domingo, 14 de fevereiro de 2010

Parados no tempo

disponível em http://www.potterish.com/

Esses dias estava passando A Câmara Secreta na TNT e, pela milésima vez, resolvi assistir. Incrível como certas coisas que antes pareciam meros detalhes de repente passam a saltar aos nossos olhos. Em uma determinada passagem, logo quando Harry chega à Toca resgatado pelo Ford Anglia, nos encontramos com Arthur Weasley na mesa do café-da-manhã tentando parecer interessado na cultura trouxa. Ele profere uma sentença que não se encontra nos livros: “Bom, Harry, você deve saber tudo sobre os trouxas. Diga-me: qual é exatamente a função de um patinho de borracha?”.

Falem a verdade, essa pergunta soa nos nossos ouvidos como deveras absurda. Não porque sabemos para quê efetivamente serve um patinho de borracha (embora a maioria dos brasileiros não tenha banheiras em casa), mas sim porque ele não tem nada para ser um objeto particularmente trouxa.

Pelo menos ─ e paradoxalmente ─, não no mundo de Rowling.

Desde a era medieval

Antes de conhecer Harry Potter, como você imaginava uma bruxa? Talvez uma mulher feia, baixinha, nariguda, verrugenta (pelo menos uma verruga, e provavelmente na ponta do nariz), conhecedora de ervas e, portanto, cozinheira de poções, habilidosa com alguns artefatos mágicos, como uma vassoura voadora, e próxima a bichos não tão fofinhos, como cobras, sapos, aranhas, corujas, ratos e gatos pretos. Isto é praticamente o resumo do modo como os trouxas enxergam os bruxos, tanto na realidade quanto na ficção, não é?

Esta imagem estereotipada surgiu possivelmente na Idade Média, quando a instituição religiosa vinculava a magia (ou qualquer manifestação não-cristã) a aspectos essencialmente negativos. Hoje é a instituição midiática (quer exemplo maior que a Disney e sua Malévola, de “A Bela Adormecida”?) que continua a propagar esta mesma imagem das bruxas, e por isso continuamos imaginando-as assim, com direito à risadinha maligna e tudo o mais.

Nem a nossa querida tia Jo, com todos os seus estudos vernáculos, foi capaz de escapar das influências culturais e midiáticas. É só atravessarmos o Beco Diagonal e já nos deparamos com chapéus pontudos, varinhas de condão, corujas, caveiras, caldeirões, velas, tochas, vassouras, penas e pergaminhos. Tudo ─ ou talvez grande parte ─, desde os objetos ao latim dos feitiços, remete-nos fortemente à imagem universal das bruxas, isto é, àquela imagem criada na Idade Média.

“Ok, mas os livros não se passam na Idade Média, mas sim na década de 1990”, você lembraria. Pois é. Seria natural, se bruxos de fato existissem, que eles acabassem por aderir certos costumes trouxas advindos da tecnologia. Por isso, concluo, Jo se viu obrigada a conjugar alguns itens novos aos antigos.

“Ah, vem mexer no meu caldeirão/ E se mexer como deve ser...”

A voz de Celestina Warbeck reverberou com essa música na sala de estar da Toca, em dezembro de 1996. Era o Especial de Natal promovido anualmente pela Rede Radiofônica dos Bruxos ─ sim, a rádio bruxa de todo dia, que os anima durante as manhãs e os encantaria durante os congestionamentos se, obviamente, eles fizessem uso de carros.

A enciclopédia do próprio Ish, ao fazer menção à RRB, explicita que ela funciona à base de magia, e não do modo convencional trouxa (ondas eletromagnéticas ─ muito mágicas para mim, diga-se de passagem). Eu, no entanto, não me recordo de nenhuma passagem específica nos livros que deixe claro este fato. Para efeitos desta coluna, portanto, prefiro desconsiderar esta informação.

O rádio é um dos aparelhos que invadiram o mundo dos bruxos. Fora ele, apareceram outros aparatos tecnológicos surgidos em épocas posteriores ao século XV: a locomotiva, o telescópio, o vaso sanitário e rede de esgoto (super tecnologia sim, pois impediu a proliferação de muitas doenças!), o jornal (imprensa regular), a fotografia... enfim, sem que os leitores se dessem conta, a tecnologia trouxa marcou presença na história de Harry Potter. Ainda que às vezes modificados (vide a disparidade das fotos estáticas e móveis), esses objetos demonstram claramente que não existem aparatos típicos nem de bruxos, nem de trouxas.

