quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Trocando varinhas por pistolas

Disponível em http://www.potterish.com

Acho que não existe menina no mundo, seja no trouxa ou no bruxo, que não tenha deixado escapar pelo menos um suspirinho por Harry Potter. Talvez seu físico não seja o ápice da atração (será que a senhorita Chang teria preferido nosso bruxinho se ainda pudesse ficar com o charmoso Cedric Diggory? Tenho lá minhas dúvidas), mas, (ah!) quanta coragem e generosidade, não? Sempre um menino bondoso e de bom coração, nada de muitos rancores, apesar dos maus tratos que sofreu dos tios e da perseguição de alguns (ou apenas um?) professores na escola. Claro que ele já teve seus momentos de raiva, como todo ser humano; mas, em suma, Harry Potter sempre se mostrou uma pessoa nobre, valente, leal e honrosa, genuíno grifinório, “um homem melhor” que o maior bruxo de todos os tempos (Dumbledore, é claro), verdadeiramente digno de ser o possuidor das Relíquias da Morte.

Bonzinho demais, às vezes.

Enquanto na Escócia a tia Jo resolveu delinear traços mais altruístas em seu protagonista, lá perto, na Irlanda, o escritor Eoin Colfer preferiu se aventurar a escrever algo bem pelo contrário: criou um personagem ambicioso e egoísta, egocêntrico, inescrupuloso, metido a culto, a inteligente, a superior e, ainda por cima, um ladrão. Você pode achar que esta é uma cópia de algum Tom Marvolo Riddle — mas, não, de maneira alguma, porque esse personagem é, acima de tudo isso que me atrevo a chamar agora de “qualidades”, um jovenzinho de 12 anos muito do charmoso.

FOWL SEGUNDO, PRÍNCIPE HERDEIRO
Seu nome é Artemis Fowl II (pois sim, existe o Senior!), e toda sua presunção vem pelo fato de ser o “príncipe-herdeiro” da grande família Fowl — mundialmente conhecida por seu histórico de crimes, que incluem desde roubos de quadros até desvios de dinheiro; contravenções que, se nunca foram motivo suficiente para prender qualquer Fowl, ao menos foram capazes de garantir prestígio e uma suave quantia de bilhões de dólares. O pequeno Artemis leva uma vida confortável: quando não está forçosamente na Escola St. Bartleby’s para Jovens Cavalheiros, aconchega-se em seu aposento particular na mansão e se diverte escrevendo artigos acadêmicos para revistas de psiquiatria (pois, claro, conseguira se formar em um curso de graduação à distância sob a alcunha de doutor F. Roy Dean Schlippe).

Isto, porém, somente dura até seus dez anos de idade. O alicerce da família Fowl de repente despenca quando Artemis I se envolve em um perigoso negócio com a máfia russa, e misteriosamente desaparece, levando consigo mais da metade da fortuna herdada e, aparentemente, a sanidade da matriarca Angeline Fowl. O filho Artemis se vê então sozinho e com uma responsabilidade nas costas: segurar as lágrimas diante da suposta morte do pai e recuperar seu status de bilionário — do melhor modo irlandês (e criminoso), lógico.

Decidiu roubar o ouro das fadas.

Sim! Fadas, gnomos, duendes, leprechaums: as criaturas verdes e baixinhas das famosas lendas do pote de ouro no final do arco-íris. Bastaram dois anos de pesquisa de campo para que Artemis comprovasse a real existência do Povo das Fadas e de toda sua riqueza. Quando completou doze anos de idade, o menino prodígio do crime arquitetou um plano digno de um Fowl e seqüestrou uma fadinha. Seu objetivo? Um gordo pagamento de resgate.

Assim como em “Harry Potter” a sociedade bruxa regulamenta e desregulamenta suas leis para se manter anônima aos trouxas, o Povo das Fadas — composto não somente por elas, mas por outros famosos seres fantásticos, como elfos, centauros, diabretes, goblins e anões — também se contorce para manter sua sobrevivência subterrânea desconhecida. O motivo é o mesmo, claro: a magia, que em uma história assusta os “normais” do tipo Dursley, e que na outra corrompe os denominados “Homens da Lama”. Porém, se os bruxos têm de ir à escola para aprender um mínimo da infinita quantidade de feitiços e afins, as fadas conseguem contar nos dedos tudo de fantástico que podem fazer. Para elas, não houve outra opção a não ser o desenvolvimento tecnológico: aparatos movidos à energia nuclear, computadores avançados, biobombas de extermínio automático, campos de parada temporal, microcâmeras de íris, uniformes de inteligência artificial, propulsores de magma e mais algumas espécies de armas letal e avançadamente científicas mostram apenas uma pequena parte de toda a tecnologia dos Elementos de Baixo.

UMA HERMIONE-TONKS MUNIDA DE PISTOLA
A infeliz sorteada a ser feita refém foi a capitã Holly Short, a primeira fada entre o mundo machista dos elfos a fazer parte da vasta polícia do subterrâneo, a LEPrecon (Liga de Elite de Polícia — de onde vem o óbvio nome de sua profissão, leprechaum). A pequena Holly é um notável misto de Hermione Granger com Nymphadora Tonks: inteligente e atrapalhada, leal e audaz, teimosa e sem limites. A única diferença é que, ao invés de empunhar uma varinha, enlaça entre os dedos uma pistola semi-automática.

A partir deste momento, situações inusitadas (baleeiros que explodem e trolls destruidores?) se desenrolam e personagens inusitados (anões-répteis que engolem terra e soltam pelo – bem, não vou dizer) aparecem, tecendo um enredo que, se para você, fã pottermaníaco, não chega aos pés de seu Deus Harry, consegue muito bem competir num páreo duro.

As primeiras páginas que abrigaram essa história singular foram “Artemis Fowl – O Menino Prodígio do Crime”, pontapé inicial para uma série que, inicialmente, não passaria de uma trilogia. Colfer realmente estava disposto a acabar com sua criação no terceiro volume, “Artemis Fowl – O Código Eterno”, quando submeteu meu querido protagonista a um evento imemorável (o qual não posso mencionar por óbvios spoilers, e porque gostaria, é claro, de atiçar a curiosidade do meu leitor); porém os fãs, como bem somos, tiveram mais forças, e trouxeram o malfeitor de volta à ativa. Hoje, a série conta com cinco volumes publicados no Brasil, e um sexto que há pouco foi lançado na Europa.

No passado, durante meus longos anos de espera por cada nova bênção da tia Jo, costumava afogar minhas mágoas de mortes injustas (nós sabemos quão injustas elas foram, snif) com as idéias malucas do pequeno Arty. Não havia nada que me fizesse rir mais do que as piadinhas de humor sarcástico (um bom-humor Weasley) do centauro Potrus, ou do que os comentários de rabugice (um mau-humor Snape) do capitão Raiz, tudo escrito na elegante fluidez européia, a mesma que incita a pedir mais pelo jovem Harry. E os dois, Artemis e Harry, têm em suas gritantes diferenças o mais igual: o gosto pela magia, a incessante aventura, as referências lendárias, a mistura do maravilhoso da fantasia com a chatice do mundo real.

“Artemis Fowl”, qualquer um de seus livros, é uma ótima pedida de leitura ficcional. E o melhor dela, acima de tudo, é o fato de não ter fim certo: poderemos sempre reviver aquele (gostoso e nostálgico!) friozinho na barriga de expectativa pelo próximo volume.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Lírios para você

Sinopse: Se ninguém tivesse morrido, sem dúvidas a batalha final teria sido entre Dumbledore e Voldemort. Se Dumbledore vencesse, sem dúvidas ele pouparia a vida de seu inimigo. E, sem dúvidas, depois seria obrigado a dividir com ele um quarto no hospital.
Categoria: Harry Potter.
Gênero: Drama.
Timeline: pós-DH, com final alternativo, sem mortes.
Disclaimers: Todos os personagens pertencem à J.K. Rowling, exceto a protagonista, baseada em uma pessoa real.
Data: julho de 2008.
Palavras:


Encarou a grande construção de tijolos, suspirando, enquanto corria. Tinha perdido a hora, acordado tarde, engolido o café da manhã, nem penteado o cabelo; mas, até aí, tudo bem. Passar pela rua da Purges & Dowse Ltd. era tranqüilo para Sabrina — ali, ela era ninguém. O grande problema, o que fazia suas bochechas incharem de vermelhas e os pingos de suor brotarem de suas mãos, era entrar.
Não havia modo, no entanto, de evitar. Entrou.
As dezenas de cabeças ambulantes, acompanhadas pelos corpos embrulhados sob vestes verde-limão, encararam-na. Imediatamente. Não tivesse encoberto a vista com a franja comprida, não teria chegado ao balcão de atendimento. Quase atropelou um paciente ou dois, mas não teve coragem de ultrapassar seu tímido “perdão”. Empurrou a entrada-permitida-somente-para-funcionários com a respiração presa ao limite.
Logo saiu, disfarçada de Curandeira do Saint Mungus. Um olhar mais atento, contudo, encontraria, abaixo da cruz osso-e-varinha do jaleco, o bordado simbólico que indicava “trainee” em letras laranjas.
— Bom dia, Sabrina!
— E aí, Sá, beleza?
— Tá indo pr’O Quarto, agora, Sabrina? — era o que ela mais ouvia durante a longa (ainda que breve) viagem de elevador.
— U-hum — o qual, junto com um sorriso quieto, era o que ela mais respondia, momentos antes de descer no quarto andar.
Prendeu o coque com os próprios fios loiros e ergueu o olhar, para manter firme sua caminhada. Apesar de jovem, Sabrina era bem antiga no hospital bruxo, conhecia-o com a palma de sua mão: afinal, estudava para efetivar-se Curandeira há dois anos, começando desde seu primeiro dia fora de Hogwarts. Aquele era seu último semestre como aprendiz, umas das poucas sobreviventes à rotina estressante de feitiços de mal-gosto e mordidas infecciosas. Sua braveza e dedicação durante todos os árduos meses de trabalho e estudo garantiram-lhe um prêmio. O maior do hospital. O mais cobiçado e invejado.
O Quarto.
Não era ela a atração de todos os olhares; era, sim, o lugar para onde se dirigia, como se por isso ela conhecesse mistérios e segredos, ou fosse capaz de desvendar todas as respostas do Universo. Mal poderiam invejá-la, no entanto, se soubessem da realidade da situação − quão estupidamente normal era cuidar d’O Quarto 413.
É claro que, um dia, ela também achou o maior prestígio do mundo ser a responsável pela saúde dos dois bruxos mais poderosos da História da Magia. Mas, depois de algumas primeiras horas, percebeu que o cheiro da troca da fralda geriátrica de um bruxo poderoso era tão ruim quanto o de cidadão qualquer, sem qualquer essência mais sábia ou especial, e por isso resolver tratar dessa atividade com o mesmo esmero comum.
Talvez estivesse ali residida a verdadeira sabedoria. Preparava-se para falar isso a seus filhos, se um dia chegasse a ter algum.
Enquanto não os tinha, preocupava-se em abrir a porta do 413 com um sorriso aconchegante no rosto.
— Bom dia!
O quarto era longo, comprido, completamente amadeirado, claro somente por finas faixas de luz que escapavam de uma única janela arredondada. Espaçoso por apenas duas camas, de dois senhores (mestres) de idade.


