- capítulo IV.
No dia seguinte, Chihiro acordou deitada em uma cama macia e familiar. Os lençóis ainda tinham aquele cheiro de terem sido lavados por mãe, coisa que há muito ela havia esquecido. Os móveis tinham a mesma disposição no quarto que um dia lhe pertencera, o guarda-roupa à esquerda, o criado-mudo à direita, a cama ao centro. Sentada nela, podia ver bem seu reflexo no espelho à frente.
Tudo estava igual, exceto aquela Chi mais velha que ocupava o lugar da pequenininha Chi. E aquela silêncio pesado, ocupando o lugar dos choros do bebê Minoru das suas lembranças e os risos de um papai que achava graça da vida.
Ouviu batidas na porta. Mamãe..?
— Senhorita Chihiro, posso entrar? — perguntou tímida a voz de Hideki.
— Pode! — ela saltou da cama — Bom dia!
Instantaneamente, ele desviou o olhar para baixo. Não se sentia bem ao fitar a garota apenas de camisola.
— Bom dia, senhorita Chihiro.
— Não chame a Chi de senhorita, Hideki-kun! — ela aproveitou-se daquele quase momento particular e tirou a camisola, pondo-se a escolher um vestido dentro do guarda-roupa.
Hideki virou de costas, vermelho.
— Senhori... ahn, Chihiro, Minoru-san pediu pra que eu a levasse para um passeio antes do café-da-manhã...
— Passeio? Que legal! — ele imaginou uma Chi muito feliz por trás de suas costas. Procurava imaginar somente o rosto.
Pausa em que ela se atrapalhava para pôr o vestido.
— Ai... Hideki-kun, me ajuda?
— Ahn, eu... ahn... mas...
Ele podia jurar que, se não fosse seu computador interno, seus hormônios já teriam tomado conta de seu corpo. Das duas, uma: ou teria ficado eternamente paralisado em sua posição, ou teria rapidamente avançado.
Mas tudo continuou calmo, e ele apenas cerrou seus olhos enquanto ajudava a arrumar o forro do vestido e seus botões. Suas mãos se mantiveram no lugar. Bendito seja o programa de boas maneiras!
— Não é lindo? — Chi sorriu, girando dentro de seu vestido rendado.
“Adoravelmente bela”, pensou. Na verdade, apenas comentou um “Sim, senhorita” bem polido.
— Minha mãe o fez pra Chi. Sempre os fazia, grandes e pequenos, para a Chi ficar bonita a qualquer hora, ela dizia.
Ela fez cara de choro. Era bom lembrar, e mesmo assim, doía.
Voltou ao momento presente.
— Hideki-kun é muito bonzinho. Gosta muito de Minoru-kun, não é? — ela pegou de leve na mão dele — A Chi sabe que você pegou a Chi desprevenida e enganou porque Minoru-kun pediu. Por isso, a Chi não tem medo e nem mágoa de Hideki-kun — sorriu, com graça e sinceridade juvenis.
Ele rezou para que seus programas funcionassem e bloqueassem a ação dos hormônios. Rápido.
Não era atração sexual que sentia. Era... era algo relativamente hormonal que o deixava se sentindo um idiota no meio do mundo. Ou, vergonha.
— A Chi gostaria muito que Hideki-kun cuidasse da Chi como cuida de Minoru-kun.
— É minha obrigação protegê-la, senhorita Chihiro... — ah, santa tecnologia! Já voltava às suas cores normais.
— Não era Chi pra você? — ela perguntou, rindo.
— Chi-chan?
Careta.
— É feio... pode ser só Chi?
— Claro. Mas então eu serei apenas Hideki, ok? Vamos ser justos.
— Tá! — e mais uma vez veio o sorriso que trazia o rubro às bochechas do persocom.
Mas era gostoso sentir-se assim. Humano. Pegou-a pelo braço e juntos saíram.
