Sinopse: Depois do acidente, aquela família nunca mais foi a mesma. Afinal, até que ponto a loucura e a obsessão podem dominar a mente de uma pessoa..?
Categoria: Originais
Gênero: Drama, Suspense, Tragédia
Data: janeiro de 2007
Palavras:
Agradecimentos: à beta-reader hotarubi_suigin, do Nyah! Fanfiction, que corrigiu as minhas distrações.
Nota: inspirado no livro "Bloodline" de Sidney Sheldon.
- o quarto.
A figura santa a sua frente a admirava com olhos de misericórdia.
— Oh, meu Senhor, por favor... ajude-me...
Os olhos de Catarina realmente careciam de toda aquela piedade. Estavam inchados de choro, cobertos de lágrimas salgadas, cheios de desespero, agonizados com a paisagem a sua volta.
O quarto que a rodeava estava na penumbra, pobremente iluminado por algumas velas no chão. Ao contrário, Catarina o consideraria “iluminado” – protegido por suas divindades, anjos e santos caracterizados por suas várias esculturas. Sem perder o fôlego, ela rezava, pedia, suplicava por sua libertação. E a da sua pequena irmã...
Às vezes encostava o ouvido na parede mais próxima, a que dividia com o quarto de Bianca, sua irmãzinha de nove anos. Procurava por uma palavra, um suspiro que fosse – ficaria contente até mesmo com um grito. Porque os dias passavam, e com eles ia também sua esperança. Não ouvia nada, absolutamente nada.
Tinha medo de pensar no pior. E sempre que tinha medo, rezava.
— Oh, meu anjo da guarda... proteja Bianca... proteja Ricardo... proteja esta casa...
A porta estava trancada pelo lado de fora. De vez em quando ouvia passos no corredor, e Ricardo lhe deixava um prato de comida. Mas não comia. Não poderia saber o quê tinha além da comida. Contentava-se apenas em alimentar a alma. E rezava...
Além da janela, as árvores batiam umas nas outras, dançando com a brisa da chuva fina que caía. Estavam em Lugar Nenhum, perto do Nada. Não havia vizinhos, os empregados havia sido todos dispensados. Ela não tinha contato com mais ninguém. Não tinha como pedir ajuda. Estava perdida.
E sua cabeça doía...
Interrompeu a reza e levou as mãos ao rosto. Estava toda suada, um suor frio, de fome, de dor. Arrastou-se até a cama de casal que ficava no centro e deitou um pouco, admirando o teto que girava acima de si. Virou-se e caiu no chão, batendo e derrubando, antes, o criado-mudo ao lado.
Dentro das gavetas abertas, um telefone celular.
Salvação!
Com as mãos trêmulas, segurou-o e apertou três teclas brilhantes. Um. Nove. Zero.
— Alô? Polícia? Por favor, me ajude, meu irmão me trancou no quarto, ele está maluco, ele matou minha irmã —
O desespero explodiu em forma de soluços incontroláveis pela sua boca quando pronunciou essas palavras. Morta, sim, achava que estivesse... sua irmã... sua amada Bianca... pequena... indefesa...
Assustou-se com o barulho da porta sendo escancarada. Ricardo estava lívido, pálido, furioso, as veias das têmporas pulsando de terror. Numa pancada, jogou o celular contra a parede, antes que ela pudesse completar o endereço da casa.
— Catarina, o que foi que fez?
— O que foi que você fez! Seu monstro! ASSASSINO!
— É pecado pensar assim de uma pessoa que gosta tanto de você — respondeu, a voz mais calma — Não faça mais isso. Não precisamos da polícia aqui, não é? Vamos tentar nos divertir sozinhos, eu e você, como quando éramos pequenos...
Sentado no chão também, abraçou-a por trás, num aparente gesto de ternura. Catarina não se moveu. Estava apavorada.
