mistura de gases, e se permitiram respirar. O resto de seu corpo de persocom permaneceu submerso no amarelo, preso por conexões, fios, tubos e cabos que se conectavam a ela por feridas e aberturas que antes não existiam ali.
Tu-tum. Tu-tum. Tu-tum.
Teto. Teto, plano e cinza, era tudo o que podia enxergar no ângulo em que encontrava. Nada mais. Não encontrava em seus arquivos cenário igual ou semelhante.
~ Bem-vinda a minha casa ~
Reconhecimento de voz instantâneo e total. Encontrada uma pasta de imagens adicionais relacionadas ao arquivo sonoro.
Quando ia ficar escuro, um turbilhão de luzes coloridas fez seus olhos arregalarem.
Sol. Luz. Água. Gente correndo. Pai. Livros. Vozes. Bola. Boneca. Mãe. Suco. Computador. Nuvens. Carpete. Cabos. Choro. Risos. Barulho. Janela. Vento. Ja-po-nês. Cubos. Minoru. Números. Chocolate. Massa de bolo. Fumaça. Briga. Beijo. História. Sono. Azul. Plantas. Filme. Vidro. Suor. Banho. Felicidade. Abraço. Carinho. Escuridão. Som. Festa. Luzes. Flashes.
“— Então, pra mim você é a Chi.”
Seu corpo começou a se movimentar sozinho. Ahn? O quê? O líquido viscoso abaixava de nível, levando-a consigo. Seu campo de visão aumentou. Uma figura humana se aproximava. Era lembrança ou era real?
Não saberia dizer.
Ao atingir o chão frio, finalmente voltou à escuridão.
~ A única menina má é você, Chi. ~
— Aaahn... aaaaaaahn...
Adeus... adeus...
A voz de Hideki saía entrecortada e fantasmagórica de sua própria garganta. Eram gemidos doídos e fanhosos, formados com força numa tentativa vã de formar palavras. Sentiu medo de si mesmo. Acordou com o coração disparado e a respiração ofegante.
Ufa. Calma. Fora só um sonho.
Sonho..?
Seu corpo tremia. Fechou os olhos e apertou as pálpebras bem forte, até que pudesse ver falsas explosões coloridas. Ao abrir os olhos, elas ainda estavam lá. Levou algum tempo até que se acostumasse com a claridade anormal do recinto.
Desconhecido, por sinal.
Apoiou seus cotovelos no chão duro e tentou erguer-se. Conseguia, apesar da tremedeira. Arrepios lhe perseguiram até a cabeça. Um enjôo absurdo surgiu em seu estômago. E então veio a tontura. Não pôde. Tornou a ficar deitado, recusando a luz.
Como poderia ter ficado assim..?
Há um segundo atrás estava no quarto com Minoru-san quando —
...
— quando o carro explodiu, pegou fogo, estilhaços de vidro voaram por todos os lados e —
...
Não. Nada disso havia acontecido. Eram só impressões ruins de mais um pesadelo. Mais um. Enfim...
Quando abrisse os olhos, se encontraria deitado no tapete da sala de estar, talvez somente vítima de uma pequena falha corrigível em seu sistema.
Respirou fundo. Um, dois, três, e...
Não. O chão continuava frio e duro. As lâmpadas fluorescentes eram potentes demais para serem as mesmas. E não podia se lembrar dos enormes espelhos que cobriam as quatro paredes do quarto. Também, muito menor.
E como havia chegado ali, mesmo..?
...
E por que sempre ouvia gritos de desespero quando tentava se concentrar?
Não fora sempre assim. Começara quando...
...
Não poderia se lembrar. Os gritos eram altos demais.
Pense, Minoru, pense.
Se pudesse, teria de ter controlado seus impulsos de rodar seus botões e amarrotar o blazer. Esta era a maior de suas preocupações: se mexer.
Cada músculo de seus membros havia recebido fartas doses de anestésico. Por um lado, sentia-se feliz por não ter de suportar mais as agulhadas dolorosas das injeções; por outro, no entanto, sentia-se inútil, tão desembaraçado quanto uma minhoca. Mole. Presa a um anzol. Indefesa. Inconformada com sua morte próxima.
Tudo o que era capaz de fazer era movimentar o pescoço, e assim o fez até doer. Explorou cada canto de seu cativeiro, decorou a ordem de cada poeirinha. Procurou guardar isso em seus arquivos humanos e acreditar que seria útil caso conseguisse formar um plano. Só no caso de, lógico. Porque já tinha perdido as esperanças.
Claro! Que minhoca precisa de um plano quando está prestes a ser devorada?!
Suspirou. Engoliu seco.
Os peixes chegavam.
Tentou se manter firme. Algo o mantinha com vontade de lutar – como se seu cérebro tivesse acabado de acordar do coma. Achou que fosse verdade; não se lembrava dos últimos acontecimentos. Não acreditava que pudessem ter existido. Felizmente. Por isso, tinha forças.
Lembranças em segundo plano. A ordem agora era sobrevivência.
Voltou a atenção aos seus predadores. Eram três.
O homem da frente era sério e esguio. Minoru reconhecia seu rosto eternamente jovem da capa de notícias: Shimbo Hiromu, o líder do golpe de Estado. Logo às suas costas, o garoto ainda podia reconhecer outras duas figuras: Takako e Yuzuki Shimuzu, uma de cabelos escuros e lisos e a segunda de mechas loiras e enroladas; tinham os olhos caídos e a expressão desgostosa – mas isso não fazia delas pessoas menos importantes ou perigosas.
