Sinopse: Ele só queria conversar. E passou a conversa toda tentando isso.
Categoria: Originais
Gênero: Romance
Data: julho de 2008
Palavras:
Nota 01: Inspirada em uma música de Chico Buarque e num fragmento de "Até mais, e obrigado pelos peixes!".
Nota 02: Criada exclusivamente para o concurso de originais do Nyah! Fanfiction.
O balcão da lanchonete freqüentemente ficava sujo, e quem o limpava dia após dia era Glória. Com seu coque apertado na cabeça e o uniforme azul desbotado, parecia com todas as outras garçonetes. Mas ela era a única a ter aquela pinta preta atrai-homem perto do canto da boca, e a única a segurar o mesmo pano preto na mão esquerda, resmungando baixinho e torcendo para que o chefe não visse sua preguiça inevitável de limpá-lo.
Xingava todo mundo por baixo do nariz arrebitado, todo mundo que ousasse se aproximar e fazer um pedido, todo mundo que interrompesse seu ofício de pseudo-limpeza, todo mundo a quem jogava o ódio enrustido e a culpa de estar ali atrás do balcão sujo, e não na frente.
Xingou, inclusive, aquele jovem de óculos.
— Um batido, por favor.
— Uma batida, ‘cê disse?
— Não, é um... chocolate. Chocolate batido.
*****
Ele pegou seu copo e se sentou em uma mesa. Passou um tempo insignificante divertindo-se em tentar calcular o número de germes que se divertiam em tentar mergulhar na bebida láctea, mas logo se distraiu. Já tinha mudado de passatempo havia muito antes disso, antes desse dia, aliás. Sua nova ocupação estava a poucos metros de distância, era do sexo feminino e punha-se naquele momento a sensualmente mordiscar a ponta do lápis das palavras-cruzadas. Observava-a atentamente.
Na realidade, vigiá-la por trás de suas lentes convexas também já era passado. A moda agora era outra: era tirar as nádegas do assento duro e ir falar com as meninas observadas. Isso também já não era exatamente tão recente assim, pode-se dizer — mas ele também nunca fora o tipo de pessoa louvável por seguir tendências. Tradicionalíssimo, muito na dele, sempre tivera um pouco de dificuldade com “aquilo”. Mas, em um dado momento, mesmo ele teve de admitir que certas coisas eram meio ultrapassadas; assim como aquele penteado que seu pai insistia em usar era ridículo, olhou para si próprio, tirou as nádegas do assunto duro e foi falar com a menina observada.
Pôs-se a fitá-la de pé, em frente a sua mesa, a centímetros de distância.
Nos próximos dois minutos, ela não pareceu notá-lo.
Depois afastou as madeixas loiras e levantou a cabeça.
— Oi?
— O-oi, Cecília — sorriu, como fazem todos os meninos bobos, e torceu para controlar a cor das bochechas.
Ela retribuiu.
Depois quebrou o ânimo.
— Eu te conheço?
— Conhece.
— É?
— Não se lembra de mim?
— Eu-eu...
— Da FEM?
— É?
— Engenharia Mecatrônica?
— Aaah... da FEM!
— É, da FEM!
Seguiu-se um silêncio desagradável, em que a ausência da lembrança pulsava-lhe pelos olhos desesperados.
— A gente fez Cálculo III juntos, não foi? — ela arriscou.
— É, fez, sim.
— Lembrei!
— E Cálculo I, II e IV também.
— É?
— Eu sou 03.
— Eu também.
— Então!
Ela tentou se fazer de casual, tirando um dos muitos laços dos cabelos e se pondo a encaixá-lo no mesmo lugar.
— Ah, puxa vida, como pude esquecer! — a sinceridade tinha saído correndo — Você era da minha turma!
— Isso, isso!
— Você sentava atrás de mim.
— Na frente.
— Isso, na frente — sorriso.
— Do lado do Flavinho Piriquito, lembra?
— Grande Flavinho Piriquito, lembro sim! Daquela vez que ele soltou a galinha na sala?
— Ele mesmo!
— Então, era eu o dono do estojo cheio de pena.
— E tinha o Sérgio Matraca também.
— É mesmo.
— Você sentava atrás dele.
— Na frente.
— Isso, é. Lembrei, já — sorriso.
— Lembrou?
— É, senta aí, Al... Al-Albeeeer...
— Túlio — puxou a cadeira —. Obrigado.
Prendeu a respiração e tornou a soltá-la, bem, bem lentamente.