E quando Ricardo finalmente a largou e se foi, ainda trancando a porta ao sair, ela voltou a rezar. Que a polícia pudesse detectar a ligação, reconhecer o endereço, tira-la dali... limpar a mente insana de seu irmão... oh, que Bianca não estivesse realmente morta...
Sua cabeça voltou a martelar.
Antes era por causa dos gritos explosivos do irmão mais velho. Agora, era por causa do silêncio, que permitia sua mente a perder-se em lembranças dolorosas, pensamentos que fazia questão de esquecer. Mas era inevitável.
Começou no dia primeiro de novembro...
sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007
Trauma
- o passado.
— Mana, me leva no shopping?
Ainda podia ver a pequena Bia correndo de um lado do outro para o outro dentro de casa, interrompendo-a a cada segundo com o mesmo pedido. Não conseguia estudar – e, no fundo, também não queria. Tinha acabado de tirar a carteira de motorista e aceitava qualquer desculpa para poder dar uma voltinha.
— Tato, empresta o carro pra eu levar a Bia no shopping?
Ricardo somente jogou as chaves na mão do irmã, sem levantar a cabeça da tela do computador. Tinha seis anos a mais que Catarina e outras preocupações na cabeça. Teoricamente, era o responsável pela casa enquanto os pais viajavam a negócios – na prática, preocupava-se apenas com a monografia da faculdade.
Com um sorriso de orelha a orelha, entraram no Audi do irmão e pagaram a estrada que levava à cidade vizinha. O rádio tocava animadamente Happy Day enquanto elas cantavam, felizes.
Mas quando o caminhão veio, a cantoria foi substituída por gritos de susto e dor.
— Meu Deus..!
Foi rápido demais para raciocinar. Tudo o pôde fazer foi desviar.
O carro saiu da pista, entrou no gramado, capotou três vezes. O fluxo parou.
A garganta de Catarina explodiu de medo ao ver tudo girar, tudo quebrar, tudo lhe atravessar, tudo doer, tudo ficar num vivo tom de vermelho que gradativamente enegrescia até total escuridão.
Perdeu os sentidos.
Não era possível. Estava viva! Viva!
Ouviu uma voz falando, muito distante, muito grave, muito surreal.
— É um milagre que ela tenha sobrevivido... ela é uma pessoa muito iluminada...
Oh, sim, era um milagre!
Cada gole de ar frio que respirava enchia seus pulmões de nova vitalidade, esclarescia sua mente. Abrir a boca e soltar a voz doía. Não conseguia controlar os movimentos. Tentou se mexer mas não conseguiu. Seu corpo estava coberto por hematomas. Sua cabeça, envolta por fachas, parecia estar a ponto de explodir.
Mesmo assim, estava feliz.
“Meu Senhor”, pensava todos os dias, “Obrigada por me dar uma nova chance. Obrigada. Ela será inteiramente sua. Obrigada. Obrigada”.
Semanas depois, sentia que voltava à normalidade. Já podia sentar-se na cama para comer, e completar as frases não era mais tão exaustivo.
— E a Bia? Eu preciso vê-la, por favor...
— Não até que você tenha melhorado — disse o médico, uma vez — Vamos falar sobre isso quando você puder sair desta cama.
Encheu o quarto e imagens, de rezas, de louvores. Agradecia por sua vida, pela vida de sua irmã, pela nova chance que Deus lhe dava todos os dias. Oh, e como ele era misericordioso...
A cabeça, por vezes, doía. Mergulhava em enxaquecas por horas, por ias, perdia a noção do tempo e do espaço. Uma vez, chegou a esquecer quem era; lembrava da ocasião com o mesmo desespero da hora. Naqueles momentos, orava, e acreditava ser guiada para o caminho certo.
Trancou seu coração, e deu a chave somente a Deus.
Das suas lembranças do hospital, a mais viva era a presença do irmão. Via-o sentado no sofá ao lado, na maior parte do tempo dormindo, cansado, desgastado, profundas olheiras envoltas em seus olhos. Rezava por ele também, mesmo que ele não acreditasse em sua nova religião.
