quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Miguilim (Guimarães Rosa)

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[...]

-- Chora, não, Miguilim, de quem eu gosto mais, junto com Mãe, é de você...

E o Dito também não conseguia mais falar direito, os dentes dele teimavam em ficar encostados, a boca mal abria, mas mesmo assim ele forcejou e disse tudo:

-- Miguilim, Miguilim, vou ensinar o que agorinha eu sei, demais: é que a gente pode ficar sempre alegre, alegre, mesmo com toda coisa ruim que acontece acontecendo. A gente deve de poder ficar então mais alegre, mais alegre, por dentro!...

E o Dito quis rir para Miguilim. Mas Miguilim chorava aos gritos, sufocava, os outros vieram, puxaram Miguilim de lá.

[...]

Todos os dias que depois vieram, eram tempo de doer. Miguilim tinha sido arrancado de uma porção de coisas, e estava no mesmo lugar. Quando chegava o poder de chorar, era até bom -- enquanto estava chorando, parecia que a alma toda se sacudia, misturando ao vivo todas as lembranças, as mais novas e as muito antigas. Mas, no mais das horas, ele estava cansado. Cansado e como que assustado. Sufocado. Ele não era mais o mesmo. Diante dele, as pessoas, as coisas, perdiam o peso de ser. Os lugares, o Mutum -- se esvaziavam, numa ligerireza, vagorosos. E Miguilim mesmo se achava diferente de todos.

[...]

Ora vez, tinha raiva. Das pessoas, não. Nem de Deus; não. Mais não sabia, de quem ou de que. Tinha raiva. Não conseguia, nem mesmo queria, se recordar do Dito vivo, relembrar o tempo em que tinham vivido juntos, conversado e brincado. Queria, isso sim, se fosse um milagre possível, que o Dito voltasse, de repente, em carne e osso, que a morte dele não tivesse havido, tudo voltando como antes, para outras horas, novas, novas conversas e novos brinquedos, que não tinham podido acontecer -- mas devia de ter para acontecer, hoje, depois, amanhã, sempre.

-- Hoje, o que era que o Dito ia dizer, se não tivesse morrido? O quê?!...

Então, chorava mais.

[...]
"

domingo, 22 de março de 2009

Falso livre-arbítrio

Disponível em http://www.potterish.com



Esses dias estive revendo o terceiro filme e algo me incomodou muito. Lembro que quando li o livro (e eu o li um número considerável de vezes) também senti o mesmo desconforto. Nada a ver com o aparecimento do meu personagem preferido, fui constatar depois: o caso era que aquela parte com Hermione e seu vira-tempo, a suposta morte de Bicuço da primeira vez e o aparente retorno de James Potter lá pelo final. Algo não se encaixa com o enredo da história e a imagem que nossa tia Jo quis passar, e é sobre isso que vou falar nesta minha (espero que não muito extensa) coluna.

Antes de explicar o que é esse “algo”, é preciso fazer algumas explicações e outras contextualizações.

Eu poderia me fazer valer de teorias físicas e de palavras de grandes estudiosos de Exatas. Eu bem sei que Einstein encostou naquilo que quero falar, e já li, bem por cima, uma dita Teoria das Cordas sobre o assunto. O fato é que sou de Humanas e ponho-me no meu lugar; não quero pagar mico. O meio mais perto para chegar ao meu assunto não será a ciência propriamente dita, mas sim a ficção científica — e será com meu fandom mais amado (só ele ganha do mr Potter no meu coração), meu filme preferido, “De Volta para o Futuro”. Pode ser clichê, pode passar na Sessão da Tarde, mas eu o amo mesmo assim (vocês, fãs incondicionais, me entenderão). Pode não ser teórico nem acadêmico, mas dele eu entendo, e com ele não vou pagar mico.


Zemeckis e Rowling, duas mentes brilhantes
Parto do princípio de que todos já tiveram o prazer se assistir à obra-prima dirigida por Spielberg e escrita por Zemeckis. Saber de alguns detalhes do enredo será essencial ao meu texto. Para tanto, refresco a memória de vocês com um breve resumo da trilogia:

Marty McFly, estudante da High School americana e amante do típico rock’n’roll dos 80’s, é convidado por seu amigo cientista doutor Emmet Brown a assistir o teste de sua nova invenção. Marty não sabia, no entanto, que a dita invenção era uma máquina do tempo, e que seria obrigado a usá-la, naquele dia, para escapar de terroristas. Acabou voltando para 1955 (o presente do filme é representado por 1985), no exato dia em que seu pai e mãe tiveram o primeiro encontro, e sua descuidada interferência muda os acontecimentos passados e impede seus pais de se conhecerem. Neste primeiro filme, Marty luta para convencer o Doc Brown de trinta anos atrás a lhe ajudar a voltar para o futuro e tentar consertar o passado, nada muito diferente do que ocorre nos outros dois filmes seguintes (no segundo, ele acaba voltando para 1955, e no terceiro, cai em 1885), e que não o impede de ser, na minha opinião, fascinante.

Mas esta não é questão, certo? O que eu realmente quero que vocês prestem atenção é no processo da viagem temporal e seu desenrolar. Quando, no começo da história, Marty está em 1985, sua vida tem uma primeira apresentação: ele pertence a uma família de classe média, sua mãe é fumante e alcoólatra e seu pai é covarde e subjugado por seu chefe, Biff Tuney. No entanto, ao sair em 1955 e modificar a história do primeiro encontro de seus pais, seu retorno lhe aguarda um novo ano de 1985: agora, sua família é rica e seu carro é novo; sua mãe está saudável e bonita e seu pai torna-se um homem de elevada alto-estima e chefe de Biff. Ninguém além de Marty tem consciência dessas mudanças, e também não há modo de se prová-las: uma foto tirada no presente e levada para o passado (como ocorre mais claramente no terceiro filme) tem sua imagem apagada caso este passado seja modificado.

Assim como Marty, Hermione também tem a chance de voltar para o passado, mas através de um aparato bem menos tecnológico e muito mais mágico: o vira-tempo emprestado por McGonagall, vindo do Ministério. Ela o usa não somente para freqüentar suas muitas e exageradas aulas, como também para ajudar Sirius Black a escapar dos dementadores. Este é um dos primeiros momentos da série em que a senhorita Granger deixa de ser tão certinha — e nós certamente agradecemos por isso.

Mas deixemos de lado o atrevimento e voltemos à questão do tempo. Quando, no filme, Harry, Ron e Hermione estão na cabana de Hagrid, somente se dão conta de que Fudge e Dumbledore se aproximam porque algumas sementes (de abóbora? Eu ainda não consegui descifrar) aparecem pela janela e os fazem olhar para fora. Do mesmo modo, o Lupin-lobisomem somente não ataca o trio porque é atraído por um uivo vindo da Floresta Proibida. Posteriormente na história, nós espectadores descobrimos que as sementes e uivos que surgem do nada são, na verdade, lançadas e produzidos pelos próprios Harry e Hermione vindos do futuro.

Vêem? Embora a viagem temporal esteja presente nas duas histórias, os conceitos de cada uma são muito diferentes. Em “De Volta para o Futuro”, a mudança do passado desencadeia a abertura de uma nova realidade, alternativa, individual e pertinente aos novos acontecimentos passados. Já em “Prisioneiro de Azkaban”, a realidade é única: o presente se mostra de uma única forma, criada a partir de acontecimentos que somente se darão no futuro. Enquanto no primeiro filme existe a possibilidade da modificação (qualquer detalhe pode provocar uma reação em cadeia intermitente no futuro) e de surgimento de inúmeras realidades alternativas, no segundo, presente e futuro estão conectados diretamente, de maneira que um depende do outro para existir do modo que é. Marty pode optar por seus pais se conhecerem na escola ou num hospital, enquanto que Hermione não pode escolher salvar Harry dos dementadores no lugar dele próprio, porque isso, delimitado pelo futuro, já aconteceu no passado.

A não-possibilidade de se escolher como e quando os eventos ocorrerão é o que marca, no mundo mágico de Harry, um fato que passa despercebido aos olhos do leitor: os personagens não têm controle absoluto de suas vidas e são manipulados pelo o quê o destino lhes reserva.


As verdadeiras sibilas
Agora, tenho certeza de que os meus leitores estão se descabelando comigo e repetindo intermitentemente as palavras de Dumbledore: “mas são nossas escolhas que revelam o que realmente somos, muito mais do que nossas qualidades! Como não existem escolhas?!”. O caso é aqui, meu caro leitor, a concepção é um tanto quanto diferente. Estas escolhas a que Albus se refere no segundo livro são modeladas e já redigidas pelo destino sobre o qual falei há pouco: este destino, que não abre espaço para modificações de acontecimentos de acordo com as vontades dos personagens, é o que delimita e escreve as ditas “escolhas” que definem o caráter.

E considerem: como seria possível conceber a idéia de um estudo como Adivinhação em um mundo que não tenha um futuro definido e certo? A mera existência de uma figura como Sibila Trelawney — contemplada aqui no momento de seu transe, e não de sua farsa — anula por completo a possibilidade de se alterar o tempo, pois, fosse isso realizável, profecias não poderiam ser feitas e certamente não haveria uma seção cheia delas no Ministério da Magia.

Movida por essa minha teoria recém-descoberta, atrevo-me a continuar a argumentar contra Dumbledore e dizer que Voldemort não teve a mínima chance de escolha entre Harry e Neville ao saber da profecia que guardava sua destruição. Ou, reformulando, teve, sim: uma verdadeira escolha aos olhos de todos, porém mentirosa na realidade.