Tirou a varinha e a caderneta do bolso, e se dirigiu ao primeiro leito.
— Bom dia, seu Dumbledore!
— Bom dia, senhorita Hibisdius — a voz rouca de Albus Dumbledore, enrolado embaixo das cobertas de seu leito, atravessou-lhe a barba comprida — Como está bonita hoje. Uma beleza natural, eu diria.
— ‘Que é isso, Dumbledore, acordei atrasada hoje, imagine só! Estou toda descabelada!
— Foi dormir tarde, suponho.
— Sim, estava sem sono, custei pra dormir. Espero que sua noite tenha sido melhor do que a minha. Como foi? — a varinha ajudava a medir a pressão e cumprir outros exames matinais.
— Agradabilíssima, como sempre. A cozinha nos preparou ontem chocolate quente no jantar. Tenho que admitir que sou facilmente derrotado por leite quente. Ainda mais, depois deste problema sono súbito dos últimos dias, acredito queeee...
O último embaralho da língua foi uma melodia de ninar. Dumbledore fechou os olhos, imediatamente. Adormeceu. Sabrina remexeu-o pelo ombro.
— Ahn? O quê?
— Ainda está pegando no sono, seu Dumbledore — a trainee sorriu, e anotou em seu papel.
— Tive a ligeira impressão de que dormir a noite inteira me deixaria mais desperto hoje de manhã. Mas talvez o chocolate de ontem também tenha colaborado, não é verdade? Estava uma delícia! Não há nada que me dê mais sono do que leite quente, sem dúúúúúv...
Sabrina deixou a pena escrevendo, em seu canto, e cutucou o paciente mais uma vez.
— Vamos dobrar sua poção, certo, seu Dumbledore?
— O que a senhorita achar melhor, por favor. Não que isto me incomode, claro que não, a mim me parece apenas efeito de leite quente para dormir, combinação exceleeeen...
Ombro novamente.
— Hein?
— Suas defesas estão muito baixas, este é o efeito da praga. Tirei uma amostra do sangue do senhor e o único de leucócitos ainda está muito alto, apesar de controlado...
— Sinta-se livre para tomar quaisquer providências, senhorita Hibisdius, por favor. Não gostaria de continuar as conseqüências do que me parece um gole infinito de leite com chocolate, bebida esta que, aliás, adoro, mas que me derruba com todas as foooor...
Era isto: ou tornava a repetir os mesmos pensamentos, ou adormecia, inevitavelmente. Sabrina lutava já há uma semana, desde que ele chegara, contra os efeitos das combinações de feitiços que lhe tinham atingido na última batalha de Hogwarts. Os resultados vinham sendo desanimadores. Em parte, porque muitas das maldições eram desconhecidas. Em outra, por um fato incontornável: Dumbledore estava envelhecendo, adoecendo, enfrentando os resultados de tantos anos de sabedoria — em outras palavras, ficava gagá.
Cutucou-o uma última vez, antes de virar-se.
— Hum?
— Ele — apontou para o outro leito — ainda está dormindo, você sabe, seu Dumbledore?
— De modo algum. Já tivemos nossa discussão matinal.
Sabrina teve de forçar-se a manter os dentes expostos. Deu as costas e chegou ao outro lado do quarto. Segurou a intenção de respirar fundo e suspirar, tinha de manter a paciência em seu lugar. E o medo. Ela era a enfermeira, afinal de contas, e o próximo paciente não passava de apenas outro próximo paciente — apesar de há poucos dias atrás não ser menos do que um Lorde das Trevas, o Lorde das Trevas.
— E como vamos, seu Riddle?
Engoliu em seco, não teve jeito;.era todo o dia assim. Pelo menos não gaguejou.
— Hunfgrunfargh — o resmungo mal-humorado foi abafado pelo peso das cobertas.
— O que foi, seu Riddle? Acho que não entendi.
Uma ligeira movimentação por debaixo, nada mais.
— Aaaah, seu Riddle, já passou da hora de acordar há muito tempo, não é? — e puxou para o chão o esconderijo de tecido, impiedosa e corajosamente, para encontrar a figura aterrorizante do mais poderoso bruxo das trevas.
Ou só se “aterrorizante” conseguisse ser um sinônimo para “patética”. Patética. Tom Riddle, ex-Lorde Voldemort, era uma figura mirrada e amarelada, careca, seca, um palito torto em uma inconsolável posição fetal, mergulhado em todo o espaço que sobrava entre suas vestes hospitalares. Pelos intervalos entre os gambitos dos dedos, seus olhos avermelhados tentavam induzir medo e respeito — sucesso atrapalhado pelas lacunas de dentes quebrados entre suas linhas de lábios.
O medo fugiu, Sabrina não pôde deixar de rir. Era o que restava do grande Lorde das Trevas.
— Muito melhor agora, não é, seu Riddle?
— Não – me chame – por esse – nome – sangue-ruim! — sibilou.
— Você que não me chame de sangue-ruim, por favor — pegava de novo a varinha — Já conversamos sério sobre isso.
— Você realmente não faz idéia do que posso fazer, não é mesmo, menina? Eu, que ultrapassei a morte, derrotei Albus Dumbledore, roubei a Varinha Anciã...
— Escapou da morte por pouco, o senhor bem sabe, seu Riddle.
— Não ouse me chamar —
— E não derrotou o senhor Dumbledore, os dois caíram ao mesmo tempo.
— Meu nome —
— E a varinha no fim era de Draco Malfoy, o coitadinho nem —
— ... é Lorde Voldemort!
Sabrina deu um berro, deixou a pena de escrita automática escorregar, derrubou a caderneta de anotações, tropeçou em um nó da própria perna. Voltou à altura da cama com a franja bagunçada sobre o olhar furioso.
— Senhor Tom Riddle, ainda mais do que meu paciente, o senhor é detento da prisão Azkaban. Então, a menos que o senhor prefira os dementadores a mim para os cuidados de suas feridas pós-guerra, me respeite. Então? Estamos entendidos?
Estou dando uma dura n’Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado, seus interiores vibraram, adoro meu trabalho!
— A senhorita não estaria tão confiante assim se eu pudesse usar magia agora...
— Felizmente as paredes do Saint Mungus são justas.
— Quando eu sair daqui e matar aquele Potter asqueroso —
— Diminua suas aspirações de sair daqui se o senhor pretende se manter vivo, seu Riddle, acredite em mim. Aqui é bem mais agradável do que o lugar que você irá quando estiver curado. Agora — empunhou novamente a varinha —, se o senhor puder me fazer a gentileza de se virar...
— Para quê?
— Tenho que lhe trocar.
— Não vai trocar nada.
— O senhor está sujo.
— Você não vai tocar em mim com essas suas mãos sujas!
— Não vou tocar, é só para agilizar o feitiço —
— Deixe essa fralda aí, sangue-ruim!
— Ora, por favor!
Com um giro da varinha, Voldemort teve as mãos atadas e as pernas abertas; enquanto uma fralda geriátrica usada deixava lugar a fagulhas douradas anti-assadura, outro pedaço de pano macio vinha voando, se dobrando no ar em triângulos de vértices estratégicos. Tom deixava seus mais de setenta anos de audácia para trás. Seu choro era o do menino do orfanato.
— Essa tarefa já é desagradável o suficiente sem suas crises histéricas, senhor Riddle! Colabore!
— Isto é humilhação! Humilhação, sangue-ruim! Jamais vou colaborar cok algo que me rebaixe a este nível!
— Então, seu Riddle, para a alegria dos dois lados, pare de fazer coco!
— Lorde Voldemort não faz isso!
Sabrina deixou a varinha cair de novo.
— O que aconteceu hoje, posso saber? Sei que o senhor é uma pessoa difícil, mas hoje está intragável!
— Não ouse —
— Será que eu poderia arriscar um palpite, senhorita Hibisdius?
Dumbledore estava mais atento do que o esperado. Talvez não estivesse tão envelhecido, assim.
— Claro, seu Dumbledore, qualquer coisa pra me ajudar a trabalhar!
— Creio que o problema do nosso colega Tom não esteja relacionado à senhorita. Acontece que hoje é domingo.
— Domingo..?
— Dia de visita no quarto andar.
Voldemort pareceu morder a língua ofídia. Manteve-se a estreitar o olhar.
— Há! Albus, sempre se metendo onde não é chamado. Ainda acha que meu problema é amor, é?
— Certamente você tem muita a resolver neste quesito, Tom. Como agora, por exemplo. Está morrendo de medo que ninguém venha lhe ver.
— Absurdo!
— Mesmo?
— Absurdo dos absurdos! Eu, Lorde Voldemort, com medo de ficar sozinho? Não tive medo de morrer, Dumbledore, e não tive medo de matar. Não posso ter medo de nada!
— Já lhe disse várias vezes, Tom, que há coisas piores do que a morte...
— Aqui talvez seja pior, então — e riu, uma risada que irritou Sabrina ao fundo, mas que ainda assim a enfermeira fez questão de ignorar. Só por causa de sua nuca.
Ficou arrepiada.
— Ficar aqui definhando, esperando pela prisão, solitariamente. Ah, sim.
— Você diz essas coisas com um nariz empinado de quem está rodeado de pessoas. Mas você não tem ninguém, Dumbledore, não se esqueça disso. Ninguém! Sua família está morta, Grindewald está morto, o mundo bruxo lhe virou as costas e lhe deixou só, covarde, quando você teve que me enfrentar!
— Ainda assim, você sabe que terei mais visitas do que você, hoje. Por isso, está com medo.
— Eu tenho meus fiéis Comensais da Morte! Nenhum deles ousará deixar seu mestre doente em um leito de hospital. E você, quem acha que vai ver?
— Ah, apenas os que se importam de verdade comigo — e juntou os dedos das mãos em uma brincadeira divertida, zombeteira. Depois, sob o silêncio da falta de argumentos de Voldemort, Dumbledore permitiu-se dormir de adoecido.
Sabrina conteve uma risada de vitória. Depois, sua expressão foi de susto ao constatar a hora. Juntou os instrumentos hospitalares e, com promessas de retorno, deixou O Quarto. Tinha muitos outros pacientes para acompanhar ao longo do dia, é claro, mas no fim da tarde seria deles novamente. E, enquanto viajava para cima e para baixo no elevador do Saint Mungus, abriu os olhos e os ouvidos para saber de todas as visitas do 413.