“ALÔ! ALÔ ESTÁ ME OUVINDO? QUERIA ─ FALAR ─ COM ─ O ─ HARRY ─ POTTER!”

Mas por que alguns objetos não co-existem nos dois mundos? Quero dizer, o pato de borracha que tanto intriga Arthur Weasley não tem por que não existir no mundo bruxo, onde, nós sabemos, existem maravilhosas banheiras (especialmente no banheiro dos monitores, a Murta que o diga).

E o telefone ─ ou o “feletone”, como insiste nosso querido Ron Weasley ─, assim como a televisão, as lâmpadas, as geladeiras (nunca vi uma em todos os livros! Como eles conservam os alimentos?), os ferros a vapor, os fogões a gás, enfim, todas essas coisas que simplificam nossas vidas, por que elas simplesmente não existem para os bruxos? Não estou pedindo por celulares ou guitarras, mas por eletricidade, for God’s sake! E se o grande problema for ela (embora ela seja, para nós, a grande solução), por que não o equivalente mágico de tais objetos? Por que, ao invés de magicamente modificados, eles simplesmente não existem para os bruxos?

Eu deveria pensar que Jo imaginou algum tipo de aversão bruxa aos aparatos trouxas criados após a Idade Média, como uma ânsia por manter a cultura dos ancestrais e o âmago da verdadeira “bruxalidade”. Mas isso não faz sentido, se considerarmos o aparecimento do rádio e dos outros mencionados.

Eu só consigo chegar a uma conclusão: bruxos gostam da alienação em que vivem, e são esnobes o suficiente para achar que nem patos de borracha podem fazer parte de seu mundo.

Google it

Ok, talvez eu tenha sido muito dura com eles. Afinal de contas, devem existir muitos Arthurs Weasleys amantes de trouxas, e muitas Hermiones Grangers crescidas e influenciadas pelas duas culturas. O que eu quis dizer (isso é verdade) é que a maioria deles é, inevitavelmente, como Dursleys bruxos, irredutíveis e preconceituosos (não intolerantes, veja bem; intolerância praticam Voldemort e companhia, o que é bem diferente).

Mas eles estão com os dias contados, certamente.

Eu não sei vocês, mas minha vida mudou drasticamente em 2003, quando minha internet deixou de usar aquela rouca conexão discada e passou a ser de banda larga. Hoje, tudo o que eu faço necessita e depende de uma pesquisa (leia-se: depende do Google), de uma confirmação, de um pedido por e-mail; se chove ou por qualquer outro motivo a internet cai, a vida para. Vejo meus amigos; sempre um ou outro com o mp3 no ouvido (às vezes parece colado), outro twitando pelo smartphone, outro comentando do MMOPRG que jogou no fim de semana. Ora, basta pouco: olhemos para nós, aqui, nos encontrando no próprio Ish, publicando nossos textos na Floreios e Borrões, conversando com gente de todas as partes do país pelo fórum do Grimmauld Place. Embora infelizmente este não seja o cenário da maioria brasileira, ele é, sem dúvidas, a grande tendência mundial.

E estamos só em 2010! Como serão nossas vidas em 2016, o ano em que se passa o fatídico epílogo nineteen years later, do Relíquias da Morte? Até que ponto a comunidade bruxa ignoraria os avanços tecnológicos e a forte globalização do mundo trouxa? Será que o pequeno Albus Severus segurará uma varinha de madeira como seus ancestrais, ou fará as magias dando um toque na tela do seu iPhone?

(Se é que, cá entre nós, estes artefatos que tocam música, rodam e gravam vídeos, conectam à internet, servem de agenda e “ainda” fazem ligações só podem ser movidos à magia... só podem...)