— E a Bia?
Quando Catarina lhe perguntava assim, encontrava-se encarando o olhar castanho e distante de Ricardo, desanimado e triste. Tentava não se preocupar. Afastava os dizeres dos médicos sobre ela com rezas de sua cura e muita dor de cabeça.
E então, quando os exames finalmente chegaram, ela recebeu alta.
— Obrigada, Senhor... obrigada...
Chegou em casa, apoiada pelos ombros do irmão.
— Onde está Bia, ela já chegou?
— Calma, Ca, vamos pro quarto primeiro, você deve estar cansad —
Mas ela não lhe deu mais ouvidos; escapando com astúcia dos braços que a rodeavam, ela subiu as escadas correndo em direção ao quarto da irmã. Ouvia os passos apressados de Ricardo, que gritava coisas ininteligíveis. Mas, oh, Senhor, nada mais lhe importava a não ser amor e religião.
A porta estava entreaberta, a luz apagada. Entrou devagarzinho e se postou ao lado da cama com colcha cor-de-rosa. Suspirou aliviada.
Lá estava ela, afundada em sonhos bons, numa respiração suave e ritmada. Seus cabelos castanhos muito finos caiam-lhe sobre o rosto, como se tentassem esconder seu sorriso delicado. Catarina fez-lhe um carinho de leve e saiu nas pontas dos pés, fechando a porta atrás de si.
— Catarina, não —
— Sshh, ela tá dormindo.
Os dias que se seguiram foram de muita alegria. Nos intervalos de estudo – ou sempre que sentia vontade –, Catarina escapava para o quarto de Bianca, perdendo horas e mesmo dias inteiros brincando com a irmã, lendo e orando. Dava-lhe agora mais valor, seu inocente sorriso de criança alegrava sua vida, como nunca.
Às vezes, ia até o escritório do irmão para chama-lo para que participasse das brincadeiras. Mas ele sempre estava ocupado, desinteressado. Suas preocupações eram outras.
Um dia, os papéis se inverteram. Ele foi chama-la.
— Catarina, pode me ajudar num exercício?
Elas estavam no quarto de Bianca, lendo em voz alta uma passagem da Bíblia.
— Será que você ainda se lembra que eu existo? — falou mais alto, ao ser ignorado.
— Esse é o nosso momento pra Deus, aquele que —
— Largue esse livro, largue essa religião! Pelo amor de Deus, se você o ama tanto assim, CHEGA!
— Mas a Bia e eu —
— E também pare de pensar na Bia! Não é saudável, Catarina!
— Ri, é pecado —
— Pecado é isso que você está fazendo! Por favor, volte a ser o que era! CHEGA!
Com força, ele bateu a porta.
Descobriu. Não era indiferença. Era ciúmes.
Os meses passaram. Enquanto Catarina levava Bianca à Igreja, Ricardo mantinha-se preso ao computador, a cara amarrada, cada vez mais distante da caçula, até chegar o momento em que tivesse um acesso de raiva ao simples mencionar de seu nome.
Quando chegou seu aniversário, Catarina comprou-lhe um terço de porcelana; Ricardo, pelo contrário, fez questão de sair com os amigos. Ao voltar, encontrou Catarina dormindo no carpete do quarto de Bianca, envolta em coberta e segurando um travesseiro. Adotara o lugar como seu novo quarto.
— Saia daqui! — berrou ele, empurrando-a com o pé para acorda-la — Você não pode esquecer, por um minuto, a sua irmã?! Esquece ela, caramba!
Os olhos de Catarina voaram para fora das órbitas. Como ousava falar isso, na frente da pequena?!
