- capítulo XVI.
Naquela tarde, viu-se sozinho. Nada que fosse surpreendente, na verdade, porque o cotidiano de todas as famílias da Terra Vermelha era o mesmo: acordar, comer, plantar, colher e dormir. Estava na parte em que as mulheres saíam para recolher os alimentos, e os homens se reuniam ao redor dos E.L.F.O.s para receberem roupas e outras caridades afins. Era um dia raro. Primeiro, porque não era sempre que o governo se dispunha a distribuir algo para a população. Segundo, porque Minoru tinha recuperado a consciência.
Sabia que aquela era uma grande oportunidade para explorar o local e, quem sabe, fugir – apesar de que não fazia a mínima idéia de por que gostaria de fazer isso. Algo dentro de si o impelia para fora, martelava como se alguém clamasse por socorro em algum lugar. Era um senso de obrigação, de dever.
É claro que não se pôs a tentar decifrar seu sentimento; era impossível faze-lo, na verdade, com o pouco vocabulário que tinha recuperado. As palavras da Terra Vermelha eram somente aquelas permitidas, relacionada à comida, à casa, à família, ao governo e insultos em geral. Nada que abrisse portas para um raciocínio lógico e reflexivo. Sem saber o quê o motivava – e talvez nem tivesse se dado conta da motivação em si – deixou a cabana que o abrigava por aquele dia e saiu a andar pelo lado oposto ao de qualquer pessoa.
Não foram os enormes arranha-céus que despertaram a sua atenção e o levaram a seguir caminho; sequer notou-os, desde que tinha chegado. O que mais lhe interessava era o corredor mais vazio e escuro, livre daquelas pessoas que só sabiam gritar e lhe tocar por todo o corpo. Seria um alívio (inconsciente) esconder-se por definitivo delas, quem sabe encontrar ali também algum incomodado.
Quando entrou na Área Amaldiçoada, sorriu para si mesmo.
E arrepiou-se por inteiro também. O ar tinha qualquer coisa de mau agouro, a luz dava uma sensação ruim, o silêncio chegava a zumbir. Passou bem lentamente na frente das casas velhas e empoeiradas, todas grosseiramente fechadas com tábuas em X, uma por uma, até se deter a fitar uma final. Ela, ao contrário, estava aberta. Uma cratera abria uma passagem através da madeira até a escuridão do interior da construção.
Entrou.
Deu um passo vagaroso, depois outro, depois –
Escorregou pela ladeira, rolou entre a terra, bateu a cabeça na parede e desmaiou.
~Acorde, Chi~
A voz de Freya chegou a seu ouvido como se fosse real, como se sempre estivesse lá, esperando para acordá-la. Seus olhos se abriram instantaneamente.
Sentiu um grito de horror entalar em um nó em sua garganta. Sua primeira visão fora a da extensão do espelho por todo o teto, refletindo uma figura feia, esquelética, nua, branca como giz. Ela. Morta. Custou um pouco para que a respiração voltasse a seu compasso e pudesse perceber que, sim, respirava pois estava viva. Não tinha morrido, ainda.
Ao mesmo tempo em que lhe ocorria a vida, também lhe ocorria o espaço. Aquele reflexo não era o mesmo de antes, assim como também não era o mesmo recinto. Este dava a impressão de ser mais frio e amplo. O ar era levemente menos sintético, e talvez tenha sido isso o que clareou sua mente. Não sentia a velha agonia dentro do peito, tampouco se lembrava dela. Assim se abriu vaga para um novo impulso de investigação do local, e foi por isso que inclinou a cabeça para o lado.
Depois, não pôde segurar o grito.
— HIDEKI!
Vi-o, e não foi recíproco: o persocom masculino estava deitado com a cabeça entre os joelhos e envolvido pelos abraços. Talvez sua aparência estivesse pior do que sua própria, não saberia dizer; estava certamente mais magro e enfraquecido do que antes. Suas costelas destacavam-se em alto-relevo em sua pele muito fina.
