segunda-feira, 21 de julho de 2008

Lírios para você

Sinopse: Se ninguém tivesse morrido, sem dúvidas a batalha final teria sido entre Dumbledore e Voldemort. Se Dumbledore vencesse, sem dúvidas ele pouparia a vida de seu inimigo. E, sem dúvidas, depois seria obrigado a dividir com ele um quarto no hospital.
Categoria: Harry Potter.
Gênero: Drama.
Timeline: pós-DH, com final alternativo, sem mortes.
Disclaimers: Todos os personagens pertencem à J.K. Rowling, exceto a protagonista, baseada em uma pessoa real.
Data: julho de 2008.
Palavras:


Encarou a grande construção de tijolos, suspirando, enquanto corria. Tinha perdido a hora, acordado tarde, engolido o café da manhã, nem penteado o cabelo; mas, até aí, tudo bem. Passar pela rua da Purges & Dowse Ltd. era tranqüilo para Sabrina — ali, ela era ninguém. O grande problema, o que fazia suas bochechas incharem de vermelhas e os pingos de suor brotarem de suas mãos, era entrar.
Não havia modo, no entanto, de evitar. Entrou.
As dezenas de cabeças ambulantes, acompanhadas pelos corpos embrulhados sob vestes verde-limão, encararam-na. Imediatamente. Não tivesse encoberto a vista com a franja comprida, não teria chegado ao balcão de atendimento. Quase atropelou um paciente ou dois, mas não teve coragem de ultrapassar seu tímido “perdão”. Empurrou a entrada-permitida-somente-para-funcionários com a respiração presa ao limite.
Logo saiu, disfarçada de Curandeira do Saint Mungus. Um olhar mais atento, contudo, encontraria, abaixo da cruz osso-e-varinha do jaleco, o bordado simbólico que indicava “trainee” em letras laranjas.
— Bom dia, Sabrina!
— E aí, Sá, beleza?
— Tá indo pr’O Quarto, agora, Sabrina? — era o que ela mais ouvia durante a longa (ainda que breve) viagem de elevador.
— U-hum — o qual, junto com um sorriso quieto, era o que ela mais respondia, momentos antes de descer no quarto andar.
Prendeu o coque com os próprios fios loiros e ergueu o olhar, para manter firme sua caminhada. Apesar de jovem, Sabrina era bem antiga no hospital bruxo, conhecia-o com a palma de sua mão: afinal, estudava para efetivar-se Curandeira há dois anos, começando desde seu primeiro dia fora de Hogwarts. Aquele era seu último semestre como aprendiz, umas das poucas sobreviventes à rotina estressante de feitiços de mal-gosto e mordidas infecciosas. Sua braveza e dedicação durante todos os árduos meses de trabalho e estudo garantiram-lhe um prêmio. O maior do hospital. O mais cobiçado e invejado.
O Quarto.
Não era ela a atração de todos os olhares; era, sim, o lugar para onde se dirigia, como se por isso ela conhecesse mistérios e segredos, ou fosse capaz de desvendar todas as respostas do Universo. Mal poderiam invejá-la, no entanto, se soubessem da realidade da situação − quão estupidamente normal era cuidar d’O Quarto 413.
É claro que, um dia, ela também achou o maior prestígio do mundo ser a responsável pela saúde dos dois bruxos mais poderosos da História da Magia. Mas, depois de algumas primeiras horas, percebeu que o cheiro da troca da fralda geriátrica de um bruxo poderoso era tão ruim quanto o de cidadão qualquer, sem qualquer essência mais sábia ou especial, e por isso resolver tratar dessa atividade com o mesmo esmero comum.
Talvez estivesse ali residida a verdadeira sabedoria. Preparava-se para falar isso a seus filhos, se um dia chegasse a ter algum.
Enquanto não os tinha, preocupava-se em abrir a porta do 413 com um sorriso aconchegante no rosto.
— Bom dia!
O quarto era longo, comprido, completamente amadeirado, claro somente por finas faixas de luz que escapavam de uma única janela arredondada. Espaçoso por apenas duas camas, de dois senhores (mestres) de idade.


