- capítulo VIII.
Chihiro se jogou nos braços de Hideki, apavorada.
— Não leve nada disso que você ouviu em consideração, Chi — disse o persocom, passando a mão em seus cabelos prateados —, Chitose-san está fora de si já há sete anos.
— Desde que a Chi foi embora... não é?
Seu olhar de abandono foi o suficiente para calar os três homens a sua volta, todos procurando as palavras certas para falar-lhe. Minoru pôs-se a mexer em seus botões.
— Papai disse que voltaria, Chi. Ele iria te levar ao passado, reconstruiria uma máquina do tempo adequada à época em que vocês estivessem, e voltaria assim que pudesse para o futuro, no mesmo momento da sua partida, como se nada tivesse acontecido. Mas não o fez. Mamãe e eu ficamos esperando por ele durante esses sete anos e nunca —
— Não fale como se papai não gostasse da mamãe e do Minoru-kun! A Chi viu como papai se importava com vocês. Ele sempre me disse que mamãe e o irmãozinho tinham morrido... era nisso que a Chi acreditava até se lembrar de tudo... mas papai guardava um porta-retrato com a foto da família perto da cama, e sempre, sempre, conversava com a foto! Papai dizia sentir muita falta da mamãe, e a Chi acredita no papai. A Chi tem certeza que se papai tivesse feito a máquina do tempo ele voltaria.
— Este é o grande problema, Chi. A máquina foi feita. Senão, você e Hideki jamais teriam voltado para o futuro.
Silêncio.
Não havia solução. Chitose Hibya enlouquecera. Ichirô Mihora jamais voltara.
Certos pensamentos incomodavam e doíam, e por isso eles foram ignorados por todos os presentes do corredor.
Yoshiyuki preferiu não se meter naquelas questões familiares.
— Minoru, será que não tínhamos aquela conversa pra hoje..?
— Ah, sim, claro, claro. Vamos pra sala.
— Um pouco de chá e biscoitos faria bem, não acha, Hideki? — ele abriu um largo sorriso safado e suplicante. Disfarçando palavras de mau humor, o persocom se dirigiu à cozinha, trazendo logo em seguida o café da tarde.
Pousou-o na mesinha de centro, transparente e brilhante. Ao seu redor, almofadas acomodaram seus recentes visitantes. Não havia janelas; a luz era artificialmente branca.
O chá fumegava quente no meio deles.
— Gostou do passeio, Chi?
Ela olhou desconfiada para o irmão, balançando negativamente a cabeça.
— Nem um pouco.
— É, achei que não. Posso perguntar por quê?
— A Chi lembrou como aqui tudo é feio e todos são egoístas. É muito triste.
Minoru soltou um suspiro demorado.
— Exatamente o que eu penso. Yoshiyuki também, não é?
O jovem de jaleco confirmou com uma chuva de farelo de bolacha no tapete.
— Tanto achamos isso — continuou —, que lideramos um movimento revolucionário em favor do retorno da República. A Aliança Rebelde.
Chihiro ergueu ambas as sobrancelhas, espantada.
— Minoru-kun tem quantos anos pra isso?!
— Ahn... não dê uma de irmã mais velha agora! — ele corou — Vamos falar sério. Nossa Aliança é o motivo da sua volta. Precisamos da sua ajuda, e para isso eu pedi que Hideki lhe levasse num passeio em que pudesse relembrar bem do nosso mundo.
— Como a Chi pode ajudar?
Minoru teve que esperar Yoshiyuki parar de engasgar com o chá para poder voltar a falar.
— Amanhã nós vamos invadir o Computador Central. É ele que coordena todas as ações do governo, todos os seus persocons, desde os barmen e fiscais até auxiliares parlamentares. Só você pode fazer isso, Chi.
As sobrancelhas se mantiveram erguidas.
— Você, Chi, é capaz de se infiltrar em sistemas operacionais sem precisar se conectar a eles, independentemente da distância, do programa, da condição, da vontade do dono ou do próprio sistema. Em contrapartida, seu programa de bloqueio é tão forte que barra qualquer tipo de entrada, invertendo o contato. Ou seja, você invade sem ser invadida.
— Minoru-san — Hideki chamou o patrão, perplexo —, então é por isso que eu não pude me conectar à Chihiro quando ela chegou à Sala Branca?
— Exato. Lembra-se que eu o encontrei caído no chão, funcionando em modo de segurança? Então, o mesmo aconteceu àquele fiscal, Ziemma. Vocês dois tentaram se infiltrar no HD da Chi, mas suas invasões ricochetearam sobre vocês mesmos. A Chi viu coisas sobre vocês, e não o contrário.
— Mas a Chi se lembra que ontem Minoru-kun invadiu o sistema da Chi por um computador, a Chi viu a imagem que veio da cabeça da Chi na tela...
— Aquele computador não se infiltrou em você. Ele funcionava como uma mera extensão da sua memória, daquilo que você via em suas lembranças.
Yoshiyuki disfarçou um arroto. Hideki lançou-lhe um olhar mortal.
— Mas... por que a Chi? Hideki também é um Chobit. Minoru-kun não poderia programar Hideki para funcionar como a Chi, em vez de trazer a Chi de volta?
