terça-feira, 20 de março de 2007

Destruidor de Corações

Sinopse: Às vezes mentiras entre casais podem ir longe demais.
Categoria: Originais
Gênero: Darkfic, Romance, Tragédia
Data: novembro de 2006
Palavras:
Alertas: linguagem xula.
Nota: inspirado em um dos contos do livro "Pouco amor não é amor" de Nelson Rodrigues.


Primeiro de novembro de 1897.Ouro Preto, Minas Gerais.

— Arrasa-corações, é, Álvaro?
Um grupo de quatro jovens elegantemente vestidos dentro de seus ternos risca de giz sussurrava embaixo dos seus chapéis. Estavam em torno de uma delicada mesa de vidro, pertencente ao mesmo dono da cafeteria logo em frente: Paris. Escondiam perfeitamente suas palavras, mas não conseguiam dissimular suas risadas extrovertidas.
— Posso saber o por quê de tanta graça? — perguntou Álvaro, erguendo as duas sobrancelhas.
— Graça não — respondeu Carlos, no meio de um gole de café —. Nosso caso é de dúvida.
— Não que suas histórias não tenham crédito algum... — começou Afonso.
— Você não nos deixa dar-lhes o devido respeito — afirmou Euclides, batendo nas costas do colega.
— Não respeitam minhas histórias?! Por acaso lá pareço eu um pescador?!
— Talvez sem este chapéu até pareça — riu Afonso, desprotegendo, por um momento, a cabeça do jovem.
Sem exceção, todos riram. Mesmo assim, Álvaro não estava disposto a se deixar levar pela zombaria.
— Qualquer uma. Apontem qualquer jovem que passar agora aqui na frente. Ela não resistirá aos meus encantos.
Os outros três se entreolharam.
— Desafia-nos, Álvaro Machado?
— Isto não é um desafio, meu caro Afonso de Guimarães. É uma aposta — com um sorriso maroto no rosto, tirou do bolso do paletó um bolo de notas. Separou três — Estes contos de réis lhe parecem suficientes, cavalheiros?
Nova troca de olhares.
— A primeira?
— A primeira.
— Imaginem se for Eugênia, a coxa! — exclamou Euclides, quase derrubando os óculos, tamanho era o riso. Parou para respirar, ainda achando graça: — Feito! Mensuraremos seu nível de franqueza!
— E de sorte com as mulheres!
Novas risadas. Álvaro atentava ansiosamente aos passantes na rua.
Sim, apesar daquele moço de apenas 28 anos aparentar demasiada confiança e vaidade, não deixava de chamar a atenção das donzelas. Nas muitas festas dos mineiros ricos e influentes, ele era sempre o centro das atenções, belo e simpático. Escapara duas vezes de casar-se com menininhas apaixonadas. Não, a vida de casado não era para ele; ainda tinha muitas graças a fazer muito para se achar.
Eis que, então, passou. Escondida por um grande chapéu e por um negro vestido rendado e florido, abanava-se timidamente com um leque de mesma cor, tentando disfarçar o calor tropical do país. Caminhava a passos curtos, serena e envergonhada.
— Clarice — falou Álvaro, levantando-se e ajeitando os cabelos — Meus senhores, é hora do show.
O plano já estava pronto: seria o mesmo de antes, o mesmo de sempre. Fingiu-se modesto e ingênuo, usou algumas palavras floreadas, abriu um sorriso galanteador, presenteou-a com uma flor de jardim, convidou-a para um baile à noite. Ótimo. Quase perfeito. Teria sido melhor se ela tivesse ao menos saído de trás do leque e concordado com palavras. Mas tudo bem – afinal aposta era aposta, e felizmente ela não era Eugênia, a coxa.
— Hoje à noite, no baile de Madame de Oriol. Espero os senhores lá para fazerem as devidas observações — disse, ao aproximar-se da mesa dos companheiros.
— Nós estivemos refletindo, Álvaro... — começou Carlos — e decidimos que uma semana é de bom tamanho. Será tempo suficiente para provar todas as suas habilidades de arrasador de corações.
Os três sorriram. “Que maçada!”, pensou.
— Não há problema — falou, num sorriso maroto —. Somente espero que ela não seja outra querendo casar depois de tanto tempo.