Tirou a varinha e a caderneta do bolso, e se dirigiu ao primeiro leito.
— Bom dia, seu Dumbledore!
— Bom dia, senhorita Hibisdius — a voz rouca de Albus Dumbledore, enrolado embaixo das cobertas de seu leito, atravessou-lhe a barba comprida — Como está bonita hoje. Uma beleza natural, eu diria.
— ‘Que é isso, Dumbledore, acordei atrasada hoje, imagine só! Estou toda descabelada!
— Foi dormir tarde, suponho.
— Sim, estava sem sono, custei pra dormir. Espero que sua noite tenha sido melhor do que a minha. Como foi? — a varinha ajudava a medir a pressão e cumprir outros exames matinais.
— Agradabilíssima, como sempre. A cozinha nos preparou ontem chocolate quente no jantar. Tenho que admitir que sou facilmente derrotado por leite quente. Ainda mais, depois deste problema sono súbito dos últimos dias, acredito queeee...
O último embaralho da língua foi uma melodia de ninar. Dumbledore fechou os olhos, imediatamente. Adormeceu. Sabrina remexeu-o pelo ombro.
— Ahn? O quê?
— Ainda está pegando no sono, seu Dumbledore — a trainee sorriu, e anotou em seu papel.
— Tive a ligeira impressão de que dormir a noite inteira me deixaria mais desperto hoje de manhã. Mas talvez o chocolate de ontem também tenha colaborado, não é verdade? Estava uma delícia! Não há nada que me dê mais sono do que leite quente, sem dúúúúúv...
Sabrina deixou a pena escrevendo, em seu canto, e cutucou o paciente mais uma vez.
— Vamos dobrar sua poção, certo, seu Dumbledore?
— O que a senhorita achar melhor, por favor. Não que isto me incomode, claro que não, a mim me parece apenas efeito de leite quente para dormir, combinação exceleeeen...
Ombro novamente.
— Hein?
— Suas defesas estão muito baixas, este é o efeito da praga. Tirei uma amostra do sangue do senhor e o único de leucócitos ainda está muito alto, apesar de controlado...
— Sinta-se livre para tomar quaisquer providências, senhorita Hibisdius, por favor. Não gostaria de continuar as conseqüências do que me parece um gole infinito de leite com chocolate, bebida esta que, aliás, adoro, mas que me derruba com todas as foooor...
Era isto: ou tornava a repetir os mesmos pensamentos, ou adormecia, inevitavelmente. Sabrina lutava já há uma semana, desde que ele chegara, contra os efeitos das combinações de feitiços que lhe tinham atingido na última batalha de Hogwarts. Os resultados vinham sendo desanimadores. Em parte, porque muitas das maldições eram desconhecidas. Em outra, por um fato incontornável: Dumbledore estava envelhecendo, adoecendo, enfrentando os resultados de tantos anos de sabedoria — em outras palavras, ficava gagá.
Cutucou-o uma última vez, antes de virar-se.
— Hum?
— Ele — apontou para o outro leito — ainda está dormindo, você sabe, seu Dumbledore?
— De modo algum. Já tivemos nossa discussão matinal.
Sabrina teve de forçar-se a manter os dentes expostos. Deu as costas e chegou ao outro lado do quarto. Segurou a intenção de respirar fundo e suspirar, tinha de manter a paciência em seu lugar. E o medo. Ela era a enfermeira, afinal de contas, e o próximo paciente não passava de apenas outro próximo paciente — apesar de há poucos dias atrás não ser menos do que um Lorde das Trevas, o Lorde das Trevas.
— E como vamos, seu Riddle?
Engoliu em seco, não teve jeito;.era todo o dia assim. Pelo menos não gaguejou.
— Hunfgrunfargh — o resmungo mal-humorado foi abafado pelo peso das cobertas.
— O que foi, seu Riddle? Acho que não entendi.
Uma ligeira movimentação por debaixo, nada mais.
— Aaaah, seu Riddle, já passou da hora de acordar há muito tempo, não é? — e puxou para o chão o esconderijo de tecido, impiedosa e corajosamente, para encontrar a figura aterrorizante do mais poderoso bruxo das trevas.
Ou só se “aterrorizante” conseguisse ser um sinônimo para “patética”. Patética. Tom Riddle, ex-Lorde Voldemort, era uma figura mirrada e amarelada, careca, seca, um palito torto em uma inconsolável posição fetal, mergulhado em todo o espaço que sobrava entre suas vestes hospitalares. Pelos intervalos entre os gambitos dos dedos, seus olhos avermelhados tentavam induzir medo e respeito — sucesso atrapalhado pelas lacunas de dentes quebrados entre suas linhas de lábios.
O medo fugiu, Sabrina não pôde deixar de rir. Era o que restava do grande Lorde das Trevas.
— Muito melhor agora, não é, seu Riddle?
— Não – me chame – por esse – nome – sangue-ruim! — sibilou.
— Você que não me chame de sangue-ruim, por favor — pegava de novo a varinha — Já conversamos sério sobre isso.
— Você realmente não faz idéia do que posso fazer, não é mesmo, menina? Eu, que ultrapassei a morte, derrotei Albus Dumbledore, roubei a Varinha Anciã...
— Escapou da morte por pouco, o senhor bem sabe, seu Riddle.
— Não ouse me chamar —
— E não derrotou o senhor Dumbledore, os dois caíram ao mesmo tempo.
— Meu nome —
— E a varinha no fim era de Draco Malfoy, o coitadinho nem —
— ... é Lorde Voldemort!
Sabrina deu um berro, deixou a pena de escrita automática escorregar, derrubou a caderneta de anotações, tropeçou em um nó da própria perna. Voltou à altura da cama com a franja bagunçada sobre o olhar furioso.
— Senhor Tom Riddle, ainda mais do que meu paciente, o senhor é detento da prisão Azkaban. Então, a menos que o senhor prefira os dementadores a mim para os cuidados de suas feridas pós-guerra, me respeite. Então? Estamos entendidos?
Estou dando uma dura n’Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado, seus interiores vibraram, adoro meu trabalho!
— A senhorita não estaria tão confiante assim se eu pudesse usar magia agora...
— Felizmente as paredes do Saint Mungus são justas.
— Quando eu sair daqui e matar aquele Potter asqueroso —
— Diminua suas aspirações de sair daqui se o senhor pretende se manter vivo, seu Riddle, acredite em mim. Aqui é bem mais agradável do que o lugar que você irá quando estiver curado. Agora — empunhou novamente a varinha —, se o senhor puder me fazer a gentileza de se virar...
— Para quê?
— Tenho que lhe trocar.
— Não vai trocar nada.
— O senhor está sujo.
— Você não vai tocar em mim com essas suas mãos sujas!
— Não vou tocar, é só para agilizar o feitiço —
— Deixe essa fralda aí, sangue-ruim!
— Ora, por favor!
Com um giro da varinha, Voldemort teve as mãos atadas e as pernas abertas; enquanto uma fralda geriátrica usada deixava lugar a fagulhas douradas anti-assadura, outro pedaço de pano macio vinha voando, se dobrando no ar em triângulos de vértices estratégicos. Tom deixava seus mais de setenta anos de audácia para trás. Seu choro era o do menino do orfanato.
— Essa tarefa já é desagradável o suficiente sem suas crises histéricas, senhor Riddle! Colabore!
— Isto é humilhação! Humilhação, sangue-ruim! Jamais vou colaborar cok algo que me rebaixe a este nível!
— Então, seu Riddle, para a alegria dos dois lados, pare de fazer coco!
— Lorde Voldemort não faz isso!
Sabrina deixou a varinha cair de novo.
— O que aconteceu hoje, posso saber? Sei que o senhor é uma pessoa difícil, mas hoje está intragável!
— Não ouse —
— Será que eu poderia arriscar um palpite, senhorita Hibisdius?
Dumbledore estava mais atento do que o esperado. Talvez não estivesse tão envelhecido, assim.
— Claro, seu Dumbledore, qualquer coisa pra me ajudar a trabalhar!
— Creio que o problema do nosso colega Tom não esteja relacionado à senhorita. Acontece que hoje é domingo.
— Domingo..?
— Dia de visita no quarto andar.
Voldemort pareceu morder a língua ofídia. Manteve-se a estreitar o olhar.
— Há! Albus, sempre se metendo onde não é chamado. Ainda acha que meu problema é amor, é?
— Certamente você tem muita a resolver neste quesito, Tom. Como agora, por exemplo. Está morrendo de medo que ninguém venha lhe ver.
— Absurdo!
— Mesmo?
— Absurdo dos absurdos! Eu, Lorde Voldemort, com medo de ficar sozinho? Não tive medo de morrer, Dumbledore, e não tive medo de matar. Não posso ter medo de nada!
— Já lhe disse várias vezes, Tom, que há coisas piores do que a morte...
— Aqui talvez seja pior, então — e riu, uma risada que irritou Sabrina ao fundo, mas que ainda assim a enfermeira fez questão de ignorar. Só por causa de sua nuca.
Ficou arrepiada.
— Ficar aqui definhando, esperando pela prisão, solitariamente. Ah, sim.
— Você diz essas coisas com um nariz empinado de quem está rodeado de pessoas. Mas você não tem ninguém, Dumbledore, não se esqueça disso. Ninguém! Sua família está morta, Grindewald está morto, o mundo bruxo lhe virou as costas e lhe deixou só, covarde, quando você teve que me enfrentar!
— Ainda assim, você sabe que terei mais visitas do que você, hoje. Por isso, está com medo.
— Eu tenho meus fiéis Comensais da Morte! Nenhum deles ousará deixar seu mestre doente em um leito de hospital. E você, quem acha que vai ver?
— Ah, apenas os que se importam de verdade comigo — e juntou os dedos das mãos em uma brincadeira divertida, zombeteira. Depois, sob o silêncio da falta de argumentos de Voldemort, Dumbledore permitiu-se dormir de adoecido.
Sabrina conteve uma risada de vitória. Depois, sua expressão foi de susto ao constatar a hora. Juntou os instrumentos hospitalares e, com promessas de retorno, deixou O Quarto. Tinha muitos outros pacientes para acompanhar ao longo do dia, é claro, mas no fim da tarde seria deles novamente. E, enquanto viajava para cima e para baixo no elevador do Saint Mungus, abriu os olhos e os ouvidos para saber de todas as visitas do 413.




