domingo, 12 de agosto de 2007
Bicho-papão
Categoria: Harry Potter.
Gênero: Drama
Timeline: pós- Deathly Hallows.
Disclaimers: O mundo de Harry Potter pertence à Rowling, mulher má e cruel que teve a pachorra de assassinar meu querido Remus.
Data: agosto de 2007.
Palavras:
Spoilers: Deathly Hallows.
Notas: homenagem ao dia dos pais.
— Bebeu água?
— Já.
— Foi ao banheiro?
— Já.
— Escovou os dentes?
— Já, vovó, não tenho mais cinco anos!
Andrômeda Tonks suprimiu uma pequena risada que delinearia todas suas marcas de expressão no rosto. Com cuidado, ela ajeitou todas as cobertas que envolviam seu neto, Ted Lupin, para que ele não se descobrisse durante a noite.
— Então trate de dormir logo, porque amanhã será um grande dia — a senhora lhe deu um beijo estalado na bochecha e fez que ia se levantar.
— Vó?
— Sim?
— Eu... eu estou com medo...
— Do quê, querido? — ficou.
— Eu – na verdade, é que – não sei se quero ir pra Hogwarts...
— Teddy — suspirou —, nós já conversamos sobre isso. Não seja tolo. Hogwarts vai ser um lugar ótimo pra você.
— Mas é tão cheia de gente! É como se eu fosse ser engolido.
Ele ficou envergonhado por admitir isso, no entanto não podia evitar de se sentir tão minúsculo. Ted era, de qualquer modo, um menino baixo e magrelo, pálido, com uma aparência quase debilitada. Seus cabelos, apesar de seus dons de metamorphmagus, estavam constantemente acinzentados.
— Você nunca vai saber se a escola é tão ruim assim se nunca for. Não custa nada tentar, não é?
— Eu... não sei...
— Eu te prometo: você vai amar Hogwarts. Seus pais amavam. Você confia em mim?
Ted abriu a boca, mas voltou atrás. Encheu os pulmões de ar e soltou-o pelo nariz, pensativo. Finalmente, confirmou com a cabeça.
— Boa noite, querido.
— Boa noite, vovó.
A senhora Tonks deixou o quarto, fechando a porta atrás de si. Ted mergulhou na escuridão.
Quando sua coruja chegou em meados de Julho, sua avó Andrômeda nem podia se conter de tanto orgulho em seu peito. Fez uma festa no jardim de sua casa, coisa rara esta, chamando tio Harry e tia Ginny, James e Al, até os tios Ron e Hermione. Lembrava-se disso com uma sensação gelada no estômago. Não que não tivesse gostado, ou que não quisesse ser um bruxo, muito pelo contrário: adorava ser capaz de usar magia, como seus pais um dia o fizeram, e não podia deixar de se imaginar também um grande auror...
Contudo, Hogwarts... o frio na barriga tornava-se um enjôo desagradável quando pensava naquela escola tão famosa. Era tão mais cheia de gente do que ele estava acostumado... Provavelmente a rotina de estudante seria difícil, com todos os professores cureis (“Mas Neville é uma graça!” a voz de tia Ginny ressonava em seus ouvidos), todos os feitiços complicados, todos os sonserinos malvados... e... ainda tinha aquela pequena má impressão que tilintava irritantemente em sua mente. Não queria ir. Havia algo que o fazia sentir raiva, ódio, daquele lugar.
Sem perceber, seus olhos foram se fechando, se fechando, se fechando...
Vush.
Abriu os olhos assustado, para encontrar outro par castanho encarando-o de perto, sentado à beira da cama.
— Olá — sorriu a silhueta masculina, de maneira gentil.
Ted piscou várias vezes, até se certificar de que era verdade. Um estranho. Em seu quarto. Medo. Sua primeira reação foi gritar.
— Vóóóóóóó! VÓÓÓÓÓÓÓ!
No segundo seguinte, a porta se escancarou, mostrando o rosto aflito de uma Andrômeda Tonks usando apenas uma camisola velha e florida. Tarde demais. O estranho já havia desaparecido tão misteriosamente quanto surgira.
— O que aconteceu? Está tudo bem?
— Um homem – ele estava aqui – disse oi – sumiu – eu juro!
— Não há como aparatar aqui dentro, Teddy — falou com a voz rouca.
— Mas e – e se fosse um bicho-papão?
— Eles não aparecem assim. Essas criaturas gostam de locais escuros e fechados —
— Meu quarto é escuro e fechado!
— Além disso, eles não fingem ser humanos e cumprimentam normalmente. Garanto que um bicho-papão preferiria muito mais imitar um troll gosmento e assustador. Talvez você só estivesse sonhando, querido.
— Eu não acho — retrucou emburrado, enquanto sua avó arrumava suas cobertas uma outra vez.
— São duas da manhã. Melhor voltar a dormir.
Ted esperou silencioso até que ela lhe desse mais um beijo e deixasse o quarto, fechando a porta. Retomou o ar.
— Eu sei que você está aí — sussurrou, tentando parecer forte — Eu sei que você não é da minha cabeça.
Com um segundo vush! a figura reapareceu, exatamente no mesmo ponto de antes. O menino tentou forçar a vista, mas ela já tinha se desacostumado com o escuro, por causa da luz do corredor.
— Fico feliz por você me chamar.
— Por que você não apareceu pra minha vó?
— A senhora Tonks pode ser uma mulher muito amável, mas eu não vim aqui para vê-la. Vim pra conversar com você.
O homem se aproximou mais, de modo a ficar diretamente sob a luz da lâmpada que brilhava do outro lado da janela. Instantaneamente, seu rosto ficou mais visível – o pequeno Ted não precisou pensar muito para reconhecê-lo, porque, afinal, ele o conhecia desde sempre...