— Como minha mãe pôde ter cometido tal crime — repetia para seu próprio reflexo no espelho, enquanto ajeitava a gravata —, deixando-me nascer mais belo do que todos? — terminou os ajustes finais e fez uma pose galã para si próprio — Fico em dúvida se devo gostar mais do meu caráter ou do meu rosto...
Verdadeiramente metido, falsamente modesto.
Às sete horas em ponto, chegava na casa de sua nova amante. Ostentava riqueza e poder. Pela primeira vez, cogitou a possibilidade de levar o caso mais a sério. “Muda e rica, o que mais eu poderia desejar?”.
Mas logo mudou de idéia ao ver Clarice passando pelo portão, acompanhada. De repente, o mundo caiu sobre sua consciência, e ele teve que se segurar para não bater a cabeça no muro naquele mesmo instante, de raiva de si mesmo.
Clarice era irmã de Eugênia. A mesma Eugênia manca, a mesma que havia se apaixonado por ele há anos atrás, a mesma que quase lhe forçara a casar. Sentiu um arrepio na espinha com as lembranças e com os novos pensamentos. Estava arruinado. Perderia seu dinheiro e levaria um guarda-chuva na cabeça. Raios!
— Vamos ao baile?
A voz doce de Eugênia lhe trouxe de volta ao mundo. Não havia mágoas nem rancores. Ela lhe sorria de modo simpático apenas, e ele não deixou de retribuí-lo. Rumaram os três felizes e tagarelas até a mansão de Madame de Oriol, nada podendo ser melhor e mais certo.
Impressionante – mas agora não poderia mais se dar ao luxo de analisar o comportamento de mulheres que não mais lhe pertenciam. Desviou todos os seus pensamentos para o par de olhos verdes de Clarice: eles eram esmeraldas, e ele, um colecionador de pedras preciosas. Ao menos naquela noite, eles seriam seus.
Aos poucos, o sorriso galante de Álvaro sugou toda a timidez de Clarice. E quando ela finalmente soltou sua voz e começou a conversar, foi como se todo o barulho do salão se calasse por um momento e deixasse ecoar somente os timbres afinados de suas palavras. Elas seguiam um ritmo, como uma música, e além de tudo eram encantadoras, cheias de significado, de expressão. Álvaro perdeu-se naquele labirinto por muito tempo. Não conseguia sair.
E também não queria mais.
No fim daquela mesma noite, Carlos, Afonso e Euclides admitiram sua derrota e lhe pagaram conforme o combinado. E a primeira coisa que fez com o novo dinheiro foi encomendar um buquê de flores a ser entregue na porta de Clarice. Fora acompanhado por um bilhete com os dizeres: “Este cavalheiro jamais poderá esquecer o gentil olhar de sua donzela”.
E tanto realmente não pôde que logo havia voltado à casa da jovem. Visitou-a outras tantas vezes, passearam mais outras. O feitiço havia virado contra o feiticeiro. A cada dia, Álvaro sentia-se mais encantado, mais dominado, mais... apaixonado. Sim, não desejava mais levar sua vida boêmia de bebidas e mulheres; tinha para si a única que poderia desejar em toda sua vida, e não poderia perdê-la jamais.
Não haviam trocado qualquer forma de carícias. Clarice tinha apenas 16 anos, e ele sabia que, no fundo, ela tinha medo, fosse de um simples beijo, fosse de uma entrega completa. Mas Álvaro a respeitava. Seu desejo não era somente vontade. Tinha sentimentos profundos. Não queria magoá-la, não queria fazê-la sofrer. Esperaria o tempo que fosse necessário, porque... porque Clarice era seu amor.
Sim, era inegável, ele a amava. Ela não era qualquer mulher, era “a” mulher. Sua, e somente sua. E ele queria ser também somente dela, eternamente.
Depois de duas semanas de paixão repreendida, decidiu declarar-se. Casar-se-ia. A faria feliz. E não haveria aposta no mundo que o fizesse mudar de idéia.
Na tarde quente do dia 14 daquele mesmo mês, Álvaro tocou a campainha da casa de Clarice, carregando em seus braços um enorme buquê de rosas vermelhas, e escondendo no bolso do terno uma caixinha com alianças douradas. O suor frio escorria pelo seu rosto.
Enquanto Clarice enchia de água um vaso para depositar as flores, ele deu uma rápida passada de olhar pela casa. Estavam sozinhos na sala. Perfeito. O plano já estava armado, como todos os outros que antigamente fazia para conquistar garotas – mas aquele era novo, e aquela garota também.
Quando Clarice entrou na sala e fechou a porta, a cabeça baixa, fora obrigada a levantar o olhar. Sentiu uma lágrima caindo na sua pequena mão, prensada entre as duas de Álvaro.
— Clarice... não posso mais viver assim — começou, as lágrimas naturalmente rolando sobre sua face — Não... não consigo mais... não posso me separar de você. Cada momento em sua companhia me dá luz, me dá brilho, enche meu coração de felicidade. Mas quando nos separamos... é como se eu não pudesse respirar. Meu pobre coração se contorce de dor, de saudade sua.
Nenhum dos dois piscava.
— Por favor, eu preciso ficar do seu lado. Para sempre. Não quero deixá-la jamais. Comprometo-me a largar minha antiga vida, dedicá-la somente a você. Mas se não me quiser, eu passarei por aquela porta no mesmo momento, pois sua felicidade é o mais importante.
Ela voltou os seus olhos para baixo novamente.
— Clarice... eu te amo. Sente o mesmo por mim?
Por um momento que lhe pareceu eternamente longo, o silêncio preencheu o ar. Álvaro deixou escapar outra lágrima em suas mãos unidas. Enfim, separou-as, voltou-se para pegar seu chapéu e sair.
No entanto, a mão de Clarice o deteve. No movimento seguinte, ela o puxou para junto de si, e seus lábios se encontraram num beijo suave.
Sim, ela o amava. Amava? Álvaro cedeu à pressão de seus corpos e pediu permissão para aprofundar o beijo. Com a respiração mais pesada, ela aceitou... ali ficaram dominados pela paixão, completando-se, sentindo um ao outro... Mas seu coração ainda não estava calmo; afinal, sempre fora vaidoso, e carecia de uma resposta clara. Precisava se sentir querido, amado. Interrompeu o beijo e a encarou com olhos de abandono.
— Querida, você também me ama?
Ela sorriu.
Um sorriso doce, jovial. Maroto.
— Eu tenho lepra.
Um sorriso quase cruel. Vingativo.
Horror.
— O quê..? — perguntou, extasiado.
— Eu tenho lepra — respondeu vagarosamente, como que saboreando cada palavra, e cada trejeito assustado desencadeado por elas.
Não. Era mentira. Seu amor, aquela criatura linda, perfeita, única... amaldiçoada?!
Rodou seus olhos em torno de seu corpo. Estava coberto por um vestido negro, rendado e florido. Completamente coberto. Como sempre. Aquelas mangas cumpridas, aquelas flores feitas à mão, aquelas laços de cetim, tudo deveria esconder descaradamente as grandes feridas de doença.
Doença demoníaca.
Encostou levemente a mão nos próprios lábios. Havia tomado diretamente o sulco do horrível, do contagioso. Cuspiu, cuspiu com força. Desesperadamente passou a manga do paletó pela língua, chacoalhou a cabeça, gritou de pavor. Colocou o dedo na garganta e vomitou, ali mesmo, no meio da sala, na frente de Clarice. Ela não mexeu um músculo.
— Sua... sua... — começou numa respiração entrecortada.
O amor subitamente morrera. Ódio era tudo o que sentia. Repugnância àquele ser, àquela coisa que lhe havia passado sua maldição por puro capricho. Morrer para amá-la? Jamais. Ela não era mais uma mulher — era um criatura desprezível, nojenta.
— Você... não... — Agachou-se mais uma vez, não suportando o vômito que novamente lhe subia à garganta. Nojo, nojo profundo, nojo extremo.
— Não pode... não é verdade...
Clarice deixou escapar uma risada. Sarcástica. Cínica. Sádica.
— SUA PUTA!
O palavrão engasgado finalmente cedera à presença de Clarice. Trovejou repetidas vezes, com fervor, ódio e medo. Não foi capaz de controlar as mãos de Álvaro e permitiu-lhe quebrar coisas, jogá-las na parede, no chão, contra a menina. Mas ela permaneceu estática, deliciada com a cena de horror.
E então ele chorou. Deixou as lágrimas antes amorosas caírem de raiva e de pavor. Soluçou um grito agudo, e por muito tempo ficou a rolar sobre o tapete, chorando agonizada e desesperadamente. Esfregava o corpo na aspereza das paredes, tentando tirar de si o mal. Mas era inútil. Sabia que era, e a cada tentativa soluçava mais.
Voltou a si, dominado novamente pela cólera. Inferiu um tapa ardido no rosto da jovem. Não pôde mais suportar sua indiferença. Sem nem ao menos bater a porta, saiu, deixando o vômito exposto às moscas.