Crise da identidade bruxa

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Há de se pensar que a sra Wyler carregou os livros com certo tom pejorativo ao traduzir a palavra “muggle” para “trouxa”, não é? Recordem-se, por exemplo, da passagem do primeiro volume, em que Hagrid argumenta a favor da ida de Harry a Hogwarts. Ele diz: “Eu gostaria de ver um grande trouxa como você impedi-lo”, e muito gentilmente, a tio Vernon. Não, francamente, eu não teria parado para indagar “o que é um trouxa?”; se eu fosse uma Dursley, teria pegado aquele guarda-chuva cor-de-rosa dele e enfiado no —

Bom, não há motivos para tanta violência, fiquem sabendo. A primeiro momento, pode até parecer que a palavra não funciona para a língua portuguesa. Talvez seja até melhor compilar aqui parte do verbete do dicionário Aurélio:

Substantivo de dois gêneros.
5.Gír. Pessoa tola, inábil, sem expediente, fácil de ser enganada.

“Inábil”! Talvez fosse a esse sentido que nossa escritora querida estivesse se referindo; sem dúvidas, foi nele em que Lia Wyler se inspirou para a tradução. Ah-ah (pigarro não-Umbridge), corrijo-me — realmente tia Jo estava pensando nisso, porque, em 2003, ao entrar no dicionário de inglês Oxford, a palavra “muggle” também tinha o mesmo significado: “a person who lacks a particular skill or skills” (a pessoa que não tem uma ou mais habilidades específicas).

Pois bem, agora é claro porque tio Vernon se calou para Hagrid. Deixando de lado o porte descomunal e intimidador do gigante, também não havia realmente muito a contestar naquele quesito: ele era mesmo trouxa, afinal lhe faltavam habilidades mágicas que seriam próprias, obviamente, dos bruxos.

A sociedade de Jo Rowling

E assim é dividida a sociedade de Harry Potter: existem aqueles que foram abençoados pelo milagre da magia, e outros bem menos sortudos e mais inábeis nesse ponto. Ora, consideremos: se todos fossem bruxos, não haveria necessidade da palavra “muggle/ trouxa”. Talvez o conceito de magia nem ao menos existisse.

Apesar de tão distintos, quase contrários, bruxo e trouxa são indissociáveis. Um não haveria porquê de ser nomeado sem o outro. A identidade de um se constrói fundamentalmente a partir do algo fora dela, uma outra identidade, diferente, que, mesmo praticamente oposta, lhe fornece condições de existência. Ser bruxo é ser não-trouxa, e vice-versa, afinal.

E o que é ser um ou outro? Talvez antes: o que é ser?! Bom, bom, não tinha planejado discussões muito filosóficas para esta coluna, então gostaria de pedir permissão para deixar isto de lado. E ser trouxa? Isso também me parece algo tão... tão insípido, não? Falar sobre nós mesmos num site sobre Harry Potter me pareceria deveras inadequado. Partiremos, pois, para a pergunta restante: o que é ser bruxo?

Claro que cada pessoa é uma pessoa. Jogar Draco Malfoy e Hermione Granger numa mesma caixinha rotulada “bruxos” poderia fazer os narizes de algumas pessoas entortarem (se é que jogá-los lá juntos seria a grande felicidade para algumas ficwritters). O que eu quero dizer é que existe uma imagem, um lugar a que eles pertencem, assim como compreendemos algo para “brasileiro” ou “patricinha”, por exemplo.

Poder-se-ia repetir que ser bruxo é só não ser trouxa. Ou se poderia também complementar com os símbolos que os rondam: as varinhas, as poções, os pergaminhos, as vassouras voadoras, os chapéus pontudos, a cerveja amanteigada do final de semana. Porém, a coisa é mais complexa. Ser bruxo na França implica considerar Beauxbatons como a escola tradicional, o que é diferente do que acontece na Inglaterra ou na Hungria, como sabemos. Ser bruxo no século XXI, tendo de escapar de radares e satélites trouxas, e com medo de fotos digitais comprometedoras vazando na rede mundial de computadores, certamente é muito diferente de ser bruxo na Idade Média, quando se tinha que fingir que coceguinhas de fogueiras ardiam para a morte. Enfim, ser bruxo não é algo fixo, porque identidade não é um conceito fixo, muito pelo contrário: é instável, construído sócio-historicamente, e por vezes incoerente (sobre isso falarei já).