¾ Pai? ¾ o monossílabo escapou num fio de voz, e mesmo o garoto mal podia acreditar na própria palavra.
Remus Lupin alargou o sorriso.
¾ Ainda bem que não se esqueceu de mim.
Os cabelos salpicados de fios brancos e cinzentos caíam-lhe no rosto, cansado e de aparência mais velha do que seria verdade. Usava as vestes casuais de bruxo, negras, limpas e aparentemente velhas.
¾ Você... é... um fantasma? ¾ sussurrou Ted.
¾ Acho que não.
¾ Então como ¾ ?
¾ Tive só uma pequena impressão de que seria bom conversamos ¾ respondeu de modo divertido.
¾ Mas... como vou saber se você não é mesmo um bicho-papão..?
¾ Eu diria que um bicho-papão não perderia tempo assumindo uma forma simpática. Aliás, acho que ele se transformaria num dementador, que é o que mais você tem medo, não é?
Ted mal conseguia piscar. Aquele homem sabia do que ele tinha medo, algo que tinha contado apenas a seu padrinho... somente se fosse verdade ele poderia saber disso. Era seu pai.
E mal chegou a essa conclusão que já saiu da cama, sem dar qualquer sinal de seus movimentos. Pulou para o colo de seu pai e o envolveu ternamente com seus braços, de modo que ambos tivessem suas bochechas encostadas uma a outra, como se fossem coladas.
Remus sentiu seu rosto ficar levemente molhado.
¾ Eu senti tanto a sua falta, papai... tanto, tanto, tanto, tanto!
¾ Eu também, meu filho. Eu também.
¾ Eu sempre soube que você ia voltar, papai, mesmo morto ¾
¾ Mas você sabe que eu realmente morri, Teddy ¾ Remus limpou a garganta e tentou controlar a voz, trazendo com as mãos o rosto do menino para que pudesse vê-lo nos olhos. Estavam vermelhos e cheios de lágrimas ¾ E que não voltei pra sempre.
¾ Não? ¾ se desesperou.
¾ Não.
¾ Por que?
¾ Porque as coisas não podem ser assim. Não seria certo.
¾ Mas ¾
¾ Você realmente achou que tivesse um bicho-papão aqui dentro?
O Lupin menor encontrou a vista embaçando novamente, mergulhada na água salgada. Afinal, papai havia voltado... e iria deixá-lo... de novo.
E não queria falar sobre o assunto. Talvez isso fosse mesmo jeito de pai, essa de articular a conversa e desviar a atenção. Não saberia dizer. Nunca teve pai.
¾ Achei, sim. Eu li num livro que eles aparecem de repente ¾ simplesmente respondeu, num suspiro. Havia tantas perguntas a fazer, tanto para contar..! E, mesmo assim, a única coisa que faltava era tempo.
Não poderia perder aquele momento por nada.
¾ Sabe que você não estava tão errado?
¾ Não? ¾ assustou-se ¾ Onde ele está, cadê?
¾ Bem aqui ¾ Remus pôs o dedo indicador no lado esquerdo do peito de seu filo, onde seria o coração ¾ É fechado e escuro o suficiente.
¾ É verdade?
¾ Claro que não ¾ riu-se ¾ Mas tem alguma coisa te assustando, não tem?
Ted corou.
¾ Não...
¾ Não mesmo? Tem certeza?
¾ Tenho...
¾ Então acho que estou enganado. Pensei que você passasse as noites chorando porque estivesse com algum problema. Você só deve gostar, então...
¾ Como – como você sabe?!
¾ Sabendo, oras.
Possivelmente mais coisas de pai, pensou Ted, enquanto Remus se divertia com as expressões do menino. Melhor falar tudo.
¾ Na verdade, tem, pai.
¾ Ufa, achei que você não quisesse falar comigo. Tenho um palpite de que tem a ver com Hogwarts, não é?
¾ U-hum.
¾ Por que você não quer ir pra lá?
¾ Acho que não vou gostar...
¾ De que você não vai gostar, ou de que não vão gostar de você?
¾ Talvez os dois...
¾ Sabe ¾ disse o Lupin maior, passando as mãos nos cabelos ¾, eu também achava que ninguém fosse gostar de mim. Que as pessoas fossem ter medo. Lógico que não ficava contando meu segredo pra todo mundo... sua avó lhe contou sobre meu problema, não é?
¾ Ela me disse que você era um lobisomem bonzinho...
¾ Fico feliz de ouvir isso ¾ sorriu ¾ Mas, então, não era como se eu tivesse “lobisomem” estampado na minha testa. De qualquer forma, eu achava que todos descobririam e me achariam um monstro... quando eu entrei lá pela primeira vez, não tinha coragem de abrir a boca.
¾ Você não tinha amigos..?
¾ Depois de um tempo, eu fiz, sim. Eles eram os melhores do mundo. Fazíamos tudo juntos, dávamos muitas risadas, e eles me ajudavam a esquecer o que eu era. Mas um dia, lógico, eles descobriram.
¾ E aí? ¾ seus olhos brilhavam agora, não pelas lágrimas, mas sim de curiosidade ¾ Você ficou sozinho?
¾ Foi o que eu pensei que aconteceria. Mas não. Eles me apoiaram, compreenderam, e ainda fizeram de tudo para me ajudar nos dias da minha transformação. Eles se tornaram animagos por minha causa, sabia?
¾ Sério?!