No dia seguinte, Clarice arrastou-se para fora de casa. Estivera feliz, e estava ainda. Tinha realizado sua vingança – e de sua irmã – da maneira mais doce possível. Ela ainda podia lembrar das noites que Eugênia passava em claro em seu quarto, aos prantos: “Ele não me ama porque sou coxa! Porque sou inútil! Sou um estorvo da natureza!”.
Naquela época, tivera que esconder as facas e os venenos da casa. Muitas vezes a encontrara à beira da janela, prestes a pular. Era pequena, mas compreendia o sofrimento da irmã querida, e sofria junto. Sentia ódio daquele tal de Álvaro Machado, destruidor de corações.
E quando descobrira que aquele arrogante rapaz que a abordara há duas semanas atrás era o crápula, deliciosamente planejou sua vingança. Sua irmã verdadeiramente estava melhor, não guardava ressentimentos, tornara-se devota à Igreja Católica. Contudo, as lembranças de Clarice eram muito vívidas para serem ignoradas. Ela não resistiu, e se vingou da maneira que lhe pareceu mais própria.
Não era hansênica, e teria horror de si mesma se fosse. Soltou um riso frio e calado ao lembrar-se de sua própria figura interpretando tão bem aquela mentira.
Eugênia a crucificou, leu-lhe um pedaço da Bíblia, tentou convencê-la de seu grave pecado. De qualquer modo, ela sabia que era bem merecido. Dirigia-se à casa do rapaz somente em respeito à irmã que tanto amava.
Soltou um suspiro aborrecido quando chegou. A porta da frente estava fechada, e não havia sinais de movimentação interior. Bateu palmas na esperança de que alguém a atendesse.
Impacientou-se, abriu logo o portão e se pôs a espiar por detrás das cortinas que cobriam as janelas do andar térreo.
Foi quando ouviu um disparo de revólver.
O vidro de uma das janelas de cima se quebrou.
Desmaiou quando viu o cadáver de Álvaro Machado com um tiro na cabeça logo atrás de si, caído no jardim.

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