Chi atirou o corpo em cento e oitenta graus, apoiou-se nos quatro membros e começou a engatinhar, arfando, tropeçando, fazendo força para ainda tentar erguer-se e correr com as duas pernas. Seus músculos urgiam de dor com o esforço sobrenatural depois de meses de inutilidade, mas o cérebro enviava hormônios de pedido para que não parasse. Por último, quando estava a pouco mais de um metro de Hideki, seu joelho falhou e ela caiu, antes batendo a testa – no ar.
No ar..?
Não teve tempo de fazer indagações; a dor na testa era aguda. Sentiu o cenário embaralhar-se ao seu redor, girar por muito tempo; passou a mão pela cabeça fria, fez carinho no novo calombo até finalmente ter equilíbrio para abrir os dois olhos. Esperou encontrar uma parede na frente da figurava que imaginava do persocom, porém enganou-se. Hideki continuava no mesmo lugar, encolhido entre os joelhos, ainda que aparentemente bastante acessível. Estendeu a mão para tocá-lo. Parou no ar, novamente impedida por uma barreira invisível.
Notou um leve reflexo...
Não era invisível – era vidro.
A vista embaçou novamente, agora por causa das lágrimas. Não poderia tocá-lo. Não poderia senti-lo. E se fosse mentira? E se tudo aquilo não fosse só uma armadilha de Freya? E se ele, na verdade, estivesse – ?
— HIDEKI!— sua garganta explodiu com o simples pensamento de que ele não fosse real, não existisse mais, estivesse morto. Era doloroso demais. Socou o vidro com força, o maior tanto que poderia acumular, e encostou a bochecha no vidro, os olhos virados de esguelha, fazendo pressão até se convencer de que era impossível transpassa-lo — NÃO MORRE, HIDEKI!
Por fim, sentiu movimento do outro lado. O persocom estava exatamente do mesmo modo, as palmas das mãos brancas, as bochechas grudadas, o vidro embaçando pela respiração muito próxima. Só que seus olhos estavam fechados.
Silêncio desconfortável.
— Chi...
Ela encostou o ouvido direito à boca dele.
— Chi... Ah, Chi... eu achei que você estivesse morta...
Sua voz era doce, talvez doce demais para o caos que se sucedia em sua mente. Ela nunca parava de girar, na verdade, nunca, sempre cheia de pensamentos e lembranças justapostas, sempre fazendo mais barulho do que poderia considerar irreal. Era o conflito eterno entre os sistemas orgânico e inorgânico. No momento, o último gritava em alto e bom som, sobre tudo o mais que lhe ocorria, sua completa programação de regras de etiqueta. Era o Programa de Boas Maneiras que lhe impedia de olhar para o corpo que não estava devidamente vestido, ao mesmo tempo em que sua parte humana clamava pelo contato visual de quem gostava. Uma batalha incontornável.
— Hideki... Hideki... o Hideki está bem... está bem... — soluçou.
— E você? Você está bem?
— A Chi estava com medo de perder Hideki... de perder Minoru... Promete, Hideki, promete pra Chi que fica com a Chi? Por Favor?
Aquele nome soou demasiado gelado.
— Você não viu Minoru, Chi?
— A Chi não sabe do Minoru desde... desde o dia do quarto...
Os programas rodavam como se jamais tivessem parado. Na parte de seu cérebro responsável pelo raciocínio lógico, abriram-se duas hipóteses. A primeira afirmava com veracidade que o garoto tinha sido assassinado há muito tempo. A segunda, mais tímida e desajeitada, tentava dizer que ele estava vivo e com dúzias de planos à espera da execução. Essa segunda hipótese também aparentava ser a mais simpática, e foi nela que Hideki escolheu acreditar.
— Ele está a salvo, Chi. Eu sei que está. Confia em mim?
— A-ham. A Chi confia em Hideki.
— Você conseguiu fazer o que ele pediu? Conseguiu falar com o Computador Central?
— A Freya não me ouve, a Freya me odeia! — era quase um guincho — A Freya acha que a Chi é uma menina má...