¾ A-ham. Pode perguntar a seu tio Harry sobre o pai dele ¾ Remus franziu um pouco a testa e voltou seu olhar para a janela, como ponderasse muito bem as palavras ¾... O que eu quero dizer é que existem pessoas maravilhosas pelo mundo, pessoas que vão um dia serão capazes de fazer de tudo pela amizade. Você vai encontrar seus melhores amigos em Hogwarts, tenho certeza. Ela vai ser sua segunda casa, assim como foi a minha...
Quando Remus voltou o rosto para o filho, não encontrou seu olhar. O pequeno Ted tinha os olhos fixos também na janela, atento, procurando a felicidade tão clara que seu pai lhe mostrava... mas não conseguia enxergar.
Estava escuro lá fora.
¾ Não acredita em mim?
¾ Acredito ¾ respondeu rouco, forçando contra o nó na garganta.
¾ Seu cabelo está cinzento ¾ Lupin falou sério, tirando a franja do rosto do menino ¾ Os cabelos da sua mãe só ficavam assim quando ela estava muito triste...
Mãe. Essa palavra não parecia estar certa para ele. Normalmente, ela era só usada com outras pessoas. É. Como se ele fosse o único mamífero do mundo a não ter uma, a ter nascido do nada, brotado do chão. Tinha se acostumado com aquele pensamento, a ficar triste por ele. Não tinha mãe, assim como não tinha pai, nunca teve, e tudo porque – porque – porque –
— Vocês foram mortos lá — quebrou a vontado do choro e finalmente se abriu, a voz áspera mergulhada nas lágrimas silenciosas —, foram... assassinados... em Hogwarts. Eu... eu não quero pisar lá, não quero ver seus túmulos, não quero, não consigo..!
Soluçou agudo, não pôde conter os arrepios, começou a tremer. O pensamento doía. Remus puxou para mais perto e o envolveu novamente com os braços, fazendo carinho de leve em sua pele fina, tentando protegê-lo das próprias lembranças. Também não pôde. Sentiu o rosto voltar a ficar molhado.
— Sabe — começou, balançando o filho com o próprio corpo, num movimento de ninar —, eu sinto muito por ter morrido. Sua mãe também. Nunca imaginávamos que as coisas fossem ser... assim. Aquele foi um dia horrível, não só pra nós, mas pra todos que estiveram lutando com a gente. Foi duro. Muito difícil. Mas estávamos batalhando por um mundo melhor, e conseguimos.
— Não é justo! — exclamou, grudado ao peito de seu pai, segurando-o pelas vestes — Não foi! Vocês tinham acabado de casar, eram felizes – vocês nem me conheceram! Vocês – vocês não precisavam ter morrido! Não...
— Teddy, não se preocupe com justiça. Nós estivemos lá porque queríamos, nós escolhemos. E tivemos uma morte muito digna —
— Nós nunca fomos uma família! — soluçou.
Remus parou.
— Não. Você está certo, nunca fomos — suspirou —... mas se não fosse por isso, não seríamos uma família de qualquer jeito. Não havia felicidade, Teddy, não havia vida. Tudo o que fizemos foi por você. Para te dar uma oportunidade de viver, de ser feliz algum dia.
O pai abraçou o filho ainda mais apertado, com carinho. Com amor.
— Não havia melhor lugar para tudo ter ocorrido do que Hogwarts. Lá sempre foi minha casa, lugar dos meus melhores momentos, onde fui feliz. E morri feliz. Eu e sua mãe morremos felizes porque sabíamos que estávamos fazendo a coisa certa, por você.
O pequeno Ted puxou o ar ruidosamente pelo nariz. Sua respiração voltou ao normal; não chorava mais.
— Não há o que ter medo. Não precisa ter raiva de lá, porque mesmo eu não guardo ressentimentos de lá. Não pense em Hogwarts como um lugar de guerra, de tristeza, onde morremos. Tente lembrar de que lá foi o lugar da vitória, da alegria, onde eu e sua mãe fomos heróis. Nós não fomos heróis?
— A-ham — respondeu com a voz anasalada, ainda abraçado ao pai.
— Você estará mais perto de nós em Hogwarts.
— Verdade? — o menino ergueu a cabeça para encará-lo, com o rosto surpreso.
— Sempre que você entrar no Salão Principal, olhar para o jardim, se deitar para dormir... tenha certeza de que eu e sua mãe estaremos bem ao seu lado, cuidando de você. Mais do que nunca.
O sorriso sincero de seu pai foi o suficiente para acalmá-lo, enchê-lo de confiança. Ele estava certo: lá, jamais estaria sozinho. Sabia disso.
— Eu... quero ir pra lá, papai.
— Então é melhor você se deitar, não é? Senão, não vai nem conseguir acordar amanhã de manhã — sorriu.
Pegando-o pelas axilas, Remus levantou Ted e o pousou de volta na cama, arrumando as cobertas (não tão bem quanto a senhora Tonks) para o restante da noite. Olhou no relógio do despertador, em cima do criado-mudo.
— Você tem que dormir e eu tenho que ir, agora.
— Mas eu vou te ver em Hogwarts, né?
— Não posso te prometer que vamos nos ver, mas certamente eu estarei com você — deu-lhe um beijo na testa — Cuide-se até lá.
— Papai?
Remus tinha se levantado para fechar melhor as cortinas, porém parou no meio do caminho.
— Sim?
— Obrigado por tudo. Eu te amo muito.
— Eu também te amo, meu filho.
— Diz pra mamãe que eu amo ela também?
— Claro que digo.
Remus fechou as cortinas e tudo mergulhou na mais profunda escuridão.
— Boa noite, papai.
— Boa noite, meu filho.
Houve mais um vush! no ar, e Ted não ouviu mais nada. Sentiu vontade de chorar de novo, mas seu coração não permitiu. Estava mais leve, aliviado, contente como não ficava há tempos – não, como jamais havia ficado na vida. Seu pai estava com ele; não havia com o quê se preocupar.