A primeira foi logo depois do almoço. Harry Potter recebera permissão do responsável pelo 427 para meia hora de conversa com Dumbledore, e para isso levou suas próprias companhias, Ron, Hermione e Ginny, todos fisicamente saudáveis e traumatizados de guerra, todos muito bem munidos de caixas de doces da lanchonete não-autorizadas. Os cinco se divertiram entre intervalos de cochilos de Dumbledore e encontros com feijõezinhos infelizes. A cada risada, Riddle enfiava um pedacinho a mais do travesseiro no ouvido.
Às duas horas, foi a vez do restante da família Weasley, ruiva e completa, desde sua parte mais distante, com Carlinhos, e a naturalizada, com Fleur Delacour. Não passaram junto ao leito mais do que dez minutos: Fred e George puseram fogo nos lençóis de Voldemort, queimando o pouco do que podia ser chamado de “orelhas”. Foram expulsos.
Meia hora depois, Arthur vingou a família — despida dos gêmeos — com a presença do Ministro da Magia. Dumbledore, o visitado mais uma vez, foi presenteado com dúzias de flores silvestres e exemplares de jornais bruxos que exaltavam os últimos acontecimentos. Não que ele tivesse sido capaz de ler além da manchete, é claro. Seus olhos ficaram surpreendentemente mais pesados durante as palavras calorosas do Ministro pomposo.
A quarta entupiu O Quarto: McGonagall trouxe a seu encalce Flitwick, Madame Hooch, Binns, Madame Pomfrey, Sibila, Slughorn, e mais alguns elfos domésticos insistentes. Somente Hagrid, com seus lenços e olhos marejados, ocupavam mais de três quartos do local. As mensagens de melhoras ficaram depois piscando, cintilando e estourando em pequenas explosões por mais um par de horas, irritantes e invejosas para Voldemort.
Sirius e Remus foram os últimos, próximos ao pôr-do-sol. Nos braços do segundo, o pequeno Lupin acompanhava o ritmo da respiração sonolenta de Albus. Não quiseram se deter muito, julgaram-se empecilhos quando Sabrina voltara para os exames da noite. Deixaram com Dumbledore o espelho do bar do irmão, com intimações de que fosse usado quando necessário, sem restrições.
Depois da ida da quinta caravana, Voldemort era outra pessoa. Tratou Sabrina como se ela fosse o próprio Lorde — Madame — das Trevas.
— Senhorita Hibisdius, você não sabe das minhas visitas? — perguntou, enquanto aceitava a limpeza embaraçosa contra assaduras.
— Quem, seu Riddle?
— Bellatrix Lestrange, por exemplo.
— Ela... hum, bem, já está em Azkaban.
— Ah, entendo — suspirou —. Pelo menos, é um motivo justificável...
— Eu-eu ouvi boatos de que ela pediu para ficar lá, para ficar perto do marido.
— Como – como assim?! Eu sou o mestre dela, como ela prefere – como ela poderia — ?!
— Sinto muito, seu Riddle — achou melhor consertar antes que as coisas se instabilizassem de novo.
— E Lucius Malfoy? Narcissa? Sabe alguma coisa deles?
— Levaram o filho para um tratamento na França. Estão tentando provar para o Ministério que...
— Que o quê, menina?
— ... que nunca foram Comensais, seu Riddle.
— Não pode ser! Ingratos, imprestáveis, traidores, amigos de sangue-ruins...
— Senhor Riddle, por favor, olhe o que fala!
— Eu não preciso deles — ignorou-a momentaneamente — Quem mais ainda está livre? Crabbe? Goyle?
— O Saint Mungus está tendo problemas nos tribunais com eles. Estamos tentando provar que eles não perderam sanidade mental.
— E Pettigrew? Peter Pettigrew? Ele não poderia —
— Estamos tratando dele no primeiro andar, porque... bem, porque não há nada que o faça vir ao quarto. Diria que ele está um pouco... apavorado.
— Com medo de chegar perto de mim... que ele morra feito o rato que é — estreitou os olhos em sinal de perigo, como antes — E os outros? Mulciber?
— Está em tribunal.
— Avery?
— Tribunal.
— Rookwood?
— Tribunal?
— Yaxley?
— Tribunal.
— Todos testemunhando a favor..?
— Contra, na verdade, seu Riddle. Contra os outros Comensais.
Ele parou de respirar.
— Ninguém..? Será que não poderia ter me restado ninguém..?
Se seu orgulho permitisse, teria deixado as lágrimas engolidas explodirem. Mas não, certamente que não — isto era amor, e Lorde Voldemort jamais poderia sofrer por causa dele, fosse por sua presença, ou por sua forte ausência de agora. Limitou-se a bufar, fazer-se de mau. Malvadão. Como se ainda pusesse intimidar alguém, mesmo aquela menina que o chamava por seu nome trouxa comum. Não percebeu, mas seu corpo denunciou sua tristeza com o rolo de proteção que fizera, com sua posição encolhida sob os lençóis.
— Desprezíveis — dizer isto era o seu mostrar de suas importâncias.
Sabrina já tinha acabado, mas preferiu ficar uns momentos a mais, como se se fizesse de visita. Não era gosto; era piedade. Não recebeu o devido título, obviamente. Teve de quebrar a tensão com a notícia escondida:
— Na realidade, seu Riddle, ainda há um visitante. Ele está subindo.
— É de Dumbledore, o bruxinho do amor, não sabe? — e virou-se na cama.
— Talvez não seja.
— Como “talvez”?
— Não sei pra quem é.
— Como não sabe?!
— Quem vem, senhorita Hibisdius? — Dumbledore trouxe a gentileza de volta.
— É... Severus Snape.
— EU SABIA!
Voldemort saltou da cama, Sabrina foi junto — suas colunas ficaram doendo por muito tempo depois disso. Albus manteve-se resoluto.
— Está confiante, Tom.
— Certamente, certamente! Lorde Voldemort estará reunido a seu mais fiel seguidor, finalmente!
— E será que Lorde Voldemort se lembra da verdade? — girou os dedos — Você se lembra, Tom, do que Harry lhe disse em Hogwarts, minutos antes de você desmaiar?
— Mentiras e balelas ensaiadas por você, Dumbledore.
— Severus nunca foi seu homem, Tom.
— Calúnia!
— De maneira alguma.
— Ele te investigou para mim durante anos!
— A verdade é o contrário. Você foi o investigado.
— Eu lhe dei ordens para que você pensasse que ele estivesse do seu lado, tolo!
— Escute-me para sofrer menos.Você o perdeu quando matou Lily Potter, Tom.
— Eu o fiz enxergar a libido por trás do que ele pensava ser amor. Ele sempre confiou em mim!
— Jamais.
— Sempre!
— Jamais.
— SEMPRE!
— Jaaaa...
Pegou no sono, interrompendo o infinito da questão. Sabrina cutucou-o e levantou-se.
— Perguntem a ele próprio. Ele deve estar subindo, agora.
E conjurou uma cadeira para se ficar a um canto do quarto, mais afastado. Não o deixaria, é claro que não; sabia desfrutar das recompensas de cuidar d’O Quarto, quando elas existiam, e esta era uma dessas: saberia da fofoca antes mesmo de ela ser distorcida pela fofoca.
Não esperou por muito tempo, pois não estava enganada: foram poucos minutos até que a discussão fosse cortada, Snape chegasse ao quarto andar, alcançasse a porta do 413 e entrasse, por fim.
Entrou com presença.
Deu valor ao suspense. Manteve-se estático à soleira da porta tempo suficiente de sentir-se enjoado de ouvir a respiração pesada, e nada mais, dos ocupantes dos leitos. Sua expressão estava intacta. Suas cores eram inexpressíveis, rotineiras, as mesmas vestes pretas, porém interrompidas por um borrão de cor inesperada: um buquê de flores coloridos, uma mescla de laranja e amarelo, um calor que destoava da madeira hospitalar, ou do clima da conversa, ou do pálido dos poros de seu nariz. A força de sua discrição de todo-dia perdia-se nas cores quentes; e, quando se cansou de ser o centro do universo, tirou a atenção do inusitado e marcou-a no sem-graça, sua voz:
— Boa noite.
Tom Riddle tinha a respiração presa, quase como se fosse para somente ouvir o farfalhar da flora de presente. De presente para ele?
A direção delas, contudo, foi a do leito inimigo.
— Boa noite, Albus.
— Boa noite, Severus.
— Estou com pressa, peço desculpas por não poder ficar mais. Só vim entregar as flores.
— Fique à vontade, por favor.
— Obrigado — e, para o disparar do coração solitário, Snape virou-se e andou um pouco mais, até alcançar a segunda cama do quarto.
Voldemort não queria mais se conter.
— Severus... meu servo mais leal...
— Milorde — cumprimentou-o com um abaixar de cabeça.
— Eu sabia... sabia que você viria... sabia que não deixaria seu senhor... sabia que não me deixaria definhar só...
— Certamente não poderia de aproveitar a oportunidade de vê-lo. Certamente — abaixou novamente a cabeça — não poderia deixar que você sofresse e passasse seus últimos momentos de forma tão solitária.
— Eu sabia... tão leal...
Severus conjurou um vaso alongado e transparente, encheu-o de água do ar e pousou nela os cabos das muitas flores. Tudo muito calma e pacientemente, sob uma tranqüilidade letal.
— Estes lírios são para você, Tom Riddle.
— Tom Riddle — ?
— Para que você não sofra sozinho. Para que você esteja sempre acompanhado por uma lembrança – seja sempre atormentado por ela – pela lembrança da promessa que você me fez e que nunca cumpriu.
— Você —
— Você não merece a solidão. Merece o pior. Espero que sofra bem.
Snape afastou-se da cama, dos olhos vermelhos furiosos.
— Agora, se me dá licença — acenou, pela última vez, com a testa —... Tom.
Deixou O Quarto.
Sabrina viu Voldemort gritar de ódio, tentar em vão derrubar o vaso fixo — eternamente — ao chão, e depois, sem escolha, desprender sua ira velha e incontida dentro da fralda.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Você-Sabe-O-Quê

Disponível em www.potterish.com



Temido por muitos, idolatrado por poucos, enfrentado por três. É lógico que vocês sabem de quem eu estou falando! Um menino órfão, mestiço, boa fama em Hogwarts, um gatinho. Aquele lá, o tal do herdeiro de Slytherin, o cara que repartiu a alma em sete partes, sabe? Não? Aquele que matou Lily e James Potter, lembra? Tentou matar o menino Harry e se deu mal? O Lorde das Trevas, Você-Sabe-Quem, Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado, o... você não vai me forçar a dizer o nome dele, vai? É Vol... é V-Vol...

Chame-o de Voldemort, teria dito Dumbledore. Sempre chame as coisas pelo nome que têm. O medo de um nome aumenta o medo da coisa em si (“Pedra Filosofal”, página 254, versão brasileira de 2000, com muito orgulho!). Harry Potter aprendeu com ele muitíssimo bem — ou, melhor dizendo, teve de reaprender com ele muitíssimo bem. Lembro que logo em seu primeiro contato com o mundo bruxo, com o gigante Hagrid, Harry já foi alertado a entrar em pânico ao simples mencionar do nome — que nunca tinha ouvido na vida, aliás. Teve de começar a evitar a usar a palavra por pura obrigação social, para impedir que pessoas ao seu redor tivessem chiliques e ataques histéricos, como se somente um pronunciar fosse capaz de criar a desgraça, ou trazer o próprio “desgraçador” de volta à vida. Patético. O medo geral, contudo, não foi capaz de infectá-lo: todos nós sabemos, é claro, que Harry nunca realmente teve de medo de falar “Voldemort” abertamente, como muito bem pudemos atestar até o fim da série.

Interessante notar que este comportamento não se mantém somente dentro da ficção: não são raras as pessoas que se assustam, ficam bravas, fazem sinal da cruz, dão toques na madeira ou acionam qualquer dispositivo crendice-popular ao ouvirem uma palavra ou expressão proibida — ao ouvirem tabus lingüísticos, para já entrar em termos mais técnicos.

Tabu é o ato proibido, principalmente ligado a coisas sagradas. Tabu lingüístico, então, é a palavra proibida e mal-vista por uma determinada sociedade, logicamente também em uma determinada época (porque a língua é uma constante renovação). Mansur Guérios (1) afirma que existem dois tipos de tabus lingüísticos: o próprio, de crença (em que se atribui força sobrenatural à palavra em questão), e o impróprio, de sentimento (referente às expressões chulas e grosseiras ou à veneração direcionada a algum ser). O resultado de expressar um tabu abertamente Harry já sentiu na pele, de arrepios alheios a feitiços no nariz. Acontece que às vezes se deixa escapar, se esquece; outras vezes, mais difíceis, nosso repertório vocabular simplesmente parece vago demais para que possamos proteger o próprio nariz.

Nesses casos, usa-se um substituto da palavra, um recurso indireto: um sinônimo mais aceitável, uma expressão mais genérica, um gesto no ar, aquela tosse disfarçada, uma palavra emprestada de outra língua. Faz-se uso também de recursos estilísticos em “ismos” e ísticos”, como o eufemismo (expressão substituta menos pesada e mais “esquiva”) , o hipocorístico (expressão de louvor) e o disfemismo (expressão agravante). No mais, simplesmente evita-se falar através da elipse (omissão) e da circunlocução (evitação).

Vocês, leitores, já sabiam de tudo isso, é claro. Talvez não em detalhes; mas certamente a palavra “tabu” saltava desta página virtual em direção a seus olhos com muita distinção ― isto devido àquela passagem do último livro, à maldição (the Taboo curse) feita por Comensais da Morte sobre o nome de seu mestre, a qual imediatamente os chamava assim que a palavra proibida fosse mencionada. Quase o mesmo dispositivo lingüístico, exatamente o mesmo espiritual. O pronunciar desencadeava o caos, literalmente.

Agora, para dar seguimento a esta coluna, gostaria de analisar os substitutos da série ― afinal, “Harry Potter” é cheio deles, todos muito interessantes.

Você-Sabe-Quem
“Pra quê falar o nome se eu posso evitar de falar?”, eu já até posso imaginar um Ron de orelhas vermelhas gaguejando com esta frase. A expressão “Você-Sabe-Quem” é simples, pura e perfeita. É o que usa a menina da oitava série que quer contar sobre seu paquera à amiga e quer evitar sofrer a fofoca: isto é a circunlocução, a fuga do uso do tabu através de uma expressão genérica, porém reconhecível pelo contexto.

Se fosse possível analisar a evolução desta palavra na sociedade bruxa (e para isso teria que se ter registros passados e, ironicamente, reais), muito provavelmente se chegaria à conclusão de que “Você-Sabe-Quem” acabou por perder, com o passar do tempo, seu estatuto de mera substituição para passar a ser realmente o nome referente à pessoa. No cenário, por exemplo, da menina que vai cochichar com a amiga, o diálogo seria da seguinte forma:
-- Ai, Vivi, eu vi Você-Sabe-Quem ontem!

Mas se fôssemos analisar o que Ron diria a Harry, a sentença seria levemente diferente (sem contar, é claro e ainda bem, o tom de euforia e excitação):

-- Harry, eu vi o Você-Sabe-Quem ontem!

Certamente que ambas as expressões se referem a uma pessoa específica e reconhecível pelos contextos, porém a presença do artigo definido no segundo caso marca a expressão realmente como nome, e não como simples substituto.

Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado
Aqui, a nomeação da palavra negada se dá pela afirmação da negação da nomeação — e esse nó que eu dei na sua cabeça ainda vai receber a pontinha de outro laço para que eu possa nomear toda essa “nomeação”: eufemismo.