A primeira foi logo depois do almoço. Harry Potter recebera permissão do responsável pelo 427 para meia hora de conversa com Dumbledore, e para isso levou suas próprias companhias, Ron, Hermione e Ginny, todos fisicamente saudáveis e traumatizados de guerra, todos muito bem munidos de caixas de doces da lanchonete não-autorizadas. Os cinco se divertiram entre intervalos de cochilos de Dumbledore e encontros com feijõezinhos infelizes. A cada risada, Riddle enfiava um pedacinho a mais do travesseiro no ouvido.
Às duas horas, foi a vez do restante da família Weasley, ruiva e completa, desde sua parte mais distante, com Carlinhos, e a naturalizada, com Fleur Delacour. Não passaram junto ao leito mais do que dez minutos: Fred e George puseram fogo nos lençóis de Voldemort, queimando o pouco do que podia ser chamado de “orelhas”. Foram expulsos.
Meia hora depois, Arthur vingou a família — despida dos gêmeos — com a presença do Ministro da Magia. Dumbledore, o visitado mais uma vez, foi presenteado com dúzias de flores silvestres e exemplares de jornais bruxos que exaltavam os últimos acontecimentos. Não que ele tivesse sido capaz de ler além da manchete, é claro. Seus olhos ficaram surpreendentemente mais pesados durante as palavras calorosas do Ministro pomposo.
A quarta entupiu O Quarto: McGonagall trouxe a seu encalce Flitwick, Madame Hooch, Binns, Madame Pomfrey, Sibila, Slughorn, e mais alguns elfos domésticos insistentes. Somente Hagrid, com seus lenços e olhos marejados, ocupavam mais de três quartos do local. As mensagens de melhoras ficaram depois piscando, cintilando e estourando em pequenas explosões por mais um par de horas, irritantes e invejosas para Voldemort.
Sirius e Remus foram os últimos, próximos ao pôr-do-sol. Nos braços do segundo, o pequeno Lupin acompanhava o ritmo da respiração sonolenta de Albus. Não quiseram se deter muito, julgaram-se empecilhos quando Sabrina voltara para os exames da noite. Deixaram com Dumbledore o espelho do bar do irmão, com intimações de que fosse usado quando necessário, sem restrições.
Depois da ida da quinta caravana, Voldemort era outra pessoa. Tratou Sabrina como se ela fosse o próprio Lorde — Madame — das Trevas.
— Senhorita Hibisdius, você não sabe das minhas visitas? — perguntou, enquanto aceitava a limpeza embaraçosa contra assaduras.
— Quem, seu Riddle?
— Bellatrix Lestrange, por exemplo.
— Ela... hum, bem, já está em Azkaban.
— Ah, entendo — suspirou —. Pelo menos, é um motivo justificável...
— Eu-eu ouvi boatos de que ela pediu para ficar lá, para ficar perto do marido.
— Como – como assim?! Eu sou o mestre dela, como ela prefere – como ela poderia — ?!
— Sinto muito, seu Riddle — achou melhor consertar antes que as coisas se instabilizassem de novo.
— E Lucius Malfoy? Narcissa? Sabe alguma coisa deles?
— Levaram o filho para um tratamento na França. Estão tentando provar para o Ministério que...
— Que o quê, menina?
— ... que nunca foram Comensais, seu Riddle.
— Não pode ser! Ingratos, imprestáveis, traidores, amigos de sangue-ruins...
— Senhor Riddle, por favor, olhe o que fala!
— Eu não preciso deles — ignorou-a momentaneamente — Quem mais ainda está livre? Crabbe? Goyle?
— O Saint Mungus está tendo problemas nos tribunais com eles. Estamos tentando provar que eles não perderam sanidade mental.
— E Pettigrew? Peter Pettigrew? Ele não poderia —
— Estamos tratando dele no primeiro andar, porque... bem, porque não há nada que o faça vir ao quarto. Diria que ele está um pouco... apavorado.
— Com medo de chegar perto de mim... que ele morra feito o rato que é — estreitou os olhos em sinal de perigo, como antes — E os outros? Mulciber?
— Está em tribunal.
— Avery?
— Tribunal.
— Rookwood?
— Tribunal?
— Yaxley?
— Tribunal.
— Todos testemunhando a favor..?
— Contra, na verdade, seu Riddle. Contra os outros Comensais.
Ele parou de respirar.
— Ninguém..? Será que não poderia ter me restado ninguém..?
Se seu orgulho permitisse, teria deixado as lágrimas engolidas explodirem. Mas não, certamente que não — isto era amor, e Lorde Voldemort jamais poderia sofrer por causa dele, fosse por sua presença, ou por sua forte ausência de agora. Limitou-se a bufar, fazer-se de mau. Malvadão. Como se ainda pusesse intimidar alguém, mesmo aquela menina que o chamava por seu nome trouxa comum. Não percebeu, mas seu corpo denunciou sua tristeza com o rolo de proteção que fizera, com sua posição encolhida sob os lençóis.
— Desprezíveis — dizer isto era o seu mostrar de suas importâncias.
Sabrina já tinha acabado, mas preferiu ficar uns momentos a mais, como se se fizesse de visita. Não era gosto; era piedade. Não recebeu o devido título, obviamente. Teve de quebrar a tensão com a notícia escondida:
— Na realidade, seu Riddle, ainda há um visitante. Ele está subindo.
— É de Dumbledore, o bruxinho do amor, não sabe? — e virou-se na cama.
— Talvez não seja.
— Como “talvez”?
— Não sei pra quem é.
— Como não sabe?!
— Quem vem, senhorita Hibisdius? — Dumbledore trouxe a gentileza de volta.
— É... Severus Snape.
— EU SABIA!
Voldemort saltou da cama, Sabrina foi junto — suas colunas ficaram doendo por muito tempo depois disso. Albus manteve-se resoluto.
— Está confiante, Tom.
— Certamente, certamente! Lorde Voldemort estará reunido a seu mais fiel seguidor, finalmente!
— E será que Lorde Voldemort se lembra da verdade? — girou os dedos — Você se lembra, Tom, do que Harry lhe disse em Hogwarts, minutos antes de você desmaiar?
— Mentiras e balelas ensaiadas por você, Dumbledore.
— Severus nunca foi seu homem, Tom.
— Calúnia!
— De maneira alguma.
— Ele te investigou para mim durante anos!
— A verdade é o contrário. Você foi o investigado.
— Eu lhe dei ordens para que você pensasse que ele estivesse do seu lado, tolo!
— Escute-me para sofrer menos.Você o perdeu quando matou Lily Potter, Tom.
— Eu o fiz enxergar a libido por trás do que ele pensava ser amor. Ele sempre confiou em mim!
— Jamais.
— Sempre!
— Jamais.
— SEMPRE!
— Jaaaa...
Pegou no sono, interrompendo o infinito da questão. Sabrina cutucou-o e levantou-se.
— Perguntem a ele próprio. Ele deve estar subindo, agora.
E conjurou uma cadeira para se ficar a um canto do quarto, mais afastado. Não o deixaria, é claro que não; sabia desfrutar das recompensas de cuidar d’O Quarto, quando elas existiam, e esta era uma dessas: saberia da fofoca antes mesmo de ela ser distorcida pela fofoca.
Não esperou por muito tempo, pois não estava enganada: foram poucos minutos até que a discussão fosse cortada, Snape chegasse ao quarto andar, alcançasse a porta do 413 e entrasse, por fim.
Entrou com presença.
Deu valor ao suspense. Manteve-se estático à soleira da porta tempo suficiente de sentir-se enjoado de ouvir a respiração pesada, e nada mais, dos ocupantes dos leitos. Sua expressão estava intacta. Suas cores eram inexpressíveis, rotineiras, as mesmas vestes pretas, porém interrompidas por um borrão de cor inesperada: um buquê de flores coloridos, uma mescla de laranja e amarelo, um calor que destoava da madeira hospitalar, ou do clima da conversa, ou do pálido dos poros de seu nariz. A força de sua discrição de todo-dia perdia-se nas cores quentes; e, quando se cansou de ser o centro do universo, tirou a atenção do inusitado e marcou-a no sem-graça, sua voz:
— Boa noite.
Tom Riddle tinha a respiração presa, quase como se fosse para somente ouvir o farfalhar da flora de presente. De presente para ele?
A direção delas, contudo, foi a do leito inimigo.
— Boa noite, Albus.
— Boa noite, Severus.
— Estou com pressa, peço desculpas por não poder ficar mais. Só vim entregar as flores.
— Fique à vontade, por favor.
— Obrigado — e, para o disparar do coração solitário, Snape virou-se e andou um pouco mais, até alcançar a segunda cama do quarto.
Voldemort não queria mais se conter.
— Severus... meu servo mais leal...
— Milorde — cumprimentou-o com um abaixar de cabeça.
— Eu sabia... sabia que você viria... sabia que não deixaria seu senhor... sabia que não me deixaria definhar só...
— Certamente não poderia de aproveitar a oportunidade de vê-lo. Certamente — abaixou novamente a cabeça — não poderia deixar que você sofresse e passasse seus últimos momentos de forma tão solitária.
— Eu sabia... tão leal...
Severus conjurou um vaso alongado e transparente, encheu-o de água do ar e pousou nela os cabos das muitas flores. Tudo muito calma e pacientemente, sob uma tranqüilidade letal.
— Estes lírios são para você, Tom Riddle.
— Tom Riddle — ?
— Para que você não sofra sozinho. Para que você esteja sempre acompanhado por uma lembrança – seja sempre atormentado por ela – pela lembrança da promessa que você me fez e que nunca cumpriu.
— Você —
— Você não merece a solidão. Merece o pior. Espero que sofra bem.
Snape afastou-se da cama, dos olhos vermelhos furiosos.
— Agora, se me dá licença — acenou, pela última vez, com a testa —... Tom.
Deixou O Quarto.
Sabrina viu Voldemort gritar de ódio, tentar em vão derrubar o vaso fixo — eternamente — ao chão, e depois, sem escolha, desprender sua ira velha e incontida dentro da fralda.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Você-Sabe-O-Quê