Pegou no sono antes de perceber a porta se abrindo sozinha, liberando espaço para ninguém, e se fechando em seguida.
Já às sete da manhã daquele primeiro de setembro, Andrômeda Tonks estava de pé na cozinha, envolta por um penhoar cor-de-laranja que combinava com os tons de seu cabelo. Uma chaleira apitava quente no fogo enquanto ela conjurava algumas xícaras.
— Bom dia, senhora Tonks.
— Oh, bom dia, querido. Por favor, pode se sentar. Prefere chá ou café?
— Café, por favor — respondeu o Harry Potter adulto, ajeitando os óculos arrendondados e becejando. Com um aceno da varinha de Andromeda, a xícara apareceu cheia a sua frente.
— Como foi ontem à noite?
— Ah, foi muito, muito bonito. Ele ficou muito feliz de ver o pai.
— Ele não desconfiou?
— Acho que não. Usei a capa de invisibilidade, de qualquer modo, ele não pôde me ver voltando ao normal.
— E vocês conversaram?
— Bastante. Ele estava meio relutante no começo, assim como estava com a senhora, mas então ele me contou. Teddy não quer ir pra Hogwarts porque foi lá que Lupin e Tonks morreram.
— Oh! E como não pensamos nisso antes? Oh, meu querido... deve ser realmente difícil, eu deveria ter conversado com ele...
— Não precisa se preocupar agora. Nós conversamos, expliquei a situação, disse exatamente o que Lupin teria dito. Ele ficou feliz, está mais confiante. Acho que agora vai querer ir para encontrá-los...
Andromeda puxou uma cadeira para perto de Harry e segurou uma de suas mãos com suas duas, afetuosamente.
— Não sei como lhe agradecer, senhor Potter. Você fez meu pequeno Teddy muito feliz ontem à noite.
— Eu sou padrinho dele, fiz isso de coração. Eu que tenho que lhe agradecer por ter preparado a Poção Polissuco, eu não teria tempo, agora que tenho que cuidar daqueles dois em casa, sem Ginny...
— Guardei os cabelos de Dora e Remus com outros propósitos, nunca pensei...— começou, mas teve que parar ao sentir os olhos marejando-se de lágrimas — Oh, querido, ainda bem que foram bem usados — ela enxugou o rosto com a manga do penhoar e respirou fundo, abrindo um largo sorriso — Mas e a sua Ginny, como está? Já sabe quando vai nascer?
— Esperamos que seja daqui a alguns dias. Eu estive com ela ontem à tarde e ela não podia agüentar mais, só reclamava da comida do St. Mungus. Lily está fazendo com que ela engorde muito — riu.
— Lily, que nome adorável — observou, tomando um gole do seu chá — E James e Albus?
— Adoraram a idéia de ficar na casa do tio Ron. Ainda bem que Hermione está lá, porque James e Rose quando estão juntos são terríveis, aquela menina herdou o cérebro da mãe e as idéias malucas dos Weasley, imagine só...
Então ouviram passos rápidos descendo as escadas de madeira. No segundo seguinte, Ted Lupin chegava à cozinha com seu uniforme de Hogwarts meio vestido pelos braços e os cabelos despenteados, só de meias.
— Tio Harry! — exclamou ao ver o padrinho e pulou, dando-lhe um abraço.
— Como você está? Dormiu bem?
— Você não imagina o que aconteceu essa noite! Eu vi papai! O meu pai, tio Harry! Ele voltou!
— Verdade? — ele sentiu Andromeda lançar-lhe um olhar pelo canto dos olhos, enquanto arrumava a mesa — Vocês conversaram?
—A-ham, a-ham! Ele me disse que ele e mamãe estariam comigo em Hogwarts, eu quero tanto ir, tanto, tanto, tanto!
— A vovó tem sempre razão, viu só? — riu-se Andromeda.
— Você acha que ele vai voltar pra falar comigo de novo, tio Harry?
— Ahn — ele se encabulou —, bem, eu não sei, Teddy...
— Seus pais já voltaram pra você, tio Harry?
— Duas vezes, sim...
— Então! Eu tenho certeza de que ele volta, e vai trazer mamãe —
— Teddy — Harry segurou-o pelo braço, pedindo que se sentasse —, eu não gostaria que você criasse esperanças. Talvez fosse só um sonho.
— Não era! — fez bico, ofendido — Eu sei que não! Você falou com seu pai também, por que não pode acreditar em mim?
— Ambas as vezes não eram realmente meus pais, eram espectros, como se fossem fantasmas — explicou —, e eles não apareceram simplesmente. Precisei usar alguns objetos.
— O quê?
— Precisei do encontro de duas varinhas-irmãs e de uma pedra muito, muito rara e antiga. Você usou alguma dessas coisas?
— Não... — se entristeceu, a cor dos cabelos voltando a ficar salpicada de grisalhos — Mas eu tinha certeza... não podia ser sonho... não podia...
— Acho que era sonho, Teddy — falou Harry, sem tirar a mão do braço do menino — Mas eu também acho que era ele, sim.
— Mesmo?
— Lógico.
— E você acha que eu vou ver ele de novo?
— Eu... eu acho que não.
Ted queria segurar o choro, e para tanto teve que abaixar a cabeça. Não resolveu muita coisa. Resolveu abrir a boca e puxar o ar fundo para os pulmões, porque agora seu nariz estava entupido demais, e ele não queria forçá-lo e mostrar que estava chorando. Não que seu padrinho não tivesse percebido.
— Mas, ao mesmo tempo, eu acho que você não precisa ficar triste. Seu pai vai estar sempre com você. Ele está no seu coração, não é?
