sexta-feira, 23 de março de 2007

Chobits, 2097

- capítulo XII.




Quando o corpo de Hideki também atingiu o chão, seu computador interno preparando-se para reiniciar em modo de espera, Minoru sabia que era o fim. Passou as mãos pelo rosto até senti-lo vermelho, tentou oxigenar o cérebro movimentando as pernas, andando de um lado para o outro. Em vão. Não conseguia pensar.
Abraçou a irmã.
— A... adeus... adeus... deus...
Os lábios da persocom inconfundivelmente se delinearam numa última surda despedida.
Acabou.
— Yoshiyuki..!
A voz do menino chamando-o era trêmula e amedrontada. O desespero criou um zumbido irritante nos ouvidos de Yoshiyuki e desligou seu cérebro momentaneamente. Antes que pudesse cair em si, já tinha atravessado a porta da suíte, deixando-a escancarada às suas costas.
Veludo, veludo, veludo, rosto desconhecido, veludo, veludo, rosto, veludo. Elevador! Botão. Apertou-o repetidas vezes. Sentiu alguém se esfregando nele por trás. Deu meio volta e empurrou a pesada porta vermelha das escadas de emergência. Degrau, degrau, degrau, degrau, casal desconhecido, degrau, degrau, degrau, degrau, degrau... a música pulsante o lembrou de que havia atingido a boate.
Instantaneamente seus cinco sentidos pararam de funcionar. As luzes piscantes o cegaram, a batida lhe ensurdecia, a fumaça lhe enjoava, a grande quantidade de corpos pálidos se aproximando lhe tirou a noção completa do tato. Entorpecido, tentou se guiar até o bar, no lado oposto, onde talvez pudesse recuperar uma noção mais ampla.
Ah, ali! Baixa, cabelos curtos, próxima ao balcão.
— Yumi! — gritou com todas suas forças, quase sem vê-la — Minoru, problemas, suíte presidencial, invasão, Computador Central, ajuda, rápido!
Não poderia ser mais claro de outra forma. Ao vê-la concordar com o polegar, fez sinal de que subiria para encontrar ajuda nos outros andares e desapareceu entre a multidão.
Dita sorriu para si mesma. Não poderia obter uma informação mais clara de outra forma. Com uma das mãos presas à arma carregada na cintura, dirigiu-se para os elevadores. No meio tempo, mandou um e-mail para Ziemma.
Peguei uns engraçadinhos tentando invadir o Computador Central. Pare de se divertir e vá buscar reforços agora.
Foi assobiando no caminho. Boate, corredor, elevador, corredor. Tudo deveria ser muito escuro, mas seus olhos artificiais sempre a ajudavam a enxergar as mínimas coisas. Se pisava e esbarrava nas pessoas enquanto andava, era proposital. Tinha sido programada por uma pessoa bastante impaciente.
Não teve problemas em identificar a suíte. Sua porta ainda se mantinha aberta. Arrumou os óculos escuros e entrou com a arma já em punho.
— Acabou a brincadeira.
E se viu apontando o revólver para um garoto de catorze anos, cujos olhos estavam vermelhos, inchados e arregalados, de medo e choro.
Não se comoveu.
— Literalmente. Acabou a brincadeira.
Avançando um pouco mais para dentro do quarto, ela teve que se desviar dos dois corpos estendidos no chão. Não pisaria porque precisava reconhecê-los. E reconhecia. Eram os dois persocons da manhã anterior, aqueles que fugiram depois que Ziemma —
— Esses dois persocons são seus, mocinho?
Minoru nunca se vira em situação parecida. O raciocínio e a lógica vagarosamente lhe abandonavam, sua mente parava e esvaziava-se, até que toda calma finalmente fosse substituída por uma sensação nova, um aperto no coração, uma dor no fundo do estômago, uma desconcentração inevitável. Naquele momento, não saberia responder aquela pergunta, porque nem mesmo lembrava como falar.
Uma voz lhe salvou.
— São meus. Deixe o garoto em paz.
Yoshiyuki estava acompanhado pelo gerente Ueda e a dona da casa Yumi. Àquelas alturas, já percebera a confusão que fizera e agora seu coração palpitava desesperadamente em seu peito. Desejava que não fosse tarde demais.
Mudou de idéia quando viu o cano da arma apontar para seu rosto.
— Sabia que um deles quase ferrou com o sistema do meu colega?
Oh, céus. De qualquer forma, já era tarde demais mesmo.
— Talvez ele tivesse merecido.
Ouviu um estalo não muito agradável.
— Você vai merecer uma bala se não calar a boca!
— Que grosseria toda é essa, Dita?
Ziemma empurrou os três humanos para dentro do recinto e fechou a porta delicadamente. Estava desacompanhado.
