quinta-feira, 31 de maio de 2007

Egocentrismo

Sinopse: Os outros sempre estão cegos demais por suas próprias lágrimas para poderem ver as nossas...
Categoria: Originais
Gênero: Drama
Data: maio de 2006
Palavras:
Nota: inspirado no filme "Collateral" e em coisas que acontecem pelo mundo.




Ponho o ticket no lugar indicado e o sinal pisca verde, permitindo a minha entrada. A catraca range. Seguro minha bolsa com mais firmeza ao passar para o outro lado, arregalo os olhos, procuro ficar mais atenta aos sons a minha volta, ando mais alguns passos, quase sou atropelada pela multidão que sobe-desce as escadas, xingo baixinho, inferno de metrô, inferno de vida.
Foram poucos segundos para que o meu trem chegasse, abrisse as portas e me levasse junto com ele.
R., estudante de cursinho, 19 anos, filha, irmã caçula, namorada e amante de Coca-Cola. Todos os dias meus despertador apita desgraçadamente às seis horas no meu ouvido para me lembrar de viver. Todos os dias eu acordo mais cedo para me maquiar e, depois de olhar meu reflexo gordo no espelho, espalho todas as minhas apostilas no carro da minha mãe. Vou para a aula, todos os dias. Mas essa semana tem sido diferente – horrivelmente diferente, terrivelmente diferente, catastroficamente diferente, inferno de vida.
Eu lembro disso enquanto procuro em vão um lugar vago dentro do vagão. Acabo tendo que ficar em pé, fazendo acrobacias para segurar todas as apostilas de ciências exatas.
Papai sempre alertou mamãe para dirigir mais devagar. Agora não adianta mais. Ela bateu o carro, ficou com os prejuízos; o amassou em todos os ângulos possíveis, quebrou as lanternas, destruiu o pára-choque, destruiu minha vida. Perdi minhas caronas matutinas, minhas saídas de fim de semana. Estou à mercê de uma família de único carro, de um namorado sem dinheiro para a gasolina, de uma vida sem carteira de motorista. E tenho que pegar o metrô para ir ao cursinho, inferno de vida.
A voz anuncia a terceira estação a parar. Giro o pescoço a procura de um assento. Tem que ser antes de chegar à Sé, por favor...
Eu gostaria de ser aquele senhor, largado em seu assento preferencial cinza, a cabeça baixa, no sétimo sonho. Mas, não, tenho que fazer revezamento de braços entre o material e os tubos de apoio, públicos e – tem um cara que não tira o olho de mim, ele é estranho e me dá medo. Viro a cabeça e tento ir mais para o meio do vagão, onde o ar é tremendamente pesado, ruim, uma mistura de cheiros que prefiro não desvendar. Seguro a respiração, seguro o material, seguro a vontade de gritar que está atravessada na minha garganta, inferno de vida.
Sinto algo no bolso vibrar. E se for ele? E se for meu namorado? E se for? Pare o metrô porque tenho que atender o celular!
Dois dedos, só dois, é tudo o que preciso. Eu tento largar o material e apóia-lo na cintura, mas as coisas escorregam, eu as seguro com a outra mão, o trem pára, eu tombo, eu caio em cima das pessoas. Sinto os olhares fulminantes atravessando a minha nuca. Ouço os palavrões murmurados. E será que ninguém pode cuidar da própria vida? Ninguém ouviu celular tocando, todos julgam o que bem entendem. Mundo violento, estressado, mal-amado, mal-humorado – ah, eu realmente gostaria de consertá-lo, mas tenho que atender o celular... consigo me mexer e me apoiar numa parede – será que ninguém pode segurar minhas coisas um instante? – pego o celular e descubro que era só uma mensagem... inferno de vida.
Preciso falar com vc ;-(
Ai. O que foi que eu fiz? O que foi que aconteceu? Será que ele está bem? Será que fiz algo de errado? Será que ele fez algo de errado..? Guardo o celular de volta no bolso e continuo apoiada na parede do vagão, porcamente equilibrada mas ainda em pé. Eu vejo o mesmo cara estranho me encarando, eu vejo o mesmo velhinho dormindo de cabeça baixa, mas não enxergo. Acho que fico sem piscar por um bom tempo. E minha boca deve ainda estar aberta. Tanto faz. Ele me escreveu uma mensagem não-auto-explicativa e só vou poder entendê-la depois do meio-dia. Odeio quando ele faz isso, odeio ficar sem saber, odeio essas pessoas que não param de me olhar, odeio essa vida, inferno de vida!
Então o metrô chega na estação da Sé, e eu nem preciso me mexer para sair do vagão. Sou tragada pelo vai-e-vem e sumo para outro trem não tão longe dali...