Disponível em www.potterish.com



Temido por muitos, idolatrado por poucos, enfrentado por três. É lógico que vocês sabem de quem eu estou falando! Um menino órfão, mestiço, boa fama em Hogwarts, um gatinho. Aquele lá, o tal do herdeiro de Slytherin, o cara que repartiu a alma em sete partes, sabe? Não? Aquele que matou Lily e James Potter, lembra? Tentou matar o menino Harry e se deu mal? O Lorde das Trevas, Você-Sabe-Quem, Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado, o... você não vai me forçar a dizer o nome dele, vai? É Vol... é V-Vol...

Chame-o de Voldemort, teria dito Dumbledore. Sempre chame as coisas pelo nome que têm. O medo de um nome aumenta o medo da coisa em si (“Pedra Filosofal”, página 254, versão brasileira de 2000, com muito orgulho!). Harry Potter aprendeu com ele muitíssimo bem — ou, melhor dizendo, teve de reaprender com ele muitíssimo bem. Lembro que logo em seu primeiro contato com o mundo bruxo, com o gigante Hagrid, Harry já foi alertado a entrar em pânico ao simples mencionar do nome — que nunca tinha ouvido na vida, aliás. Teve de começar a evitar a usar a palavra por pura obrigação social, para impedir que pessoas ao seu redor tivessem chiliques e ataques histéricos, como se somente um pronunciar fosse capaz de criar a desgraça, ou trazer o próprio “desgraçador” de volta à vida. Patético. O medo geral, contudo, não foi capaz de infectá-lo: todos nós sabemos, é claro, que Harry nunca realmente teve de medo de falar “Voldemort” abertamente, como muito bem pudemos atestar até o fim da série.

Interessante notar que este comportamento não se mantém somente dentro da ficção: não são raras as pessoas que se assustam, ficam bravas, fazem sinal da cruz, dão toques na madeira ou acionam qualquer dispositivo crendice-popular ao ouvirem uma palavra ou expressão proibida — ao ouvirem tabus lingüísticos, para já entrar em termos mais técnicos.

Tabu é o ato proibido, principalmente ligado a coisas sagradas. Tabu lingüístico, então, é a palavra proibida e mal-vista por uma determinada sociedade, logicamente também em uma determinada época (porque a língua é uma constante renovação). Mansur Guérios (1) afirma que existem dois tipos de tabus lingüísticos: o próprio, de crença (em que se atribui força sobrenatural à palavra em questão), e o impróprio, de sentimento (referente às expressões chulas e grosseiras ou à veneração direcionada a algum ser). O resultado de expressar um tabu abertamente Harry já sentiu na pele, de arrepios alheios a feitiços no nariz. Acontece que às vezes se deixa escapar, se esquece; outras vezes, mais difíceis, nosso repertório vocabular simplesmente parece vago demais para que possamos proteger o próprio nariz.

Nesses casos, usa-se um substituto da palavra, um recurso indireto: um sinônimo mais aceitável, uma expressão mais genérica, um gesto no ar, aquela tosse disfarçada, uma palavra emprestada de outra língua. Faz-se uso também de recursos estilísticos em “ismos” e ísticos”, como o eufemismo (expressão substituta menos pesada e mais “esquiva”) , o hipocorístico (expressão de louvor) e o disfemismo (expressão agravante). No mais, simplesmente evita-se falar através da elipse (omissão) e da circunlocução (evitação).

Vocês, leitores, já sabiam de tudo isso, é claro. Talvez não em detalhes; mas certamente a palavra “tabu” saltava desta página virtual em direção a seus olhos com muita distinção ― isto devido àquela passagem do último livro, à maldição (the Taboo curse) feita por Comensais da Morte sobre o nome de seu mestre, a qual imediatamente os chamava assim que a palavra proibida fosse mencionada. Quase o mesmo dispositivo lingüístico, exatamente o mesmo espiritual. O pronunciar desencadeava o caos, literalmente.

Agora, para dar seguimento a esta coluna, gostaria de analisar os substitutos da série ― afinal, “Harry Potter” é cheio deles, todos muito interessantes.

Você-Sabe-Quem
“Pra quê falar o nome se eu posso evitar de falar?”, eu já até posso imaginar um Ron de orelhas vermelhas gaguejando com esta frase. A expressão “Você-Sabe-Quem” é simples, pura e perfeita. É o que usa a menina da oitava série que quer contar sobre seu paquera à amiga e quer evitar sofrer a fofoca: isto é a circunlocução, a fuga do uso do tabu através de uma expressão genérica, porém reconhecível pelo contexto.