Imaginem, por exemplo, a situação: depois da batalha final em Hogwarts, no sétimo livro, um aluno mal informado se aproxima de Hermione para lhe perguntar o que, afinal, tinha acontecido a Voldemort. Ela, muitíssimo educada, não hesita em responder:

— Foi derrotado para sempre.

A senhorita Granger poderia ter usado outros variantes, ainda — “bateu as botas” ou “foi comer capim pela raiz” —, ou simplesmente ter sido grossa e gritado “Ele morreu, levou um Avada Kedavra no meio da testa, não viu?!”. Esse jeitinho mais educado de se dizer alguma coisa mais indelicada ou grosseira é o eufemismo.

Referir-se a algo pela afirmação de sua negação é negá-lo indiretamente, da mesma forma polida.

De maneira semelhante, existem regiões do interior do Brasil que denominam o saci-pererê, o negrinho malfeitor de uma perna só, de “o-da-carapuça-vermelha” — agora, não por qualquer negação, mas por um título que trata o nomeado de forma genérica por um pronome: “o-da-carapaçuça...”, “aquele-que-não-deve...”.

Lorde das Trevas
Este substituto é usado principalmente por Comensais da Morte (ou por espiões-duplos, como no caso de Snape) quase como um apelido — quero dizer, um apelido somente para aqueles que realmente o consideram como um amigo íntimo, como fazem Bellatrix e... hum, como faz Bellatrix, porque eu (particularmente, sou forçada a dizer, mas acho que não estou muito distante da realidade da Jo) acredito que o resto o veja somente como uma pessoa má e poderosa de quem eles tiveram sorte de ter a companhia.

“Lorde das Trevas”, então, para a senhora Lestrange, é um hipocorístico no sentido de transformar a expressão em um nome respeitoso, quase (para ela, evidentemente) carinhoso. Chamá-lo através desta expressão é elevar ao máximo o status dele e, deste modo, preservar sua confiança.

Pettigrew, contudo, nos dá um belíssimo exemplo de hipocorístico de louvor: ao enaltecer seu senhor, Peter tem a única intenção de preservar sua própria integridade, mostrando um respeito que, muito inversamente, se reduz a (e apenas se mostra como) um pavor enorme. Esta é uma tentativa de transformar o inimigo em amigo com caráter somente oral e psicológico. Algo semelhante ocorre na Rússia, por exemplo: um substituto hipocorístico para “demônio” no país é a expressão (não?) equivalente “o justo”.




Estes três substitutos são todos referentes a um único nome, vocês-sabem-qual, nem preciso dizer (não por medo, agora, mas por elipse). Eu, contudo, vou mais além ― acredito que este tabu lingüístico seja, ao mesmo tempo, o substituto de outro tabu, que engana uma inconsciente população bruxa e é somente claro a duas pessoas.
Vejamos, então.

Lorde Voldemort
[...] Entendeu? Era um nome que eu já estava usando em Hogwarts, só para os meus amigos mais íntimos, é claro. Você acha que eu ia usar o nome nojento do meu pai trouxa para sempre? Eu, em cujas veias corre o sangue do próprio Salazar Slytherin, pelo lado de minha mãe? Eu, conversar o nome de um trouxa sujo e comum, que me abandonou mesmo antes de eu nascer, só porque descobriu que minha mãe era bruxa? Não, Harry, criei para mim um nome novo, um nome que eu sabia que os bruxos de todo o mundo um dia teriam medo de pronunciar, quando eu me tornasse o maior bruxo do mundo. (página 264 da “Câmara dos Segredos” [vulgo “Câmara Secreta”], edição brasileira também de 2000).

Neste episódio passado no esconderijo do basilisco de Slytherin, a jovem memória de Tom Riddle admitiu com todas as letras: Lorde Voldemort não existe. Lorde Voldemort é uma invenção criada para amedrontar bruxos (e, por que não?, trouxas). Lorde Voldemort é a vergonha do real. Lorde Voldemort é a utopia de um homem ambicioso e sedento por poder.

Agora, não posso deixar de recorrer às palavras do bom velhinho (não o Papai Noel): Sempre chame as coisas pelo nome que têm. O medo de um nome aumenta o medo da coisa em si.

O nome daquele menino órfão que mencionei no começo desta coluna não é, de forma alguma, Lorde Voldemort — é Tom Marvolo Riddle. O medo fundamentado neste “auto-apelido” criado é absurdo e controverso, a partir do momento em que reafirma o poderio mágico que Riddle exalta em si mesmo, e aceita a existência de sua (tão querida) imortalidade. Ele, contudo, nunca deixou de ser a mesma criança rancorosa, metida e, acima de tudo, mortal, que sempre fora.

Dumbledore jamais se submeteu à imagem utópica de um Lorde das Trevas; muito pelo contrário, aliás, chamou-o pelo nome de batismo sempre que teve o desprazer de encontrá-lo. E Harry, posteriormente, seguiu seus passos: na batalha final em Hogwarts, tratou-o como Tom até o fim; foi capaz de desmascará-lo e arrancar-lhe o véu que escondia de todos ― e de si mesmo ― suas fraquezas. Assim, pois, foi capaz de derrotá-lo.

Lorde Voldemort é substituto de Tom Riddle por claro disfemismo, onde a expressão usada agrava o tabu (exagera a realidade, dá o poder que não existe). Guérios atenta que, neste caso, o emprego da palavra disfêmica chega a ser até mesmo manifestação de coragem ― exatamente como é vista a atitude de Dumbledore e Potter, os dois “corajosos-que-nunca-tiveram-receio-de-pronunciar-Vol-de-mort”.

Tom Riddle, então, é o verdadeiro tabu lingüístico para os dois bruxos que tiveram a oportunidade de combatê-lo. E devemos ter medo dele, mesmo?

Acredito que seu eu pertencesse à sociedade mágica (de verdade, e não somente de coração), preferiria me referir a ele com seu nome original. Logicamente teria medo dele ― logicamente teria medo de qualquer um mais forte do que eu (mesmo que apenas acreditasse nisso), dentro de um mundo em que um simples abanar de varinhas é capaz de matar (ou pior) ―, mas retomar sua natureza mestiça é torná-lo mais concreto e “derrotável”, mortal como cada um de nós.

E, além do mais, o nome “Tom Riddle” é muito, muito mais bonitinho que “Voldemort”. Argh.




(1) O livro de Guérios que usei para complementar esta coluna foi, nada mais, nada menos do que “Tabus Lingüísticos”. Título óbvio com leitura bastante agradável. Recomendo até para quem não tem muita pretensão em seguir carreira lingüística.
Certamente minhas explicações a respeito do tema, retiradas do livro, foram bem mais sucintas e incompletas, sendo necessária uma leitura e um estudo mais profundos para que o assunto seja devidamente contemplado.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Eu te amo, Cecília!

Sinopse: Ele só queria conversar. E passou a conversa toda tentando isso.
Categoria: Originais
Gênero: Romance
Data: julho de 2008
Palavras:
Nota 01: Inspirada em uma música de Chico Buarque e num fragmento de "Até mais, e obrigado pelos peixes!".
Nota 02: Criada exclusivamente para o concurso de originais do Nyah! Fanfiction.


O balcão da lanchonete freqüentemente ficava sujo, e quem o limpava dia após dia era Glória. Com seu coque apertado na cabeça e o uniforme azul desbotado, parecia com todas as outras garçonetes. Mas ela era a única a ter aquela pinta preta atrai-homem perto do canto da boca, e a única a segurar o mesmo pano preto na mão esquerda, resmungando baixinho e torcendo para que o chefe não visse sua preguiça inevitável de limpá-lo.
Xingava todo mundo por baixo do nariz arrebitado, todo mundo que ousasse se aproximar e fazer um pedido, todo mundo que interrompesse seu ofício de pseudo-limpeza, todo mundo a quem jogava o ódio enrustido e a culpa de estar ali atrás do balcão sujo, e não na frente.
Xingou, inclusive, aquele jovem de óculos.
— Um batido, por favor.
— Uma batida, ‘cê disse?
— Não, é um... chocolate. Chocolate batido.

*****

Ele pegou seu copo e se sentou em uma mesa. Passou um tempo insignificante divertindo-se em tentar calcular o número de germes que se divertiam em tentar mergulhar na bebida láctea, mas logo se distraiu. Já tinha mudado de passatempo havia muito antes disso, antes desse dia, aliás. Sua nova ocupação estava a poucos metros de distância, era do sexo feminino e punha-se naquele momento a sensualmente mordiscar a ponta do lápis das palavras-cruzadas. Observava-a atentamente.
Na realidade, vigiá-la por trás de suas lentes convexas também já era passado. A moda agora era outra: era tirar as nádegas do assento duro e ir falar com as meninas observadas. Isso também já não era exatamente tão recente assim, pode-se dizer — mas ele também nunca fora o tipo de pessoa louvável por seguir tendências. Tradicionalíssimo, muito na dele, sempre tivera um pouco de dificuldade com “aquilo”. Mas, em um dado momento, mesmo ele teve de admitir que certas coisas eram meio ultrapassadas; assim como aquele penteado que seu pai insistia em usar era ridículo, olhou para si próprio, tirou as nádegas do assunto duro e foi falar com a menina observada.
Pôs-se a fitá-la de pé, em frente a sua mesa, a centímetros de distância.
Nos próximos dois minutos, ela não pareceu notá-lo.
Depois afastou as madeixas loiras e levantou a cabeça.
— Oi?
— O-oi, Cecília — sorriu, como fazem todos os meninos bobos, e torceu para controlar a cor das bochechas.
Ela retribuiu.
Depois quebrou o ânimo.
— Eu te conheço?
— Conhece.
— É?
— Não se lembra de mim?
— Eu-eu...
— Da FEM?
— É?
— Engenharia Mecatrônica?
— Aaah... da FEM!
— É, da FEM!
Seguiu-se um silêncio desagradável, em que a ausência da lembrança pulsava-lhe pelos olhos desesperados.
— A gente fez Cálculo III juntos, não foi? — ela arriscou.
— É, fez, sim.
— Lembrei!
— E Cálculo I, II e IV também.
— É?
— Eu sou 03.
— Eu também.
— Então!
Ela tentou se fazer de casual, tirando um dos muitos laços dos cabelos e se pondo a encaixá-lo no mesmo lugar.
— Ah, puxa vida, como pude esquecer! — a sinceridade tinha saído correndo — Você era da minha turma!
— Isso, isso!
— Você sentava atrás de mim.
— Na frente.
— Isso, na frente — sorriso.
— Do lado do Flavinho Piriquito, lembra?
— Grande Flavinho Piriquito, lembro sim! Daquela vez que ele soltou a galinha na sala?
— Ele mesmo!
— Então, era eu o dono do estojo cheio de pena.
— E tinha o Sérgio Matraca também.
— É mesmo.
— Você sentava atrás dele.
— Na frente.
— Isso, é. Lembrei, já — sorriso.
— Lembrou?
— É, senta aí, Al... Al-Albeeeer...
— Túlio — puxou a cadeira —. Obrigado.
Prendeu a respiração e tornou a soltá-la, bem, bem lentamente.
Fitou a cadeira. A cadeira. Imaculada, divina, sua porta-aberta para a realização de todos os seus sonhos mais românticos. Aquele seria apenas o início de um relacionamento duradouro e feliz, em que comprariam uma belíssima casa na praia, teriam sete belíssimas filhas loiras, todas cheias de fitas nos cabelos e nascidas em progressão aritmética, e comprariam uma belíssima cadela chamada Naná — sem contar, é claro, seus belíssimos filhotinhos, cada um dos quais nomeado a partir das seguintes quatro vogais faltantes.
Seria lindo. Belíssimo.
Acima de tudo, compensava o fato de ela não ter a mínima idéia de quem ele se tratava. Sem dúvidas, isto era mero detalhe. Túlio já tinha calculado a possibilidade — mais rápido ainda do que tinha calculado os micróbios do achocolatado — de Cecília se apaixonar perdidamente por ele à primeira vista, e isto, levando-se em consideração a veracidade do caminho contrário, era altamente considerável — na verdade, tão certo quanto atestar a existência dos complexos micro-seres em sua bebida.
Olhou a cadeira mais uma vez. Fazia questão de ter aquele objeto gravado em sua memória para todo sempre, como marco da maior conquista da sua vida, o avanço de seu lado sentimental, a evolução de seu lado homem, o cumprimento de seu papel na seleção sexual darwinista, o desabrochar de um novo amor, o nascer da —
— Ai!
Voltou ao mundo com uma cotovelada.
Era Glória.
— Opa, sinto muito, moço — mas não sentia nada —. Que que ‘cê falou, mocinha?
— A conta, por favor.
Ele nem ao menos tinha sentado.
Sua esperança se foi com o rebolado de Glória.
— Você pediu a conta? — resolveu confirmar.
— Pedi.
— Mas por quê?
— Tenho que sair.
— É tão cedo!
— Meu irmão está vindo me buscar. Em quinze minutos, ele estará aqui.
— Mas a gente nem conversou.
— Fica pra outro dia — pegou a bolsa com a mão direita, a carteira com a esquerda e o mesmo sorriso sem-graça e ausente-de-lembranças com a boca.
— Que dia?
— Outro dia.
— Mas que outro dia?
— Ah, sei lá. A gente se vê por aí.
— A gente vai se ver, então?
— Então, é...
— Posso te levar onde você tem que ir agora. Liga pro seu irmão, eu te levo.
— Você não pode me levar.
— Por quê?
— Você não sabe me levar.
— Lógico que sei!
— Não sabe.
— E pra onde você vai?
— Pros Estados Unidos.
Silêncio.
Silêncio profundo, em que Túlio sentiu vontade de se suicidar dolorosamente.
E levá-la junto, sempre.
— Não.
— Não o quê?
— Não pode ir.
— Tenho que ir.
— Preciso conversar com você.
— Já disse que não posso.
— Preciso.
— Já disse, meu irmão —
— Acontece que eu te amo!
Teve a impressão de que tinha falado essa última sentença muito alto, mais alto do que o normal esperado para restaurantes, ou lanchonetes daquele nível. E, realmente, não foram poucas as pessoas que viraram a cabeça, desejosas pela declaração de amor.
— Você... me ama?
— Mais do que tudo nesse mundo. Não, não, mais do que tudo nesse universo! — estendeu os braços para os lados, para dar uma certa sensação de grandeza — Eu moro na solidão há cinco anos, Cecília. Te vejo passar do meu lado na faculdade, e nunca tive coragem de chegar em você, falar um oi, passar cola, pedir uma caneta emprestada. Foi massacrante. E agora estou aqui na sua frente, falei oi, até puxei uma cadeira pra sentar do seu lado, imagina só! Eu não posso – não devo – deixar isso passar. Eu te amo, Cecília!
Achou que terminar com a mesma frase fosse soar impactante.
Ela estava com cara de impactada.
— Eu... não sei o que dizer... Isso é...
Os dois encheram os pulmões.
— ... ridículo. Não acredito que ouvi um negócio desses.
— Quê?
— Ridículo. Nós nunca nem conversamos!
— Foi só falta de oportunidade.
— Não fomos nem colegas de sala, e olha que se você fosse meu amigo...
— Mas o que é a amizade se comparada a um verdadeiro amor?
— Você não tá falando isso...
— Lógico que estou.
— Você nem me conhece!
— Eu... é claro que – tá, ta, talvez eu não conheça mesmo! Mas isso não impede que eu converse com você.
— Impede que você me ame, só isso.
— Não peço que acredite em mim. Mas somos parecidos, posso provar. Eu te amo. Eu só quero conversar. Por favor.
Cecília ponderou. A conta não tinha chegado. Seu irmão provavelmente atrasado. Lá fora estava chovendo, e ela não estava carregando qualquer guarda-chuva. A conclusão foi rápida.
— Você tem menos de 10 minutos — e cruzou os braços.
— Calma, não consigo trabalhar sob pressão.
— Trabalhar?
— Pensa que é fácil conversar com a garota que se gosta?
— Partindo do pressuposto que a conversa anteceparia o gostar...
— O que não é o caso.
— Mas deveria ser.
— Mas não é.
— Mas deveri —
— Ssssssssh! — balançou os braços — Eu preciso de concentração!
Ela bufou, ele inspirou o ar com força, ambos ruidosamente.
Passaram-se alguns segundos. Dos longos.
As cabeças das poucas pessoas curiosas com o assunto do suposto casal já tinham desistido e se voltado a seus pratos de comida quando Túlio resolveu começar.
Desde o princípio, lógico.
— Oi., Cecília.
— Ahn... oi?
— Tudo bem?
— ...
— Tudo?
— Nós já passamos por essa parte.
— Eu sei.
— Então.
— É que se eu não começar desde o começo, não consigo.
— O quê? Conversar?
— É.
— Por quê?
— Eu...
— ...
— Eu tenho vergonha, oras.
— Mas nós já conversamos.
— Não importa.
— Você até se declarou!
— As pessoas são levadas a agirem de modos inesperados quando postas em uma situação de risco.
— E agora está com vergonha.
— É. Eu sou meio tímido.
— Ah... que bonitinho.
O mundo pareceu parar de girar. As estatísticas do amor à primeira vista de repente pareceram voltar a seus lugares.
— Sério? Mesmo? Você me ama?
— Quê? Eu não disse nada disso!
— Ah. Mas foi perto, vai.
— Não, eu só disse que era bonitinho porque é difícil ver meninos assim hoje em dia.
— É — baixou a cabeça — normalmente eles são menos panacas que eu.
— Não diga isso.
— Mas é.
— Panacas são esses caras que chegam de qualquer jeito.
— E eu, que nem chego?
— É só questão de se acalmar.
— Acontece que sou muito ansioso.
— É?
— Semana passada, por exemplo, mal consegui dormir à noite por causa da pré-estréia de...
— De?
— Nada. Você não deve gostar.
— Fala!
— Star Wars. — corou — A Vingança dos Sith.
— Não gosto? Adoro!
— Adora?
— Fui no cinema na pré-estréia também, à meia-noite, super legal!
— Foi, não foi?
— Adorei, apesar de todo mundo ter falado mal.
— Convenhamos que aquela cena do Anakin foi meio forçada...
— Meio Frankenstein, né?
— “Nooooooooo!” com aquelas mãos pra cima, onde é que o George Lucas estava com a cabe — Ai!
Segunda cotovelada.
— Sua conta, moça — resmungou Glória com o nariz torcido, e saiu.
Levou o assunto consigo.
O ar inseguro pairou entre eles durante alguns segundos, até um deles voltar à realidade do acontecimento.
— Ai, a conta!
Cecília abriu a bolsa e lamentou o conteúdo da carteira:
— Droga. Estou sem trocado.
— E aqui eles demoram um bocado pra trazer de volta, né?
— É, você viu só a conta.
— É.
— Que droga...
Túlio demorou um pouco mais a voltar à dita realidade.
— Puxa, que grosseria a minha – deixa que eu pago.
— Não precisa.
— Lógico que precisa.
— Não precisa.
— Precisa.
— Não precisa.
— Precisa.
— Não precisa.
— Pre — tirou a carteira do bolso — ci — escolheu uma nota amassada — sa — fechou a caderneta —, e fui mais rápido, há-há.
O silêncio inseguro fez vento quando Glória voltou à mesa rebolando.
— Pronto?
— Vamos ficar aguardando o troco — o sorriso de Túlio foi amarelo.
Glória foi embora, eles ficaram.
— Então, voltando...
— Não dá pra voltar.
— Não?
— Não. Perdi o fio da meada.
— Tudo bem.
— Desculpe.
— Não, tudo bem.
Silêncio.
Ele limpou a garganta.
— Certo. Oi, Cecília.
— Oi, Alber —
— Túlio.
— Desculpa. Oi, Túlio.
— Tudo bem?
— Tudo, e você?
— Tudo.
Ele abaixou a cabeça, ela permaneceu a esperar.
Talvez fosse eternamente, não fosse ela interromper o nada:
— Agora você deveria puxar o assunto, entendeu?
— Certo.
— ...
— ...
— Túlio..?
— Você vem sempre aqui?
— O quê — a risada a deixou meio descabelada — foi isso?
— Ah, eu não sabia o que dizer, e você ficou me pressionando, daí —
— Essa é a cantada mais manjada do mundo!
— Quê, meu pai falou isso pra minha mãe quando eles se conheceram!
— E ela caiu?
— Acho que ela só não tinha o que fazer e resolveu namorar com ele.
— Sobre cantadas idiotas, meu pai fez a mesma coisa com a minha mãe.
— Qual?
— “Você acredita em amor à primeira vista?”.
— Essa é legal.
— Clichezinha também, vai.
— Você acredita?
— No quê? Amor à primeira vista?
— É.
— Não sei...
— As possibilidades são bem maiores quando o mesmo já aconteceu com a outra pessoa, sabia?
— É? Você calculou?
— Usei muitos guardanapos daqui pra isso.
— Então você vem aqui fazer contas, é?
— Sou engenheiro, oras.
— Mania ruim a nossa, hein?
— Você também?
— O quê? Faço contas absurdas?
— É.
— Você sabe quantos micróbios tem o suco de laranja daqui?
— Quantos?
— Em média de um trilhão e meio.
— Nossa, mas não chega nem perto do achocolatado. É assustador.
— É leite, tem que levar em consideração isso.
— Mas você já viu a xícara deles? Eles devem lavar com cuspe de — Ai!
Terceira cotovelada. O lugar do ataque já nem ficava mais dolorido.
— Seu troco.
— E o recibo?
— Recibo?
— É. Da conta.
— Já vou trazer o seu recibo — o tom de voz de Glória estava ressentido e rancoroso.
Cuspiu no primeiro copo que viu em cima do balcão, depois.
Cecília afinou a linha da boca.
— Começar de novo?
— É... acho que sim...
— Isso está ficando divertido — tirou sarro.
— Então! Você podia ficar.
— Não posso. As passagens já estão compradas.
— Você... vai ficar lá quanto tempo?
— Não sei.
— Ahn.
— ...
— ...
— Mas eu estou indo só pra espairecer um pouco.
— Seu chefe já te deu férias?
— Eu... eu não fui efetivada no meu estágio, depois da faculdade.
— Ah...
— ...
— Sinto muito.
— Que é isso. Eu nunca me dei bem na fábrica, mesmo.
— Imagino. Você não é do tipo. Eu também não gosto.
— Mas você tá trabalhando?
— Sou projetista, trabalho quieto.
— Taí uma coisa legal!
— É bem legal.
— É, né?
— É.
— ...
— ...
— Gosto dessas coisas que usam a imaginação — ela emendou.
— Eu também. Por isso, eu...
— Você..?
— Você vai achar idiota.
— Não, fala.
— Mas é tonto.
— Pára com isso. Fala.
— Eu escrevo.
— Você escreve? O quê?
— Ah, contos.
— Que tipo de contos?
— Ah... contos... de ficção científica.
— De verdade?
— De verdade.
— Sabe que eu escrevo, também?
— É?!
— Mas eu ainda não publiquei nada, nunca consigo terminar uma história... você publica em algum lugar?
— Só no meu blog. Tenho vergonha — baixou a cabeça — que alguém leia.
— Me passa o seu blog.
Cutucou a orelha para saber se tinha ouvido direito.
— Quê?
— Me passa o seu blog.
Então devia ser interferência dos seus outros pensamentos paralelos, ininterruptos.
— Você... não tá...
— Tô. Eu adoro ler. Leio muitas coisas na internet. E acho que você — sorriu — devia aprender a deixar de ter tanta vergonha.
— Puxa. E-eu nem sei o que — Ai!
— Ai!
As cotoveladas agora tinham sido em lugares diferentes, e por isso doeram mais. Ficaram roxas, depois. Simetricamente.
Era Glória.
Ela trazia o recibo da conta.
E a existência do mundo real, cheio de buzinas intermitentes de um irmão que esperava pela caçula na porta da lanchonete.
— Tenho que ir — pegou a bolsa —, senão vou perder meu vôo.
— Mas você não queria o endereço do — ?
— Não, ó, vamos fazer o seguinte...
Ele não conseguia se conter de êxtase: fogos de artifício artificiais ardiam diante de seus olhos. Quando Cecília lhe estendeu o papel, seu branco ficou pontilhado de manchas coloridas e aleatórias.
— Meu celular. Me liga.
E saiu.
Mas voltou correndo, toda molhada de chuva de verão.
— Espera. Tenho que te perguntar uma coisa.
— O quê?
— A faculdade, as contas malucas, os contos, Star Wars. Como você começou a gostar de mim? Como você sabia que éramos tão parecidos?
— Eu não sabia.
— Não?
— Eu só acreditei no amor à primeira vista. E nas probabilidades.
— Mesmo..?
— Na verdade, sempre que eu te via, aqui ou na faculdade, você estava lambendo a ponta da caneta, daquele seu jeito, fazendo palavras-cruzadas. E eu adoro, simplesmente adoro — Túlio corou — palavras-cruzadas.