O primeiro e decisivo passo é não se limitar a enxergar a profecia presa ao momento de seu concebimento, mas pertencente ao tempo histórico-cronológico sob uma visão ampla e geral, possível de ser percebida com começo, meio e fim, já que temos em mãos uma série. Não se pode esquecer, ainda, que todos os momentos do tempo estão conectados uns aos outros: o fim modela o começo, e o começo faz surgir o fim. Nesta concepção, ler que o Lorde das Trevas o [aquele que tem o poder para destruir o Lorde das Trevas] marcará como seu igual, mas ele terá um poder que o Lorde das Trevas desconhece é subentender única e exclusivamente a figura de Harry Potter, porque sabemos que, no futuro, Neville Longbottom não desempenha esse papel de herói. A profecia trata de um futuro que não se restringe a uma possibilidade de realidade alternativa, como acontece em “De Volta para o Futuro”, pois, na verdade, o enxerga de maneira larga e absoluta; não o considera dentro de um momento imediato, mas através de uma maneira ampla..


Mãos únicas
Nas cenas finais do terceiro filme da trilogia “De Volta para o Futuro”, Jennifer, a namorada de Marty, pede a Doc Brown explicações sobre as alterações do futuro e do presente. O que isso significa?, ela pergunta, no que ele responde com uma de minhas falas preferidas da película: Significa que seu futuro ainda não foi escrito. O de ninguém foi. O seu futuro é o que você fizer dele. Então façam um bom futuro, vocês dois.

Harry preocupou-se em fazer um bom futuro também, para ele, para Ginny e para todos os sobreviventes de guerra. E ainda que eu afirme e bata o pé em minha posição de que este futuro já estava pré-definido, não posso negar a atuação de Harry (talvez sobreposta a qualquer evento paralelo que assegurasse a derrota de Voldemort) e sua atividade em sua construção.


Referências
Filme “Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban”, adaptação desejosa do meu livro preferido
Trilogia “De Volta Para Futuro”, a qual não irei mais elogiar.

sábado, 21 de março de 2009

Academia Baboseira de Letras

Disponível em http://www.potterish.com/




A hora da janta da universidade possivelmente é um dos momentos mais esperados: é o intervalo merecido entre a maratona de aulas da tarde e as da noite, a oportunidade de botar as fofocas em dia e trocar piscadelas por entre as mesas do restaurante. A minha história começa bem aqui, no meio da bagunça das conversas altas e de cuspes involuntários de feijão: eu e mais sete amigos, todos nós ocupando quase uma mesa inteira, rindo e conversando a respeito de (é claro!) livros. Nosso grupo era formado por aspirantes a lingüistas, literatas e educadores, não se espante. Conversa vai, conversa vem, livros vão e livros vêm, não tardamos a chegar ao assunto inevitável:

“Você já leu Harry Potter?”.

Meu amigo, o próprio autor da pergunta, respondeu de pronto: não, nunca, jamais. Essa coisa de bruxo é muito boba. É livro popular. É best-seller; não dá pra ler best-seller. O filme é pra criança, só vi o primeiro e nem quero ver o resto. Repetindo: popular. Mais uma amiga minha não demorou a concordar com a cabeça.

E lá fiquei eu, observando os reflexos da Academia.



Minha professora e mais cinco mandamentos
“Aquela mulher deve ter ganhado seu dinheiro”, ouvi da boca de uma professora de uma disciplina equivalente a Literatura Brasileira Contemporânea ao se referir a ninguém mais, ninguém menos do que Joanne Kathleen Rowling. Na hora, a réplica ficou presa na minha garganta: “É, sim, ela só é mais rica que a rainha da Inglaterra. Só.”

Se houvesse uma bíblia única e específica para o mundo da Literatura, reconhecimento seria o primeiro e maior dos pecados capitais descritos. Nela, cinco mandamentos guiariam a vida de todo e qualquer escritor ou artista: Não terás reconhecimento por tuas obras enquanto viver, leríamos na linha do topo; não contrairás riqueza, diria a segunda, com um pequeno adendo no rodapé para exceções como fortuna familiar, casamento contraído ou herança; não se relacionarás com quem não pertença à elite intelectual, estaria escrito na terceira; não serás referência da cultura popular, para reforçar a primeira e fechar, com letras garrafais no quinto e último preceito: merecerás a morte e o desprezo caso viole ou deseje violar qualquer um destes mandamentos.

Van Gogh poderia ser o mártir e o exemplo desta Bíblia. Ou Nietzsche. Ou Augusto dos Anjos. Por outro lado, grandes escritores como Jorge Luis Borges, por exemplo, já teriam alcançado seu lugar certo no inferno — assim ao menos seria o pensamento da grande massa de universitários, graduandos e principalmente pós-graduandos, estudantes de Humanas, que no começo dos anos 80 se deliciavam por apresentar estudos acerca de suas obras, e que já nos anos 90 perdiam interesse por este “autor do mainstream”.

Claro que eu mesma contradigo a brincadeira que fiz acima. Existem vários escritores, como Machado de Assis ou James Joyce, que são aclamadíssimos pela Academia atualmente ao mesmo tempo em que foram reconhecidíssimos na época em que viveram. O que eu quis realmente enfatizar são casos como o de Borges, por quem o interesse da Academia foi e vem sendo perdido aos poucos devido a uma dúzia de prêmios e reportagens de revistas de grande circulação.

Quando a minha professora demonstra nem saber o nome da escritora de maior repercussão da última década, ela marca as palavras que vão ecoar das bocas de seus alunos com uma carga negativa e preconceituosa, a mesma que ouvi de meu colega de classe: “não dá pra ler best-seller”. Ora, quer dizer que sair na lista de Os Dez Mais Lidos de Ficção da Veja é fundamento para deixar de se ler uma obra?

Nos Estados Unidos não é a Veja que circula, mas o pensamento da Academia não deixa de ser diferente. Lembro-me que no início do ano passado o Potterish publicou uma notícia a respeito da indignação dos alunos de Harvard por terem como oradora de formatura “aquela mulher”, a própria Rowling, quem eles nomearam como “uma personalidade da cultura pop de permanência questionável” — ou, em outras palavras, modinha. Ganhar dinheiro e ser famoso no mundo da Literatura é assim. Mas, ora, o orador da turma anterior fora aclamado e adorado, e fora ninguém, ninguém menos do que Bill Gates, o mesmo que ganha milhões com softwares da Microsoft, os mais usados e famosos do mundo, e o mesmo que, ham-ham (pigarro de Umbridge), nunca vi ser referido como “modinha”.

É realmente triste não poder ser reconhecido dentro da própria área de atuação. Vender garante a Gates pontos pelos especialistas de tecnologia e informática. Agora, vender, para Rowling, é uma vergonha que lhe arranca do assento do renome. Na lógica invertida do mundo da literatura, agradar a poucos é sinônimo de apreciável, enquanto que o que encanta a maioria (sinto-me obrigada a me chamar de “povão”) é senso-comum, é lixo. Para a minha professora, meu colega e todo o resto de intelectuais de nariz empinado, adoradores do Cult intragável e ininteligível, a tia Jo já tem seu lado garantido ao lado do capeta.



Meu professor e mais cinco amigas
Estranhamente, no mesmo semestre em que tive aula com a dita-cuja tão mencionada, ouvi outro discurso de outro professor de outra disciplina, agora Tradução Literária. Em algumas de suas muitas divagações, a classe (ou ao menos respondo por ela em metonímia inversa) se surpreendeu com suas narrações de como ele tinha tanto ansiado pelo sétimo livro, e de como tinha discutido com uma senhora na fila do banco a respeito de Harry Potter ser ou não ser averso ao cristianismo, entre outras parecidas e repetidas.

Com seu sotaque americano muito carregado, ele interrompia a aula para comentar: “Harry Potter não é uma história sobre bruxos ou sobre magia. É sobre a morte. Ela é tão presente nos livros, cada vez mais presente e mais intensa”. Eu não completava com minhas impressões, mas interiormente fazia teorias e vibrava com este gosto dele aberto tão descaradamente e sem receio de taxação. Claro que ele, como literata, tem todo o poder de opinião (nós somos apenas humanos), porém vê-lo teorizando em cima de uma “obra do mainstream” do mesmo modo que faz com D. H. Lawrence eleva os dois ao mesmo nível e dá um chute no traseiro dos cultistas.

Cada vez mais alunos passam pela graduação e pela pós, e cada vez mais monografias e defesas de teses colocam sem medo “Harry Potter” no título. O livro não é só avaliado como “fenômeno”, mas agora também como obra literária que é e como merece: representativa de uma época, suscitadora de reflexão, instrumento ideológico, evento lingüístico, objeto estético. Um texto que é capaz de comover pessoas ao redor do mundo e mover uma geração toda de volta à leitura impressa obviamente tem algo a ser estudado ou, no mínimo, respeitado. A avaliação de excelência literária dos antigos (leia-se “velhos”) da Academia aos poucos se vê obrigada a pôr os interesses culturais particulares de seus membros de lado para ceder lugar a novas mentes, renovadas e mais abertas, quando não meras repetidoras de discurso.