São nove horas da noite quando volto para o mesmo trem onde meu inferno começou.
A esta hora, o vagão está muito, muito mais vazio. Os poucos lugares ocupados são por pessoas lendo, dormindo ou olhando para o nada. Olhando para mim? Talvez, porque eu sou o nada, eu não sou ninguém. Minha carcaça de corpo está vazia, ou possivelmente cheia daquele ar de metrô lotado. Não sei. Não penso. Não sou. De alguma forma minhas pernas me trouxeram até aqui, e ainda elas me fazem sentar num assento cinza próximo a uma janela.
Não sou mais capaz de me queixar da vida, porque ela me escapa.
Na saída do cursinho, encostado no portão da escola, estava ele, me esperando. Não me abraçou. Me beijou no rosto. Evitou meu olhar. Não respondeu às minhas perguntas. Me levou para outro lugar, seu apartamento, uma kit-net. Ah, que horrível... ele me falou dúzias de coisas, gritou outras centenas. Algo que parecia ser “criança” e “paciência”, algo como presença de uma ou ausência da outra. Eu chorei. Minhas lágrimas não o comoveram. Ele não preparou o jantar. Disse que precisava escrever relatórios, que eu o atrapalhava. Tentei me fazer de forte. Ainda assim, não pude comovê-lo. Saí.
Se o senhor ao meu lado ronca ou não, não ouço. Se o trem se move, pouco me importa. Eu... eu... eu não...
Droga, agora não posso mais segurar as lágrimas. Eu acho que vou abrir a boca para respirar melhor e explode um soluço agudo, e depois disso não me calo. Tudo aquilo que senti e repreendi, toda aquela sensação de perda e miséria, tudo, tudo, tudo agora se materializa nas minhas lágrimas salgadas. Amargas. Porque este é o gosto da solidão. Amarga. Como uma fruta estragada, como tudo que é ruim. E ninguém aqui é capaz de entender o que digo, o que choro, porque as frutas de todos eles ainda são doces e maduras.
Enquanto o vagão chacoalha, eu finjo existir. Ninguém me olha, ninguém me nota.
Todos eles, centrados em seus próprios mundos cor-de-rosa – ou que sejam eles negros, azuis, púrpuras – todos estão preocupados demais para me oferecer um lenço de papel. Afinal, são muitas contas a pagar, certo? Errado. É fácil xingar a garota desajeitada que não consegue segurar seus livros num metrô em movimento, é fácil tentar se distrair com uma estudante de uniforme. A menina triste é sem-graça, ela atrapalha, ela ocupa espaço. Ela não precisa de um abraço. Podem todos continuar nessa dança egoísta e egocêntrica da vida.
Aposto que se eu morresse, aqui e agora, ninguém perceberia.
E então a voz mecânica anuncia a próxima estação, o mocinho de fones de ouvido e chapéu a minha frente se levanta e eu devo realmente ser invisível, porque ele quase me derruba – inútil – e tromba com o senhor dormindo ao meu lado. Eu viro travesseiro; ele apóia a cabeça no meu ombro, ferrado no sono. Ó-ti-mo.
Eu o cutuco uma, duas, cinco vezes.
— Moço? Moço..?
Com um movimento do ombro, o afasto de mim – sem direção, ele vai virando até finalmente cair no chão com um barulho. Estava duro, frio, seus olhos arregalados. Morto. Há horas.
Sem que ninguém percebesse.

quarta-feira, 2 de maio de 2007

"Boa noite, Nymphadora."

Sinopse: No meio de uma noite cheia de nostalgias, Nymphadora Tonks declara seus sentimentos.
Categoria: Harry Potter.
Gênero: Drama, Romance.
Timeline: entre o final da OotP e o início de HBP.
Disclaimers: Harry Potter pertence à Rowling e à Warner. Remus Lupin pertecem exclusivamente a mim. ponto.
Data: maio de 2007.
Palavras:
Spoilers: revelação de morte do quinto livro.
Nota 01: as traduções de frases do quinto livro foram feitas por mim.
Nota 02: gosta de Lupin/ Tonks? Prepare-se para um ataque cardíaco!