— Na verdade, eu não criei Hideki sozinho. Eu sei construir persocons, mas a tecnologia Chobit é muito complexa, e não existem estudos divulgados sobre isso. Papai foi o pioneiro. Ele fez você, Chi, e tinha já começado a preparar para montar Hideki antes de ir, mas nunca chegou a completá-lo. Um dia, eu achei seu corpo no laboratório, junto a rascunhos de desenhos e teorias. Dar continuidade a Hideki foi o modo que encontrei de manter ativos os trabalhos do papai, para que quando ele voltasse —
Súbito silêncio. Seu blazer começou a ficar amarrotado de tanto que mexia.
— Enfim, Hideki ainda está em fase de experimentação. A tecnologia que comanda seu bloqueio ainda é muito complexa para que eu possa dominá-la.
— Ah, agora pare de tentar falar bonito e diga a verdade — falou Yoshiyuki com a boca cheia de biscoitos da sorte.
— Chi?
— Ele sentia saudades sua, Chi, essa é a verdade! Mas o homenzinho aqui está com vergonha de admitir, não é?
Minoru teve que se segurar na mesa para não cair com o tapa que recebeu nas costas pelo amigo.
— Eu... ahn... é verdade — corou —. E eu também achei que papai voltaria se fôssemos buscá-los. E mamãe também poderia sarar se visse toda a família reunida de novo. Mas eu deveria saber que a possibilidade de planos paralelos darem certo é muito remota.
Quando ele finalmente levantou a cabeça, seu sorriso parecia sinceramente mais triste do que feliz. Era difícil largar os botões num momento necessário e fingir estar bem, assim, sem mais nem menos. Ainda assim, tentou faze-lo, como se nada tivesse acontecido.
— Então, Chi — ele continuou —, amanhã vamos invadir o Computador Central do governo. Vamos conectá-la a outro sistema que seja mais difícil de localizar, na sede da Aliança. Uma vez que for estabelecida a conexão, estaremos no comando. Particularmente, eu espero que eles fiquem dispostos a negociar...
— Querias... — resmungou Yoshiyuki, enfiando as últimas bolachas na boca.
— Enfim... isso é tudo. Agora é melhor —
— Senta aí, baixinho, que isso ainda não acabou.
Yoshiyuki segurou o garoto pelo braço quando ele fez menção de se levantar.
— Eu pensei melhor, talvez seja melhor não dizermos nada. Pode afetar a finalização —
— Minoru, esse é o nosso Ás da manga, e você quer jogá-lo fora? Francamente, tenho que ensiná-lo a jogar pôquer qualquer dia — ele tomou o restante do chá, virando em seguida em direção à persocom — Chi, a Aliança desconfia que o Computador Central seja Freya, a outra Chobit do seu pai.
— A outra..?
— Hideki, será que você poderia nos mostrar a imagem que a Chihiro nos forneceu ontem?
— Às vezes você poderia falar “por favor”.
— Por favorzinho, meu docinho de coco? — zombou, fazendo biquinho.
Ainda com a cara de desgosto, Hideki levantou-se e conectou os fios de seus terminais à tela de plasma que se estendia por uma grande parte da parede da sala. No segundo seguinte, a figura de uma Chi cinzenta envolta a cabos apareceu.
— Ela não é a Chi.
— Tem certeza?
— É a outra. Papai deu essa imagem pra Chi pequenininha, para que a Chi tomasse cuidado com as pessoas.
— Como assim?
— Para que a Chi não tivesse o mesmo fim que a outra nas mãos de pessoas más.
— E você lembra como a Freya foi parar lá?
— Papai não falava da outra pra Chi, porque quando falava ficava muito triste...
Yoshiyuki soltou um longo suspiro. Minoru sabia que aquela era a hora de calar-se e prestar atenção em seus devaneios. Muitas vezes, eles eram úteis.
Levantou-se para chegar mais perto na tela, observando-a atentamente, quase esfregando o nariz.
— Os rostos são idênticos. Tudo leva a crer que vocês duas são resultado da fecundação do mesmo óvulo, são embriões gêmeos. Concorda, Minoru?
Ele confirmou com a cabeça.
— Mesmo a foto sendo antiga, a aparência de Freya já é adulta... seu embrião foi desenvolvido antes da Chi. É. É. Tudo se encaixa.
Todos, exceto o Hideki inconsciente no momento, pareceram aumentar mais as orelhas para ouvirem melhor. Estavam esperançosos. O mistério seria desvendado.
— Vocês podem me dar mais um tempinho pra pensar?
Foi como se levassem um soco no estômago. Caíram de decepção.
— Ok. Pode ir até cozinha e pegar mais doces pra pensar.
Yoshiyuki abriu um largo sorriso infantil e foi saltitante para o cômodo ao lado. Minoru observou à cena cheio de decepção e, com um suspiro desanimado, desplugou os fios que ligavam Hideki à televisão de plasma.
— Minoru-san — falou assim que abriu os olhos —, lembrei-me agora. Encontrei isso comigo hoje de manhã, não sei quando apareceu...
E entendeu-lhe o origami que havia encontrado no bolso do paletó, algumas horas antes. Foi o suficiente para devolver o sorriso alegre de garoto a seus lábios.
Desfê-lo vorazmente, contente, certo do que encontraria. E suas certezas se concretizaram.
O origami era, na verdade, uma carta.
E ela fora assinada por seu pai.
sexta-feira, 23 de março de 2007
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário