- capítulo XV.
Quando Minoru deu-se conta de sua existência, já estava no chão, sujo, empoeirado, vermelho, rodeado por pessoas desdentadas e violentas. O barulho ao seu redor era insuportável, uma mistura de sons desconexos em sua mente.
— MÃE!
— Que é?
— É bruxo! É bruxo!
— Sai!
— Olha!
— Nooooooooossaaaaaaaa!
Todos monossilábicos e cuspidos.
O que lhe parecia ser figuras humanas o tocavam em todas as suas partes, descobertas ou não, o arranhavam, beliscavam, puxavam qualquer membro aparentemente mais desconectável. Era incômodo, chateava-se internamente, embora não fosse capaz de se defender: os acontecimentos eram mais rápidos do que seu cérebro agora debilitado poderia acompanhar.
Feitas as observações, começaram as hipóteses; neste momento, grande parte da roda tinha perdido o interesse pela nova criatura. Sua cabeça girava incessantemente, o movimento ao seu redor era mais do que poderia suportar. Quando seu estômago começou a enjoar, fechou os olhos.
Foi instantâneo.
O som do tiro rasgando o ar bateu de súbito em seus ouvidos. O apito seguinte era quase ensurdecedor. Como se coladas em suas retinas, imagens aleatórias pulavam de suas lembranças, um homem, um jovem, uma menina, uma mulher, vermelho, vermelho, vermelho, preto-e-branco...
O movimento de seus lábios era o de sempre, único e involuntário.
— A... adeus... adeus... deus...
Se não estivesse momentaneamente surdo, teria se surpreendido com o súbito silêncio que surgiu entre os habitantes da Terra Vermelha. Eles olhavam do garoto a si próprios, trocando olhares cheios de apreensão. Então a criatura era humana – a criatura falava?!
Depois de ser censurado, um menino adiantou-se para frente até onde Minoru se estendia no chão, pálido e trêmulo. Agachou-se de seu lado e, sem se dar conta do volume da sua voz, lhe dirigiu a pergunta:
— QUEM É?
Foram apenas segundos de pausa para que a fala fosse dita novamente.
— A... adeus... adeus... deus...
Alguém mais ao fundo levantou a mão.
— Que ele disse?
O menino não pôde se controlar de contentamento, tamanha era sua lógica:
— ELE DISSE QUE É DEUS!
O cochicho foi geral. As pessoas gritavam umas com as outras, escandalizadas; outras saíam correndo para espalhar a notícia, comentar, chamar os parentes para ver a criatura divina. Divina! Havia uma lenda que dizia que os deuses viviam no céu, naquelas construções enormes e metálicas que se estendiam até as nuvens. Eram eles que traziam os elfos, eram eles que matavam os bruxos. E agora, oh, nossa, havia um deus na Terra Vermelha!
Passado o susto, os gritos seguintes foram apenas de comemoração.
Durante aquele dia inteiro, todos os homens se reuniram para tentar acender uma grande fogueira. Eram raras as ocasiões com fogo; consideravam-no muito difícil de se produzir, algo muito “mágico”. Foi somente quando escureceu que um dos mais jovens pôde se lembrar de como partir a primeira faísca: depois disso, puderam comer legumes quentes. Todos juntos, homens e mulheres, esbaldando-se em vegetais ao redor do milagre que tinha descido até eles.
Em seu canto, virado somente para si, Minoru não pôde entender absolutamente nada. Pessoas estranhas, animais malucos. Mas nem precisou.
Nos dias que se sucederam, foi tratado como rei. A cada dia, dormia em uma cabana diferente, em uma cama diferente, comendo comidas diferentes – ele era uma benção, o destruidor de espíritos malignos, apesar de nem ao menos se dar conta. Cada palavra absurda que sua disforme dicção produzia era sinônimo de sabedoria, e seria repetida por dias. Pôde finalmente descansar das alucinações, e isso lhe caiu como a uma luva.
Aos poucos, suas noites antes perturbadas por pesadelos passaram a ser completas. As sentenças ao seu redor começaram a fazer mais sentido. A noção da passagem de tempo voltou, e os flashes de lembranças começaram finalmente a se agrupar em uma ordem cronológica. Numa manhã em que tinha contado um mês, foi capaz de lembrar de seu nome: Mi-no-ru.