*****

Era logo o começo do expediente, oito horas da manhã. Glória engoliu o ar e a reclamação por um bocejo largo e longo, de quem forçosamente perdia o melhor do sono. Para ela, começar de manhã era começar mal. Aquele seria um péssimo dia, da cor do pano limpa-balcão. Tirou-o do avental amarelado e pôs-se a executar sua interminável tarefa preguiçosa.
Escutou o telefone berrar sete vezes, como se propositalmente quisesse arrancar o restinho da moleza matinal. Bufou. Escutou um “alô” ali por perto.
— Alô? Quê? É, é daqui mesmo. Quê? Não, eu não tava aqui ontem não. Ontem tava a Glória. Peraí. — e o tom subiu: — Õ, Glóóóóóória! Telefooooone!
— Fala aí, Cida!
— Mas é pra você!
— Tenha compaixão, vai! Nem acordei direito ainda!
E só porque não queria ser (mais) xingada (que o normal), Cida se manteve na linha. Ouviu e tornou a chamar a outra:
— O homem aqui tá perguntando se você recebeu o pagamento de um cliente ontem.
— Eu não, né? A lanchonete recebeu. Eu só recebo salário.
— Ele quer saber da conta.
— Que tem? A conta dele? Ele não pagou?
— Ô, moço — voltou ao telefone —, você não pagou ontem, é? — mexeu a cabeça e tirou o ouvido — Ô, Glória.
— Fala, criatura!
— Ele quer saber da conta de uma moça.
— E eu servi umas cinqüenta ontem. Desliga isso, vai.
— Uma moça loira, ele disse.
— Quarenta e cinco era loira.
— Ô, moço, não dá pra saber, é muita gente. Que é? Que é? Calma, poxa, peraí! — e tentou uma última vez: — Ô, Glória!
— Caramba! Que foi?
— O cara ta me xingando aqui, não pára de gritar que tinha um número naquela conta!
— Claro que tinha, o valor da conta, mulher!
— Não, ele tá falando de um telefone. Que tinha um número de telefone no papel!
Palavrão.
Passos largos e compassados, firmes e mal-humorados.
— Cida.
— Quê?
— Vai te catar.
Apareceu por trás da colega e apertou o gancho contra o dedo, aliviando toda a desgraça da vida.

terça-feira, 27 de maio de 2008

Harry Potter inglês ou brasileiro?

Disponível em www.potterish.com

Lembro-me perfeitamente bem da primeira vez em que pus as mãos em um “Harry Potter” britânico. Era 2003, ano especial por marcar o lançamento do quinto livro — obviamente, primeiro em inglês. Ah, na época eu já era uma louca fã incondicional, jamais poderia suportar outros seis meses a mais para ler a versão brasileira. Era tortura! Respirei fundo e fiz jus ao meu curso de inglês. Consegui os quatro primeiros e jurei terminá-los antes do dia esperado.

Qual já não foi minha surpresa logo nas primeiras páginas, quando vi o Duda mimado se transformar em um estranho Dudley, o Tio Válter mal-humorado ser um Uncle Vernon mal-humorado e aquele aparelhinho mágico que sugava as luzes dos postes, o tal do “apagueiro”, virar um deluminator sem nenhuma semelhança lexical com a tradução do português brasileiro. Pois é. Essas são só algumas das mudanças (que variam entre sutis e muito radicais, derivações e neologismos) que eu enfrentei durante o desafio proposto a mim mesma, e que, aliás, são frutos de muitas discussões pela internet.

Há quem odeie Lia Wyler com todas as suas forças, e há quem leia suas traduções sem ao menos saber seu nome. Pois, sim, eu particularmente não acredito que quem tenha condições (tanto oportunas quanto relativas ao conhecimento da língua estrangeira em questão) de ler uma obra na língua original prefira a traduzida, ao mesmo tempo em que quem não as tenha saiba identificar os defeitos da tradução. A senhora Wyler – doutora em Tradução pela Universidade de São Paulo – já segue a carreira há muitos anos e certamente sabe dos aspectos do público leitor do país: há quem leia traduções, e há quem as deteste.

Até a época em questão, eu me encaixava muito bem no primeiro grupo de pessoas. Depois de ter podido comparar as duas versões, era aliada ao segundo. Hoje, depois de ter passado a acompanhar a saga somente em inglês até seu fatídico final, digo que pretendo abrir uma nova comunidade: a dos defensores dos tradutores.

E não é porque sou considerada suspeita para falar, não! Traduzir uma obra literária é um trabalho complexo, uma arte. Afinal, um texto não é só um monte de palavras jogadas: elas são unidas de forma elegante e significativa, de forma a transmitir imagens, pensamentos e emoções. Um romance não é a mesma coisa que um manual de uma máquina de lavar roupa; suas intenções são diferentes, seus sentimentos são diferentes e o modo como devem ser lidos é diferente. Portanto, não se pode esperar que a tradução de um romance seja feita do mesmo modo que a do manual de uma máquina de lavar roupa – não basta somente que haja a correspondência de palavras entre as línguas (simples motivo que me leva a repudiar as traduções amadoras divulgadas vastamente na internet, à época do Deathly Hallows); espera-se as mesmas sensações, as mesmas idéias, a mesma espontaneidade — ou melhor, fica-se esperando, na verdade.

Uma história ficcional sai de dentro de seu criador, de modo a fazer parte dele, deixar de ser somente criatura; será reflexo de um período, de uma sociedade e de um indivíduo-escritor. Sua tradução virá também de um segundo indivíduo-escritor, o tradutor, que inevitavelmente espelhará, nas palavras do outro, suas próprias (diferente do que acontece com as instruções da máquina de lavar, que não passam das próprias instruções: uma guia atemporal de ninguém para qualquer um). Cada tradução é tão única quanto o texto original.Nestes parâmetros, o que é uma boa tradução?

Para responder isso, vamos primeiro observar os três pontos mais controversos do “Harry Potter” brasileiro, e depois partiremos do vago princípio que rege a vida: tudo é relativo e justificável.




1)O primeiro ponto, e que sempre me incomodou mais do que qualquer outra coisa referente a este assunto, são os nomes próprios. Os mais gritantes (o Dudley que virou Duda, o Vernon que virou Válter, o James que virou Tiago, o Bill [carinhoso para William] que virou Gui [para Guilherme], o Kingsley que virou Quim, a Lavender que virou Lilá, o Lee que virou Lino, o Marvolo que virou Servolo) e os mais parecidos (a Lily que virou Lílian, a Bellatrix que virou Belatriz, o Peter que virou Pedro, o Ron que virou Rony, a Ginny que virou Gina, o Charlie que virou Carlinhos, a Nymphadora que virou Ninfadora, o George que virou Jorge) rodeiam o grupo mais desconfortante dos que tiveram seus “us” finais cortados: Albus (Alvo), Severus (Severo), Remus (Remo), Rubeus (Rúbeo), Lucius (Lúcio), Cornelius (Cornélio), Mundungus (Mundungo), Rufus (Rufo), Regulus (Régulo), Xenophilius (Xenofilio), Argus (Argo), Dedalus (Dédalo), Scorpius (Escórpio) — só para citar a listinha que eu sempre carrego no bolso. Talvez alguns deles sejam realmente justificáveis, como Kinsgley ser meio difícil de se pronunciar, ou o Tiago que realmente corresponde a James e, obviamente, o Servolo criado para se manter o jogo de palavras de Tom Riddle (felizmente inalterado) no segundo livro. O resto, no entanto, são só referências latinas perdidas em aportuguesamentos sem-sentido – oras, por que raios Remus Lupin teve de virar o feio Remo Lupin, e o ridículo Scorpius Malfoy se transformar no (ainda mais) ridículo Escórpio?!

(Neste tópico, chega até ser engraçado notar como o Sirius Black se manteve original. A primeira vez que seu nome foi mencionado na série, como todos sabem, foi logo do primeiro capítulo d’”A Pedra Filosofal”, quando Hagrid conta a Dumbledore que “o jovem Sirius” tinha lhe emprestado a moto voadora. Muito possivelmente a tradutora não achou que o personagem teria tanta importância na trama posteriormente, e resolveu deixá-lo do mesmo jeito esquisito com que tinha aparecido. Outra possibilidade é a de que Sírio Black seria absurdo demais para ser no mínimo considerado).

Muito infelizmente, as referências não se perderam somente nos nomes de personagens. Hogwarts e Hogsmeade faziam um lindo trio com o bar de Aberforth Dumbledore, o Hog’s Head, traduzido literalmente como “Cabeça de Javali”. Eu considero uma pena que a senhora Wyler não tenha mantido o nome original (porque, obviamente, chamar o castelo de “Verruga de Javali” e o vilarejo de “Campina de Javali” já é totalmente desconsiderável) tão tarde na série.
Outra mudança lamentável – porém aparentemente incontornável — é a dos nomes das provas que os estudantes enfrentam em seus quintos e sétimos anos. Os O.W.Ls e os N.E.W.T.s (brincadeira com as palavras “coruja” e “salamandra”, respectivamente) perdem o tom mágico ao serem chamados de N.O.M.s e N.I.E.M.s, siglas do significado literal. Que pena, novamente…

2)O universo de Jo Rowling é fantástico, no sentido mais fictício da palavra. Quem já leu “O mundo mágico de Harry Potter” de David Colbert certamente sabe da habilidade que a nossa querida escritora tem de moldar lendas e mitos (principalmente os europeus) dentro do mundo bruxo. Ali, as vassouras são usadas como meio de transporte, unicórnios são sagrados, dragões tem de ser domados, corujas enviam cartas, varinhas são feitas de madeira especial e as poções levam ingredientes inusitados.

Os goblins, por exemplo, do banco de Gringotts (Gringotes, em português, por uma simples questão fonética), criaturas rabugentas e desconfiadas que lidam com metais e mineração, pertencem a muitas histórias folclóricas. Lia Wyler optou por chamá-los de “duendes”, nome seguramente mais conhecido no Brasil do que o original – no entanto, tal mudança distorce o mito intencionado porque, na realidade, duendes são muito diferentes de goblins. Os primeiros são brincalhões (talvez mais parecidos com o que Lia chamou de “diabrete da Cornualha”, no segundo livro), enquanto os segundos são sérios e trabalhadores.

E o trasgo que Quirrell solta no Dia das Bruxas? O que é um trasgo? O meu dicionário Aurélio define que este substantivo masculino é “uma aparição fantástica; diabrete; duende”, o que visivelmente não tem NADA a ver com a lenda européia dos trolls (palavra original), seres muito burros, violentos e mal-cheirosos (repetição desnecessária para quem já leu Tolkien ou Eoin Colfer).

O vampiro que se passa por Ron no sétimo livro também, na verdade, não é um vampiro (o que não é realmente difícil de se acreditar, visto que nossas histórias vampirescas certamente não os tratam como criaturas viscosas que só gemem e babam) e sim um ghoul, demônio que se alimenta de cadáveres (agora, talvez a descrição se encaixe melhor ao nome).

Também existem muitas palavras criadas: Quidditch (Quadribol), Thestrals (testrálios), Dementor (dementador), Blast-Ended Skrewt (explosivim), Nargles (nargulés), Merpeople (sereianos), to apparate/ disapparate (aparatar [cujo significado é "enfeitar", em português]/ desaparatar), além de muitas outras modificadas por força maior de leitura (para confirmações, consultar “Animais Fantásticos e Onde Habitam” em português).

3)Por fim, a parte do trabalho de Lia Wyler que mais preocupou fãs nos últimos meses antes do lançamento d’”As Relíquias da Morte: o título dos livros. Particularmente, acho que somente três deles são discutíveis (não gostaria de entrar no debate Philopher’s Stone versus Sorcerer’s Stone).