Não digo tudo isso somente como amante incondicional de Harry Potter, mas como ser humano questionador e céptico perante as escolhas da dita “elite intelectual”, metida a do contra e que julga sem saber. Não sei se vocês concordam comigo, mas sei que pelo menos não estou sozinha: tenho mais cinco amigas comigo, aquelas outras cinco meninas da hora da janta, que junto comigo não tiveram vergonha de falar de argumentar contra meu colega e afirmar que lêem, que assistem, e que gostam, sim!, de Harry Potter.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Borboletas na lua

Sinopse: Hermione mal pode acreditar, mas seu primeiro beijo foi com um professor. O mais perfeito de todos.
Categoria: Harry Potter.
Gênero: Drama, Romance
Timeline: terceiro livro, a partir da segunda aula de DCAT.
Disclaimers: O universo ficcional pertence legalmente à sra Rowling, eu só me aproveito dele.
Data: março de 2009 - atual
Palavras:
Spoilers: terceiro e quinto livros.
Agradecimentos: à Roxane Norris, que gentilmente está betando minha fic!




É como se eu tivesse engolido mil borboletas e elas estivessem aqui, dentro de mim, empurrando minhas bochechas pra saírem voando da minha boca, me deixando vermelha. Calma, eu tento repetir, calma, Hermione, mas elas não me deixam falar. Aliás, sinto como se nunca mais serei capaz de falar alguma coisa outra vez. Minha voz desapareceu e meus lábios estão travados neste risinho nervoso e incontrolável. Ao menos o assento do vaso sanitário é mais confortável do que eu poderia esperar, e não tem ninguém no resto deste banheiro de que fiz esconderijo.

Não tem motivo pra ficar assim, eu sei. Acidentes acontecem todos os dias. É natural. Eu estava com pressa, ele estava distraído, o chão estava molhado... era a perfeita conspiração prum acidente, sem dúvidas, é a maré de azar que me persegue desde a poção Polissuco do gato de Bulstrode (argh!). O que, ainda assim, mantém o acidente consideravelmente normal. Ai, nós caímos em cima um do outro, agora sinto o quadril latejando. E o calcanhar torcido. E ele claramente ficou tão nervoso quanto eu depois da queda, porque repetiu desculpas várias vezes, me ajudou a levantar, desviou o olhar enquanto eu ajeitava a saia. Tudo, Hermione, perfeitamente normal; eu também disse que sentia muito. Por isso, mais uma vez repassado o acontecimento na memória, repito a mim mesma: não tem motivo pra ficar vermelha e com esse risinho estúpido na cara. Não tem. Não tem. Não-tem.

...

OK, OK, você pensa que ele te beijou quando caiu em cima de você, mas isso é absurdo! Você nem se lembra direito, foi rápido demais pra ter certeza. Além do mais, mesmo que tenha acontecido — enfatizando a mim mesma, novamente, que tudo não passa de mera possibilidade —, foi só um tombo, ele levou a cabeça pra frente na hora da queda e a sua estava na frente, só isso. Um encontrar de lábios acidental, sem significado, sem intenção. Idiota.

Meu primeiro beijo foi idiota.

E foi com um professor!

E agora volto ao assento sanitário frio há pouco, a cabeça baixa na tentativa de sumir entre as ondas, o odioso risinho meio-contente-meio-nervoso estampado no meu rosto incrédulo nisso.

Segue, depois, um longo momento de contemplação em que vivo e revivo a mesma cena pela enésima vez até finalmente algo me estalar à cabeça — meu senso de responsabilidade em forma de relógio biológico — e eu disparo do banheiro como se ele estivesse em chamas. Um segundo estalo me traz a consciência do exagero, e um terceiro me lembra de que não posso evitar, de que ajo assim sempre quando lembro do horário de uma aula, e de que não acho que possa existir algo mais importante do que uma aula (ou talvez uma prova?), mesmo que ela seja dada pelo último professor que quero ver na face da Terra.

Subo qualquer escadaria e me esforço pra não deixar a pilha de livros escorregar das minhas mãos. Me arrepio. Não deveria ir. Possivelmente quando chegar na sala vou congelar e não vou conseguir sair do lugar. Todos que passarem por mim vão balançar a cabeça e murmurar que ando estudando demais. Harry vai chegar do nada e Ron vai me cutucar, e vou ser grossa com ele só pra tentar me fazer de forte, mas vou querer morrer quando o professor entrar. Não vou sentir meus pés e quando der por mim vou ter levantado o braço numa pergunta num ato reflexo. Se eu estiver com sorte, ele vai evitar meu olhar. Senão, ele vai me fitar por um tempo e amarrar um canto da boca, como se dissesse “coitada, e ela ainda acha que eu lhe dei seu primeiro beijo”. E eu vou ficar vermelha pra sempre e insistir que deu.

Não, não, aquilo nem foi um beijo, você sabe disso, Hermi —

— O que você disse?

Só depois de parar por um instante o conjunto de sons amorfo tomou significado. E então de repente percebo algo à minha frente, e vejo que Parvati levanta as sobrancelhas, impaciente. Talvez eu esteja demorando um pouco pra responder. Vou falar.

— Ahn... nada, nada. Eu estava só falando sozinha, sabe...

— Sei...

Não acho que a expressão dela seja muito de alguém que saiba quando ela se afasta de mim, puxada pelo braço por Lavender. E não me engano, porque, em certa altura, quando elas acham que seria impossível eu escutar alguma coisa, consigo ler um movimento de lábios de “ela-deve-estar-estudando-demais”. Hunf.

Elas somem na virada da entrada da sala. Isso significa que cheguei. Meus pés até que estão bastante flexíveis. Talvez não fique tão mal quanto pensei, no final das contas. Quero dizer, ninguém viu a cena, e ele obviamente não vai espalhar pelo castelo inteiro. Se eu souber driblar essa sensação horrorosa do meu estômago (psicológico, tudo psicológico), é só não deixar que os meninos percebam e pronto. Em algum tempo, pode até ser que eu esqueça o que aconteceu e tenha um primeiro beijo relatável, com um primeiro namorado da minha idade e num relacionamento efetivo.

Talvez seja exatamente isso o que eu tenho que fazer, ignorar a situação e agir normalmente. Um pequeno teste primeiro, encosto minha cabeça no batente da porta e lentamente, bem lentamente, levanto o olhar pra espiar se ele já — sim, ele já chegou, mal vejo o reflexo do seu cabelo e já sei disso, porque sinto o loop das borboletas dentro do meu estômago. Não, jamais vou conseguir chegar perto dele sem corar, jamais vou conseguir sequer pronunciar o nome da matéria dele sem travar, jamais vou deixar de lembrar como nossos lábios magicamente se tocaram, e de seu olhar doce, e de seu sorriso gentil, e de sua declaração romântica sobre quão profundo era seu amor por... por mim?

O que foi isso? Onde é que estou com a cabeça? Nada – nada disso aconteceu. Pare de pensar com as borboletas. Pense com o cérebro, Hermione. E trate de mexer suas pernas pra dentro dessa sala.

Sento. Chego até minha carteira de cabeça baixa, mas chego. E não deveria, mas me assusto quando Harry dá oi e Ron me cutuca ao passar por mim.

— Ai! Por que tem que fazer isso?

— Pra ver se você sintoniza com o mundo de novo — Ron senta ao lado de Harry e vejo que eles trocam olhares pesados. Harry se volta com um ar duvidoso, e constato que não estou com paciência para preocupações descontextualizadas.

— Mione, você tá bem?

— Aham.

— Certeza..?

— Por que, Harry?

— Não acha que está estudando demais?

— Claro que não.

— Você está fazendo todas as aulas.

— O que tem?

— Não tem como alguém freqüentar 10 aulas por dia e estar bem.

— Mas eu estou, OK?

— Como você ta fazendo isso, Mione? Por que não pode nos contar —

— Francamente, será que vocês não conseguem olhar pra mim sem pensar como assisto às minhas aulas só por um minuto? Será que é só isso que significo pra vocês, um horário cheio demais? — suspiro alto e me viro na carteira com rispidez. Eles se mexem acanhados e não dizem mais nada. Sei que fui dura. Espero que pelo menos sirva para que Ron pare de me atormentar com isso, não posso falar sobre o vira-tempo, oras!

Segundos depois, sinto um pingo de arrependimento. Eles estão em silêncio agora, e tudo o que resta nos meus ouvidos é o som do professor rabiscando algumas últimas anotações no pergaminho A aula vai começar, duas horas de sorrisos e lembranças. Eu preciso me concentrar em alguma coisa. Eu preciso focar na lição. O livro, sim, vou reler o livro da matéria e decorar os nomes das criaturas, eu o trouxe junto com os outros na pilha, deve ser o segundo ou — e que livro é este?

Definitivamente não é meu. Meu Merlim. Devo ter pego por engano quando... quando aconteceu o incidente. Não é meu, é dele. Dele.

E vou ter que devolver.

Como? “Boa tarde, professor, o senhor se lembra de que hoje mais cedo o senhor caiu em cima de mim? Então, vim aqui lhe devolver este livro seu que acidentalmente ficou comigo. Acidentalmente, juro. Por favor, não pense que isto é uma desculpa para conversar a sós com o senhor no final da aula e tentar receber outro beijo”. Lógico que eu nunca falaria uma coisa dessas. Minha língua enrolaria muito antes de pedir licença pra entrar.

Eu também poderia ficar com o livro. Não, claro que não! Ele ia notar a falta, lembrar o que aconteceu, ia deduzir. Ia achar que tenho algum desvio mental por livros. Ou por professores. Ou por ele!