Remus Lupin estava sentado na beirada da cama, entrelaçando os dedos nos finos fios grisalhos de sua cabeça, suspirando. A luz do luar minguante caía sobre seus olhos através da janela, lhe trazendo uma péssima sensação. Acordara no meio da noite depois de um pesadelo; não conseguia mais voltar a dormir. Deu mais um suspiro e levantou-se, afastando de si a luz odiada.
Mas a sombra... ah, a sombra lhe trazia flashes de lembranças ruins, impossíveis de se afastar com um balanço de cabeça. Não podia se ver seguro em canto algum do quarto. O ar dos Black de Grimmauld Place lhe dava dor de cabeça.
Resolveu descer. Fechou a porta atrás de si e saiu.
As escadas faziam barulho a cada degrau, mas isso não o ajudava a desviar dos pensamentos. Nos seus ouvidos, ainda ecoava a risada insana de Bellatrix Lestrange, os gritos desesperados de Harry em seus braços...
SIRIUS! SIRIUS!...
Chegou à cozinha. Abriu o armário, pegou um Whiskey Flamejante e bebeu do gargalo. Olhou em volta; não, não era ali que queria estar. Aquele lugar lhe lembrava discussões da Ordem, assuntos tristes e preocupados; não, o que queria era relembrar um passado bom, memorável do amigo. Algo que o fizesse rir, e não chorar.
Voltou a subir o lance de escadas – e ainda ouvia as palavras de Harry...
Ela matou Sirius! Ela o matou – eu vou matá-la!...
Não sentia o mesmo inconformismo, embora o quisesse. Não conseguia. Passara muitos anos de sua vida aceitando-a, aceitando a desgraça, o infortúnio, a morte...
Correu a porta da biblioteca, velha e apagada. Conjurou algumas velas e pousou-as em pontos estratégicos de iluminação, próximas a uma grande poltrona verde de aveludada. Antes de se sentar, porém, passou os olhos pela estante e pegou um livro em particular: um álbum de fotografias.
Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts – formatura da milésima octa centésima septuagésima turma, 1977.
Sua capa era de camurça preta e opaca; um grande brasão da escola reluzia prateado em sua frente. Lupin passou a mão por ele como se aquilo pudesse lhe retomar o passado – mas nada mais poderia. Deixou-se afundar no estofado da cadeira e foi até a primeira página.
Lá estava ele, acenando para si mesmo, seus cabelos com mais cor, o rosto com o mesmo pálido de cansaço. Seus dezessete anos brilhavam em seu sorriso jovem com a companhia de seus melhores amigos, agora já tão distantes no tempo. James e Lily tinham as mesmas feições de que ainda podia se lembrar, sempre alegres e sorridentes. Sirius abraçava-o por trás, fazendo graça, sempre rindo. Peter ria de fininho, escondendo-se da foto, sempre tímido.
Ah, eles lhe faziam falta, muita falta... e agora ele era o último. O último dos Marotos.
Sentiu uma lágrima gelada lhe cortando o rosto.
Ouviu três batidas na porta.
— Com licença — as mechas cor-de-rosa de Tonks eram facilmente vistas pela fresta da porta —, eu passei na cozinha para pegar um copo d’água e não pude deixar de notar uma luz acesa por aqui...
Ela sorriu amarelo. Ele retribuiu.
— Sinta-se a vontade para entrar, Nymphadora.
— Por favor, me chame de Tonks — ela puxou uma cadeira antiga para perto do professor.
— Ah, desculpe, Tonks.
— Não foi nad —
Ela caiu da cadeira.
Eles riram de leve.
— Você está bem?
— Estou acostumada com esse tipo de coisa — a bruxa respondeu, coçando a cabeça — E você, o que está fazendo? Estudando a essa hora da noite? Ainda não perdeu o hábito? — ela zombou.
— Na verdade, eu continuo o mesmo de 18 anos atrás... — ele apontou para a própria imagem da foto — O mesmo Moony... o último...
Ele abaixou a cabeça. Ela pôs a mão em seu queixo e delicadamente a ergueu de volta.
— Hey, eu sei o que você está sentindo. Eu também sinto muita falta de Sirius. Ele era um dos únicos decentes da família... me desculpe.
— Pelo quê..?
— Se eu tivesse sido mais forte, se eu tivesse derrotado Bellatrix Lestrange, Sirius nunca teria...
Ela não conseguia falar. Ele não conseguia ouvir.
— A culpa não é sua, Tonks. Eu também estava lá do lado, e não pude protegê-lo. Acho que a única coisa que temos a fazer é aceitar...
Lupin ainda podia sentir o coração palpitando rápido, ouvir sua própria voz de cemitério naquele momento...
Não há nada que você possa fazer, Harry... nada... ele se foi.
— Você pode ser o último dos Marotos, Remus, mas nunca estará sozinho. Nunca.
Talvez...
Não se atreveu a olhá-la nos olhos. Virou outra página do álbum, agora para encontrar grifinórios, sonserinos, lufa-lufas e corvinais todos juntos – surpreendentemente juntos – em um dia feliz, em um longínquo dia feliz...