Inicialmente, daremos conta do segundo livro. Quando Hermione Granger levanta a mão durante a aula de História da Magia, no capítulo nove, ela quer saber sobre a lenda da Chamber Of Secrets, literalmente “Câmara dos Segredos”, traduzido como “Câmara Secreta”. Sim, não se pode contestar que o lugar criado por Slytherin tenha sido realmente secreto (senão, poderia ter sido achado antes); todavia, também não se pode negar que o nome em inglês faz alusão aos mistérios selados na câmara, seus segredos, e não a sua localização. Distorção semântica.

O próximo livro problemático, o sexto, já me até foi motivo de bronca. Em inglês, The Half-Blood Prince faz um jogo muito divertido com a palavra Prince, primeiramente entendida como “príncipe”, e depois como um sobrenome (um comentário à parte, às vezes eu gosto de pensar que o título é, na realidade, “Harry Potter e Severus Snape”). O trocadilho, porém, não pôde se manter na versão brasileira (acredito que “Eileen Príncipe” acabaria com a surpresa do final — e, decididamente, um nome assim seria deveras estranho). Talvez por isso (e porque, convenhamos, na verdade a participação do Príncipe Mestiço, o Snape da época escolar, é praticamente um detalhe no enredo) a tradutora tenha escolhido mudar o título para “O Enigma do Príncipe”. Uma saída até que boa, mas que não impede que meus dedos digitem “Harry Potter e o Príncipe Mestiço” sempre que eu me refiro ao sexto livro (eis o motivo da bronca…).

Por último, a saída da senhora Wyler para Deathly Hallows, para mim, foi simplesmente brilhante. O título brasileiro, “As Relíquias da Morte” dá um duplo-sentido que não existe na versão inglesa: um primeiro em que depreende que as relíquias são mortais, e um segundo que dá a entender que elas pertencem à Morte – o que, aliás, é muito mais próximo ao enredo do que o original pôde alcançar.




Talvez estas sejam as questões mais polêmicas em torno da tradução oficial. E serão elas contornáveis, aceitáveis?

Como eu mesma disse nesta coluna, o principal objetivo de um tradutor é o de tentar criar uma nova versão em língua estrangeira tão natural quanto a original, capaz de passar as mesmas emoções, as mesmas imagens, continuar surpreendendo o público como da primeira vez em que veio ao mundo. Em relação ao público brasileiro, não se pode ter dúvidas de que a série Harry Potter conseguiu alcançar tanto a mágica literal quanto a abstrata. Caso contrário, certamente o contingente de fãs brasileiros do nosso herói seria consideravelmente menor. Mas não: são muitas as pessoas que leram e releram os livros em português, aguardaram ansiosas os lançamentos no país, passaram longe das traduções amadoras na internet e, assim como eu, se encantaram pela primeira vez com a história através da língua portuguesa.

Ao mesmo tempo em que foi capaz de mantê-lo, Wyler ainda conseguiu criar um novo Harry Potter (”cada tradução é tão única quanto o texto original”), um Harry Potter brasileiro. Pois sim, suas mudanças, muitas vezes drásticas, são justificáveis a partir da consideração de um público leitor que não dominasse a língua inglesa e fosse infanto-juvenil (eu sei e concordo, como muitos fãs, que esta classificação é terrivelmente errada em muitos sentidos; no entanto, é fato que Lia Wyler pôs as mãos primeiro n’”A Pedra Filosofal”, e não n’”As Relíquias da Morte”, dois livros extremamente diferentes um do outro, e que ela, assim como os editores, jamais poderia saber quão “adulta” se tornaria posteriormente). Ora, ela conseguiu muito bem criar um livro agradável e de fácil leitura para uma população que, definitivamente, prefere chamar dungbombs de “bombas de bosta”, e não “bombas de esterco”.

(O único ponto a que talvez eu ainda seja irredutível é em relação aos nomes próprios — os elegantes Severus, Remus, Albus e Lucius — modificados de forma cruel e sem motivo aparente).

Então, quando voltamos à pergunta proposta — “O que é uma boa tradução?” —, não posso pestanejar para dizer logo: Harry Potter. Talvez ela incomode aos conhecedores da língua inglesa — mas a eles, só posso dizer para irem ler os originais. O Harry Potter britânico sem dúvidas reserva muitos prazeres para aqueles que gostam de referências histórias e jogos de palavras; mas o Harry Potter brasileiro, com o toque especial da nossa língua (pois eu duvido que qualquer leitor fosse ficar feliz ao se deparar com um Blast-Ended Skrewt no meio da aula de Trato das Criaturas Mágicas!), consegue manter a magia da história e dos neologismos, e não se deixa ficar para trás.

Crianças, jovens ou adultos — ingleses, americanos, brasileiros, espanhóis, japoneses, indianos! — são todos bem-vindos ao mundo de Harry Potter.

sábado, 12 de janeiro de 2008

Desgraçada

Sinopse: des.gra.ça.do: [Part. de desgraçar.] Adjetivo.
1.De má sorte; infeliz, desventurado, infausto.
2.Muito pobre; miserável, indigente.
3.Inábil, incapaz.
4.Vil, desprezível, abjeto.
5.Fam. Levado, arteiro, traquinas, travesso. [Sin. (bras. gír.), nesta acepç.: desgranido.]
(Dicionário Aurélio)
Categoria: Originais
Gênero: Darkfic, Tragédia
Data: janeiro de 2008
Palavras:
Alertas:
tema ligado a crendices populares.
Nota 01: qualquer erro ortográfico é proposital.
Nota 02: inspirado em um programa independente de um canal regionla da tevê aberta.
Tocou uma, duas, três vezes até Bebel atender.
— Alô?
— Ai, Bebel!
— Que que foi, Ci?
— Descobri, Bebel. O maldito me trai.
— Nããão! Tem certeza, o Adílson?
— O próprio, mulher, o próprio. Lembra que ontem ele disse que ia jogar futebol, que era pra ficar em casa? Foi jogar coisa nenhuma, foi se encontrar com a vaca da firma dele!
— Qual delas?
— Aquela loira oxigenada lá, a tal de Vivi. Tô com uma foto dela na minha mão! Ele ainda tem a cara-de-pau de pôr uma foto dela na carteira dele! SEM-VERGONHA!
Sssh, mulher, fala baixo, vai que o homem ouve!
— Que nada, ele tá no banho — mas abaixou o tom da voz — Eu vou matar aquela desgraçada, Bebel, juro que vou.
Cruzes, não fala isso, não! Larga ele de uma vez, e só!
— Acha que é fácil, é? E quem é que paga as conta?
Você, ora! Té parece que cai a mão trabalhar.
— Ih, é ruim, hein? Eu não vou perder o programa da Palmeirinha por causa de homem, não. Se tem mulher querendo roubar o homem que é meu... ah, vai pagar, e caro!
Ai, Ci...‘Cê tá mesmo certa disso?
— Não acredita em mim, não? Eu vou matar aquela desgraçada, juro que vou.
No outro lado da linha, a amiga mordeu o lábio inferior.
Então escuta, Ci, escuta. Tem uma mulher aí perto da sua casa, acho que uns três quarteirão pra baixo. Ela chama Cléa Odim.
— E que que tem?
Ela é Mãe de Encosto, vê gente no seu caso toda hora.
— Macumba, Bebel?!
Sei lá que que é, Ci, sei lá. Mas sabe — e agora a outra teve de apertar mais o ouvido contra o telefone, a fim de escutar o sussurro gemido —,
a minha vizinha foi despedida e foi falar com a mulher. No dia seguinte, a patroa dela apareceu mortinha!
Não precisou ouvir mais.
— ‘Cê sabe o endereço certinho?

*****



Cibelly – dois ‘eles’ e um ‘ipslon’, com muito orgulho – era uma dona de casa de uma tímida cidade no interior do estado de São Paulo. Carregava nas costas 46 anos de sacrifício e um marido domingueiro preguiçoso, operador de empilhadeiras e, mais recentemente descoberto, traidor. Gostava dele mesmo assim – afinal, era ele o responsável pelos armários novos da cozinha e suas unhas pintadas em florzinhas. Gostava tanto, aliás, dele (e da mobília embutida), que agora se via completamente disposta a fazer-se de ignorante perante a nova situação, só para mantê-lo feliz (e a cozinha intacta).
Também estava convencida de que a felicidade do marido poderia independer da vida de Vivi. Iria se assegurar disto.
No dia que se seguiu ao comentário de Bebel, esperou dar três horas da tarde, pendurou o avental e desceu os benditos – malditos – três quarteirões. Não teve dificuldade de encontrar o 402 da rua, uma modesta construção com a pintura descascando e telhas quebradas. Passou pelo portão aberto sem conseguir evitar fazer barulho, e desceu pela rampa que guiava à verdadeira casa pela qual procurava: a do terreno dos fundos.
Viu somente uma porta azul nas mesmas condições, e foi nela em que bateu.
— É aqui que a Mãe Odim atende? — gritou.
Com um súbito puxar de madeira emperrada, um rosto de mulher surgiu diante de seus olhos. Pertencia a um corpo gordo e quadrado, escondido por cortinas floridas, e era envolto por mechas cinzentas em um coque apertado.
— A própria — seu sorriso esticava mais do que aparentaria — Entra, querida.
Foi convidada a se sentar em um sofá que em muito combinava com o vestido da senhora, exceto pelo tom bege sujo de poeira. Serviu-se, depois, de um pouco de chá de uma garrafa térmica trazida, e fez força para não se afundar completamente na espuma velha. Para isso tudo depreendeu muita atenção, e por isso até mesmo esqueceu, por um momento, o que tinha vindo fazer em um lugar tão... típico.
— ‘Cê não marcou horário não, né, querida?
A voz feminina a pegou de surpresa, e se o assento não fosse tão fofo, teria pulado.
— Ahn, o quê? Não, não – precisava, dona?
— Na verdade, eu não costumo atender sem horário, não; mas hoje eu tô livre, ‘cê deu sorte. Da próxima vez, é melhor ‘cê ligar — e lhe estendeu um cartão que tirava do bolso dos seios, alargando, ainda mais, a linha da boca.
Cibelly se deteve a observar a apresentação da Mãe por muito tempo, segurando o pedaço de papel com os dedos trêmulos:

MÃE CLÉA ODIM
Joga-se cartas, búzios e tarô
Magia p/ o Amor – resultado 12 horas
Tens dúvida? Tens problema no amor? Casamento em decadência? Inveja no teu caminho? Sofre com problema com o patrão? Teus vizinhos te incomodam? Não encontra teu lugar na família? Não importa o teu problema. Com apenas uma consulta você encontrará à solução.
HORÁRIO DE ATENDIMENTO: das 8:00 às 20:00hs, todos os dias, inclusive domingos e feriados.
ATENDIMENTO COM HORA MARCADA.
Fone: (19) 3452 —