Se fosse possível analisar a evolução desta palavra na sociedade bruxa (e para isso teria que se ter registros passados e, ironicamente, reais), muito provavelmente se chegaria à conclusão de que “Você-Sabe-Quem” acabou por perder, com o passar do tempo, seu estatuto de mera substituição para passar a ser realmente o nome referente à pessoa. No cenário, por exemplo, da menina que vai cochichar com a amiga, o diálogo seria da seguinte forma:
-- Ai, Vivi, eu vi Você-Sabe-Quem ontem!

Mas se fôssemos analisar o que Ron diria a Harry, a sentença seria levemente diferente (sem contar, é claro e ainda bem, o tom de euforia e excitação):

-- Harry, eu vi o Você-Sabe-Quem ontem!

Certamente que ambas as expressões se referem a uma pessoa específica e reconhecível pelos contextos, porém a presença do artigo definido no segundo caso marca a expressão realmente como nome, e não como simples substituto.

Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado
Aqui, a nomeação da palavra negada se dá pela afirmação da negação da nomeação — e esse nó que eu dei na sua cabeça ainda vai receber a pontinha de outro laço para que eu possa nomear toda essa “nomeação”: eufemismo.

Imaginem, por exemplo, a situação: depois da batalha final em Hogwarts, no sétimo livro, um aluno mal informado se aproxima de Hermione para lhe perguntar o que, afinal, tinha acontecido a Voldemort. Ela, muitíssimo educada, não hesita em responder:

— Foi derrotado para sempre.

A senhorita Granger poderia ter usado outros variantes, ainda — “bateu as botas” ou “foi comer capim pela raiz” —, ou simplesmente ter sido grossa e gritado “Ele morreu, levou um Avada Kedavra no meio da testa, não viu?!”. Esse jeitinho mais educado de se dizer alguma coisa mais indelicada ou grosseira é o eufemismo.

Referir-se a algo pela afirmação de sua negação é negá-lo indiretamente, da mesma forma polida.

De maneira semelhante, existem regiões do interior do Brasil que denominam o saci-pererê, o negrinho malfeitor de uma perna só, de “o-da-carapuça-vermelha” — agora, não por qualquer negação, mas por um título que trata o nomeado de forma genérica por um pronome: “o-da-carapaçuça...”, “aquele-que-não-deve...”.

Lorde das Trevas
Este substituto é usado principalmente por Comensais da Morte (ou por espiões-duplos, como no caso de Snape) quase como um apelido — quero dizer, um apelido somente para aqueles que realmente o consideram como um amigo íntimo, como fazem Bellatrix e... hum, como faz Bellatrix, porque eu (particularmente, sou forçada a dizer, mas acho que não estou muito distante da realidade da Jo) acredito que o resto o veja somente como uma pessoa má e poderosa de quem eles tiveram sorte de ter a companhia.

“Lorde das Trevas”, então, para a senhora Lestrange, é um hipocorístico no sentido de transformar a expressão em um nome respeitoso, quase (para ela, evidentemente) carinhoso. Chamá-lo através desta expressão é elevar ao máximo o status dele e, deste modo, preservar sua confiança.

Pettigrew, contudo, nos dá um belíssimo exemplo de hipocorístico de louvor: ao enaltecer seu senhor, Peter tem a única intenção de preservar sua própria integridade, mostrando um respeito que, muito inversamente, se reduz a (e apenas se mostra como) um pavor enorme. Esta é uma tentativa de transformar o inimigo em amigo com caráter somente oral e psicológico. Algo semelhante ocorre na Rússia, por exemplo: um substituto hipocorístico para “demônio” no país é a expressão (não?) equivalente “o justo”.




Estes três substitutos são todos referentes a um único nome, vocês-sabem-qual, nem preciso dizer (não por medo, agora, mas por elipse). Eu, contudo, vou mais além ― acredito que este tabu lingüístico seja, ao mesmo tempo, o substituto de outro tabu, que engana uma inconsciente população bruxa e é somente claro a duas pessoas.
Vejamos, então.

Lorde Voldemort
[...] Entendeu? Era um nome que eu já estava usando em Hogwarts, só para os meus amigos mais íntimos, é claro. Você acha que eu ia usar o nome nojento do meu pai trouxa para sempre? Eu, em cujas veias corre o sangue do próprio Salazar Slytherin, pelo lado de minha mãe? Eu, conversar o nome de um trouxa sujo e comum, que me abandonou mesmo antes de eu nascer, só porque descobriu que minha mãe era bruxa? Não, Harry, criei para mim um nome novo, um nome que eu sabia que os bruxos de todo o mundo um dia teriam medo de pronunciar, quando eu me tornasse o maior bruxo do mundo. (página 264 da “Câmara dos Segredos” [vulgo “Câmara Secreta”], edição brasileira também de 2000).

Neste episódio passado no esconderijo do basilisco de Slytherin, a jovem memória de Tom Riddle admitiu com todas as letras: Lorde Voldemort não existe. Lorde Voldemort é uma invenção criada para amedrontar bruxos (e, por que não?, trouxas). Lorde Voldemort é a vergonha do real. Lorde Voldemort é a utopia de um homem ambicioso e sedento por poder.

Agora, não posso deixar de recorrer às palavras do bom velhinho (não o Papai Noel): Sempre chame as coisas pelo nome que têm. O medo de um nome aumenta o medo da coisa em si.

O nome daquele menino órfão que mencionei no começo desta coluna não é, de forma alguma, Lorde Voldemort — é Tom Marvolo Riddle. O medo fundamentado neste “auto-apelido” criado é absurdo e controverso, a partir do momento em que reafirma o poderio mágico que Riddle exalta em si mesmo, e aceita a existência de sua (tão querida) imortalidade. Ele, contudo, nunca deixou de ser a mesma criança rancorosa, metida e, acima de tudo, mortal, que sempre fora.

Dumbledore jamais se submeteu à imagem utópica de um Lorde das Trevas; muito pelo contrário, aliás, chamou-o pelo nome de batismo sempre que teve o desprazer de encontrá-lo. E Harry, posteriormente, seguiu seus passos: na batalha final em Hogwarts, tratou-o como Tom até o fim; foi capaz de desmascará-lo e arrancar-lhe o véu que escondia de todos ― e de si mesmo ― suas fraquezas. Assim, pois, foi capaz de derrotá-lo.

Lorde Voldemort é substituto de Tom Riddle por claro disfemismo, onde a expressão usada agrava o tabu (exagera a realidade, dá o poder que não existe). Guérios atenta que, neste caso, o emprego da palavra disfêmica chega a ser até mesmo manifestação de coragem ― exatamente como é vista a atitude de Dumbledore e Potter, os dois “corajosos-que-nunca-tiveram-receio-de-pronunciar-Vol-de-mort”.

Tom Riddle, então, é o verdadeiro tabu lingüístico para os dois bruxos que tiveram a oportunidade de combatê-lo. E devemos ter medo dele, mesmo?