Escondo-o, daqui ele vai vê-lo, sem dúvidas pode vê-lo. Eu o coloco embaixo da carteira, sobre meu colo, enrolado pelo meu braço direito, que acho que está formigando de forma muito estranha até finalmente me tocar que a formiga é Harry: “onde estão suas coisas? Tá tudo bem?”. Olho pra frente, minha carteira está vazia, a aula já começou, algumas pessoas estão virando o pescoço em minha direção. Devo estar me mexendo demais. Não agradeço Harry pelo sussurro, nem me passa pela cabeça enquanto me preocupo em arrumar meu material e parecer concentrada na matéria. Melhor nem agradecer depois; vai ser uma nova chance pro Ron perguntar como é que faço meu horário.

OK, tudo certo, não preciso levantar a cabeça mais do que é necessário pra ler as primeiras linhas do capítulo. Não vou conseguir encará-lo nos olhos, ainda mais quando tenho parte dele comigo. É, gostaria que o livro fosse ele: eu o teria em meus braços agora, perto de mim, sem medo, e poderia perguntar quantas vezes quisesse sobre o beijo, se ele é da minha cabeça, e se ele... quem sabe... pudesse... acontecer de novo... ou de verdade...

Estou ficando vermelha mais uma vez, tenho que parar de ficar vermelha! Ergo os olhos um pouco e, sim, as pessoas estão percebendo. Harry acaba de me olhar de viés pela segunda vez, e a resposta vem para meus ouvidos. O que o professor está falando? Não sei, é meio bagunçado, meio junto, meio música. Não importa: a entonação sem dúvida alguma é a de uma pergunta, e o silêncio que a sucede é a espera de todos pela minha mão que nunca se ergue no ar. Sinto mais cabeças se mexendo. A minha é inerte. Meu corpo afunda na cadeira.

Então surge.

— Então ninguém sabe mesmo qual é o ponto fraco dos kappas? — a pergunta magicamente repetida.

Jamais poderia imaginar, mas dou por mim em posição habitual de luta, a mão direita suspensa, as pontas dos pés me forçando para cima, a mão esquerda apoiando o conjunto para não cair, e os olhos — ah, sim, os olhos, eles estão brilhando. Não os meus.

— Por favor, professor — a voz enrosca a primeiro momento —, o kappa, conhecido também como “filho do rio”, possui uma reentrância em forma de pires no alto de sua cabeça, onde reserva água. Se um humano o cumprimentar curvando-se, o kappa será obrigado a retribuir o gesto e perderá todas as energias com o escorrimento da água — o resto sai automático, do mesmo modo como li no banco traseiro do carro dos meus pais.

Falei.

Agora caio. Minha voz volta a ficar presa e meus joelhos cedem até que eu encontre o assento duro da cadeira. Posso sentir o ar entrando e saindo dos pulmões com dor. Meu sangue corre ruidosamente, e tento travar as veias do rosto num esforço descomunal. Pisco várias vezes para quebrar o contato visual que não queria ter começado — sim, porque não tive sorte, ele não evitou meu olhar, e agora tudo o que me resta é querer morrer quando ele começar a amarrar o canto da boca.

Ele a move. Mas não a amarra.

— Eu sabia que você não nos desapontaria, Srta Granger. São dez pontos merecidos para a Grifinória.

Ele sorri. Sorri!

Sinto minhas bochechas vermelhas de novo, mas de repente é bom. Ufa. Os dedos envoltos ao livro relaxam e deixam no lugar da firmeza um suor quente e ansioso. As borboletas se foram, estou livre! Finalmente tenho uma imagem inteira da sala da sala, e não só da quina da carteira. Um torcicolo que não estava na nuca antes me ataca; ou foi a vergonha ou foram os olhares maldosos.

Do lado do quadro-negro tem um aquário, um aquário enorme, com uma criatura escamosa e nojenta que ocupa quase toda a porção de água — o kappa, reconheço-o da figura 12.7 do capítulo —, e, cruzando a mesa, eu posso vê-lo, ele, em pé, gesticulando loucamente com uma varinha invisível. Ninguém está lhe dando atenção, estão todos mais ocupados com o demônio japonês de expressão tediosa, claro. Eu, pelo contrário, não estou preocupada com ele, embora esteja passando alguns bons minutos me obrigando a olhar para as escamas do bicho, e não para os olhos do professor.

Aparentemente já passou bastante tempo, porque agora não é somente ele que abana as mãos, mas toda a sala o segue num passo ritmado. Corro pra pegar a varinha entre as vestes, o livro escorrega do meu colo, uma mão o segura pela contracapa enquanto o joelho direito o sustenta no ar, e meu nariz coça com a metade varinha que pula do decote. Com esforço, me ajeito, mas já perdi os movimentos da azaração contra kappas. Droga! Como se tivesse tempo sobrando esse ano! Talvez seja até melhor conversar com o professor no final da aula ou —

Onde estou com a cabeça? Definitivamente vou conversar com ele, mas não pra isso! Pra morrer de vergonha quando devolver um livro que peguei quando achei que ele tivesse me beijado! (oh, como queria só me preocupar com minhas quinze disciplinas)

Então chega. A palavra de permissão. A saída. Enquanto me encolho, automaticamente todos se levantam de suas carteiras; alguns param para ajeitar os pertences nas mochilas, outras a atiram pelas costas; Harry lança um olhar apreensivo para Ron e Ron dá de ombros com uma impaciência típica de problema-é-dela. Torço com o canto dos olhos para que seja assim mesmo, não me esperem, e vibro ao espiar suas sombras dando as costas. Então, silêncio. Decido que é hora de voltar a erguer a cabeça e encarar as malditas borboletas que me restam. Seguro forte o livro, tão forte que dói.

E... lá está ele, novamente rabiscando no pergaminho. Provavelmente disfarçando minha presença. Ai, não, eu não deveria estar fazendo isso. Eu deveria, sim, segurar minhas pernas enquanto ainda é tempo e voltar para a porta, ir para minha próxima aula, fingir que o livro é meu, fingir que nunca o vi na vida. Qualquer coisa, ah, qualquer palavra melhor que “devolver”, porque não posso encará-lo sozinha, simplesmente não posso! Ele mentiu com aquele sorriso, é certo, senão agora estaria sorrindo de novo, é lógico, e não tentando me ignorar. Ele está tentando evitar o embaraço, Hermione. Ele está sendo educado e gentil e você uma boba, forçando a situação e achando que um acidente absolutamente normal foi seu primeiro bei —

— Quer falar comigo, Srta Granger? — ele me olha e sorri e eu não respiro e mal posso acreditar.

Gaguejo, pois.

— S-sim, professor. Acontece que... ahn... hoje, mais cedo, antes da aula, quando... n-nós... ca-caííí — eu acidentalmente fiquei com um livro seu, professor — vomitei tudo, ah, mais uma vez, e não sei como não atirei o livro na mesa ao invés de estendê-lo até suas mãos — Aqui está, sinto muito.

— Muito obrigado, obrigado mesmo — e não é que é verdade que ele está mesmo grato? — Esse livro aqui foi um presente de um amigo meu, há muito tempo... meu Merlim, tanto tempo...

Ele folheou o livro, e me escapou.

— É lindo — tarde demais.

— Desculpe, o quê..?

— O livro, o livro — uma borboleta fica presa na garganta — Eu gosto muito de livros — sorriso amarelo.

— Ah, eu também. Este aqui em especial é muito interessante, um relato quase ficcional, já devo ter lido umas boas cinco vezes...

— Ah, nossa...

Silêncio.

Esfrego o sapato contra o piso, a borracha faz barulho.

Depois, silêncio de novo.

Não sei o que ainda faço parada aqui. Obviamente ele nem se lembra mais de mim, está afundado nas páginas. Não, Hermione, vá embora, você definitivamente não vai ganhar outro beijo.

Não peço licença, tomo a liberdade de me dá-la logo. Vou em direção à porta, rápido, bem rápido, ainda que ruidosamente e rezando fervorosamente para ouvir um pedido de regresso.

— Srta Granger? — o quê, poderia repetir?

Paro.

— Srta Granger — ele repetiu, meu Merlim, ele repetiu, sou a menina mais sortuda do mundo — Visto que você gosta tanto de livros quanto eu, acho que você ia gostar muito desse aqui. Pode levar ele com você, eu te empresto, o que acha?

— E-eu adoraria! — agora estou ao pé da mesa, não sei como.

— Acha que consegue ler em... digamos, um mês?

— Sim, sim, claro!

— Então está feito, pode pegar — sinto-o nas mãos de novo, ainda está quente — Te espero dia 23 na minha sala, lá pelas sete, ok?

— Estarei lá, professor, muito obrigada!

Acho que agradeço mais algumas mil vezes, até enfim agarrar o livro como se fosse meu segundo coração e correr para fora da sala (ou esta era minha vontade, quando dei por mim; o que pude fazer foi controlar meus passos até virar a maçaneta do lado de fora e segurar minha preparação para despejar meus pensamentos conturbados — Harry e Ron estam me esperando).

— O que vocês estão fazendo aqui? — porque nunca estão quando preciso de vocês, não é?

— O que você ainda está fazendo aqui?

— Só tirando uma dúvida com o professor Lupin — apresso meus pés de novo e saio bufando, ainda em tempo de ouvir o comentário de Ron:

— Você viu? Ela arranjou outro livro pra ler! Ela é louca!

Borboletas na lua

- aquele chá.