— Não queremos tumulto, não é mesmo?
— E o resto? E os reforços?
— Achei que só quisesse a minha companhia.
O chute dela quebrou o aquecedor de água da cachoeira artificial.
— Quantos coquetéis você tomou pra aumentar sua lerdeza, hein?
Por alguns segundos, seu olhar saiu de foco. Foi mandar o e-mail por si mesma.
Yoshiyuki aproveitou a oportunidade.
— Meu caro amigo fiscal — ele se aproximou e o abraçou de lado —, acho que sua colega está agindo de forma um tanto quanto precipitada...
— Eu não faria isso se fosse você. O programa dela é impaciente, ciumento e violento.
— O que podemos fazer pra fingir que nada aconteceu? — Ueda abriu a carteira.
— Não somos subordináveis, sinto muito.
— Nem mesmo uma troca de óleo..?
O persocom levantou uma sobrancelha para Yoshiyuki em sinal de reprovação.
— Contenha os seus impulsos. Logo mais E.L.F.O.s chegarão, não há nada que possam fazer.
— Ou que possam tentar fazer — Dita completou, seus olhos já de volta a cor normal —, por isso, calem a boca.
Yoshiyuki passou o olhar da porta, inevitavelmente trancada, para Minoru, indefeso e desesperado. O pior de tudo, incapaz de raciocinar. Não saberia calcular tão rapidamente suas possibilidades. Não poderia arquitetar um plano articulável naqueles últimos instantes. Não. Não tinham mais chances de sobrevivência.
Tudo o que tinha em mente era manter a cabeça do grupo intacta.
— O garoto não tem nada a ver com isso. Solte-o.
Ziemma suspirou, Dita bufou. Impacientes.
— Negativo — disse o persocom.
— Ele não deveria estar aqui. Na verdade, ele atrapalhou tudo.
— Negativo.
— Ele é inocente!
— Pare de insistir!
— Eu insisto!
— Se ele for realmente inocente, o governo o reconhecerá como tal.
— Aaah, por favor! Isso é só mais uma daquelas mentiras que vocês são programados a dizer! Provavelmente ele vai ser torturado só por saber ler e escrever!
— Fique —
— As atitudes que o governo tomará não dizem respeito a nós — Ziemma se pôs na frente de Dita, mantendo firme e imutável o tom de voz —. Não se exalte.
— Não dizem respeito a vocês? Vocês tomam conta dessa população que seus superiores massacram. Massacram! E vocês ainda dizem não ter nada a ver com isso? Soltem-no!
Dita voltou a segurar o revólver. Ziemma não perdeu a postura.
— Controle-se, senhor.
— Não enquanto não pudermos controlar o Computador Central. Não enquanto não pudermos trazer justiça e cidadania de volta para o país — ainda falava muito alto, embora fosse de forma mais pausada e pensada —. Vão solta-lo?
— Não.
O monossílabo soou em seus ouvidos como um chute no estômago. A dor subiu até o coração, explodiu em forma de raiva. Sua mente apagou antes que se desse conta de que havia empurrado o persocom a sua frente, arrancando-lhe a arma da cintura. Já com o objeto em mãos, retomava a consciência. Suas mãos não se moviam à mesma velocidade dos pensamentos. Jamais seria rápido o suficiente.
Droga.
De qualquer forma, já era tarde demais mesmo.
Mirou. Pensou em puxar o gatilho.
Dita concluiu antes.
Ouviu o som rasgante da bala saindo do cano, quase sentiu uma dor perfurando-lhe a cabeça. Mas fora mais rápido do que poderia sequer pensar.
Caiu morto no chão.
— O que pensa que fez? — Ziemma se levantou, mal-humorado.
— Só estou livrando um pouco de espaço na sala — Dita guardou a arma, ainda séria —. Daqui a pouco, isto aqui vai estar cheio de fiscais.
— Não deveria ter matado um civil da Ilha. Pode ser apagada.
— Haha, não se preocupe, lerdinho. Eu gravei a confissão dele. Ele era um caótico, um bruxo, foi homicídio justificado.
— Você sempre consegue justificar.


Minoru não assimilara o último diálogo. O som do tiro ecoava infinitamente em seus ouvidos, como um grito ensurdecedor. Como? O que? Quem? Por que..?
Nos seus braços, Chihiro permanecia fria e estática. Sua pele branca confundia-se com seus cabelos prateados. Mas... algo vermelho atrapalhava o cenário.
Vermelho. Sangue.
Ao voltar o olhar para a recente poça de sangue formada ao seu lado, sua vista voltou a ficar cega pelas lágrimas.
Não seria capaz de pensar. Preferiu ficar inconsciente para nunca mais lembrar daqueles instantes.
— A... adeus... adeus... deus...

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