Acredito que seu eu pertencesse à sociedade mágica (de verdade, e não somente de coração), preferiria me referir a ele com seu nome original. Logicamente teria medo dele ― logicamente teria medo de qualquer um mais forte do que eu (mesmo que apenas acreditasse nisso), dentro de um mundo em que um simples abanar de varinhas é capaz de matar (ou pior) ―, mas retomar sua natureza mestiça é torná-lo mais concreto e “derrotável”, mortal como cada um de nós.

E, além do mais, o nome “Tom Riddle” é muito, muito mais bonitinho que “Voldemort”. Argh.




(1) O livro de Guérios que usei para complementar esta coluna foi, nada mais, nada menos do que “Tabus Lingüísticos”. Título óbvio com leitura bastante agradável. Recomendo até para quem não tem muita pretensão em seguir carreira lingüística.
Certamente minhas explicações a respeito do tema, retiradas do livro, foram bem mais sucintas e incompletas, sendo necessária uma leitura e um estudo mais profundos para que o assunto seja devidamente contemplado.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Eu te amo, Cecília!

Sinopse: Ele só queria conversar. E passou a conversa toda tentando isso.
Categoria: Originais
Gênero: Romance
Data: julho de 2008
Palavras:
Nota 01: Inspirada em uma música de Chico Buarque e num fragmento de "Até mais, e obrigado pelos peixes!".
Nota 02: Criada exclusivamente para o concurso de originais do Nyah! Fanfiction.


O balcão da lanchonete freqüentemente ficava sujo, e quem o limpava dia após dia era Glória. Com seu coque apertado na cabeça e o uniforme azul desbotado, parecia com todas as outras garçonetes. Mas ela era a única a ter aquela pinta preta atrai-homem perto do canto da boca, e a única a segurar o mesmo pano preto na mão esquerda, resmungando baixinho e torcendo para que o chefe não visse sua preguiça inevitável de limpá-lo.
Xingava todo mundo por baixo do nariz arrebitado, todo mundo que ousasse se aproximar e fazer um pedido, todo mundo que interrompesse seu ofício de pseudo-limpeza, todo mundo a quem jogava o ódio enrustido e a culpa de estar ali atrás do balcão sujo, e não na frente.
Xingou, inclusive, aquele jovem de óculos.
— Um batido, por favor.
— Uma batida, ‘cê disse?
— Não, é um... chocolate. Chocolate batido.