Minoru tentou mostrar calma. Sorriu.
— É bom ver que está contente em nos ver, senhor Kokubunji — Shimbo não exprimiu qualquer reciprocidade — Isso trará um ambiente mais agradável para a nossa conversa.
— E qual será o tema, Hiromu? Esportes? — tudo o que queria ganhar era tempo, desesperadamente.
Pense, Minoru, pense.
— Que tal política, Kokubunji?
— Só tenho catorze anos. Não tenho essa matéria na escola.
Ele não riu.
— Mas sei que estudando bastante em casa... em grupo — ele deu ênfase — Não tem nada que nos queira falar sobre isso..?
Ele fez que estava pensando.
E realmente estava. Mas não nisso.
— Acho que não.
— Não?
— Não.
— Nada sobre seus amiguinhos híbridos... sobre Chobits..?
— Isso é alguma marca de biscoito pra cachorro, Hiromu?
Ele o punho fechado com força na cama de metal onde Minoru estava deitado. Tudo vibrou.
— Escute! Pra nós é muito mais fácil mata-lo do que ficar ouvindo as suas gracinhas de criança! Co-la-bo-re — ele ditou as sílabas vagarosamente.
— Vocês precisam de mim pra destravar o bloqueio do sistema da Chi — ele contou vitória — Não vão me matar tão cedo.
Lógico que era um blefe. Não havia modo de quebrar a proteção da persocom. Mas era bom guardar essa carta na manga e ganhar tempo...
— Quanto mais cedo você falar, mais cedo vai poder sair pra brincar.
— Minha mãe me ensinou a nunca falar com estranhos. Eu sou um menino obediente. E, desculpe, vocês são estranhos.
Shimbo fez que ia demonstrar outro sinal de impaciência, mas Takako segurou-o pelo ombro e lhe deu um beijo na bochecha. A outra não pareceu ficar com ciúmes; na verdade, ignorou o gesto. Apenas tirou um pequeno frasco do bolso e se aproximou do jovem, ainda sem expressão.
— Muito prazer, sou Yuzuki. Pode começar a falar.
Sem qualquer explicação, ela espirrou uma parte do conteúdo do vidro no nariz de Minoru, que o inspirou de imediato. Quase podia sentir a substância lhe atingindo os pulmões segundos depois.
E então começou.
O cenário mudou, escureceu. Suas cores ficaram diferentes, como... como se estivesse escorrendo, derretendo. Como se estivessem sendo deformadas por uma violenta chuva ácida. Minoru percorreu os olhos pelas paredes escorridas de volta até seus três observadores – todos assustadoramente desfigurados.
Efeitos do alucinógeno. Tentou fielmente se concentrar nesse pensamento, de modo a não perder a racionalidade. Mas, ainda assim, era tudo tão real... ilusoriamente real...
— Quer conversar agora? — a voz que deveria ser feminina agora era de um grosso rasgado e gutural. Minoru suou frio.
— Se é possível, vocês continuam mais estranhos — ele forçou uma risada — Não cheirem essa desgraça, faz mal.
E poderia piorar.
Antes que pudesse tampar a própria respiração, sentiu mais do tóxico adentrando por seu nariz. No segundo seguinte, sua cabeça começou a doer.
E piorou.
A desfiguração tornara-se algo mais móvel e detalhado; Minoru espremia as pálpebras na tentativa de identificar todos os pontos pretos que, agora, corriam por todos os lados, até que...
Baratas.
Nojentas e repugnantes, estavam em centenas, milhares, subindo umas em cimas das outras, atropelando-se na tentativa de ocupar cada fresta livre. O cenário por fim era marrom; as paredes balançavam enquanto elas corriam desesperadas, preocupadas em fazer seus ruídos, transmitir repulsa. E quando elas começaram a fazer parte da deformação dos rostos, quando eles próprios se tornaram nada menos do que cascatas de mais baratas, Minoru não pôde controlar o pavor.
Gritou.
E piorou.
Os membros que antes não era capaz de sentir agora formigavam de modo engraçado, estavam quentes e pesados. Sentia-os, mas ainda não podia movê-los. Levantou a cabeça para olhar e se arrependeu quando os encontrou também cobertos por baratas apressadas, tontas, todas com suas antenas atentas.
Mova-se. Mova-se. Mova-se.
Era inútil. Estava indefeso. E era impossível que tudo fosse alucinação...
Elas cobriram suas pernas, avançaram até a altura da virilha, do umbigo, do tórax. Já sentia fiozinhos roçando nas pontas de suas orelhas. Algo passou correndo por seu pescoço, parou em cima do queixo.
Mantenha-se quieto. Não se mova. Não se mova.
Vontade eram impraticáveis; era válido somente o contrário. Como se fosse contra a si mesmo, Minoru começou a debater a própria cabeça, desesperado, gritando e girando os olhos.
E piorou.
Primeiro sentiu as antenas batendo nos lábios superiores, detectando o território; depois, foram as patas, peludas, todas as seis muito finas e inquietas vasculhando o interior de sua boca. Encontraram a língua em movimento; a barata se assustou e abriu as asas, pôs-se a se debater em seu pequeno invólucro, pousou no céu-da-boca, foi de cabeça para baixo até a garganta. Sentia cócegas perto da úvula. Queria chorar.
Mas seu choro foi engolido pela nova enxurrada de insetos.
Pavor.
Piorou.
Shimbo soltou uma risada de prazer.
sexta-feira, 23 de março de 2007
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