— Aquela história de sempre do “coração”, é — resmungou baixinho, anasalado.
— Eu odeio essa também, é verdade. Como se as pessoas realmente pudessem consolar dizendo essa besteira, né? — o comentário de Harry trouxe a cabeça de Ted novamente para cima. Ganhou respeito. — Eu não estou falando disso. Ele está no seu coração porque vocês dois são idênticos. Tem muito de seu pai em você. Ele certamente está dentro de você, e por isso apareceu esta noite. Você não precisa se preocupar se vai reencontrá-lo, porque ele já está sempre com você, em você.
— Eu sou como ele..?
— Seu pai era um homem simpático, inteligente, educado, prestativo, muito corajoso. Foi um grande amigo pra mim, me ajudou muito.
— Eu não sou corajoso...
— Você nasceu da união de duas pessoas fortes, que fizeram tudo para que nosso mundo fosse bom pra você. E nós dois sabemos como não é fácil ficar sem eles, né? Sem nossos pais. Você é corajoso sim, Teddy, só tem que acreditar nisso.
— Você é filho de Dora e Remus, por favor! — falou Andrômeda, que já tinha saído para o jardim sem que os dois percebessem.
— Mas eu acho que só indo a Hogwarts você vai poder ser tão bom quanto eles e entender como eles eram pessoas maravilhosas. O que você acha? Ainda quer ir?
Ted pareceu considerar um pouco – agora, de cabeça levantada. Enxugou o rosto com as vestes e respondeu decidido:
— Eles se foram em Hogwarts felizes, não é, tio Harry?
— Eles estavam fazendo o que acreditavam. Eu acho que foram felizes, sim.
— Eu quero conhecer o lugar que os deixou felizes... eu posso ser também.
— Lógico que pode. É isso mesmo! Como seu pai.
— Como papai. Vou pra Hogwarts! — pulou da cadeira.
— Então é melhor você ir se vestir direito, senão vai se atrasar.
Harry deu um abraço apertado no afilhado e deixou-o partir para subir as escadas de volta ao quarto, animado, os cabelos cintilando azuis, sorrindo.
Em algum lugar, Remus Lupin também sorria.
quarta-feira, 1 de agosto de 2007
A pior lembrança de Snape
Categoria: Harry Potter.
Gênero: Drama, Romance.
Timeline: sexto livro/ época dos Marotos (exato capítulo 28 da Order of Phoenix)
Disclaimers: Harry Potter pertence à Rowling e à Warner.
Data: junho de 2007.
Palavras:
Spoilers: sexto livro.
Nota 01: fanfic escrita antes do lançamento de Deathly Hallows, e por isso distoante do enredo original.
Nota 02: Escolhi traduzir "Requirement Room" para "Sala do Requerimento", e não "Sala Precisa".
- ruim.
Rodeado por frascos coloridos e polimorfos, Severus Snape estava sentado diante de sua mesa de professor, as duas mãos apoiando o queixo, os olhos fora de foco. Pensava. Ponderava. Logo Harry Potter estaria lá para mais uma aula de Occlumency que o garoto certamente repudiava. Não posso dizer, pensava o professor, que o sentimento não seja recíproco.
Diante de si, a penseira emanava seu brilho prateado usual. Ao seu lado, estava a varinha. O que Snape na verdade tentava realizar era o raciocínio óbvio: guardar seus pensamentos e lembranças para que Potter, num acidente, não acabasse descobrindo-os. Essa era a parte fácil – a difícil, e dolorosa, era recordar os momentos mais tenebrosos...
Não havia dúvidas de qual seria o primeiro. Suspirou. Aquela lembrança perseguia-o dia após dia, em cada palavra sua, em cada atitude, em todo pesadelo. Não conseguia deixar de lembrar da situação sem um enorme aperto no coração. Era arrependimento, culpa. Se pudesse, daria toda sua vida para voltar ao passado e fazê-lo diferente.
Mas não podia. Pelo contrário, agora era obrigado a conviver com ele para sempre, do modo lamentável como acontecera...
Suas lembranças tinham início na noite do segundo dia de junho de 1975.
Ainda podia se sentir no corpo do jovem Severus, tímido e rabugento. Via-se cobrindo sua cabeça com a capa antes de deixar a sala comunal da Sonserina. Já tinha passado das onze e, por estar apenas no quinto ano, não poderia ficar vagando pelos corredores do castelo; estava tentando ser discreto, mesmo sabendo que não seria um gorro que o esconderia.
Tentando ao máximo não fazer barulho, foi segurando o fôlego até alcançar o sétimo andar. Foi um caminho longo e tenso desde as masmorras. Somente se sentiu tranqüilo ao finalmente avistar a grande tapeçaria de Barnabas, the Barny, e seus amigos trolls aprendendo a dançar balé. Suspirou e sorriu. Ainda nas pontas dos pés, passou três vezes na frente da parede vazia oposta ao cenário, murmurando algumas poucas palavras por baixo da respiração.
Por um momento, voltou à realidade. Repetiu-as para si mesmo. Como queria, ah, como queria que fosse verdade..!
Um lugar onde eu possa vê-la... onde possamos ficar sozinhos... para sempre.
A porta da Sala do Requerimento surgiu como se sempre tivesse estado ali. Girando a maçaneta, entrou.
Aquele recinto jamais era igual ao que ele visitara da última vez. O daquela noite era estranha e agradavelmente diferente, principalmente pelo falso céu que brilhava acima de seus olhos, como no Salão Principal. Gostou muito. Aliás, sempre gostava. Severus se divertia a cada mudança, imaginando como poderia haver no mundo tantos lugares reconfortantes – e eram realmente muitos, porque ele ia para lá quase todos os dias.