— Nesse dia, James, Sirius, Peter e eu soltamos fogos de artifício pelo castelo todo — ele riu —, e enchemos a salinha do Filch com bombas de bost*... haha, ele jurou que, se pudesse, nos prenderia em Hogwarts só mais um dia para nos expulsar... Normalmente eu não participava dessas brincadeiras deles, mas essa foi o modo que arranjamos para dizer “adeus”. Até Lily deu risada, no fim...
A imagem jovem de James Potter exclamou um “Pena que eu não pude ver isso tudo!” e eles deram risada.
—Ah, me desculpe — ele virou para Tonks, agora sério —, fico contando essas histórias cheio de nostalgia, mas você não esteve lá pra ver...
— Mas é gostoso ouvir você contar! — ela se explicou — É gostoso ver como você fica feliz...
Remus viu os cabelos de Tonks ficando vermelhos, ao mesmo tempo que suas bochechas enrubesciam.
— Nessa época James e Lily já estavam juntos...
— É, eles começaram a namorar no sétimo ano.
— Sirius está sozinho na foto.
— Ah, Tonks, ele nunca conseguiu levar um relacionamento a sério — ele sorriu.
— E você? Tem — quero dizer, existia alguma menina que você... gostava..? Existe..?
Ele escondeu o sorriso e voltar a mirar a fotografia da Grifinória.
Sentia uma incrível dor no peito ao rever aqueles rostos, aqueles acenos tão reais... aquele sentimento especial.
— Havia sim — ele confirmou com a voz rouca — Mas...
Ele engasgou.
— Mas..?
— Eu sou uma aberração.
— Remus, como pode —?!
— Eu sou um lobisomem, Tonks. Sou muito perigoso para expor qualquer pessoa que eu goste... meu destino é esse — suspirou —. Ser solitário.
— Remus, ninguém está condenado a ser triste, não diga isso!
— Mas é a verdade. O mundo te julga pelo o que você é, ele se importa —
— Eu não me importo! — ela o interrompeu, falando com a voz aguda — Eu não dou a mínima se você é ou deixa de ser um lobisomem! E gosto de você pelo o que você realmente é, um homem simpático, inteligente, cavalheiro, bonito... gosto de quem você é sempre, e não do que você deixa de ser uma vez por mês...
As figuras da foto por um momento pararam de se mexer e ficaram ouvindo, estáticas, as palavras firmes da bruxa. Lupin olhou para si mesmo e se viu levantando as sobrancelhas.
— E digo mais — ela continuou, embaraçada —... eu gosto muito de você.
Não teve coragem de levantar o olhar. Teve de fechar o álbum quando viu a si mesmo apontando para Tonks e gritando “Alôô! Ela acaba de se declarar, faça alguma coisa!”.
E fez.
— O-obrigada, Tonks — agradeceu, tímido —, fico muito feliz por saber isso... e-eu também... tenho uma grande consideração por você...
E quando ele levantou a cabeça, encontrou-se encarando seus olhos amendoados, seus narizes cada vez mais próximos, a respiração cada vez mis ofegante, os lábios —
— Não — ele segurou-a pelos dois ombros e a afastou —, não posso.
— Por que..? — sua voz era um sussurro.
— Você merece alguém muito melhor do que eu. Alguém que, no mínimo, seja humano todos os trinta dias do mês...
— Mas eu quero você..!
— Tonks... ah, Tonks... eu sou velho demais pra você.
— Dez anos já não fazem mais diferença na nossa idade —
— As transformações tomam conta do meu corpo. Fisicamente, eu sou muito mais velho, não vou durar muito —
— Não diga uma coisa dessas! — ela exclamou, brava — Eu vou cuidar de você...
— Eu não tenho dinheiro algum — ele continuou.
— E desde quando isso é problema?
— Lógico que é. Na minha vida toda, o emprego mais decente que pude arranjar foi o de professor, e durante um único ano — falava desanimado — Não tenho onde cair morto.
— Eu trabalho por nós dois — ela segurou uma de suas mãos — Desde que estejamos tudo, nada mais importa... as coisas vão se ajeitar...
Desviou o olhar novamente. Seria medo..?
— Olhe pra mim — ela pediu —, por favor.
Ele olhou. Ela tinha os olhos cheios de lágrimas, os cabelos mais rosados do que nunca.
— Eu não me importo se você é um lobisomem. Não me importo com o que pensam de você. Nada disso é culpa sua... nada isso é relevante. A única coisa importante é a sua felicidade... e a sua, é também minha.
Lupin sentiu a pressão em sua mão aumentar. Seu coração começou a pulsar mais rápido, sua mente começou a girar e – desviou o olhar.
— Não.
Não era medo o que sentia.
— Eu não te mereço.
Aquelas palavras lhe cortaram afiadas como facas, como no passado. Repeti-las doía...
Seu coração jamais permitiria qualquer outra pessoa.
— Boa noite, Nymphadora.
Ele se levantou e saiu, deixando para trás uma Tonks de cabelos cinzas e opacos, sem vida.