Não iria mais se deixar levar por seu sistema orgânico. Sabia dos planos do seu senhor, e sabia que deveria cuidar bem de Chi para que tudo fosse conforme o esperado. Estava seguro, e passaria toda sua segurança para ela.
Já dentro do elevador que os levava para fora do apartamento do irmão, Chi forçava seus neurônios e chips a recompor as imagens do lado de fora. Não eram muitas, pois também nunca fora permitido deixar o prédio sozinha; mas aquelas poucas já lhe traziam sentimentos que apertavam seu coração.
Chegaram ao hall de entrada. Era cinza, frio, quieto e vazio.
— É igual...
Sim, era igual ao de suas lembranças, e também era exatamente igual ao cenário do lado de fora. Somente era mais vazio e mais quieto.
A poluição encheu os pulmões dos dois persocons, felizmente já preparados com filtros especiais. Mesmo assim, Chi tossiu um pouco, e seus olhos começaram a lacrimejar. Era a fumaça das torres, a névoa cinzenta e o pó vermelho de baixo. Teve que se apoiar em Hideki até sentir-se apta a enxergar novamente.
Vistos do térreo, os infinitos arranha-céus pareciam ainda maiores. Todos eles eram cheios de placas e propagandas, transmitindo imagens digitais planas e tridimensionais, piscando e brilhando. Mas todas as cores eram apagadas pela névoa, que lhe tirava a vida.
Parada, Chi levou um encontrão com uma figura apressada e mal-humorada, e quase caiu. Decidiu seguir o caminho de Hideki, o som de seus passos abafado pela música alta e o barulho de máquinas.
Alguém a puxou pela barra do vestido.
— Você é o modelo novo que saiu?
Era uma menina de no máximo quatro anos de idade, cheia de presilhas alucinógenas no cabelo.
— Chi? — ficou confusa com todas as luzes e ruídos que vinham da cabeça daquele ser minúsculo.
— Você parece ser meio podre — ela fez uma careta — PAAAAI!
Chi levantou a cabeça e se deparou com homem tão baixo quanto a filha. Felizmente, sua careca não permitia presilhas bizarras.
— Fale, docinho.
— Quero esse persocom. É novo.
— Chi? — ela rodou o olhar à procura de Hideki.
— Mas eu acabei de comprar a Sumomo pra você, pudinzinho — ele estendeu uma persocom, que lhe cabia na palma da mão.
— E daí? Essa é pequena, eu preciso de mais um modelo grande.
— Mas você já tem duas, chuch —
— EU QUERO!
— Meu amor, veja que —
— FICA QUIETO, EU QUERO!
— Desculpem atrapalhar — Hideki tomou a frente de Chihiro —, mas esta persocom já pertence a alguém.
— Você é só outro! — bradou a menina, as luzinhas do cabelo piscando em sinal de perigo — Qual é a sua loja?!
— Nós pertencemos a Minoru Kokubuji — ele respondeu rispidamente, tirando de dentro do casaco uma espécie de documento. Esfregou-o na cara da criança e, em seguida, pegou Chi pelo braço, deixando pai e filha acertarem as contas para trás.
— O que é isso, Hideki? — ela perguntou, pegando a caderneta. Era azul, e dentro vários caracteres japoneses pulavam rápido para cima, agrupando-se no contexto de leis maçantes.
— Meu registro. O governo detém conhecimento sobre todos os persocons comprados e montados até hoje. Por isso, tome cuidado pra nenhum fiscal te achar.
Ao guardá-lo de volta no bolso do paletó, Hideki diminuiu o passo, finalmente parando. Deixara cair um papel do bolso, aquele onde ia guardar a licença. Estava dobrado num origami amorfo e divertido.
— O que..? — murmurou para si mesmo, observando a figura atentamente. — Lembre-me de mostrar isso a Minoru-san, Chi.
Não houve confirmação.
— Chi?
Ao seu redor, pessoas passavam rabugentas. Hideki não conseguiu encontrar nenhum sorriso. Perdera Chi.
sexta-feira, 23 de março de 2007
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