— Olha — ele segurou ambas suas mãos, agachando ao seu lado —, lembra-se de quando éramos pequenos, só eu e você? Sem escola, sem Deus, sem Bia? Lembra como era bom? Vamos repetir isso. Vamos nos livrar de tudo isso, de uma vez por todas.
Livrar-se de Bia..?
No dia seguinte, foi logo de manhã falar com o padre da paróquia que freqüentava todos os dias. Contou-lhe toda a história.
— Ah, minha filha — repetia a cada frase —, minha filha, minha filha.
O padre lhe esclaresceu.. Não era somente ciúmes. Era loucura.
— Mana, me leva no shopping?
Ainda podia ver a pequena Bia correndo de um lado do outro para o outro dentro de casa, interrompendo-a a cada segundo com o mesmo pedido. Não conseguia estudar – e, no fundo, também não queria. Tinha acabado de tirar a carteira de motorista e aceitava qualquer desculpa para poder dar uma voltinha.
— Tato, empresta o carro pra eu levar a Bia no shopping?
Ricardo somente jogou as chaves na mão do irmã, sem levantar a cabeça da tela do computador. Tinha seis anos a mais que Catarina e outras preocupações na cabeça. Teoricamente, era o responsável pela casa enquanto os pais viajavam a negócios – na prática, preocupava-se apenas com a monografia da faculdade.
Com um sorriso de orelha a orelha, entraram no Audi do irmão e pagaram a estrada que levava à cidade vizinha. O rádio tocava animadamente Happy Day enquanto elas cantavam, felizes.
Mas quando o caminhão veio, a cantoria foi substituída por gritos de susto e dor.
— Meu Deus..!
Foi rápido demais para raciocinar. Tudo o pôde fazer foi desviar.
O carro saiu da pista, entrou no gramado, capotou três vezes. O fluxo parou.
A garganta de Catarina explodiu de medo ao ver tudo girar, tudo quebrar, tudo lhe atravessar, tudo doer, tudo ficar num vivo tom de vermelho que gradativamente enegrescia até total escuridão.
Perdeu os sentidos.
Não era possível. Estava viva! Viva!
Ouviu uma voz falando, muito distante, muito grave, muito surreal.
— É um milagre que ela tenha sobrevivido... ela é uma pessoa muito iluminada...
Oh, sim, era um milagre!
Cada gole de ar frio que respirava enchia seus pulmões de nova vitalidade, esclarescia sua mente. Abrir a boca e soltar a voz doía. Não conseguia controlar os movimentos. Tentou se mexer mas não conseguiu. Seu corpo estava coberto por hematomas. Sua cabeça, envolta por fachas, parecia estar a ponto de explodir.
Mesmo assim, estava feliz.
“Meu Senhor”, pensava todos os dias, “Obrigada por me dar uma nova chance. Obrigada. Ela será inteiramente sua. Obrigada. Obrigada”.
Semanas depois, sentia que voltava à normalidade. Já podia sentar-se na cama para comer, e completar as frases não era mais tão exaustivo.
— E a Bia? Eu preciso vê-la, por favor...
— Não até que você tenha melhorado — disse o médico, uma vez — Vamos falar sobre isso quando você puder sair desta cama.
Encheu o quarto e imagens, de rezas, de louvores. Agradecia por sua vida, pela vida de sua irmã, pela nova chance que Deus lhe dava todos os dias. Oh, e como ele era misericordioso...
A cabeça, por vezes, doía. Mergulhava em enxaquecas por horas, por ias, perdia a noção do tempo e do espaço. Uma vez, chegou a esquecer quem era; lembrava da ocasião com o mesmo desespero da hora. Naqueles momentos, orava, e acreditava ser guiada para o caminho certo.
Trancou seu coração, e deu a chave somente a Deus.
Das suas lembranças do hospital, a mais viva era a presença do irmão. Via-o sentado no sofá ao lado, na maior parte do tempo dormindo, cansado, desgastado, profundas olheiras envoltas em seus olhos. Rezava por ele também, mesmo que ele não acreditasse em sua nova religião.