Fitou a cadeira. A cadeira. Imaculada, divina, sua porta-aberta para a realização de todos os seus sonhos mais românticos. Aquele seria apenas o início de um relacionamento duradouro e feliz, em que comprariam uma belíssima casa na praia, teriam sete belíssimas filhas loiras, todas cheias de fitas nos cabelos e nascidas em progressão aritmética, e comprariam uma belíssima cadela chamada Naná — sem contar, é claro, seus belíssimos filhotinhos, cada um dos quais nomeado a partir das seguintes quatro vogais faltantes.
Seria lindo. Belíssimo.
Acima de tudo, compensava o fato de ela não ter a mínima idéia de quem ele se tratava. Sem dúvidas, isto era mero detalhe. Túlio já tinha calculado a possibilidade — mais rápido ainda do que tinha calculado os micróbios do achocolatado — de Cecília se apaixonar perdidamente por ele à primeira vista, e isto, levando-se em consideração a veracidade do caminho contrário, era altamente considerável — na verdade, tão certo quanto atestar a existência dos complexos micro-seres em sua bebida.
Olhou a cadeira mais uma vez. Fazia questão de ter aquele objeto gravado em sua memória para todo sempre, como marco da maior conquista da sua vida, o avanço de seu lado sentimental, a evolução de seu lado homem, o cumprimento de seu papel na seleção sexual darwinista, o desabrochar de um novo amor, o nascer da —
— Ai!
Voltou ao mundo com uma cotovelada.
Era Glória.
— Opa, sinto muito, moço — mas não sentia nada —. Que que ‘cê falou, mocinha?
— A conta, por favor.
Ele nem ao menos tinha sentado.
Sua esperança se foi com o rebolado de Glória.
— Você pediu a conta? — resolveu confirmar.
— Pedi.
— Mas por quê?
— Tenho que sair.
— É tão cedo!
— Meu irmão está vindo me buscar. Em quinze minutos, ele estará aqui.
— Mas a gente nem conversou.
— Fica pra outro dia — pegou a bolsa com a mão direita, a carteira com a esquerda e o mesmo sorriso sem-graça e ausente-de-lembranças com a boca.
— Que dia?
— Outro dia.
— Mas que outro dia?
— Ah, sei lá. A gente se vê por aí.
— A gente vai se ver, então?
— Então, é...
— Posso te levar onde você tem que ir agora. Liga pro seu irmão, eu te levo.
— Você não pode me levar.
— Por quê?
— Você não sabe me levar.
— Lógico que sei!
— Não sabe.
— E pra onde você vai?
— Pros Estados Unidos.
Silêncio.
Silêncio profundo, em que Túlio sentiu vontade de se suicidar dolorosamente.
E levá-la junto, sempre.
— Não.
— Não o quê?
— Não pode ir.
— Tenho que ir.
— Preciso conversar com você.
— Já disse que não posso.
— Preciso.
— Já disse, meu irmão —
— Acontece que eu te amo!
Teve a impressão de que tinha falado essa última sentença muito alto, mais alto do que o normal esperado para restaurantes, ou lanchonetes daquele nível. E, realmente, não foram poucas as pessoas que viraram a cabeça, desejosas pela declaração de amor.
— Você... me ama?
— Mais do que tudo nesse mundo. Não, não, mais do que tudo nesse universo! — estendeu os braços para os lados, para dar uma certa sensação de grandeza — Eu moro na solidão há cinco anos, Cecília. Te vejo passar do meu lado na faculdade, e nunca tive coragem de chegar em você, falar um oi, passar cola, pedir uma caneta emprestada. Foi massacrante. E agora estou aqui na sua frente, falei oi, até puxei uma cadeira pra sentar do seu lado, imagina só! Eu não posso – não devo – deixar isso passar. Eu te amo, Cecília!
Achou que terminar com a mesma frase fosse soar impactante.
Ela estava com cara de impactada.
— Eu... não sei o que dizer... Isso é...
Os dois encheram os pulmões.
— ... ridículo. Não acredito que ouvi um negócio desses.
— Quê?
— Ridículo. Nós nunca nem conversamos!
— Foi só falta de oportunidade.
— Não fomos nem colegas de sala, e olha que se você fosse meu amigo...
— Mas o que é a amizade se comparada a um verdadeiro amor?
— Você não tá falando isso...
— Lógico que estou.
— Você nem me conhece!
— Eu... é claro que – tá, ta, talvez eu não conheça mesmo! Mas isso não impede que eu converse com você.
— Impede que você me ame, só isso.