Não seria possível fornecer uma resposta à questão, fique bem claro. Talvez este seja o grande problema em se pensar em identidade: a busca do “o que eu sou” — que movimenta o “o que eu serei”, “o que eu farei”, “de onde vim”, “para onde vou” — ao se tornar tão incerta e não-palpável, acaba por atrapalhar-se. Consideremos também, dentro da sociedade mágica de Jo, a mistura entre trouxas e bruxos ao longo dos anos. Casamentos entre as duas partes que geraram filhos das duas partes, imersos em e expostos a ambos os mundos. Como delimitar quem pertence a qual?

Em meio a esse contexto, responde-se à diversidade com mais procura pela identidade, uma que seja mais “verdadeira” que a nova. Contesta-se a crise evocando origens, quer sejam históricas ou biológicas, de modo a se alcançar algo mais certo, unificado e homogêneo. Mas, ei, isso não lembra alguma coisa? Um grupo especial que procura mostrar — e realmente acredita nisso! — a importância do sangue-puro e a inferioridade dos trouxas e de outras criaturas mágicas?

Os comensais da morte

Pois é. A família Black e todos os seus prolongamentos e derivações, Malfoys, Lestranges e etecétera, todos encontraram seu lugar sob o sol quando Tom Marvolo Riddle resolveu decretar guerra aos trouxas, nascidos trouxas, lobisomens, gigantes, sereianos, elfos domésticos e... segue a lista. A justificativa era a mesma dada à crise de identidade pela qual passavam: bruxos de sangue-puro seriam mais poderosos, e sua magia estaria se diluindo pelas veias mestiças. A sustentação do argumento tinha viés tanto biológico — que reforçava os casamentos intra-sanguíneos e criava uma hierarquia entre as raças, em que duplamente humana e mágica estaria no topo — quanto histórico — remontando à época em que a dissimulação bruxa era maior e em que, portanto, a magia bruxa era plena e não havia os ditos “sangues-ruins”; seria o ápice da “bruxidade”.

A desesperada produção de uma cultura bruxa unificada e homogênea leva à busca desta comunidade imaginada, a qual, embora não exista — já que a identidade não é fixa, lembram-se? — é crida. É como se os comensais (e adeptos, os comensais menos extrovertidos) acreditassem ser possível ressuscitar uma antiga identidade bruxa, mais certa que a atual, e, mais ainda, serem também os responsáveis por esse retorno.

Neste ponto, eu me arriscaria a responder parcialmente à pergunta que propus acima: para os seguidores de Voldemort, e para ele próprio, ser bruxo é mais do que ser não-trouxa — é ser anti-trouxa.

Não, não, talvez eu esteja me apressando ao afirmar isso. E Snape, e sua invejável paixão eterna por Lily Evans? O que ele é?

Papéis

A pergunta completa deveria ser: o que ele era perto de Lily e longe de Lily? Ou, o que ele era com Dumbledore e com Voldemort? Pois eu digo e repito, para que a coluna não pareça confusa: identidade é um conceito instável, modelado sócio-historicamente. Por isso, não posso dizer que existia (e não existe mais, snif) somente um Snape, mas vários — o Snape-aluno, o Snape-professor, o Snape-filho, o Snape-amante-de-Lily, o Snape-que-odiava-Tiago, o Snape-comensal, o Snape-comensal-traidor e assim por diante. Cada um desses Snapes é um papel assumido por ele.

Não pensem que quero dizer com isso que ele seja falso ou hipócrita. Por mais que essas identidades sejam díspares (e aqui que entra aquela parte do “identidade incoerente”), elas convivem dentro de uma mesma pessoa, que as assumirá em determinados momentos e/ou situações. Ora, o Snape que convivia com sua mãe não era o mesmo que convivia com Petunia Evans, embora na época ele vivenciasse os dois; o Snape que era aluno deixa de existir após a formatura de Hogwarts, abrindo possibilidade para o Snape-professor.

Esclarecido isso, voltemos à pergunta: o que raios Snape é? Anti-trouxa ou só não-trouxa?

Bom, para ser não-trouxa basta ser bruxo. Ok. Para ser bruxo anti-trouxa, pelo menos em algum instante da vida, ele precisaria ter sido, necessariamente, comensal ao mesmo tempo. Aí que a coisa enrosca, porque ser comensal não é só ser anti-trouxa; é, na realidade, estar na crise de identidade bruxa, elegendo o sangue puro como o único “correto” e merecedor de existência. Ser comensal é ser anti-trouxa e anti-sangue-ruim.