— Escuta com atenção, Chi. Pode ser que seja importante, pode ser que Minoru ainda não tenha vindo porque – porque está esperando por isso — sua tentativa era mais para convencer a si mesmo — Você tem que acessar o Computador Central.
— Mas a Freya não ouve a Chi —
— Mostra a carta pra ela, a carta do seu pai! Nele ela tem que acreditar. Tem que acreditar.
Por trás das paredes de espelho, doutora Takako segurava a respiração com os punhos fechados. Estava nervosa. As máquinas às suas costas registravam padrões corporais diferentes de quaisquer outros que os Chobits tinham apresentado desde que chegaram; era como se tivessem se curado de uma doença sob um passe de mágica, como se acordassem totalmente saudáveis de um coma. Ao mesmo tempo em que seus apitos mostravam taxas cada vez mais altas, flashes de sua memória tentavam lhes desmentir – e não tinha a garota acabado de ter uma parada cardíaca?!
Freya tinha lhe pedido por isso. O que o Computador Central poderia saber a mais do que seus próprios controladores? O que o casal de persocons a sua frente poderia saber a mais do que Freya, que eles não tinham conseguido desvendar?
Segurou o impulso de deter a conspiração e permitiu-se assistir. Tinha muito a observar ainda.
— A Chi vai poder ficar com o Hideki agora?
A pergunta explodiu de forma impensada, inesperada. O persocom permitiu-se interromper e ficou quieto por muito tempo, somente embaçando o vidro com a respiração. Era como se a fitasse, mas de olhos cerrados.
— Eu...
Procurou adiar a resposta. Engoliu em seco.
— Eu...
— Chi?
— Eu-eu acho que não.
— Por que, Hideki..? — sua voz era praticamente um sussurro.
— Eles não querem.
Balançou a cabeça para os lados. Chihiro sabia para quem ele apontava: para os espelhos. Para os espectadores por trás deles.
— A Chi tem medo deles...
— Não precisa ter medo. São eles que têm medo da gente. Por isso nos deixam separados, e presos.
— A Chi não quer ficar mais presa. O chão é frio. O ar é ruim. E dói... aqui dentro.
Ele não precisou abrir os olhos para saber onde ela encostava a mão; sabia exatamente onde machucava, porque a dor que lhe devastava era a mesma dentro de si... dentro do peito...
— Por favor, Hideki, não deixa a Chi sozinha. Por favor. A Chi tem medo...
Fez movimentos com os dedos de apertar, segurar, dar a mão. Encontrou apenas ar; o vidro se manteve resoluto. Socou-o então, o mais forte que pôde; uma, duas, cinco, dez vezes, até não ser mais capaz de sentir o próprio punho, mas o ar continuava a zumbir a seu redor. O silêncio era absoluto. As paredes pareciam absorver qualquer tentativa de som. De revolta.
— Pára, Chi!
Hideki respondeu com uma batida do outro lado – ela sentiu suas vibrações.
— Temos que continuar. Temos que centrar todas as nossas forças nos nossos sistemas funcionais. Não podemos morrer. Minoru vai vir, eu sei que vai e... O plano ainda não acabou.
— Mas-mas a Chi estragou tudo!. A Chi deixou Yoshiyuki-san morrer, Hideki! — novo soco — A Chi matou Yoshiyuki-san e vai matar Hideki também! Não, não, não – a Chi quer parar, a Chi não quer mais, por favor, Hideki, por favor... A Chi está com medo...
— Yoshiyuki-san... morto..? — sua voz não podia alcançar mais que o volume de um murmúrio.
— Freya contou pra Chi. Freya tem razão, a Chi é uma menina má, a Chi é a culpada, a Chi vai matar Hideki também... por favor, não... a Chi quer parar...
Sentiu muitos arrepios voarem por seu corpo ao mesmo tempo, como em uma descarga elétrica, e por um momento lhe faltou a respiração: seu coração perdeu uma batida. Pararia, sim, em breve pararia novamente, pela dor...
— A Chi tem medo, muito medo...