Estou aqui, dia 23, sete horas da noite, em frente à sala dele. Só uma de mim; a outra está tentando se concentrar em seu relatório de Poções na Sala Comunal da Grifinória (na verdade, ela não vai conseguir tirar a imaginação do terceiro andar até copiar a conclusão do livro, se enfiar no banheiro feminino e dar duas voltas no vira-tempo). Espio o relógio no pulso e só confirmo o que tinha constatado: estou plantada em pé aqui há 20 longos e ansiosos minutos, sem coragem de bater na porta. Quando alguém passa no corredor, finjo amarrar os sapatos e ajeitar os cabelos, batendo impacientemente o pé como à espera de um atraso imperdoável. Quando fico sozinha, junto todo o ar dentro de mim e me controlo para não bater a cabeça na parede. Meu Merlim, Hermione, por que você ainda está assim? Não tem nada de mais, absolutamente nada, você vai entregar o livro de volta, só isso. Não é como se ele fosse... abaixar sua média ou coisa assim. É, é, claro que não. É só estender o livro, agradecer e ir embora! Não pode haver nada de complicado nisso. Qualquer feitiço é mais difícil, você sabe; e se você pode conjurar fogo dentro d’água, isso aqui é moleza. Mo-le-za. OK, tudo certo. Moleza. É agora, então. Respirando fundo. Endireitando a coluna. Moleza, Hermione, moleza. Um, dois, três e —

— O que você pensa que está fazendo — ah, meu Merlim, não essa voz —, à noite, no meio de um corredor que não é o da sua sala comunal?

Juro que o ouvi muito distante de mim; mas agora que me viro, Snape está praticamente encostando o nariz no meu (admito que isso não é lá muito difícil — Merlim, Hermione, você perdeu todo o respeito por professores nesta escola?!).

— E-eu — também perdi o controle das minhas articulações! — só vim devolver este li-livro para o professor Lupin, senhor.

— Ele te emprestou um livro? — Nem posso me sentir ofendida, porque seu tom de incredulidade é bem próximo ao dos meus pensamentos.

— Sim, senhor.

— Deixe-me vê-lo. — E não tenho escolha senão entendê-lo para o professor errado. Snape o folheia enquanto eu torço, por baixo da respiração, para que ele não fale exatamente:

— Mas isso não tem absolutamente nenhuma relação com Defesa Contra as Artes das Trevas. — O que acaba de dizer, é lógico que ele falaria! Ou gaguejo ou me calo; escolho o último porque estou sem argumentos; as borboletas parecem ter migrado para dentro do meu cérebro e levado embora minha coragem grifinoriana. De modo algum isso o satisfaz: — Tem, Srta Granger? — Ele força uma confirmação.

— Não, senhor.

— Talvez, Srta Granger, assumindo sua posição de intragável Sabe-Tudo, você poderia me responder por que um professor tomaria a liberdade de lhe emprestar um livro ficcional?

— O-senhor-poderia-perguntar-pra-ele... — Olhei para o lado e fingi não ter sussurrado nada disso, mas segundos depois percebo que não deu certo.

— O quê disse?

— Talvez... o senhor... pudesse... perguntar para o próprio professor Lupin. — Engulo em seco em diversas passagens e rapidamente abaixo a cabeça; não posso suportar sua ira furando meus olhos e passando do meu lado, arrastando suas vestes no chão e dando três batidas apressadas na porta.

— Lupin! — Ele quer matar.

A resposta do outro lado, contudo, vem macia e despreocupada. Minha ansiedade convertida em apreensão, me força a esperar pela absolvição do crime a que estava sendo acusada de cabeça erguida e peito inflamado, em sinal de certeza. Instantes depois, minhas bochechas inevitavelmente esquentam (pra frente, Hermione, olhe pra frente!).

— Pois não, Severus? — Ai, ali, ali, o sorriso gentil!

— Acabo de encontrar Hermione Granger sozinha, neste corredor, com a desculpa insolente de que veio lhe devolver este livro. — De viés, vejo seu braço ereto controlando a fúria.

— Ah, sim, sim, é verdade, combinamos que ela viria hoje. Gostou do livro, Srta Granger? — a pergunta me pega de surpresa. Tudo o que posso fazer é balançar a cabeça freneticamente. Que vergonha.

— Você lhe emprestou esse livro?

— Claro, Severus.

— Por que, Lupin?

— Eu realmente preciso de um motivo para compartilhar uma boa leitura? Porque sempre pensei que uma das tarefas de um educador fosse incentivar os livros e o estudo.

— Isso é ficção.

— É uma auto-biografia, Severus. E eu bem lhe recomendaria, é ótima, diria que já li cinco vezes.

— Não, obrigado, Lupin. Apenas faça a gentileza de acompanhar a Srta Granger até sua Sala Comunal. Se eu a vir andando sozinha, poderei tirar 10 pontos da Grifinória. — Ele enfia a faca fundo no meu peito e a arranca de súbito, eu quase posso senti-la minutos antes de ele sair com as vestes flutuantes.

— Não quer entrar?

Foi então que percebi que não precisava mais fingir amarrar o sapato, nem bater a cabeça na parede, nem ajeitar a postura, nem tomar coragem, nem bater na porta, ou muito menos devolver o livro que deveria estar nas minhas mãos, e que já está nas dele. Todo o meu receio e todo meu nervosismo não têm mais razão de ser, porque meu objetivo foi concluído, agora é só agradecer e sair — e, ainda assim, ele me convida para entrar em sua sala. Por um momento ou dois tento retomar o que ouvi só para ter certeza de que a frase não era só a impressão de um convite, mas logo desisto, porque suas sobrancelhas se levantam na espera. O melhor é explodir a emoção logo com a garganta:

— Aham. — E faço meu caminho de entrada o mais rápido possível.

Sua sala é, talvez, um pouco mais desorganizada do que eu poderia esperar, com algumas pilhas de livros se entortando e maletas abertas com algum conteúdo indecifrável. Ainda assim, melhor que a do professor Lockhart ano passado; aqueles quadros piscando, às vezes davam arrepios. Do lado do biombo, que divide escritório e quarto, vejo que uma chaleira deixa escapar o vapor em cima de uma mesinha redonda, no centro de duas cadeiras de madeira. Ele faz um sinal educado e eu sento, prestando atenção enquanto ele conjura duas xícaras e serve o chá.

— Receio que o professor Snape não tenha muita... — Ele pára no ar com o bule por um momento antes de continuar, pensando, olhando para o fundo da xícara. — Simpatia. Mas ele tem me ajudado bastante ultimamente. Hoje, por exemplo, era um das minhas noites de ronda pelo castelo, e como não tenho me sentido disposto, ele se dispôs a me cobrir. Gostaria que não ficasse ressentida com ele.

Esqueço o professor Snape automaticamente. Pela primeira vez, em meses, começo a notar o quanto aquela indisposição está visível em seu rosto: seus olhos estão caídos, não de tristes, mas de cansados, e embaixo deles escorregam duas grandes olheiras escuras. Os cabelos parecem estar surpreendentemente mais salpicados de fios grisalhos, principalmente na região da testa e das têmporas. Sua voz, também, parece rouca e mais gasta. Ele sorri, sim, mas agora a única impressão que tenho são as das linhas do rosto, muitas e mais aparentes. Ele não mente, certamente que não, e deve estar terrivelmente doente... terrivelmente...

— Ele o substituiu aula passada também. — Não encontro outro modo de continuar.

— Sim, é verdade. E como foram com os grindylows?

— Ele nos passou lobisomens ao invés.

É impressão minha ou seus olhos pareceram ligeiramente mais sombrios...? Impressão, Hermione, é certo; mal posso vê-lo agora por trás da porcelana. Está tomando chá. E seu gole é tão longo que tenho tempo de desconfiar de novo — Será que foi o que Snape fez? Será que foi algo que eu fiz?

Mas agora que ele pousa novamente a xícara no pires, vejo que quase ri.

— Severus realmente não gosta da sua classe. Nós só vamos ver lobisomens no fim do segundo semestre, é uma matéria muito adiantada.

— Sim, sim, eu tentei falar isso pra ele — me defendo —, mas ele nos passou mesmo assim.

— Eu vou conversar com ele. E se ele passou alguma lição, não precisa entregar, pode avisar o resto da sua sala...

Quando minha boca se abre, o som que sai dela é agudo, quase um guincho revoltado. Eu argumento que não, que injustiça, ele teria que cobrar pela lição pedida, afinal foram horas perdidas para fazer aqueles custosos dois rolos de pergaminho. Paro e logo tudo me foge, só me resta a idéia geral — ridícula idéia geral! Sôo como uma criança mimada. Hermione, que vergonha! Tento abaixar a cabeça pra disfarçar a cor das bochechas, mas sei que já foi tarde demais e, que pior, foi o começo da criancice, não o fim. Ele vai me achar uma boba e vai terminar a conversa e nunca mais vai me emprestar livro algum, e nunca mais vou conseguir olhar pra ele de novo por causa das malditas borboletas que sempre vão me lembrar como fui ridícula, ridícula, ridícula!

Eu paro com minha autoflagelação porque ele está sorrindo de novo. E isso definitivamente acaba com qualquer sofrimento.

— Se não é muito atrevimento, eu gostaria de saber... — Outro gole. — Minerva mencionou que você se matriculou em todas as disciplinas. Como você consegue?