Certamente não era somente para admirar os novos quartos. O que ele mais gostava, na verdade, era da pessoa com quem ele ia se encontrar naquelas quase todas as noites, e que agora se punha a sorrir para ele de modo amoroso. Ela caminhou em sua direção e entrelaçou todos os seus dez dedos nos dele, como se quisesse fazer-lhe cócegas.
— Hoje a noite está muito bonita, não é mesmo?
Seus olhos verdes pareciam brilhar mais do que as estrelas. Severus sentiu um aperto no coração, o mesmo que sentira quando a vira pela primeira vez. Era como se neles houvesse algum tipo de feitiço capaz de deixá-lo alheio a tudo, atordoado, apaixonado...
Severus estava enfeitiçado pelos olhos de Lily Evans.
Ainda de mãos dadas, eles se sentaram no chão, um ao lado do outro, numa posição em que pudessem ver o céu estrelado. Sentiam como se pudessem ficar ali a noite toda, conversando, namorando, sentindo a presença um do outro... como faziam sempre, às escondidas de todo o castelo.
— Obrigado — ele se viu falando, tímido, por trás dos cabelos compridos.
— Pelo quê?
— Por existir.
Lily deu uma risada sem-graça.
— Ora... assim eu fico sem jeito.
— Mas é verdade. Eu tenho que lhe dizer isso, porque é verdade.
— Eu... eu também gosto muito de você.
Ele virou o rosto, e seus lábios se encontraram num beijo suave, ainda que superficial, mas quente.
Voltando ao presente, Severus levou as pontas dos dedos até a boca, para ver se ainda sentia o calor. Mas estavam frios.
A voz de Lily chamou-o para o passado:
— E gosto tanto... tanto que... eu gostaria de contar para todo mundo.
Ele sentiu uma pontada no peito.
— Nós já conversamos sobre isso.
— Eu sei... mas eu pensei que talvez —
— Eu não vou mudar de idéia.
Lembrava-se de como aquela questão o incomodava. Depois que haviam descoberto o quanto era parecidos e como conseguiam se dar tão bem, os dois passaram a se encontrar escondidos, como se aquilo fosse uma brincadeira, um desafio perante as regras da escola. Saíam à noite, mentiam para os amigos, desapareciam do nada, às vezes perdiam uma aula ou outra. Divertiam-se, e assim passaram a gostar ainda mais um do outro.
Quando a vontade de se ver foi crescendo, se tornando cada vez maior, insuperável e insuportável, eles passaram a se encontrar todos os dias atrás das portas secretas da Sala do Requerimento. Ela era conhecida por poucos, e assim Snape acreditava que estariam protegidos dos olhares maus e curiosos dos alunos de Hogwarts e do resto do mundo.
Contudo, ele não poderia negar que aquelas poucas noites já não pareciam mais ser suficientes...
— O que tanto te preocupa?
— Eu já lhe disse.
— Não pode ser verdade.
— Nós já estamos conversados, certo? Vamos mudar de assunto.
— Não, Severus, não — ela respondeu firme — Tudo isso só porque sou da Grifinória? Não pode ser. Não faz sentido!
— Você obviamente não entende porque nasceu numa família trouxa. Nosso relacionamento é vergonhoso tanto pra mim quanto pra você...
— Eu não ligo pro que as pessoas dizem.
— Isso não fará com que elas parem de falar.
— É inveja, Severus!
— Vão nos jogar pragas nos corredores.
— Como se você não tivesse seus próprios feitiços, Half-Blood Prince.
— Não é você que enfrenta a ganguinha daquele inútil do Potter todos os dias...
— Pior que isso, tenho que enfrentá-lo sozinha todos os dias... Potter, Severus? Você realmente está com medo dele?
Ele abaixou a cabeça, balançando-a negativamente.
— Você não entende...
— Porque você fica me evitando, inventando mentirinhas pra tentar me convencer! Quem sabe se você falasse —
— Lily, você é uma trouxa!
Ela ficou surpresa com a interrupção. Estreitou os olhos com incredulidade.
— Se eu fosse realmente trouxa, acho que não estaria aqui, não é?
— Você não é puro-sangue.
— Ora, e nem você!
— Mas você nasceu trouxa...
— Aaah, Severus! — ela se impacientou — Nada disso importa! Daqui a pouco você vai ficar igual aquele Lorde Volde-não-sei-mais-o-quê...
— Lorde Voldemort. Ele não está de todo errado...
— O quê? Ele mata pessoas inocentes, Severus, sem motivo nenhum!
— As linhagens de bruxo estão ficando mais fracas, Lily. Os sangues de trouxas que se misturam aos nossos estão diminuindo a magia das gerações...
— Seu pai é trouxa e você é um dos melhores alunos do ano!
— Não me fale dele — ele falou amargamente —. Eu o odeio. Eu poderia ser um Prince, se não fosse por ele.
— Pare de falar essas coisas. Ele é seu pai.
— Ele é um trouxa sujo e nojento, ele arruinou minha vida!
Ao ouvir novamente sua voz em suas lembranças, Snape se surpreendeu. Falara alto demais.
— É aquele Malfoy que está te deixando assim. Ouvi dizer que ele é um Comensal. É melhor você —
— Ele não é pior do que aquele Lupin com quem você conversa.
— Você nunca falou com ele pra saber!
— E você diz de coisas que não sabe, tira conclusões precipitadas, pensa que o mundo gira conforme as “Regras da Lily”. Você não entende nada porque você nasceu trou —
— OLHE PRA VOCÊ MESMO! NÓS SOMOS IGUAIS!
Os dois se assustaram com o volume e o tom de voz da garota. Severus viu a si mesmo levantando e se dirigindo até a porta, sendo seguido de perto por Lily.
— M-me desculpe...
— É melhor irmos embora antes que ouçam mais um dos seus gritos histéricos.
No presente, ele sentiu raiva de si mesmo por ter dito palavras tão duras. Ao mesmo tempo, sabia que não podia evitá-las. Sempre fora e sempre seria assim, rancoroso.
Encontrou-se logo do lado de fora do recinto, olhando de ambos os lados antes de sair, à procura de algum espião. Sentiu Lily em seu encalço, sugando o ar ruidosamente pelo nariz. Assim como na época, supôs que ela estivesse segurando o choro. Jamais soube, pois jamais virou o rosto para vê-la.
O que passou a preocupá-lo foi, na verdade, a sombra que ele vira, segundos depois, afastando-se do corredor em que estavam no sétimo andar. Sentiu seu coração pulsar novamente de terror. Voltou-se para a porta da Sala do Requerimento, mas a maçaneta não estava mais ali. Havia desaparecido. Num reflexo, ele puxou Lily por uma das mãos e saiu correndo para o lado oposto, somente parando ao encontrar uma sala de aula vazia.
Entraram ofegantes.
— Nos viram — ouviu sua própria voz tremer.
— Você está imaginando coisas.
Não poderia realmente saber. Naquele momento, contudo, carregava a certeza no fundo do seu ser. Por mais que quisesse, sabia que eram incompatíveis e que não poderiam ficar juntos. Não poderiam ser vistos...
Ao regressar para seus aposentos nas masmorras, um único pensamento martelava em sua mente: teria que provar para quem quer que os tivesse visto juntos de que aquilo era mentira – de que ele, na realidade, a odiava.
A pior lembrança de Snape
Tentando se recompor dos momentos ruins, Severus Snape levou a ponta de sua varinha até a altura das têmporas e tirou de sua memória aquela situação desagradável. Um arrepio percorreu-lhe a espinha, subitamente sentiu-se enjoado. O pior ainda estava por vir... a pior lembrança...
Não precisava fazer esforço algum. Antes que pudesse evitar, as palavras de Lily voltavam a ressoar em seus ouvidos num grito ameaçador, como se acabassem de ser proferidas.
— DEIXE-O EM PAZ!
Estavam nos gramados do castelo, já era o dia seguinte, logo após seus OWLs de Defesa Contra Artes das Trevas.
No instante em que a garota ameaçava Potter e Black com sua varinha, ele estava totalmente imobilizado pelo Petrificus Totalus, à mercê da própria sorte. Enquanto assistia passivamente os eventos se sucederem, seu coração acelerava de pavor e sua mente corria desesperadamente em busca de uma solução.
Se ao menos Lily não tivesse intervindo na briga, se ao menos ela tivesse ficado quieta, jamais iriam conectá-la a ele. Em seus pensamentos, as atitudes que a bruxa faziam a seu favor haveriam de ser interpretadas como a paixão incondicional que sentiam um pelo outro. Como se fosse óbvio.
Recordava tais idéias com ódio de si mesmo. Não havia nada estampado em suas testas que fosse capaz de denunciá-los. No entanto, tudo o que ele podia enxergar era medo: de ser descoberto, de ser ainda mais segregado, de ser conectado àquela pessoa considerada miserável – e que ele amava com todas as suas forças.
Não conseguia conciliar aquelas duas vidas. Teria que descobrir quem era o verdadeiro Severus Snape, e aquela seria a hora.
Escolheu o errado.
— Ah, Evans, não me faça amaldiçoá-la — a voz de James Potter soava distante.
— Tire o feitiço dele, então!
Conforme a sensibilidade de seu corpo voltava, tomou a decisão. Viu-se obrigado a fazer o que ele achava certo: odiar.
E odiou.
— Pronto — James falou enquanto voltava a ficar de pé — Você teve sorte da Evans ter aparecido aqui, Snivellus —
— Eu não preciso da ajuda de sangues-ruins nojentas como ela!
Sentiu uma pontada no coração. Estava feito.
Pior ainda quando passou seu olhar por Lily e viu-a piscando. Para tentar afastar as lágrimas.
— Ótimo — ela disse friamente — Não vou me preocupar no futuro. E eu lavaria minhas calças se fosse você, Snivellus.
— Peça desculpas pra Evans! — ele ouviu James gritar, apontando a varinha em sua direção.
— Eu não quero que você o faça pedir desculpas — Lily gritou de volta — Você é tão ruim quanto ele.
— O que? Eu NUNCA te chamaria de – você-sabe-o-quê!
— Você fica bagunçando seu cabelo porque acha super legal parecer que acabou de descer da vassoura, se mostrando com esse pomo estúpido, andando pelo corredores e jogando pragas em todo mundo que te incomoda só porque pode – eu estou surpresa que a sua vassoura ainda possa sair do chão com essa sua cabeça gorda em cima. Você me dá NOJO.
— Evans! Hey, EVANS!
Mas ela já tinha se virado e saído correndo novamente para dentro do castelo. Severus sentiu a mesma dor do momento, a mesma vontade de puxá-la de volta e explicar, fazê-la entender. Ainda assim, não teve coragem. Havia muitas pessoas a sua volta...
Antes que pudesse se recuperar, foi cego por um flash de luz e o mundo voltou a ficar de cabeça para baixo.
— Quem quer me ver tirar as calças de Snivellus?
Aquelas risadas ecoavam em seus ouvidos como se as pessoas estivessem realmente ao seu lado, no presente, dentro de sua sala. Sentiu vergonha de si mesmo, ódio da arrogância daqueles garotos que fizeram com ele o que quiseram. Não podia imaginar como ainda podia travar um diálogo racional com Sirius Black no quartel-general da Ordem...