Snape nunca, nunquinha da Silva, poderia ser anti-sangue-ruim. Ele amava Lily!

Identidades desmascaradas

Voldemort era o ápice do anti-sangue-ruim, tanto que ocultou seu próprio passado mestiço e se deu um novo nome, negando, assim, sua condição pré-comensal (se fôssemos considerá-lo Comensal Mor). O mesmo fez Barty Crouch Jr, ao excomungar o pai; Bellatrix Lestrange, ao falar mal de sua família; e Pettigrew, ao trair os amigos.

De modo avesso, Snape jamais deixou de nutrir seu amor platônico. Jamais negou sua condição pré-comensal. Jamais pôde ser, verdadeiramente, Comensal da Morte.

Se formos parar para pensar, o mesmo aconteceu com Lucius Malfoy, que nunca deixou de valorizar a família, e com Regulus Black, que não conseguiu deixar Kreacher para trás. Agora fica fácil de ver porque todos eles viraram a casaca...

Um adendo

Quem não tem medo de usar a palavra há de vincular a crise de identidade à pós-modernidade. E quem a usa quase sempre há de tingi-la com certo grau pejorativo.

Pois é. Seja na ficção ou no mundo real, nunca é bom ser comensal.

Referências

Além da própria série e dos dicionários Aurélio e Oxford citados acima, me baseei também no texto de Kathryn Woodward, do livro “Identidade e Diferença — a perspectiva dos estudos culturais”. Leitura acessível até a parte da viagem na maionese — ops, quero dizer, da psicanálise.

Ele não tem o Sinistro

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Primeiramente, preciso fazer um agradecimento. A inspiração para esta coluna foi não menos que outra coluna deste site, a do Breno, intitulada “Veia pulsante antes do silêncio eterno”. A temática e o ponto de vista forte do autor fizeram idéias pipocarem na minha cabeça, e tanto elas martelaram que não pude contê-las dentro de mim por muito tempo. Antes que qualquer um pense o inverso, eu deixo claro: esta coluna não é uma retaliação ao Breno e ao seu texto, somente outro ponto de vista.

Menos dois

No primeiro de seus anos de vida, Harry certamente foi feliz. Tinha um casal de pais apaixonados um pelo outro, por ele, pelos amigos, pela vida e por seus ideais. Lily teria sido uma mãe forte e James, um pai companheiro. Talvez Harry não tivesse tido tantos problemas com Dudley, e tivesse até engordado um pouco mais nos joelhos. Mas os acontecimentos tomaram o lado da tragédia, e os Potter mal tiveram a chance de ser uma família.

Não lhe restava nada dos pais, nem ao menos uma foto três por quatro de cada. Não poderia ter resquícios de lembranças de suas vidas e mortes, afinal era muito novo. Harry sentia saudades? Particularmente, duvido. Não seria possível sentir falta de alguém que, na prática, nunca chegara a conhecer. Ao longo de sua infância, certamente ele foi percebendo a diferença entre seus tios e pais, entre o comportamento dos Dursley com ele e com o “filho de verdade”, e não tenho dúvidas de que isso tenha lhe trazido feridas. Não por causa da falta em si, mas sim da inveja daquilo que a maioria tinha normalmente, e ele, não. Ter pais, para Harry, talvez fosse só uma questão de sorte.

Até os onze anos considero que ele tenha ficado imune aos efeitos da perda. O cenário muda, entretanto, com a apresentação do Espelho de Erised. Pela primeira vez na vida, tem a oportunidade de ver toda sua família a seu lado, narizes e cabelos iguais ao seu, acenando e sorrindo. Dumbledore lhe revela que o espelho mostra seu desejo mais íntimo. E qual outro poderia ser, a não ser o de ter apoio ao seu lado num ambiente novo como era a sociedade bruxa, e ter a garantia de que ele não era o único Potter no mundo? Harry sente a alegria momentânea dessas certezas e a tristeza de saber que tudo não passa de uma ilusão. O sentimento de perda lhe aparece fino como um fio, pois não é suficientemente forte: Harry é capaz de abandonar o espelho ao menor pedido do diretor, como se as figuras pertencessem somente ao outro lado do reflexo, e não a este mundo.