— Ah... — Interessante como a pergunta me pegou. Se fosse a voz de Ron a que estivesse ouvindo, com as chamas do seu cabelo vivas e prontas para me acusar a qualquer momento, sem dúvidas eu teria perdido a paciência, saído da sala, voltado só para achar uma vingança. Mas agora, a pergunta me soa diferente. Não é uma curiosidade mórbida, é quase como se fosse... um elogio, uma admiração. Seus olhos sobre mim me deixam... Ah, quero falar eternamente pra nunca perder essa sensação! — A professor McGonagall conseguiu uma autorização do Ministério para me emprestar um vira-tempo. É assim que tenho assistido a todas as aulas. — Uma segunda sensação no estômago me lembra que falei demais, ai.

— Não, não, isso ela também me contou. — Minha consciência se alivia. — Eu quis dizer... como você fisicamente consegue? Seus dias duram muito mais do que um dia normal.

— É... difícil. Às vezes acabo ficando acordada mais do que poderia. Mas, ao mesmo tempo, acho que não seria capaz de deixar nenhuma matéria. Todas elas parecem tão... importantes.

— Entendo o que quer dizer. — Mesmo? — O terceiro ano é realmente uma época confusa, com todas essas novas disciplinas para se escolher com que trabalhar nos próximos anos. Pra muitos a sua decisão pode ser considerada louca, mas eu diria que ela é só bem atrevida. Mais chá? — Aceito logo, antes que as borboletas voltem à garganta. — Quando tinha sua idade, passei exatamente pelo mesmo problema. A diferença é que Dumbledore não aceitou que eu cursasse todas; tive que desistir de duas.

— Por que não?

— Acho que na época, o Ministro era menos flexível para alunos dedicados. Pros meus pais, foi um alívio, eu teria os deixado loucos. Mas os seus devem estar muito orgulhosos de você, não é?

— Ahn, bem, não é algo que eles possam contar pra qualquer um, mas comigo eles parecem bem... ah, satisfeitos...

— Não podem?

— Eles são trouxas.

— Verdade?

Repito em pensamento a mesma palavra, agora sem interrogação. Embora não saiba mais o que retrucar, não falo em voz alta porque esse é o tipo de resposta marcadora de fim de conversa e não quero terminá-la. Tomo um gole curto de chá e me afundo atrás da xícara, raciocinando rápido o que mais comentar, como mais estender, mas no fim acabo só confirmando com a cabeça. Meus pais são trouxas, e agora? Ao menos ele não parece incomodado. Sua expressão não tem nada de Malfoy.

— Então, podemos dizer que você é uma bela prova de que sangue bruxo não significa muita coisa.

Meu Merlim, preciso desesperadamente de um lugar pra me esconder, sinto as asas se degladiando dentro do meu estômago, logo elas vão irromper de volta às minhas bochechas — o chá, o bule! Agarro-o com aparente urgência (devo até mesmo tê-lo assustado, mas é melhor não olhar pro lado, as coisas podem piorar drasticamente) e ponho-me estrategicamente atrás de sua parte mais gorda, deliciada pelas paisagens da porcelana e pelo movimento delicado do líquido que cai. Claro que não. Enquanto engulo as borboletas com a garganta, tento degustar com o coração o que acabei de ouvir. Bela, ele me chamou de bela! Ele me acha bonita!

Calma (a voz que me vem às vezes nem parece minha!). É o primeiro beijo voltando outra vez. Não, Hermione, ele não te deu um beijo, e não, Hermione, foi só um modo de dizer. “Bela” antes de “prova” com o sentido de “bom”, de “ótimo”, nada relacionado à sua pessoa. Definitivamente. Mordo a língua e volto a repetir a voz da consciência. Pense com o cérebro, Hermione. Ele é seu professor, não o galã do Quadribol.

Mas teria sido tão bom saber que ele me acha bonita... Talvez eu possa considerar uma inversão de palavras só agora, só por um momento, e depois voltar à realidade...

Então meu dedão arde, o chá pelando fagulha das minhas unhas até minha saia, meu grito de susto me assusta mais ainda, eu levanto e tudo vai ao chão. Junto com o momento da minha vida.

— Você está bem? — Ele me puxa mais longe da bagunça e mais para perto dele, e tenho que me concentrar mais para não apagar.

— Eu... só me queimei um pouco, não foi nada, não foi nada. — Nunca antes tinha ficado tão feliz por ter decorado sozinha o feitiço de reparo. Minha varinha desliza entre meus dedos o mais rápido possível, antes que meu coração se parta de arrependimento em mais pedaços. — Sinto muito, professor, sinto muito, mesmo... — E lhe entrego o bule novo de volta, imperceptivelmente quebrado, com os braços estendidos para fazer uma distância de precaução.

— Não se preocupe, esse bule conhece esse tapete já há muito tempo... Acho que eu que tenho que lhe pedir desculpas. Acho que toquei em um assunto que te incomoda.

— Não, não, de modo algum! — Eu quebro sua louça e estrago seu chá, e ele ainda me pede desculpas? Merlim, acho que perderia o momento anterior por mais dez vezes só para viver este de novo! — Eu me perdi, estava pensando que... ahn... bem — e algo explode da minha língua — seria muito bom se todas as pessoas de Hogwarts achassem o mesmo que o senhor.

A solução pareceu bastante concebível. Finalmente raciocinando com o cérebro, Hermione, quem diria. E ele a aprova, vejo pela expressão de consonância nas linhas da testa e da boca. No fim das contas, também, a mentira não se saía tão mentirosa assim; realmente seria algo que a antiga Hermione pensaria, aquela que ainda não sonhava com primeiros beijos à noite.

— Realmente... seria...

Vejo suas sobrancelhas e as linhas de expressão se desmancharem de novo, num relance, pouco antes do fundo da xícara. Tenho a impressão de que o chá já tinha se acabado desde o gole anterior — não, tenho certeza disso, definitivamente —, mas mesmo assim ele o leva à boca por bastante tempo, talvez ainda por mais tempo do que seria de se esperar para esvaziar uma xícara como aquela. E quando parece cansar de sugar o nada, ele se vira até mim mais uma vez com a expressão oposta, um sorriso fino e um assunto brusco.

— Gostou do livro, Srta Granger?

A resposta ensaiada nos quase dois rolos de pergaminho na noite anterior dispara fácil pela minha língua. Eu quase sei o que estou falando. Quase, é, porque é impossível se concentrar em uma autobiografia, mesmo boa e decorada, quando a pessoa a sua frente parece fazer força para manter algo escondido. Talvez seja isso que o tem deixado doente. Talvez — será? —, talvez ele tenha me chamado pra cá exatamente para falar, e não tem coragem. Talvez ele esteja assim... por causa... do... beijo...?

De novo, de novo, de novo, Hermione, não! Para com isso! Aquilo nunca aconteceu.

Mas bem que...

É, eu podia perguntar o que acontece. Me mostrar aberta, preocupada, receptiva. Não seria de todo ruim. Quebraria a formalidade. Eu... eu posso se uma boa confidente, não posso? Harry já me pediu alguns conselhos. Sim, isso, eu o ajudaria, ele seria grato, gostaria de mim, começaríamos... Seria tudo perfeito! É isso. Vou esperar ele dar uma deixa, talvez me servir de mais chá e, quando ele pausar para pegar o bule, eu pergunto. Num fôlego só, pra não perder a coragem. OK. Vou fazer então. Vou perguntar! A qualquer momento. Qualquer um. Acho que... agoooo —

Mas ele é mais rápido que eu, seu bocejo acaba logo para um pretexto de cansaço, de aula cedo no dia seguinte, de vá-embora-logo-Hermione-para-que-eu-possa-dormir. Assim, acabou. Acabou? Não, ele se lembra do aviso do professor Snape, não posso voltar para a Sala Comunal sozinha, seria perigoso. Ele fará questão de me acompanhar quatro andares pra cima até a Grifinória. Minha última chance.

Levantamos quase juntos, ele me impede de ajudá-lo com a louça, abre a porta muito gentilmente e me dá passagem, sai e fecha a porta. Cruzamos o corredor na penumbra sob o mais profundo silêncio, e subimos o primeiro lance de escadas do mesmíssimo jeito. Como o quinto andar. E o sexto. Avisto o reflexo da moldura do Quadro da Mulher Gorda e meu coração começa a bater suas asas de borboleta. Meu Merlim, Hermione, diga alguma coisa! Você não tem mais convites para visitas noturnas nem autobiografias emprestadas, é realmente sua última chance! Agora consigo ouvir até os roncos da Mulher Gorda. Cada vez mais altos, e não é só obstrução do nariz dela. Eu preciso dizer alguma coisa. Alguma coisa, qual-quer-coi-sa! A boca abre, mas os lábios param. Ridículo! Estamos praticamente diante do quadro, e agora — não! — definitivamente diante do quadro, parados, um do lado do outro, completamente mudos até ele desejar uma boa noite e dar de costas, e eu internamente berrar que é o fim.

FIM!

Não, fim não, Hermione, vou dizer AGORA!

— Professor!

Ele se volta. “Sim?”, ouço-o rouco. Olho-o nos olhos. Eles estão caídos.

Não consigo.

— Espero que fique bom logo — É tudo o que sai, e a antena de uma borboleta faz cócega na minha garganta.

— Obrigado. — Contudo, sua resposta lenta só aparece depois de uma virada de cabeça teatral. Seus olhos se fixam sobre os vidros coloridos da janela, cortados pela luz de fora, e seu rosto, meio azul meio verde, se fecha; daí, sim, me responde com uma voz desgostosa e vai embora.