*****

Ele pegou seu copo e se sentou em uma mesa. Passou um tempo insignificante divertindo-se em tentar calcular o número de germes que se divertiam em tentar mergulhar na bebida láctea, mas logo se distraiu. Já tinha mudado de passatempo havia muito antes disso, antes desse dia, aliás. Sua nova ocupação estava a poucos metros de distância, era do sexo feminino e punha-se naquele momento a sensualmente mordiscar a ponta do lápis das palavras-cruzadas. Observava-a atentamente.
Na realidade, vigiá-la por trás de suas lentes convexas também já era passado. A moda agora era outra: era tirar as nádegas do assento duro e ir falar com as meninas observadas. Isso também já não era exatamente tão recente assim, pode-se dizer — mas ele também nunca fora o tipo de pessoa louvável por seguir tendências. Tradicionalíssimo, muito na dele, sempre tivera um pouco de dificuldade com “aquilo”. Mas, em um dado momento, mesmo ele teve de admitir que certas coisas eram meio ultrapassadas; assim como aquele penteado que seu pai insistia em usar era ridículo, olhou para si próprio, tirou as nádegas do assunto duro e foi falar com a menina observada.
Pôs-se a fitá-la de pé, em frente a sua mesa, a centímetros de distância.
Nos próximos dois minutos, ela não pareceu notá-lo.
Depois afastou as madeixas loiras e levantou a cabeça.
— Oi?
— O-oi, Cecília — sorriu, como fazem todos os meninos bobos, e torceu para controlar a cor das bochechas.
Ela retribuiu.
Depois quebrou o ânimo.
— Eu te conheço?
— Conhece.
— É?
— Não se lembra de mim?
— Eu-eu...
— Da FEM?
— É?
— Engenharia Mecatrônica?
— Aaah... da FEM!
— É, da FEM!
Seguiu-se um silêncio desagradável, em que a ausência da lembrança pulsava-lhe pelos olhos desesperados.
— A gente fez Cálculo III juntos, não foi? — ela arriscou.
— É, fez, sim.
— Lembrei!
— E Cálculo I, II e IV também.
— É?
— Eu sou 03.
— Eu também.
— Então!
Ela tentou se fazer de casual, tirando um dos muitos laços dos cabelos e se pondo a encaixá-lo no mesmo lugar.
— Ah, puxa vida, como pude esquecer! — a sinceridade tinha saído correndo — Você era da minha turma!
— Isso, isso!
— Você sentava atrás de mim.
— Na frente.
— Isso, na frente — sorriso.
— Do lado do Flavinho Piriquito, lembra?
— Grande Flavinho Piriquito, lembro sim! Daquela vez que ele soltou a galinha na sala?
— Ele mesmo!
— Então, era eu o dono do estojo cheio de pena.
— E tinha o Sérgio Matraca também.
— É mesmo.
— Você sentava atrás dele.
— Na frente.
— Isso, é. Lembrei, já — sorriso.
— Lembrou?
— É, senta aí, Al... Al-Albeeeer...
— Túlio — puxou a cadeira —. Obrigado.
Prendeu a respiração e tornou a soltá-la, bem, bem lentamente.
Fitou a cadeira. A cadeira. Imaculada, divina, sua porta-aberta para a realização de todos os seus sonhos mais românticos. Aquele seria apenas o início de um relacionamento duradouro e feliz, em que comprariam uma belíssima casa na praia, teriam sete belíssimas filhas loiras, todas cheias de fitas nos cabelos e nascidas em progressão aritmética, e comprariam uma belíssima cadela chamada Naná — sem contar, é claro, seus belíssimos filhotinhos, cada um dos quais nomeado a partir das seguintes quatro vogais faltantes.
Seria lindo. Belíssimo.
Acima de tudo, compensava o fato de ela não ter a mínima idéia de quem ele se tratava. Sem dúvidas, isto era mero detalhe. Túlio já tinha calculado a possibilidade — mais rápido ainda do que tinha calculado os micróbios do achocolatado — de Cecília se apaixonar perdidamente por ele à primeira vista, e isto, levando-se em consideração a veracidade do caminho contrário, era altamente considerável — na verdade, tão certo quanto atestar a existência dos complexos micro-seres em sua bebida.
Olhou a cadeira mais uma vez. Fazia questão de ter aquele objeto gravado em sua memória para todo sempre, como marco da maior conquista da sua vida, o avanço de seu lado sentimental, a evolução de seu lado homem, o cumprimento de seu papel na seleção sexual darwinista, o desabrochar de um novo amor, o nascer da —
— Ai!
Voltou ao mundo com uma cotovelada.
Era Glória.
— Opa, sinto muito, moço — mas não sentia nada —. Que que ‘cê falou, mocinha?
— A conta, por favor.
Ele nem ao menos tinha sentado.
Sua esperança se foi com o rebolado de Glória.
— Você pediu a conta? — resolveu confirmar.
— Pedi.
— Mas por quê?
— Tenho que sair.
— É tão cedo!
— Meu irmão está vindo me buscar. Em quinze minutos, ele estará aqui.
— Mas a gente nem conversou.
— Fica pra outro dia — pegou a bolsa com a mão direita, a carteira com a esquerda e o mesmo sorriso sem-graça e ausente-de-lembranças com a boca.
— Que dia?
— Outro dia.
— Mas que outro dia?
— Ah, sei lá. A gente se vê por aí.
— A gente vai se ver, então?
— Então, é...
— Posso te levar onde você tem que ir agora. Liga pro seu irmão, eu te levo.
— Você não pode me levar.
— Por quê?
— Você não sabe me levar.
— Lógico que sei!
— Não sabe.
— E pra onde você vai?
— Pros Estados Unidos.
Silêncio.
Silêncio profundo, em que Túlio sentiu vontade de se suicidar dolorosamente.
E levá-la junto, sempre.
— Não.
— Não o quê?
— Não pode ir.
— Tenho que ir.
— Preciso conversar com você.
— Já disse que não posso.
— Preciso.
— Já disse, meu irmão —
— Acontece que eu te amo!
Teve a impressão de que tinha falado essa última sentença muito alto, mais alto do que o normal esperado para restaurantes, ou lanchonetes daquele nível. E, realmente, não foram poucas as pessoas que viraram a cabeça, desejosas pela declaração de amor.
— Você... me ama?
— Mais do que tudo nesse mundo. Não, não, mais do que tudo nesse universo! — estendeu os braços para os lados, para dar uma certa sensação de grandeza — Eu moro na solidão há cinco anos, Cecília. Te vejo passar do meu lado na faculdade, e nunca tive coragem de chegar em você, falar um oi, passar cola, pedir uma caneta emprestada. Foi massacrante. E agora estou aqui na sua frente, falei oi, até puxei uma cadeira pra sentar do seu lado, imagina só! Eu não posso – não devo – deixar isso passar. Eu te amo, Cecília!
Achou que terminar com a mesma frase fosse soar impactante.
Ela estava com cara de impactada.
— Eu... não sei o que dizer... Isso é...
Os dois encheram os pulmões.
— ... ridículo. Não acredito que ouvi um negócio desses.
— Quê?
— Ridículo. Nós nunca nem conversamos!
— Foi só falta de oportunidade.
— Não fomos nem colegas de sala, e olha que se você fosse meu amigo...
— Mas o que é a amizade se comparada a um verdadeiro amor?
— Você não tá falando isso...
— Lógico que estou.
— Você nem me conhece!
— Eu... é claro que – tá, ta, talvez eu não conheça mesmo! Mas isso não impede que eu converse com você.
— Impede que você me ame, só isso.
— Não peço que acredite em mim. Mas somos parecidos, posso provar. Eu te amo. Eu só quero conversar. Por favor.
Cecília ponderou. A conta não tinha chegado. Seu irmão provavelmente atrasado. Lá fora estava chovendo, e ela não estava carregando qualquer guarda-chuva. A conclusão foi rápida.
— Você tem menos de 10 minutos — e cruzou os braços.
— Calma, não consigo trabalhar sob pressão.
— Trabalhar?
— Pensa que é fácil conversar com a garota que se gosta?
— Partindo do pressuposto que a conversa anteceparia o gostar...
— O que não é o caso.
— Mas deveria ser.
— Mas não é.
— Mas deveri —
— Ssssssssh! — balançou os braços — Eu preciso de concentração!
Ela bufou, ele inspirou o ar com força, ambos ruidosamente.
Passaram-se alguns segundos. Dos longos.
As cabeças das poucas pessoas curiosas com o assunto do suposto casal já tinham desistido e se voltado a seus pratos de comida quando Túlio resolveu começar.
Desde o princípio, lógico.
— Oi., Cecília.
— Ahn... oi?
— Tudo bem?
— ...
— Tudo?
— Nós já passamos por essa parte.
— Eu sei.
— Então.
— É que se eu não começar desde o começo, não consigo.
— O quê? Conversar?
— É.
— Por quê?
— Eu...
— ...
— Eu tenho vergonha, oras.
— Mas nós já conversamos.
— Não importa.
— Você até se declarou!
— As pessoas são levadas a agirem de modos inesperados quando postas em uma situação de risco.
— E agora está com vergonha.
— É. Eu sou meio tímido.
— Ah... que bonitinho.
O mundo pareceu parar de girar. As estatísticas do amor à primeira vista de repente pareceram voltar a seus lugares.
— Sério? Mesmo? Você me ama?
— Quê? Eu não disse nada disso!
— Ah. Mas foi perto, vai.
— Não, eu só disse que era bonitinho porque é difícil ver meninos assim hoje em dia.
— É — baixou a cabeça — normalmente eles são menos panacas que eu.
— Não diga isso.
— Mas é.
— Panacas são esses caras que chegam de qualquer jeito.
— E eu, que nem chego?
— É só questão de se acalmar.
— Acontece que sou muito ansioso.
— É?
— Semana passada, por exemplo, mal consegui dormir à noite por causa da pré-estréia de...
— De?
— Nada. Você não deve gostar.
— Fala!
— Star Wars. — corou — A Vingança dos Sith.
— Não gosto? Adoro!
— Adora?
— Fui no cinema na pré-estréia também, à meia-noite, super legal!
— Foi, não foi?
— Adorei, apesar de todo mundo ter falado mal.
— Convenhamos que aquela cena do Anakin foi meio forçada...
— Meio Frankenstein, né?
— “Nooooooooo!” com aquelas mãos pra cima, onde é que o George Lucas estava com a cabe — Ai!
Segunda cotovelada.
— Sua conta, moça — resmungou Glória com o nariz torcido, e saiu.
Levou o assunto consigo.
O ar inseguro pairou entre eles durante alguns segundos, até um deles voltar à realidade do acontecimento.
— Ai, a conta!
Cecília abriu a bolsa e lamentou o conteúdo da carteira:
— Droga. Estou sem trocado.
— E aqui eles demoram um bocado pra trazer de volta, né?
— É, você viu só a conta.
— É.
— Que droga...
Túlio demorou um pouco mais a voltar à dita realidade.
— Puxa, que grosseria a minha – deixa que eu pago.
— Não precisa.
— Lógico que precisa.
— Não precisa.
— Precisa.
— Não precisa.
— Precisa.
— Não precisa.
— Pre — tirou a carteira do bolso — ci — escolheu uma nota amassada — sa — fechou a caderneta —, e fui mais rápido, há-há.
O silêncio inseguro fez vento quando Glória voltou à mesa rebolando.
— Pronto?
— Vamos ficar aguardando o troco — o sorriso de Túlio foi amarelo.
Glória foi embora, eles ficaram.
— Então, voltando...
— Não dá pra voltar.
— Não?
— Não. Perdi o fio da meada.
— Tudo bem.
— Desculpe.
— Não, tudo bem.
Silêncio.
Ele limpou a garganta.
— Certo. Oi, Cecília.
— Oi, Alber —
— Túlio.
— Desculpa. Oi, Túlio.
— Tudo bem?
— Tudo, e você?
— Tudo.
Ele abaixou a cabeça, ela permaneceu a esperar.
Talvez fosse eternamente, não fosse ela interromper o nada:
— Agora você deveria puxar o assunto, entendeu?
— Certo.
— ...
— ...
— Túlio..?
— Você vem sempre aqui?
— O quê — a risada a deixou meio descabelada — foi isso?
— Ah, eu não sabia o que dizer, e você ficou me pressionando, daí —
— Essa é a cantada mais manjada do mundo!
— Quê, meu pai falou isso pra minha mãe quando eles se conheceram!
— E ela caiu?
— Acho que ela só não tinha o que fazer e resolveu namorar com ele.
— Sobre cantadas idiotas, meu pai fez a mesma coisa com a minha mãe.
— Qual?
— “Você acredita em amor à primeira vista?”.
— Essa é legal.
— Clichezinha também, vai.
— Você acredita?
— No quê? Amor à primeira vista?
— É.
— Não sei...
— As possibilidades são bem maiores quando o mesmo já aconteceu com a outra pessoa, sabia?
— É? Você calculou?
— Usei muitos guardanapos daqui pra isso.
— Então você vem aqui fazer contas, é?
— Sou engenheiro, oras.
— Mania ruim a nossa, hein?
— Você também?
— O quê? Faço contas absurdas?
— É.
— Você sabe quantos micróbios tem o suco de laranja daqui?
— Quantos?
— Em média de um trilhão e meio.
— Nossa, mas não chega nem perto do achocolatado. É assustador.
— É leite, tem que levar em consideração isso.
— Mas você já viu a xícara deles? Eles devem lavar com cuspe de — Ai!
Terceira cotovelada. O lugar do ataque já nem ficava mais dolorido.
— Seu troco.
— E o recibo?
— Recibo?
— É. Da conta.
— Já vou trazer o seu recibo — o tom de voz de Glória estava ressentido e rancoroso.
Cuspiu no primeiro copo que viu em cima do balcão, depois.
Cecília afinou a linha da boca.
— Começar de novo?
— É... acho que sim...
— Isso está ficando divertido — tirou sarro.
— Então! Você podia ficar.
— Não posso. As passagens já estão compradas.
— Você... vai ficar lá quanto tempo?
— Não sei.
— Ahn.
— ...
— ...
— Mas eu estou indo só pra espairecer um pouco.
— Seu chefe já te deu férias?
— Eu... eu não fui efetivada no meu estágio, depois da faculdade.
— Ah...
— ...
— Sinto muito.
— Que é isso. Eu nunca me dei bem na fábrica, mesmo.
— Imagino. Você não é do tipo. Eu também não gosto.
— Mas você tá trabalhando?
— Sou projetista, trabalho quieto.
— Taí uma coisa legal!
— É bem legal.
— É, né?
— É.
— ...
— ...
— Gosto dessas coisas que usam a imaginação — ela emendou.
— Eu também. Por isso, eu...
— Você..?
— Você vai achar idiota.
— Não, fala.
— Mas é tonto.
— Pára com isso. Fala.
— Eu escrevo.
— Você escreve? O quê?
— Ah, contos.
— Que tipo de contos?
— Ah... contos... de ficção científica.
— De verdade?
— De verdade.
— Sabe que eu escrevo, também?
— É?!
— Mas eu ainda não publiquei nada, nunca consigo terminar uma história... você publica em algum lugar?
— Só no meu blog. Tenho vergonha — baixou a cabeça — que alguém leia.
— Me passa o seu blog.
Cutucou a orelha para saber se tinha ouvido direito.
— Quê?
— Me passa o seu blog.
Então devia ser interferência dos seus outros pensamentos paralelos, ininterruptos.
— Você... não tá...
— Tô. Eu adoro ler. Leio muitas coisas na internet. E acho que você — sorriu — devia aprender a deixar de ter tanta vergonha.
— Puxa. E-eu nem sei o que — Ai!
— Ai!
As cotoveladas agora tinham sido em lugares diferentes, e por isso doeram mais. Ficaram roxas, depois. Simetricamente.
Era Glória.
Ela trazia o recibo da conta.
E a existência do mundo real, cheio de buzinas intermitentes de um irmão que esperava pela caçula na porta da lanchonete.
— Tenho que ir — pegou a bolsa —, senão vou perder meu vôo.
— Mas você não queria o endereço do — ?
— Não, ó, vamos fazer o seguinte...
Ele não conseguia se conter de êxtase: fogos de artifício artificiais ardiam diante de seus olhos. Quando Cecília lhe estendeu o papel, seu branco ficou pontilhado de manchas coloridas e aleatórias.
— Meu celular. Me liga.
E saiu.
Mas voltou correndo, toda molhada de chuva de verão.
— Espera. Tenho que te perguntar uma coisa.
— O quê?
— A faculdade, as contas malucas, os contos, Star Wars. Como você começou a gostar de mim? Como você sabia que éramos tão parecidos?
— Eu não sabia.
— Não?
— Eu só acreditei no amor à primeira vista. E nas probabilidades.
— Mesmo..?
— Na verdade, sempre que eu te via, aqui ou na faculdade, você estava lambendo a ponta da caneta, daquele seu jeito, fazendo palavras-cruzadas. E eu adoro, simplesmente adoro — Túlio corou — palavras-cruzadas.