Porém, no terceiro ano, a realidade se torna mais tangível: seus pais deixam de ser apenas histórias lendárias de bruxos admirados e passam a realmente existir dentro de sua mente. Isso começa com a presença incontrolável dos dementadores aos arredores do castelo. A cada novo encontro com um deles, as memórias dormentes em seu inconsciente voltam à tona e Harry passa a ouvir os últimos momentos de vida de seu pai e, principalmente, de sua mãe. Seu sono se torna freqüentemente aturdido com os gritos desesperados e a voz vingativa. Neste primeiro momento, a perda se torna real, pois é novamente vivenciada. E tanto vem o sentimento de perda que Harry começa a alimentar a vingança por aquele que supostamente teria matado seus pais, Sirius Black. Acredito que esta seja a primeira vez em que Harry realmente se vê como herdeiro de James e Lily, e comece a sentir de fato a amargura da saudade.

Isto talvez seja contestado com as sombras saídas das varinhas-irmãs no Priori Incantatem, no episódio do cemitério com Voldemort no quarto ano, afinal aqui os sentimentos de Harry não são explícitos, e ele não parece ficar nem bem nem mal com a imagem dos pais. O menino sente dificuldade em relatar os acontecimentos a Dumbledore, mas mais por causa da morte de Cedric e do sofrimento aparente de Sirius. Uma explicação que dou a isso é o modo como seus pais apareceram: não como figuras sofredoras, mas como ajuda àquele momento difícil de luta — quase o mesmo dispositivo do Espelho de Erised, com a diferença de um plano tridimensional, mas com a semelhança da momentaneidade fácil de ser deixada.

Menos três

Sem dúvidas Sirius representou um papel bem mais importante na vida de Harry: ele foi sua fonte de afeto mais certa, forte e próxima do que poderia ser a de um pai. O laço entre eles, no entanto, foi desenvolvido de modo bem diferente, já que não havia contato freqüente e nem passado compartilhado. Sirius via em Harry não um filho, mas a continuidade da vida de James, apontando sempre as semelhanças físicas e sonhando com as psicológicas; Harry via em Sirius não um pai, mas a esperança de uma vida diferente, melhor e mais parecida com o que poderia considerar normal.

Logicamente a morte do padrinho foi uma perda terrível, e me atrevo a dizer que tenha sido a primeira a efetivamente sentir. A culpa e o sentimento de vingança são os dois elementos que justificam minha afirmação: primeiro há a revolta contra Bellatrix, quem, no entanto, ele não consegue ferir propriamente; posteriormente, contra Dumbledore, a quem ele ataca ferozmente; e, por último, contra si, acusando-se por sua impotência em proteger o ente e depois em contatá-lo (cá entre nós, ele realmente deveria ter dado mais atenção à Hermione...).

Agora sim, a saudade existe. É possível perceber como tocar no assunto do assassinato do padrinho lhe incomoda muito mais do que falar do de seus pais, como acontece, por exemplo, no começo do sexto livro, ao sentir o coração afundar e procurar disfarçar seus sentimentos dos outros quando começa uma conversa a respeito de Tonks e Sirius. Lembrar de alguém que realmente esteve presente, por quem nutriu sentimentos carinhosos e lhe deu esperanças é infinitamente mais doloroso, e é essa a real dor da perda — mas ainda não a de um ente querido.

Menos quatro

O infinito da dor parece pouco agora, ao perder Dumbledore. Por mais uma vez Harry assistiu uma morte, porém esta fora significativamente diferente: o assassino fora um inimigo declarado seu, e sua presença fora inutilizada por suas mãos atadas pelo próprio Dumbledore. Por uma segunda vez não fora capaz de evitar a morte, e talvez este sentimento tenha sido maior do que a perda em si, em um primeiro momento.

Depois de sua tentativa de vingança mal-sucedida, foi relutante em deixar o corpo do bruxo. Até seu funeral, demorou a aceitá-lo como morto... e depois vieram as lágrimas. Não com rugidos de revolta como foram na morte de Sirius; para Dumbledore, Harry chorou em silêncio, corroído pelas lembranças, com medo do futuro. Como poderia viver dali em diante, sem seu mentor-guia?

A presença do diretor de Hogwarts na vida do nosso pequeno bruxo teve mais impacto do que qualquer outra. Quando algo deveria ser dito, discutido ou questionado, era para Dumbledore a quem se dirigia. Ao final dos momentos mais difíceis — a luta contra Quirrel e Voldemort, o resgate de Ginny Weasley, a volta no tempo, a morte de Cedrico, a batalha no Departamento de Mistérios — todos, absolutamente todos eles tiveram apoio, conselhos e parabenizações de Dumbledore. Foi o bruxo quem lhe ensinou sobre Voldemort, seu passado, e lhe ajudou a descobrir seu interior e seu caminho.

Após sua morte, o menino ficou desorientado. A única coisa que lhe restava era cumprir (veja só) aquilo que Albus tinha lhe deixado como tarefa: voltar à casa dos Dursleys até completar dezessete anos e destruir as Horcruxes. Dumbledore said, to fight, fight again, and keep fighting, for only then could evil be kept at bay, though never quite eradicated...

Não pouco surpreso querido Potter ficou ao descobrir o passado sombrio e nada glorioso daquele que mais admirou. Para ele, era como se o mago tivesse lhe escondido algo importante que poderia ser compartilhado. Como se Harry tivesse perdido a oportunidade de conhecê-lo. Ao fim do sétimo livro, tenho o palpite de que Harry não mais enxergava Dumbledore como “o maior bruxo de todos os tempos”, mas como humano forte o suficiente para sobreviver. Não era o simples respeito de toda a comunidade bruxa, era maior, um sentimento misto de afeto, companheirismo e admiração. Era amor.

Por isso, se alguém me disser que Sirius cumpriu o papel de pai na vida de Harry, eu serei obrigada a discordar exaltadamente e exigir que a pessoa volte um pouco nos livros — se Harry considerou alguém como pai, foi Dumbledore, e ninguém mais!

Somente com este tapa do rosto, a perda da figura de um ente tão próximo, que Harry compreendeu o significado da morte.

Quase menos cinco

Terror washed over him as he lay on the floor, with that funeral drum pounding inside him. Would it hurt to die? All those times he had thought that it was about to happen and escaped, he had never really thought of the thing itself: his will to live had always been so much stronger than his fear of death.

Exatamente. Antes da perda de Dumbledore, a concepção de Harry a respeito da morte era rala: uma varinha que se aponta e uma aranha que para de se mexer. Também, é claro que encarar a morte antes de realmente vivenciá-la é bem mais simples e fácil. Olhemos para nós mesmos, e pensemos em quantas mortes já vimos, na rua ou na ficção. Sorrir depois de ver Rambo IV é automático. Viver depois de ver a mãe morta é quase impossível.

Quando teve de encará-la forçosamente, não foi como se a morte fosse algo natural ou “somente a próxima aventura”. Harry estava, ironicamente, morrendo de medo, e não por menos. O que haveria de acontecer consigo? O que ele iria ver pela última vez? Será que dói? — todos nós nos lembramos da pergunta dita infantil, mas que considero totalmente natural para qualquer idade. Isto não é uma atitude altruísta, é quase egoísta. Da mesma maneira, quando esteve “morto” em King’s Cross, tivemos acesso à sua dúvida de se realmente valeria a pena voltar a sua vida incerta, ao invés de permanecer no morno e na calmaria, com Dumbledore. Novamente, quase egoísta. É errado? Claro que não. Só não é heróico.

O que eu quis dizer com tudo isso

Por mais que perdamos a conta de quantas pessoas morreram ao seu redor (enfatizo aqui a sanguinária matança desenfreada do sétimo livro), podemos contar nos dedos aquelas que realmente tiveram impacto em sua vida. Achar que ela foi assombrada por um sinistro é fechar os olhos à la Sibila Trelawney. Sem dúvidas nosso protagonista passou por maus bocados, mas a morte em si somente passou a pesar sobre sua mente pouco antes dos dezessete anos.

Sua concepção sobre a vida aqui ou lá não era mais ou menos especial; não era tingida por nenhuma sede de viver, nem por lantejoulas e purpurinas que deixariam esta ou aquela mais válidas.

Harry não é o herói que escolheu lutar pela vida em detrimento da morte. Ele temeu morrer, como qualquer um. E também temeu viver, também como qualquer um. Para mim, ele é só humano, e já basta.