Ótimo. Tudo o que me resta são roncos e autoflagelação. Tenho ódio de mim mesma, muito ódio, ódio extremo, tanto que desejo mais que tudo desaparecer, morrer. Que cada centímetro cúbico meu de Hermione inche e infle de desgosto, até meu corpo explodir num único estouro surdo — mas isso passa de súbito, não sei se pelo engasgo mais alto da Mulher Gorda ou pelo senso de responsabilidade que tilinta no meu ouvido para me lembrar de entrar. Não tenho escolha, tenho? Digo a senha e entro. Constato racionalmente que devo ter chegado na hora certa, não me vejo fazendo lição junto com o resto das pessoas do meu ano. Eu deveria sentar com elas e terminar. É, deveria... mas acho que vou só encostar na janela e ficar olhando a lua, a luz colorida sobre mim, do mesmo jeito que ele —

Calma, Hermione. Lua..?

Eu corro aflita até as mesas.

— Neville, por favor, você tá com o seu Calendário de Astronomia? Eu preciso muito ver uma coisa. Muito, muito, muito. Eu acho — enquanto ele procura no meio dos papéis, a desculpa me vem como uma luva — que escrevi errado no meu relatório.

— É esse que eu tô copiando? — Mesmo que fosse, Ron ia errar, porque nem ao menos levantou os olhos do pergaminho.

— Aqui. — Neville me estende e eu o abocanho, sem tempo de agradecer.

Mergulho a vista na Tabela Lunar. As quartas e as quintas-feiras se adiantam. Nenhuma deixa passar. Nenhuma nega. Preciso fazer pouquíssimas contas; partindo da primeira, o resto é confirmação. Tudo perfeito, tudo faz sentido, todos os dias iguais, todos lua-cheia. Eu acho... que ele... é... um lobisomem. Acho. Não quero ter certeza. Não quero ser a Intragável Sabe-Tudo.

De repente eu tenho a resposta pra maior pergunta da minha noite, e tudo o que posso fazer é sentir a aglomeração de lágrimas que se forma no canto do meu olho.

— Mione...— a voz de Neville está longe — se você quiser, eu te ajudo a consertar o seu relatório.

Ah, Neville, será que você pode consertar a vida dele?

Como é horrível se sentir impotente, eu corro até meu dormitório para me afundar no travesseiro.


Borboletas na lua

- aquela noite.



São quase seis horas da tarde; pra meu desgosto, o sol já está ameaçando a ir embora. Cruzo correndo os gramados do jardim e, pela primeira vez nestes três anos, começo a notar como eles parecem não acabar nunca, em como essa subida é tão íngreme — por Merlim, eu penso, o ar parece fugir dos meus pulmões como se estivesse escapando pelos meus poros! — e como eu tenho que entrar logo nesse castelo. Logo. Claro que essa pressa toda minha é totalmente desnecessária, quase vergonhosa. Eu tive três meses, longuíssimos e massacrantes, de planejamento pra esse dia, que só vem uma vez a cada mês, mas só pude me decidir em cima da hora. Ahn, do quê estou reclamando? Se não fosse por Hagrid, eu ainda estaria desolada e indecisa.

Venho procurando-o muito desde o Natal, desde que Harry e Ron arranjaram motivos estúpidos pra pararem de falar comigo. Não que eu ligue pra isso, de jeito nenhum. Eles que façam o que quiserem, chorando por ratos perebentos e arriscando suas vidas com assassinos loucos. Eu... já me preocupei com eles, e muito, o suficiente pra ser taxada como mandona e irritante. Agora não me preocupo mais com eles. Nem um pouco. Óbvio que não. Óbvio! Óbvio... óbvio que... — e lá vem de novo meu senso de responsabilidade, tão intragável quanto eu — que sinto a falta deles desesperadamente e queria mais do que tudo eles do meu lado pra me ajudar! Meninos tontos, tanta coisa eu queria conversar, perguntar, contar! Afasto cabelo do rosto e engulo a borboleta-verdade com dor rasgada de garganta machucada.

Depois de novembro, cada dia tem sido terrível. As últimas semanas, in-di-ges-tí-veis. Hoje, quando entrei na cabana do Hagrid, minha intenção era falar do processo de Buckbeack. Não consegui. Chorei tudo o que vim disfarçando e tentando desviar de mim. Harry e Ron, também entre as lágrimas, claro. Também, porque revelar tudo seria... inconcebível, no mínimo.

Seu chá estava horrível, mas o propósito de Hagrid era lindo, de modo que eu não poderia fazer uma careta. Usei o fim da terceira xícara para fazer a pergunta estratégica final, de qualquer forma.

— Hagrid... você não acha que... se alguém tem um problema... e você sabe dele... Você não deveria tentar ajudar essa pessoa? Não deveria tentar mostrar... que... se preocupa...?

Mesmo que estivesse achando que eu me referia a Ron e Harry — como realmente achou, tenho certeza —, eu não poderia descartar sua resposta. Ele segurou minha mão tão carinhosamente, ah, tão verdadeiro e sem malícias, que meus olhos inchados quase voltaram a ficar da cor do seu nariz de gigante. Ele disse que sim (sim! — a confirmação do meu desejo), e que me prometia que falaria a respeito com... com quem? Não sei; olhei pela janela e vi que, se não corresse, iria perder a chance de cumprir o conselho recebido. Abracei Hagrid, como mais ninguém no mundo, e deixei a cabana.

Agora já acabei de subir o último lance de escadas de pedra e me preparo para empurrar — Merlim, como essa porta é pesada! Perco o fôlego, sugo o ar em goladas. Os ponteiros do meu relógio de pulso trouxa, presente de aniversário da tia Margie, estão quase alinhados, o que quer dizer pouco mais que seis horas. Correndo contra o tempo de novo, Hermione. Como se já não estivesse com a cabeça confusa e os dedos doloridos de tanto girar a ampulheta do pescoço. Decido que por hoje não farei as coisas do modo mais fácil; empurro a porta com um dos pés (e daí que ela não se move um milímetro?) e saio em disparada para mais três lances de degraus exaustivos.

Não... aaaa...credito... que... che... guei.

Sei que, se esta porta fosse mágica o suficiente pra poder falar, estaria aos berros: “sua covarde!”. Felizmente, tudo o que ela pode fazer é me encarar com as riscas zangadas da madeira (elas parecem escorrer e formar dois olhos doentios que me dão arrepiiios). Olho ao redor, apreensiva novamente, mas não por pessoas ao redor, e sim por sinais de sol atravessando os vitrais. Eles são curtos e fracos; o dia já vai acabar. É agora ou nunca.

Três batidas.

— Professor?

Silêncio.

— Professor, é Hermione Granger.

Ainda silêncio. Ele está lá, eu sei que está, vi sombras na fresta da porta... Mais três batidas.

— Professor, desculpe pelo incômodo, mas eu preciso muito falar com o senhor. Não é sobre nenhuma redação, é sobre... é que eu... — É como se uma borboleta me escapasse pela boca para sair: — É que eu sei de tudo, professor!

Segue-se automaticamente um click ruidoso, certamente controlado por uma varinha em mãos cansadas. Aperto no coração. A porta abre um espaço tímido para a luz entrar. Aberta, está realmente aberta, tenho de me explicar pra sair do surrealismo da situação. Meu Merlim, o que estou fazendo? Ele não é qualquer pessoa, ele não é só o menino do primeiro beijo, ele é um professor, um professor! Quero parar, quero voltar, quero — quero mais que tudo vê-lo, controlar o compasso da minha respiração e abraçá-lo... até parar...

Os últimos raios de sol vão de encontro a minha vista; fecho a porta para não ficar cega e procuro um canto de sombra com a cabeça baixa. Encontro dois pés perto de mim, e logo constato que tinha razão, as mãos que empunhavam a varinha estão realmente cansadas, até meio trêmulas. Uma delas aponta a cadeira mais próxima, a mesma em que me sentei em novembro; porém, antes de aceitar o convite calado, minha curiosidade me impele a erguer um pouco mais a cabeça e continuar pelo braço, até encontrá-lo. E, Merlim, encontro-o. E ele está... tão... tenho a impressão de que seu cabelo está mais branco, e seu rosto mais pálido e enrugado, como se a pele tivesse escorregado muito rápido. Suas olheiras estão escuras, os olhos, fundos, distantes, e posso ver nitidamente os contornos do crânio.

Talvez eu tenha feito cara de susto, porque ele instantaneamente evita me olhar. Resolvo sentar, sentindo minhas unhas afundarem de nervoso na palma da mão.

— Então, Srta Granger — ele soa extraordinariamente mais tenso que rouco —, o que é exatamente isso que você sabe?

Ah, o que eu sei... Sei que eu deveria ter prestado mais atenção por onde andava. Que meus lábios não deveriam ter ficado expostos assim tão facilmente, quanto mais meu coração. Que aquele livro deveria ter caído embaixo de um móvel, e se perdido para sempre. Que eu deveria ter dado mais atenção aos meus relatórios do que a completar a leitura no prazo, para devolvê-lo logo. Que eu deveria ser menos curiosa. Que Neville deveria ter terminado a lição de Astronomia mais cedo aquele dia. E que o Chapéu Seletor certamente errou em me colocar na Grifinória, porque não tenho coragem nem para falar:

— Eu... eu sei daquilo, professor.