— E a Bia?
Quando Catarina lhe perguntava assim, encontrava-se encarando o olhar castanho e distante de Ricardo, desanimado e triste. Tentava não se preocupar. Afastava os dizeres dos médicos sobre ela com rezas de sua cura e muita dor de cabeça.
E então, quando os exames finalmente chegaram, ela recebeu alta.
— Obrigada, Senhor... obrigada...
Chegou em casa, apoiada pelos ombros do irmão.
— Onde está Bia, ela já chegou?
— Calma, Ca, vamos pro quarto primeiro, você deve estar cansad —
Mas ela não lhe deu mais ouvidos; escapando com astúcia dos braços que a rodeavam, ela subiu as escadas correndo em direção ao quarto da irmã. Ouvia os passos apressados de Ricardo, que gritava coisas ininteligíveis. Mas, oh, Senhor, nada mais lhe importava a não ser amor e religião.
A porta estava entreaberta, a luz apagada. Entrou devagarzinho e se postou ao lado da cama com colcha cor-de-rosa. Suspirou aliviada.
Lá estava ela, afundada em sonhos bons, numa respiração suave e ritmada. Seus cabelos castanhos muito finos caiam-lhe sobre o rosto, como se tentassem esconder seu sorriso delicado. Catarina fez-lhe um carinho de leve e saiu nas pontas dos pés, fechando a porta atrás de si.
— Catarina, não —
— Sshh, ela tá dormindo.
Os dias que se seguiram foram de muita alegria. Nos intervalos de estudo – ou sempre que sentia vontade –, Catarina escapava para o quarto de Bianca, perdendo horas e mesmo dias inteiros brincando com a irmã, lendo e orando. Dava-lhe agora mais valor, seu inocente sorriso de criança alegrava sua vida, como nunca.
Às vezes, ia até o escritório do irmão para chama-lo para que participasse das brincadeiras. Mas ele sempre estava ocupado, desinteressado. Suas preocupações eram outras.
Um dia, os papéis se inverteram. Ele foi chama-la.
— Catarina, pode me ajudar num exercício?
Elas estavam no quarto de Bianca, lendo em voz alta uma passagem da Bíblia.
— Será que você ainda se lembra que eu existo? — falou mais alto, ao ser ignorado.
— Esse é o nosso momento pra Deus, aquele que —
— Largue esse livro, largue essa religião! Pelo amor de Deus, se você o ama tanto assim, CHEGA!
— Mas a Bia e eu —
— E também pare de pensar na Bia! Não é saudável, Catarina!
— Ri, é pecado —
— Pecado é isso que você está fazendo! Por favor, volte a ser o que era! CHEGA!
Com força, ele bateu a porta.
Descobriu. Não era indiferença. Era ciúmes.
Os meses passaram. Enquanto Catarina levava Bianca à Igreja, Ricardo mantinha-se preso ao computador, a cara amarrada, cada vez mais distante da caçula, até chegar o momento em que tivesse um acesso de raiva ao simples mencionar de seu nome.
Quando chegou seu aniversário, Catarina comprou-lhe um terço de porcelana; Ricardo, pelo contrário, fez questão de sair com os amigos. Ao voltar, encontrou Catarina dormindo no carpete do quarto de Bianca, envolta em coberta e segurando um travesseiro. Adotara o lugar como seu novo quarto.
— Saia daqui! — berrou ele, empurrando-a com o pé para acorda-la — Você não pode esquecer, por um minuto, a sua irmã?! Esquece ela, caramba!
Os olhos de Catarina voaram para fora das órbitas. Como ousava falar isso, na frente da pequena?!
— Olha — ele segurou ambas suas mãos, agachando ao seu lado —, lembra-se de quando éramos pequenos, só eu e você? Sem escola, sem Deus, sem Bia? Lembra como era bom? Vamos repetir isso. Vamos nos livrar de tudo isso, de uma vez por todas.