— Isso tudo é medo, querida?
Não deu tempo de ler o resto. Amassou um pouco o panfleto com o susto e logo já se pôs a guardá-lo no bolso da saia, respirando de modo ofegante.
— Eu? — seu tom era despropositalmente irônico — Magina!
— Ora, ora... Tem que ter medo não, querida. Eu sou profissional, faço isso há 20 anos. Te garanto que você tá bem.
— Escuta — e agora se aproximou da senhora, quase sussurrando em seu ouvido —, o que exatamente a senhora faz?
Cléa Odim escancarou a boca de um modo assustador, revelando perfeitamente o conjunto de seus dentes mal-cuidados, ao mesmo tempo em que deixava escapar o som ardido de algo que raspava – na verdade, gargalhava.
— Minha filha, minha filha... quando a gente morre, pra onde você acha que a gente vai?
— Pra... Deus.
— E se a pessoa tiver medo? E se ela for muito ligada ao material? E se ela for baixa demais pra se elevar, pra subir, pra continuar? Que que ‘cê acha que acontece?
O coração de Cibelly palpitava demais para que ela pudesse formular qualquer resposta inteligível.
— Quem não se desliga da Terra, filha, na Terra fica. Esses espírito fica vagando por aí, olhando a gente, tentando falar. Às vezes eles apronta. Eles gosta de se divertir às nossas custa, gosta de nos enganar. Gente boa eles não são, senão não tava aqui. Eles fica aqui procurando diversão... e o meu trabalho, filha, é dá essa diversão pra eles.
— A senhora... fala com eles?
— A gente, Mães de Encosto, temos nosso meio de comunicação, dependendo do que a gente quiser fazer. E o espírito, filha, vira o encosto. ‘Cê nunca viu gente que, de repente, começa a brigar a família à toa, começa a esquecer às coisas, fica doente de uma doença sem cura? Gente assim, filha, tá com encosto: tá com um espírito encostado nela, e fazendo as coisa ruim acontecer.
— Isso não é perigoso, não?
— Só pra quem leva o encosto, filha — abriu aquele sorrisos assustador mais uma vez — Eu já faço isso há 20 ano, sou profissional.
Por um momento, começou a repassar em sua mente todos os casos estranhos que já tinha visto por aí – as doenças, as brigas, as separações – e considerou fortemente se aquilo tinha mesmo sido obra de um espírito mal – será que essas coisas andam aqui?, arrepiou-se. Não poderia saber. A única certeza no momento era a de que, por mais terrível que a conversa parecesse, não conseguia deixar de considerá-la tentadora.
— Era isso mesmo que ‘cê tava procurando, querida? — pela primeira vez, a Mãe se dirigiu a ela sob um tom sério.
— Era, sim, senhora.
— Então, antes de mais nada, eu preciso saber o seu nome.
— Cibelly Fernanda da Costa Ferreira Pinto. Dois ‘eles’ e um ‘ipslon’.
— Agora — falava enquanto rabiscava em um bloco de papel, provindo também do bolso do seio do vestido —, qual é o seu problema?
— Meu marido me trai, dona.
— Ai, eu já até desconfiava. Deve ser o quinto caso esse mês. A coisa tá feia. Qual é o nome do infeliz?
— Adílson Adalberto Ferreira Pinto.
— E da sem-vergonha?
— Viviane Regina da Graça.
— Hum — pareceu ponderar por um momento —‘Cê já veio aqui com idéia do que ‘cê queria fazer com ele?
— Com ela, dona, com ela. E eu quero matar a desgraçada.
Cléa Odim tirou os óculos do apoio do nariz e permitiu-os ficarem apenas segurados pelo apoio do pescoço. Assim, os olhos nus de qualquer lente, Cibelly tinha a impressão de que podiam lhe perfurar o rosto somente com o olhar.
— Esse é o meu serviço mais caro — disse, por fim.
— Eu pago qualquer coisa, eu dou um jeito depois. A senhora parcela?
— Não, filha.
— Ai, não, tudo bem, então. Eu falo com uma amiga minha, eu sei que ela me ajuda. Eu não posso mais agüentar aquela desgraçada na minha vida, dona. Não dá. Ou ela morre, ou eu não tenho mais paz.
— Você vai ter que fazer algumas coisa pra mim.
— É só falar, dona, eu faço qualquer coisa.
— Então vem.
Não esperava que tamanha massa corporal pudesse se levantar tão rápido. Empurrou-se para fora do sofá com mais força do que poderia prever e saiu correndo a seu encalço, somente alcançando-a muito longe dali, já fora da casa, cinco quarteirões mais abaixo, à beira do riozinho que cortava o fim do bairro. Um mato espesso e muito alto se espalhava por todos os cantos.
— ‘Cê vai catar um sapo.
— Que que você disse?!
— Um sapo, filha, um sapo. O único jeito de fazer o que ‘cê quer é com um sapo. Vai, cata ele e me traz lá em cima. Eu vou tá te esperando.
E deu as costas.
Cibelly soltou um palavrão bem sujo. Não havia escolha, de qualquer forma; o trabalho era feio, precisava de coisas feias. Procurou não prestar muita atenção na vegetação que lhe roçava os joelhos, ou nos mosquitos estúpidos sugados por seu nariz. Chegou o mais perto do rio Jauzinho que pôde, e depois de correr, gritar, xingar, parar para prender o cabelo e escorregar diversas vezes, conseguiu agarrar o “danadinho de bicho nojento”.
Quando voltou à casa, a Mãe Odim lhe aguardava sentava novamente no sofá, segurando uma agulha e uma linha preta. Do seu lado, tinha um vaso pequeno, muito velho e trincado nas bordas, coberto por uma tampa improvisada de lixeira de plástico.
— ‘Cê tá com a foto dela aí? — a mais gorda perguntou, os olhos fixos ao relógio amarelado da parede.
— Tô, sim, senhora – mas será que eu não podia largar esse negócio logo?
— Põe ele no vaso e fecha a tampa pra ele não escapar. Pega a foto dela. Rápido, que a gente não tem muito tempo.
Obedeceu. Foi com mãos trêmulas que estendeu a foto três por quatro de uma moça muito bronzeada, loira, cabelos escorridos de alisamento e sobrancelhas castanho-escuras.
— Escuta com atenção, que eu só vou falar uma vez só. ‘Cê vai pegar essa foto, pôr ela na boca do sapo e costurar a boca do sapo com essa linha e com essa agulha. Costurar, é, com ele vivinho mesmo, e costurar bem forte pra não soltar. Enquanto ‘cê costura, ‘cê tem que ir pensando no quê ‘cê quer que aconteça com a moça da foto. Forte, bem forte, com vontade. Vai lá, filha. Faz.
Longos segundos se passaram até que Cibelly percebesse que aquelas palavras foram ditas para ela. Costurar a boca de um sapo vivo? Quem, eu?
Jesus, o que eu não faço pela minha cozinha!
Abriu a tampa do vaso com cuidado e segurou o animal o mais rápido e firme que pôde. Prendeu a respiração e foi. Morre, Vivi, enfiou a mínima fotografia contra a vontade do outro, você vai pagar por pegar o meu homem, deu o primeiro ponto, você vai morrer, deu o segundo, vai morrer, o bicho tentou escapar, mas ela o apertou com mais força, vai morrer, vai morrer, deu o quarto, o quinto, o sexto... MORRE, DESGRAÇADA!
Por último, deu um nó.
O animal ainda lutava. Deu um tapa na cabeça dele.
— Pronto — sentia-se cansada.
— Ótimo. Agora, filha, guarda ele lá dentro de volta, que a gente vai sair de novo.
Mal teve tempo de considerar a afirmação. Mais uma vez, a Mãe de Encosto deixava a casa sem sinal algum de preocupação ou cortesia. Cibelly respirou fundo e saiu correndo, uma mão em cima, outra embaixo do vaso, os músculos gritando da dor do esforço de andar pela ladeira por muito tempo. Pois, sim, agora iam pelo lado oposto ao de Jauzinho: subiram o declive até muito depois da casa dos Ferreira Pinto, até depois da casa de Bebel, quase perto do centro da cidade. Contornaram o quarteirão envolto por muros altos, acharam um portão de ferro no que parecia ser a parte dos fundos e o empurraram.
Chegaram ao cemitério.
Mãe Odim a segurou forte pelo pulso.
— Ali atrás, quietinha, vem! — sussurrou.
Agacharam-se atrás de um sepulcro grande, alto, verde de umidade. Estavam no canto mais afastado; de lá, circundando-o com a cabeça, tinha-se o mais completo panorama do lugar, cinza de túmulos e colorido de flores.
— Tó — Cibelly recebeu uma colher de sopa — Enterra.
Não questionou, nem mesmo em pensamentos. Morte, morte, morte. Tudo o que passava em sua mente eram flashes de Viviane: primeiro uma Viviane pálida, depois uma Viviane ensangüentada, uma baleada, os olhos escorrendo pelo rosto, a pele se desgrudando dos ossos, os membros apodrecendo até caírem – um grito de horror, uma risada, apavorantes.
Não poderia saber qual era o seu.
Enfiou o sapo vivo no buraco e jogou a terra maldita por cima; marcou o local com um X, pagou a mulher com duas notas de cinqüenta novinhas da venda de coxinha do mês e foi embora para casa, esperar o marido.

*****

Às cinco horas da tarde do dia seguinte, estava colada ao relógio do videocassete. Vinte e quatro horas tinha sido o prazo que Mãe Cléa Odim tinha lhe prometido para o trabalho se cumprisse. Supunha que tivesse deixado o cemitério em torno das quatro e meia; portanto, àquela altura, Vivi tinha que estar mais do que morta. Nem precisou fazer as contas na calculadora. Tinha os dedos presos em figa e os olhos fixos à porta de entrada.
Finalmente, Adílson chegou.
— Oi, homem — atirou-se em seus braços e lhe deu um beijo estalado nos lábios. O marido recuou com o comportamento incomum.
— Tá tudo bem, Ci? Que que ‘cê tá fazeno?
— Ih, não se pode mais mimar o nosso homem, não, é? — emburrou, mas logo sorriu de novo — É que sabe, bem, eu tava com um mau pressentimento... tava preocupada...
— Com o quê?
— Eu tava com uma sensação de que... sei lá, de que alguém da firma tivesse morrido.
Observou-o atentamente, mas não encontrou sinal de tristeza em sua expressão. Era só susto:
— Cruzes, mulher, fala isso não!
— Quer dizer então que tá todo mundo bem lá?
— Tá, sim, graças a Deus.
— Todo mundo vivinho?
— Vivinho da silva — empurrou-a levemente para um canto — Agora dá licença dessas sua conversa estranha, que eu vou tomar um banho.
Cibelly voltou a cabeça novamente para o relógio digital: 17h17. Muito passado das quatro e meia.
— Desgraçada! — xingou e foi para a cozinha planejada.

*****

Eu devia ter pegado a calculadora do Rô, lamentava-se, eu fiz conta errada. Não era pra acontecer ontem. É pra hoje. E de hoje não passa!
Arranjou-se na mesma posição estratégica do dia anterior, colada às cinco horas marcadas e à porta. Quando o marido entrou, nem ao menos conseguiu esconder a expectativa:
— E aí, morreu?
— Quem, Ci, quem?!
— Alguém da sua firma! Tenho certeza que hoje morria!
— Pára com essas coisa, mulher! Morreu ninguém não!
Ela bufou. Pegou a bolsa que estava em cima do sofá e passou por Adílson grosseiramente, enfurecida.
— Onde ‘cê vai?
— Cabou os ovo — foi áspera, e bateu a porta.

*****

Quando deu por si, esmurrava a porta azul dos fundos da casa desmantelada.
— TRATANTE, MENTIROSA! ABRE A PORTA, MÃE ODIM!
Gritou a meia dúzia de palavras bem umas três vezes, até não ter mais superfície onde bater. Tomou fôlego para berrar alguns outros muitos desaforos ensaiados, mas parou no meio do caminho: esperava ter a sua frente a mulher gorda e velha, em seu sorriso esticado de cremalheira; todavia, em seu lugar encontrou um par de sobrancelhas grossas e escuras, frisadas, assustadoramente destoantes do pálido das mechas loiras oxigenadas.
Era Vivi.
— Dona Cibelly, a gente tava te esperando. Pode entrar.
Não saía voz da garganta, não conseguia mover um músculo. Manteve-se estátua à soleira da porta, até ouvir passos ligeiros vindos do corredor ligado à sala.
— Chegou a tempo, filha, que bom! — a gorda ficou ao alcance da vista — Acho que nem preciso apresentar as duas, né? ‘Cê já conhece a Vivi. Ela é minha sobrinha.
Sobrinha.
Não, aquilo era mentira, ela não poderia realmente ser a tia justamente daquela quem ela mais odiava... não poderia contratado justamente a parente... Mãe Odim jamais poderia matar Vivi...
Não, não poderia. Por isso lá estava ela, loiríssima, rindo da sua cara com os mesmo dentes tortos e amarelos da família.
Você chegou a tempo.
Num único instante, entendeu tudo. Não precisou da calculadora. Deixou as cascavéis afundarem-se em suas gargalhadas e saiu correndo.
A ladeira era infinita. Milênios decorreram até que enfim ela alcançasse a entrada principal do cemitério municipal, empurrasse o pesado portão de ferro e encontrasse o sepulcro de dois dias atrás. Sua espinha congelou. O X não estava no mesmo lugar.
Cavou a terra suja com as próprias mãos, sentindo os olhos arderem com as gotas de suor da testa. Não parou até achar o que queria. Na realidade, não queria achar; desejava que tudo aquilo fosse um sonho, um pesadelo horrível, que logo acordasse nos braços de Adílson, afundando num cochilo de domingo à tarde...
Mas não. Seus dedos encostaram em algo mole. Afundou-os ainda mais e puxou o animal para fora.
Ouviu os próprios soluços de desespero apenas uma vez. Cravou as unhas entre os lábios gosmentos, arrancando a linha preta num único movimento. Então, não houve mais tempo: pareceu perder a sensação do braço esquerdo, uma dor fulminante invadiu-lhe o peito e subiu-lhe até a garganta, e depois morreu.
Na boca do sapo, sua foto três por quatro.