Daquilo...?

— Que o senhor é... O senhor é... — as mil borboletas brotaram de novo no meu estômago e estavam forçando a saída — um... lobisomem...

Enquanto eu engulo meus próprios órgãos de volta, ele parece ser o extremo da tranqüilidade. Quem visse agora a cena de fora acharia que eu estaria prestes a passar pela transformação. Os quadros ao meu redor, eu sinto as risadas deles, de mim sobre a minha nuca, mas a tensão é mais forte que a vaidade. Meu ouvido começa a apitar. Não sei se devo ficar (mais) preocupada — é óbvio que ele não vai atacar, ele ainda está humano, me convenço por fim —, então tento só manter minha pose ansiosa de aluna que aguarda pela confirmação da resposta. Minha coragem grifinoriana definitivamente não vem.

— Há quanto tempo você sabe?

— Há... séculos. Desde a redação do professor Snape...

— Ele ficará encantado. Passou aquela redação na esperança de que alguém percebesse o que significavam meus sintomas. Você verificou a tabela lunar e percebeu que eu sempre ficava doente na lua cheia? Ou você percebeu que o bicho-papão se transformava em lua quando me via?

— Ahn — pigarreio — os dois...

— Você é a bruxa de treze anos mais inteligente que já conheci, Hermione! — riu.

Na verdade, tenho catorze, penso em dizer, mas seria muito indevido. Também por pouco considero aquela histeria de tempos atrás — inteligente, ele me chamou de inteligente! —, mas tudo isso muito mais no cérebro que no coração. Eu jamais poderia estar confortável diante daquela situação, porque seu riso foi escancaradamente forçado, e eu posso detectar em seus olhos pensamentos correndo muito rápidos, como se ele estivesse avaliando. Me avaliando. Não posso deixar de imaginá-lo socando a mesa e me rogando uma praga eterna, ou chorando rios de desgosto na minha frente. Ajeito a coluna e controlo as borboletas, até finalmente ouvir sua voz:

— E o que exatamente você quer pelo seu silêncio?

O que você quer dizer com isso?, penso.

— O quê? — é o que sai, ao franzir a testa.

— Quer a nota da sua avaliação final garantida? Não freqüentar mais a matéria? A menos que suas intenções sejam maiores —

— Não, professor, não... eu não estou te chantageando! Eu não quero nada do senhor!

Vejo suas sobrancelhas subirem, incrédulas. Incrédula estou eu!

— Quem mais sabe a respeito do meu problema, Hermione?

— Mais ninguém, mais ninguém! Eu... — eu não espalhei a história pra ninguém, eu não quero tirar proveito de nada. — Eu estou aqui só porque quero, de alguma forma, ajudar o senhor!

— Me ajudar? — simplesmente quero morrer quando a impressão de falsidade sai de sua boca e ele ri com sinceridade. Eu não sou engraçada. — Você é inteligente, Hermione, deve ter lido acerca do assunto. Não existe ajuda. Não há cura.

— Harry me contou que o professor Snape prepara uma poção para o senhor — quero parecer séria, porém ele não me deixa terminar:

— Ela só me ajuda a recuperar a consciência enquanto estou transformado.

— Sim, sim, foi o que eu pensei, é isso que quero dizer! Eu poderia ficar aqui, fazer companhia.

Vejo-o se remexer desconfortável dentro do robe. Deve estar doendo, sua cabeça, seus músculos, tudo. E eu, no meu impulso hermionístico, aqui, correndo, mostrando idéias esganiçadas, quando tudo o que ele quer é sofrer em paz. Ah, Hermione, onde é que você foi parar? Seu cérebro, sua razão? Não posso ficar revoltada com os julgamentos dele sobre mim. Não tenho o direito. Minha proposta é... ridícula! Fazer companhia, é isso mesmo o que eu disse? Ah, sinto vergonha de mim, vergonha extrema. Acabo de estragar nosso relacionamento.

Isso, relacionamento, Hermione, relacionamento. Continue pensando assim que vai continuar estragando as coisas!

OK, paro de pensar. Ao retornar ao momento presente, ainda vejo-o do mesmo jeito, desconfortável dentro da roupa.

— Hermione... — Eu sei que não há nenhum tom de desconfiança agora, porém a nova voz não me deixa mais aliviada. Com visível dificuldade, ele deixa o assento da cadeira somente para voltar a se apoiar, agora no parapeito da janela, diante dos últimos raios de sol — Não é como se eu só ficasse doente. Eu me transformo. Crescem pêlos, e garras, e dentes... Eu triplico de tamanho. A maioria das pessoas não suportaria o som da minha respiração. Eu viro um monstro. E você — ah, você não deveria sequer olhar pra mim.

— Por favor, professor, não diga isso!

—Volte para seu dormitório, esqueça nossa conversa. Será melhor.

Sem perceber, me levanto.

— Eu não seria capaz de fazer isso. E-eu...

As borboletas voam. Livres.

— Eu não consigo parar de pensar... em... você. Eu estou tentando, ah, estou tentando tanto, mas é como se minha cabeça não pudesse ser desligada... E não há preocupação maior, nem aula, nem redação nenhuma, a-além de... você. Não consigo, não há nada que me faça fechar os olhos pra dormir desde que descobri o-o seu problema. Eu não quero só ajudar, eu quero — quero ficar perto de você. Você... me tocou de um jeito que eu... nunca... tinha sentido... antes.

Meus olhos estão fechados — não, atados, e espero que para sempre, porque jamais terei coragem de encarar — sequer olhar de relance, por acidente! — a expressão que tenho certeza que me condena. Ele sente vergonha por mim, eu sei. A pobre garota que pensa que foi beijada, e que se acha no direito de se apaixonar.

O parapeito da janela não é duro o suficiente; eu poderia afundar meus dedos nele, me fundir, virar mármore para nunca mais ter de passar por isso. Nem ter de pensar em passar por isso novamente, nem criar finais alternativos felizes, nem considerar a mais absurda ideia do universo de ter um sentimento ridículo correspondido. Não, não, melhor: morrer logo, me jogar da torre do terceiro andar, aqui, agora, sentir a brisa pelos cabelos para afundar na escuridão.

Minha mão sobre a janela dói de tão forte que aperto.

Começo a sentir a brisa... no meu pescoço.

— O que você quer dizer — seu sussurro percorre a minha espinha —, “eu te toquei como você nunca sentiu”...?

Enquanto os segundos parecem eternos, viro meu rosto. Você me beijou, quero dizer, você me beijou de verdade. Nunca vou conseguir negar, porque nunca vou conseguir apagar de mim. Você me beijou... como está beijando agora. Ou não, porque talvez agora eu possa realmente senti-lo — os dedos entre meus cabelos, os lábios mornos sobre os meus, a respiração que se confunde com a minha, o toque que aproxima nossos corpos, que nos envolve. Minha cabeça é um vazio, só uma tentativa de controlar os batimentos descontrolados do coração. Estou surda. Cega. Minha única sensação é a de suas mãos que me percorrem, acariciam meu rosto, abraçam meus ombros, descem até a cintura, comprimindo, caindo —

— Remus?

Ele está de joelhos, uma mão de suporte no chão, a outra na cabeça que martela.

— Se afaste! Vai, vai, vai, VAI!

Quê, como? Assusto-me com o grito inesperado, ando de costas, tropeço estupidamente no nó de meus próprios pés e caio sentada com um gemido de dor. A cena se forma diante de mim; perco a figura do homem enquanto vejo exatamente o que ele tinha me descrito, os pêlos rasgando a pele, as pupilas violando a cor, os ossos encurvando a postura, o rosto e os membros desfigurando-se até a perda da identidade. N-não posso falar, tudo é... Recebo seu primeiro gole de ar com um arquejo inevitável, e paraliso quando ele vira seu olhar amarelo-fera contra mim. Eu gostaria, mas não posso deixar de notar as sobrancelhas franzidas e os dentes à mostra. Oh, meu Merlim, ele não está bem, ele está perigoso, ele vai —

Mas então sua expressão se desmonta, e mal tenho tempo de detectar qualquer Remus Lupin ali, porque ele foge para a escuridão.

Calma, Hermione, calma, repito muitas vezes, até pôr a situação de volta a seu devido lugar. Recordo os pontos principais. Você foi à casa do Hagrid, voltou para o castelo, bateu na porta dele. OK. Vocês conversaram. Foi desagradável. Você vomitou tudo o que queria dizer e ele te beijou — beijou... Oh, Merlim, beijou, a melhor sensação do mundo! (a ser retomada assim que possível, tilinta a borboleta-razão). Ele se transformou em lobisomem. Você estragou tudo e ele correu pra longe de você. OK, certo. Chego á conclusão de que o histórico e as circunstâncias apontam que tenho uma considerável sorte com atitudes inadequadas. Se eu for capaz de sair do chão e agir como deveria, talvez ainda continue não estragando tanto as coisas assim. Faço isso.

Ele está rente à cama, encolhido sobre si. Não sei exatamente o que fazer.

— Sinto muito — me resta a dizer —. Você me avisou que eu poderia me assustar. Eu que não estou ouvindo meus professores ultimamente.

Por um momento, tenho medo de que ele me olhe, de que eu não vá conseguir me controlar novamente. Ele afasta as patas do rosto... e eu tão claramente vejo-o lá, nos cabelos grisalhos e nas sobrancelhas caídas e gentis, que o abraço num impulso.

Poderia ficar aqui para sempre.