Livrar-se de Bia..?
No dia seguinte, foi logo de manhã falar com o padre da paróquia que freqüentava todos os dias. Contou-lhe toda a história.
— Ah, minha filha — repetia a cada frase —, minha filha, minha filha.
O padre lhe esclaresceu.. Não era somente ciúmes. Era loucura.
Trauma
- a verdade.
Quando o telefone tocou, a senhora Silva, mãe de Ricardo, Catarina e Bianca, o atendeu. Esperava a ligação do psicólogo há horas.
— Como foi a consulta, doutor?
— Seu filho está visivelmente incomodado, minha senhora — começou —, e é muito introvertido. Chegou usando o pretexto de que queria conversar sobre os problemas de um amigo. Isso revela a falta de manejo, principalmente por medo, se enfrentar os próprios problemas.
— Mas o que ele disse que o amigo tinha..?
— O tratou como um maníaco-obsessivo, esquizofrênico. Pediu insistentemente que lhe recomendasse algum tipo de tratamento, porque não poderia suportar vê-lo em “ algum hospício ou manicômio”.
— Ah, doutor...
— Não se alarme, senhora. Não creio que esse auto-diagnóstico seja correto; tudo o que vejo é introversão e pressão excessivas, próprios desse período do fim da faculdade. Não se preocupe. Leve-o para umas férias, melhor ainda se ele for acompanhado de algum jovem da família. Quando ele voltar, marcamos uma nova consulta.
Aquelas palavras foram o suficiente para a senhora Silva. Desligou e ligou em seguida o telefone sem-fio, para conversar com o marido sobre a possibilidade de pagarem uma diarista que limpasse o chalé que tinham que Campos do Jordão.
Naquele mesmo sábado, Ricardo fora convocado para suas férias forçadas. No bando do passageiro do carro que dirigia, estava Catarina. Ela e Bianca passaram a viagem inteira cantando I believe in Jesus animadamente, a contragosto do motorista.
Os primeiros dias Ricardo passou trancado em seu quarto, jogado em cima da cama e se entupindo de doces e livros. Logo de manhã, o chalé já estava mergulhado no silêncio. Sabia que a irmã teria ido à Igreja para voltar somente no fim da tarde, quando ela também ia se trancar em seu quarto.
Contudo, logo no terceiro dia, o silêncio cessou.
As paredes vibravam com os gritos histéricos de Catarina. As enxaquecas pareciam estar matando-a. Não aceitava os remédios, não tinha mais forças nem para ir à missa. Jogou-se na cama e lá ficou por três dias, movida apenas por água e orações.
— Onde ela está?
— Quem — ?
Ricardo a viu surgindo na cozinha, o rosto lívido numa mistura de branco e vermelho.
— Bianca! Ela sumiu! Onde ela está?
— Do que você está —?
— Onde você a escondeu? O que fez com ela?
— Catarina, eu —
— MONSTRO DEMONÍACO!
Não teve mais tempo para pensar logicamente. Ela partiu para cima dele com uma faca. Não teve escolha. De qualquer modo, ele era mais forte. Depois de tirar dela a arma, trancou-a no quarto.
A partir disso, tudo era gritos. “O que você fez com ela? O que você fez com a Bia?”.
Lembrava-se disso com flashs curtos, desesperado. Deveria ter tomado cuidado, deveria ter revistado o quarto antes... e se a polícia de fato viesse? O que ele diria? Que tinha assassinado uma irmã e feito de prisioneira a outra..?
Abriu uma garrafa de vinho seco e bebeu do gargalo. A situação estava ruim mesmo, não faria diferença o cheio de álcool do hálito. Tinha que relaxar, ter um tempo para pensar.
E teve meia hora. Passados exatos trinta minutos, ouviu batidas na porta da frente.
— Boa tarde, somos da Policia Municapal. Nós recebemos uma ligação anônima que nos indicava este endereço.