Pelo pavor...
— Eu-eu não posso fazer nada...
Pelas saudades...
— Por favor...
Desfalecia...
— Chi, NÃO!
Um novo choque chegou a seu corpo: recobrou a consciência. Ao abrir os olhos, no entanto, o cenário parecia muito ilusório. Estava tudo borrado e aguado pelas lágrimas.
— Eu também estou com medo, Chi. Eu também.
Ela deixou escapar um soluço. Incondicionalmente, sua mão se moveu em direção ao vidro. Parou no ar mais uma vez.
— Mas seu pai conta com a gente. E se você morrer... eu também não consigo. Eu também não quero ficar sozinho, Chi. Por favor.
As duas respirações ofegantes tornavam a barreira que os dividia embaciada. A umidade de seus corpos vencia a dureza do ar, embebia os poros de seus rostos com o choro. Tremiam de frio, mas seus corações esforçavam-se para circular o sangue quente. Chi olhou se si para ele, e foi tudo isso o que percebeu: estavam acabados, estavam morrendo, e ainda assim lutavam para continuar, para não parar, para manterem a unidade. Um jamais deixaria o outro só. Deveriam ficar juntos até o fim.
E aquele era o fim... somente faltava...
— Hideki — sussurrou —, olha pra Chi.
Não havia nada mais no mundo que ele quisesse mais. Podia sentir o mesmo que ela. E seria por uma última vez...
Levantou a cabeça, abriu os olhos.
O silêncio cessou.
Um turbilhão de vozes instantaneamente o ensurdeceu, e então houve e explosão: seus tímpanos estouraram, as pupilas dilataram – muita, muita, muita luz –, a temperatura subiu – ficou muito, muito, muito quente –, a pele enrubesceu, começou a queimar, virar bolhas, se descolar de si, a dor era tão insuportável que tudo o mais parecia ter ficado pintado de vermelho, um vermelho escuro, um vermelho rubro, um vermelho sangue..
Não podia se dar conta, mas gritava, berrava seus pulmões para fora num desespero aterrador.
Parou quando um zumbido invadiu seus ouvidos, e o vermelho o deixou. Era escuridão.
Pi. Pi. Pi.
Chihiro afastou-se do vidro e se manteve longe. Estática. A surpresa arrancara-lhe os soluços – e longos e brancos braços também, agarrando-lhe pelos ombros e pelos cotovelos, arrastando-a pelo chão frio, contendo seus esforços para se manter no lugar.
Eles tinham voltado, e os separariam novamente... para sempre...
— NÃO! — gritou — HIDEKI, NÃO! HIDEKI! HIDEKI!
O sistema inorgânico mandava-lhe a mensagem de razão. Seus músculos não tinham condições de escapar de dedos tão decididos. O orgânico, contudo, continuava à luta: não poderia parar, não poderia acabar assim. Aquele não podia ser o final.
E não seria.
— HIDEKI! HIDEKI!
Sua voz foi ainda ouvida a muitos metros dos espelhos.
Pi. Pi. Pi.
Estava chacoalhando. Mais uma vez. Uma dor aguda rasgava-lhe o peito. Mais uma vez. Era o fim.
Mais uma vez.
E havia aquela voz, a voz que lhe pegava pela mão, a voz que lhe levava até as batidas de um coração assustado. Conhecia-a, há muito tempo. Desde sempre. Era... a voz de Chihiro.
— HIDEKI!
Acordou.
O que chacoalhava e machucava eram os dois homens de jaleco branco que lhe arrancavam do chão. Demorou algum tempo até processar isso, porque –
— Eu me lembro. EU ME LEMBRO! CHI, EU ME LEMBRO! CHI!
Uma agulhada lhe violentou o pescoço. Não precisou de segundos para saber qual toxina lhe estava sendo injetada. Conhecia o modo como as anfetaminas mergulhavam em seu sangue.
— EU ME LEMBRO! Eu me lembro..! Eu... me... lem...
Perdeu os sentidos.
sexta-feira, 23 de março de 2007
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