*****

Era logo o começo do expediente, oito horas da manhã. Glória engoliu o ar e a reclamação por um bocejo largo e longo, de quem forçosamente perdia o melhor do sono. Para ela, começar de manhã era começar mal. Aquele seria um péssimo dia, da cor do pano limpa-balcão. Tirou-o do avental amarelado e pôs-se a executar sua interminável tarefa preguiçosa.
Escutou o telefone berrar sete vezes, como se propositalmente quisesse arrancar o restinho da moleza matinal. Bufou. Escutou um “alô” ali por perto.
— Alô? Quê? É, é daqui mesmo. Quê? Não, eu não tava aqui ontem não. Ontem tava a Glória. Peraí. — e o tom subiu: — Õ, Glóóóóóória! Telefooooone!
— Fala aí, Cida!
— Mas é pra você!
— Tenha compaixão, vai! Nem acordei direito ainda!
E só porque não queria ser (mais) xingada (que o normal), Cida se manteve na linha. Ouviu e tornou a chamar a outra:
— O homem aqui tá perguntando se você recebeu o pagamento de um cliente ontem.
— Eu não, né? A lanchonete recebeu. Eu só recebo salário.
— Ele quer saber da conta.
— Que tem? A conta dele? Ele não pagou?
— Ô, moço — voltou ao telefone —, você não pagou ontem, é? — mexeu a cabeça e tirou o ouvido — Ô, Glória.
— Fala, criatura!
— Ele quer saber da conta de uma moça.
— E eu servi umas cinqüenta ontem. Desliga isso, vai.
— Uma moça loira, ele disse.
— Quarenta e cinco era loira.
— Ô, moço, não dá pra saber, é muita gente. Que é? Que é? Calma, poxa, peraí! — e tentou uma última vez: — Ô, Glória!
— Caramba! Que foi?
— O cara ta me xingando aqui, não pára de gritar que tinha um número naquela conta!
— Claro que tinha, o valor da conta, mulher!
— Não, ele tá falando de um telefone. Que tinha um número de telefone no papel!
Palavrão.
Passos largos e compassados, firmes e mal-humorados.
— Cida.
— Quê?
— Vai te catar.
Apareceu por trás da colega e apertou o gancho contra o dedo, aliviando toda a desgraça da vida.