Silêncio.
— Podemos entrar?
Somente abrindo passagem com o corpo, ele permitiu que os dois policiais entrassem. Enquanto o líder anotava os dados de Ricardo, seu subordinado seguiu a ordem de vasculhar a casa por qualquer coisa que fosse suspeita.
Foram menos de trinta segundos para que ele noticiasse a presença de Catarina, trancada em seu quarto.
— Graças a Deus vocês vieram! Graças a Deus!
O chefe de polícia levantou uma das sobrancelhas ao jovem ao ouvir o socorro passado.
— O que significa isso?
— Ali! O herege! MONSTRO!
Catarina vinha trêmula do quarto em que fora presa, correndo em direção ao irmão, apontando o dedo em sinal de condenação.
— Você a matou! Eu sei que você a matou! Monstro!
— Senhorita, mantenha a calma —
— Minha irmã — ela gemeu, quando o policial mais rebaixado a segurou —, está morta.
— Senhor Silva, isto é verdade? — o inspetor foi firme em sua pergunta.
Rodrigo abaixou a cabeça e deu um longo suspiro antes de responder.
— Sim. Bianca está morta.
Catarina soltou um grito involuntário e se jogou no chão de joelhos, aos prantos, unindo ambas as mãos em sinal de prece, murmurando em meio da fala automática coisas como “não... assassino... monstro... herege...”...
— O senhor está preso, senhor Silva. O senhor tem o direito de se manter em silêncio ou chamar por um advogado. Para o seu próprio bem, eu recomendo que o senhor colabore conosco — falou sério, enquanto pegava as algemas — Nós precisamos saber a localização do corpo.
Rodrigo não pôde responder de pronto. As lágrimas também saiam descontroladas de seus olhos, agora, e a cada tentativa de falar um soluço de choro e desepero prorrompia de sua garganta
O policial se impacientou.
— Onde está o corpo?!
— No cemitério da Vila Madalena.
— Como —?
— Bianca morreu há um ano atrás.
— ASSASSINO!
Quando eles voltaram suas cabeças para olhar Catarina, viram a loucura saltando de seus olhos.
Quando o telefone tocou, a senhora Silva, mãe de Ricardo, Catarina e Bianca, o atendeu. Esperava a ligação do psicólogo há horas.
— Como foi a consulta, doutor?
— Seu filho está visivelmente incomodado, minha senhora — começou —, e é muito introvertido. Chegou usando o pretexto de que queria conversar sobre os problemas de um amigo. Isso revela a falta de manejo, principalmente por medo, se enfrentar os próprios problemas.
— Mas o que ele disse que o amigo tinha..?
— O tratou como um maníaco-obsessivo, esquizofrênico. Pediu insistentemente que lhe recomendasse algum tipo de tratamento, porque não poderia suportar vê-lo em “ algum hospício ou manicômio”.
— Ah, doutor...
— Não se alarme, senhora. Não creio que esse auto-diagnóstico seja correto; tudo o que vejo é introversão e pressão excessivas, próprios desse período do fim da faculdade. Não se preocupe. Leve-o para umas férias, melhor ainda se ele for acompanhado de algum jovem da família. Quando ele voltar, marcamos uma nova consulta.
Aquelas palavras foram o suficiente para a senhora Silva. Desligou e ligou em seguida o telefone sem-fio, para conversar com o marido sobre a possibilidade de pagarem uma diarista que limpasse o chalé que tinham que Campos do Jordão.
Naquele mesmo sábado, Ricardo fora convocado para suas férias forçadas. No bando do passageiro do carro que dirigia, estava Catarina. Ela e Bianca passaram a viagem inteira cantando I believe in Jesus animadamente, a contragosto do motorista.
Os primeiros dias Ricardo passou trancado em seu quarto, jogado em cima da cama e se entupindo de doces e livros. Logo de manhã, o chalé já estava mergulhado no silêncio. Sabia que a irmã teria ido à Igreja para voltar somente no fim da tarde, quando ela também ia se trancar em seu quarto.
Contudo, logo no terceiro dia, o silêncio cessou.
As paredes vibravam com os gritos histéricos de Catarina. As enxaquecas pareciam estar matando-a. Não aceitava os remédios, não tinha mais forças nem para ir à missa. Jogou-se na cama e lá ficou por três dias, movida apenas por água e orações.
— Onde ela está?
— Quem — ?
Ricardo a viu surgindo na cozinha, o rosto lívido numa mistura de branco e vermelho.
— Bianca! Ela sumiu! Onde ela está?
— Do que você está —?
— Onde você a escondeu? O que fez com ela?
— Catarina, eu —
— MONSTRO DEMONÍACO!
Não teve mais tempo para pensar logicamente. Ela partiu para cima dele com uma faca. Não teve escolha. De qualquer modo, ele era mais forte. Depois de tirar dela a arma, trancou-a no quarto.
A partir disso, tudo era gritos. “O que você fez com ela? O que você fez com a Bia?”.
Lembrava-se disso com flashs curtos, desesperado. Deveria ter tomado cuidado, deveria ter revistado o quarto antes... e se a polícia de fato viesse? O que ele diria? Que tinha assassinado uma irmã e feito de prisioneira a outra..?
Abriu uma garrafa de vinho seco e bebeu do gargalo. A situação estava ruim mesmo, não faria diferença o cheio de álcool do hálito. Tinha que relaxar, ter um tempo para pensar.
E teve meia hora. Passados exatos trinta minutos, ouviu batidas na porta da frente.
— Boa tarde, somos da Policia Municapal. Nós recebemos uma ligação anônima que nos indicava este endereço.
Silêncio.
— Podemos entrar?
Somente abrindo passagem com o corpo, ele permitiu que os dois policiais entrassem. Enquanto o líder anotava os dados de Ricardo, seu subordinado seguiu a ordem de vasculhar a casa por qualquer coisa que fosse suspeita.
Foram menos de trinta segundos para que ele noticiasse a presença de Catarina, trancada em seu quarto.
— Graças a Deus vocês vieram! Graças a Deus!
O chefe de polícia levantou uma das sobrancelhas ao jovem ao ouvir o socorro passado.
— O que significa isso?
— Ali! O herege! MONSTRO!
Catarina vinha trêmula do quarto em que fora presa, correndo em direção ao irmão, apontando o dedo em sinal de condenação.
— Você a matou! Eu sei que você a matou! Monstro!
— Senhorita, mantenha a calma —
— Minha irmã — ela gemeu, quando o policial mais rebaixado a segurou —, está morta.
— Senhor Silva, isto é verdade? — o inspetor foi firme em sua pergunta.
Rodrigo abaixou a cabeça e deu um longo suspiro antes de responder.
— Sim. Bianca está morta.
Catarina soltou um grito involuntário e se jogou no chão de joelhos, aos prantos, unindo ambas as mãos em sinal de prece, murmurando em meio da fala automática coisas como “não... assassino... monstro... herege...”...
— O senhor está preso, senhor Silva. O senhor tem o direito de se manter em silêncio ou chamar por um advogado. Para o seu próprio bem, eu recomendo que o senhor colabore conosco — falou sério, enquanto pegava as algemas — Nós precisamos saber a localização do corpo.
Rodrigo não pôde responder de pronto. As lágrimas também saiam descontroladas de seus olhos, agora, e a cada tentativa de falar um soluço de choro e desepero prorrompia de sua garganta
O policial se impacientou.
— Onde está o corpo?!
— No cemitério da Vila Madalena.
— Como —?
— Bianca morreu há um ano atrás.
— ASSASSINO!
Quando eles voltaram suas cabeças para olhar Catarina, viram a loucura saltando de seus olhos.
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