Mi-no-ru.
Sorriu para si mesmo. Aquele nome fazia muito sentido.
Nada como ter um QI acima de 170 – ou talvez isso nem fosse muito surpreendente, porque, afinal, ele era um deus.
Era somente isso que faltava no alto dos prédios cinzentos. Um deus. Fé.
— A Chi não queria... não queria... não queria...
As quatro paredes-espelhos refletiam simultaneamente a imagem da persocom deitada no chão, encolhida.
— Yoshiyuki-san... Minoru-kun...
Era congelante - por fora e por dentro.
— Hideki... Hi...de...ki...
Desde a última conversa com a outra, Chi não se mexeu mais. Não abriu mais os olhos. Não comia há dias. Não sentia vontade, não tinha mais esperanças. Não havia. Ela fora a última, e a única.
— Hi...de...ki.
Seu corpo lentamente ia se desligando, parando, parando, parando... exceto por sua mente. As memórias fluíam como em uma cascata.
Ouvia passos... enxergava papéis... letras... imagens... mas estava tudo tão... escuro.
Não. Uma tímida luz brilhava às suas costas. A lanterna. Levou os olhos até as mãos, e percebeu que segurava algo pesado, algo sujo, algo... um jornal. As enormes letras da manchete lhe atingiram com um susto, e ela gritou.
CASAL PACIFISTA JAPONÊS É VÍTIMA DE ATENTADO TERRORISTA.
~O que é isso?~
Mais uma vez, vinda do nada, a voz. Não pertencia à lembrança, mas mesmo assim sabia que não poderia desvinculá-la, não poderia impedi-la.
Ela estava lendo em voz alta, e a cada palavra sua sentia que iria desmaiar. Sua pressão baixou, seus circuitos queimariam. Ali, escancarado diante de seus olhos, seu futuro. Sua vida. Sua morte. Seu Hideki...
~Você vai morrer... você... já morreu.~
Se Chi pudesse vê-la naquele momento, saberia que Freya compartilhava sua expressão. Estava surpresa, e assustada.
~Então é isso o que te incomoda. O persocom.~
Viu-se envolta entre os braços dele, morna, protegida. Estavam juntos, como sempre foram, como sempre seriam.
Mesmo? Seriam..?
Não, ouvia uma segunda voz, a sua própria, o passado jamais iria se repetir para a Chi, porque a Chi nunca viveu esse passado. A Chi pôs tudo a perder. A Chi matou Yoshiyuki-san, e a Chi vai matar Hideki...
~Não. Você vai se matar se continuar a se martirizar com essas lembranças.~
A biblioteca subterrânea desapareceu, e tudo voltou a ficar mergulhado na escuridão.
— Hideki morreu... A Chi vai matar Hideki de novo...
~Pare com isso. Estamos perdendo contato com você. Seu sistema orgânico está definhando. Seu sistema inorgânico está inoperante. Eu repito, pare com isso.~
— A Chi precisa do Hideki... precisa do Hideki... quer ficar junto...
~Se a lembrança for a causa do problema, eu vou apagá-la.~
— A Chi quer Hideki... de volta...
Não poderia mais ouvir. Não queria.
Tarde demais.
~Deletando arquivo permanentemente, chobitS.~
Fora mais rápido do que poderia prever. Um turbilhão de imagens passou por sua mente como se realmente estivessem em suas retinas, todas sobrepostas, simultâneas. Antes que pudesse se dar conta, sentiu uma dor o coração, um vazio, algo que se pressionava contra seu peito - e então acordou.
Pi. Pi. Pi.
Pulou involuntariamente da cama em que estava deitada, e somente abriu os olhos para tornar a fechá-los em seguida. Estavam demasiadamente sensíveis, assim como o resto do seu corpo. Tudo formigava, tudo girava fora e dentro de si, apesar de que... estava tudo ainda muito... vazio.
— Conseguimos batimento! Conseguimos batimento!
Pi. Pi. Pi.
Vazio, vazio, vazio, e não se lembrava por quê.
Sentia muito movimento ao seu redor, pessoas indo e vindo numa pressa desesperada, falando umas com as outras, bravas, irrequietas. Mesmo com as pálpebras fechadas, podia sentir a luminosidade. Todos estavam de branco, todo o ambiente era branco. Deveria estar em algum lugar como um hospital ou...