Felizmente, Potter não chegou a cumprir o que prometera. Antes que pudesse realizar o feitiço, a professora McGonagall apareceu bradando ordens com a expressão aborrecida:
— LARGUEM AS VARINHAS! PONHA-O NO CHÃO, SENHOR POTTER!
Depois disso, as imagens seguintes eram somente um borrão. Lembrava-se vagamente que tinha descido ao chão, ouvido algumas palavras da professora (algo com “responsabilidade” e “comportamento”) e que pontos de casa haviam sido perdidos, embora ele não pudesse se lembrar se a professora fora justa ou não. O filme em sua mente subitamente cortava para a cena em que ele discretamente entrava na Sala do Requerimento, desejando com todas as suas forças reencontrar-se com Lily.
E lá estava ela, sentada numa poltrona diante da lareira do novo formato do recinto.
— Você veio...
— Quero tentar me explicar pra você.
— Não precisa perder tempo com uma sangue-ruim.
Viu-se afastando os cabelos dos olhos e se sentando na outra poltrona próxima ao fogo.
— Por favor, não leve as minhas palavras tão a sério... elas – elas não foram de coração. Eu fui obrigado a dizê-las, porque... porque é nisso que as pessoas têm que acreditar. Se elas descobrirem que estamos juntos...
Ele parou significativamente.
— Ahn, o quê vai acontecer se eles nos virem juntos?
Eu não deveria ter dito nada daquilo, pensava o bruxo agora com rancor de si mesmo.
— Eles vão te odiar, não é? É disso que você tem medo, eu sei. Todos aqueles garotos e garotas da Sonserina metidos a malvadões, afundados em livros de Artes das Trevas e com suas manias ridículas de sangue puro e real com quem você anda e acha que conquistou amizade. Nada disso corresponde à realidade, Severus, nada. Eles não são seus amigos de verdade, eles só querem um garoto inteligente e sozinho como você pra convencerem a entrar no círculo daquele Voldemort detestável.
— Manias ridículas? Olhe só pra você, discursando sobre Grifinória versus Sonserina! Nós somos os mesquinhos e malvados arrogantes e detestáveis, certo? Eu não seria capaz de concordar com isso enquanto Potter e Black estão em Hogwarts...
— Não, Severus, não se trata de casas, se trata de pessoas! Você é mestiço, não há porque continuar com essa tradição de pureza e com essa vergonha sem sentido —
— Não é sem sentido. Você não sabe o que é ser excluído e humilhado, você é a perfeita monitora Lily Evans adorada por todos os professores e idolatrada pelo estúpido popular James Potter! Você é o centro dessa escola, Lily, você não sabe o que é ser pisado pelas pessoas!
As palavras que saíam descontroladas de seus lábios vinham carregadas de raiva.
De inveja.Ele se arrependia tanto de tê-las sentido...
— Eu não quero ser ignorado. Eu sou muito mais do que isso que todos acham. Mas, diferentemente de certas pessoas, eu não preciso de um pomo idiota para mostrar isso para o mundo. Aqueles que você considera detestáveis são os únicos que me entendem e me ajudam a crescer. Isso é amizade.
— Não. Amizade é respeito. Se eles fossem realmente seus amigos eles não o fariam ter nojo de trouxas e vergonha de seus pais —
— Se não fosse por ele eu seria um Prince! Um Prince! Você nunca vai entender isso porque você nasceu trou —
— Eu sou tão bruxa quanto você, pelo amor de Deus! Ah, Severus — ela deu um longo suspiro, esgotada —, por favor, não tente fingir ser alguém que você não é para ser aceito. Você não tem que fazer isso.
— Eu estou sendo eu mesmo. Não, não, não, definitivamente não.
— Você é um covarde, então é isso o que você é!
Aquela frase ainda era capaz de fazê-lo tremer.
— É covarde demais para enfrentar as pessoas certas e tentar ser você mesmo. Você fica se escondendo por trás de um nome imponente, Half-Blood Prince, tentando se mostrar com feitiços, fingindo que tem sangue puro pra parecer alguém importante. No fundo, você tem medo de ficar sozinho. E é agindo exatamente assim que você vai ficar.
Ela não chorava mais. A ausência de lágrimas significava indiferença. — O que eu disse a James Potter está certo. Você é tão ruim quanto ele.
Então tudo escureceu.
A lembrança tinha acabado, e com ela Severus Snape desejava que tivesse ido sua vida.
Levantou-se, deu alguns giros pela sua sala para tentar se acalmar. Por fim, acabou por voltar a sua mesa, apoiando-se nela em pé pelos dois braços, os olhos fechados. Era insuportável. Não agüentava viver com aquela memória perseguindo-lhe dia após dia, a voz de Lily Evans chamando-lhe de covarde a cada segundo, como se fosse um castigo por suas más atitudes.
Suspirou. Ele estava só, exatamente como ela havia previsto...
Mas, não, ele não era um covarde. Ela jamais o entendera, com sua vida perfeita do nascimento ao fim, até ao morrer ao lado do homem que tanto a amava... Não gostaria de pensar que aquele homem poderia ser ele – de alguma forma, isso o fazia imaginar-se ainda mais parecido a James Potter, o que definitivamente não era. Não, ela estava errada, sem dúvida. Ele não era um covarde.
Mas, ah, como sentia falta daqueles olhos verdes...
De repente, ouviu os movimentos de alguém entrando em sua sala e fechando a porta logo em seguida. Era Potter – não o James, mas o Harry.
— Você está atrasado, Potter.
Levando a varinha em direção às têmporas, Severus Snape sugou de sua mente sua pior lembrança e guardou-a na penseira.