Pi. Pi. Pi.
Não importava. Aquele som, ah, aquele som não a deixava pensar direito...
Pi. Pi. Pi.
Havia algo de familiar nele, já o tinha ouvido antes, mas não poderia se lembrar...
Pi. Pi. Pi.
Um toque de borracha chegou até a sua mão.
Pi. Pi. Pi.
Sim! Aquele som a fazia lembrar de –
— Hi... de... ki. — suas cordas vocais deixaram escapar num sussurro dolorido, repetidas vezes, até que eles enfim parassem de se mexer.
Ao seu redor, tudo tornou a escurecer. Saiu da sala médica para ir onde nem mesmo Freya poderia manter contato.
Inconsciência.
A porta do escritório de Takako abriu-se num estrépito, permitindo a passagem de uma moça vestida de branco, suada, afobada.
— S-senhora, senhora, a garota, senhora, ela – nós – nós –
— Fale, criatura!
— A garota – nós estamos perdendo a garota.
— O quê?— ela se levantou de sua num movimento tão repentino que fez a outra recuar — A condição dela não estava estável? A cama, o soro, o acompanhamento —
— N-na verdade, a situação dela piorou bru-bruscamente nas últimas 24 horas, e-esta manhã tivemos que usar o desfibrilador —
— Isto não estava nos relatórios! — bateu com o punho na mesa.
— Não, senhora, não estava, não tivemos tempo —
— Chega de rodeios, sua inútil!
— Re-recuperamos batimento, senhora, ela estava bem, melhor do que quando chegou, mas então – então – então ela desfale-leceu, senhora.
— Desmaiou? Só isso que você tem a me dizer?
— S-só, senhora.
— Há quanto tempo ela está assim?
— Nós estamos fazendo o possível, senhora, por favor entenda que —
— Eu não quero entender nada. Eu te fiz uma pergunta, responda.
A médica tremeu por baixo do jaleco branco.
— H-há 20 minutos, senhora.
Takako fitou a garota com ódio nos olhos. Sentiu que o olhar era capaz de atravessar-lhe a pele. Irresponsabilidade, negligência! Como podia? Tudo por baixo de seu nariz, como se paradas cardíacas e comas fossem algum tipo de festa. O sangue subiu-lhe até as têmporas. Foi obrigada a desviar o olhar para se dirigir até o armário do outro lado da sala e vestir seu próprio jaleco.
Cruzou novamente o escritório e passou pela porta, ainda aberta.
— O que está esperando? Anda, menina, anda!
Seus passos eram tão rápidos pelos corredores que a outra tinha de fazer esforço extra para acompanhá-la.
— Quem é a tal senhora Sato responsável pelo grupo?
— Na verdade – sou eu, senhora.
— E você deixou a equipe sozinha?! — explodiu.
— Por f-favor, senhora, eu apenas vim lhe falar do problema porque preciso de uma autorização sua.
— Para quê, criatura?
— Bom, é que – há cerca de cinco minutos atrás, meu persocom portátil parou de funcionar. Quando eu o reinicio, ele apresenta uma mensagem de erro muito estranha...
— Ora, menina, eu não tenho tempo para —
Pela primeira vez, a médica aparentemente parou de dar atenção às palavras grosseiras de sua chefa. Parou no meio do corredor e tirou do bolso mais baixo uma figura humana minúscula, um chaveiro. Um persocom. Apertou seu nariz.
Os resmungos de Takako foram instantaneamente emudecidos por suas palavras.
— Deixe a garota ver o garoto... deixe a garota ver o garoto...
A sentença foi repetida até que as bochechas iluminadas do boneco se apagassem. Takako observou-o atentamente até o silêncio – e, de uma forma que parecia ser impossível, baixou o tom de voz:
— Freya... O Computador Central está falando.
— É o que eu achava, senhora. Mas ela tem conexão com a Chobit..?
Não houve resposta.
— Fazemos isso, senhora? Acordamos o garoto..?
Ela ajeitou os cabelos e lhe dirigiu olhar.
— Se você tiver competência para tanto...
Pôs-se a andar e virou à direita na primeira porta.
Hideki não pôde perceber a diferença entre pesadelo e realidade ao se deparar com os olhos frios e rancorosos de Takako.
sexta-feira, 23 de março de 2007
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