— Não peço que acredite em mim. Mas somos parecidos, posso provar. Eu te amo. Eu só quero conversar. Por favor.
Cecília ponderou. A conta não tinha chegado. Seu irmão provavelmente atrasado. Lá fora estava chovendo, e ela não estava carregando qualquer guarda-chuva. A conclusão foi rápida.
— Você tem menos de 10 minutos — e cruzou os braços.
— Calma, não consigo trabalhar sob pressão.
— Trabalhar?
— Pensa que é fácil conversar com a garota que se gosta?
— Partindo do pressuposto que a conversa anteceparia o gostar...
— O que não é o caso.
— Mas deveria ser.
— Mas não é.
— Mas deveri —
— Ssssssssh! — balançou os braços — Eu preciso de concentração!
Ela bufou, ele inspirou o ar com força, ambos ruidosamente.
Passaram-se alguns segundos. Dos longos.
As cabeças das poucas pessoas curiosas com o assunto do suposto casal já tinham desistido e se voltado a seus pratos de comida quando Túlio resolveu começar.
Desde o princípio, lógico.
— Oi., Cecília.
— Ahn... oi?
— Tudo bem?
— ...
— Tudo?
— Nós já passamos por essa parte.
— Eu sei.
— Então.
— É que se eu não começar desde o começo, não consigo.
— O quê? Conversar?
— É.
— Por quê?
— Eu...
— ...
— Eu tenho vergonha, oras.
— Mas nós já conversamos.
— Não importa.
— Você até se declarou!
— As pessoas são levadas a agirem de modos inesperados quando postas em uma situação de risco.
— E agora está com vergonha.
— É. Eu sou meio tímido.
— Ah... que bonitinho.
O mundo pareceu parar de girar. As estatísticas do amor à primeira vista de repente pareceram voltar a seus lugares.
— Sério? Mesmo? Você me ama?
— Quê? Eu não disse nada disso!
— Ah. Mas foi perto, vai.
— Não, eu só disse que era bonitinho porque é difícil ver meninos assim hoje em dia.
— É — baixou a cabeça — normalmente eles são menos panacas que eu.
— Não diga isso.
— Mas é.
— Panacas são esses caras que chegam de qualquer jeito.
— E eu, que nem chego?
— É só questão de se acalmar.
— Acontece que sou muito ansioso.
— É?
— Semana passada, por exemplo, mal consegui dormir à noite por causa da pré-estréia de...
— De?
— Nada. Você não deve gostar.
— Fala!
— Star Wars. — corou — A Vingança dos Sith.
— Não gosto? Adoro!
— Adora?
— Fui no cinema na pré-estréia também, à meia-noite, super legal!
— Foi, não foi?
— Adorei, apesar de todo mundo ter falado mal.
— Convenhamos que aquela cena do Anakin foi meio forçada...
— Meio Frankenstein, né?
— “Nooooooooo!” com aquelas mãos pra cima, onde é que o George Lucas estava com a cabe — Ai!
Segunda cotovelada.
— Sua conta, moça — resmungou Glória com o nariz torcido, e saiu.
Levou o assunto consigo.
O ar inseguro pairou entre eles durante alguns segundos, até um deles voltar à realidade do acontecimento.
— Ai, a conta!
Cecília abriu a bolsa e lamentou o conteúdo da carteira:
— Droga. Estou sem trocado.
— E aqui eles demoram um bocado pra trazer de volta, né?
— É, você viu só a conta.
— É.
— Que droga...
Túlio demorou um pouco mais a voltar à dita realidade.
— Puxa, que grosseria a minha – deixa que eu pago.
— Não precisa.
— Lógico que precisa.
— Não precisa.
— Precisa.
— Não precisa.
— Precisa.
— Não precisa.
— Pre — tirou a carteira do bolso — ci — escolheu uma nota amassada — sa — fechou a caderneta —, e fui mais rápido, há-há.
O silêncio inseguro fez vento quando Glória voltou à mesa rebolando.
— Pronto?
— Vamos ficar aguardando o troco — o sorriso de Túlio foi amarelo.
Glória foi embora, eles ficaram.
— Então, voltando...
— Não dá pra voltar.
— Não?
— Não. Perdi o fio da meada.
— Tudo bem.
— Desculpe.
— Não, tudo bem.
Silêncio.
Ele limpou a garganta.
— Certo. Oi, Cecília.
— Oi, Alber —
— Túlio.
— Desculpa. Oi, Túlio.
— Tudo bem?
— Tudo, e você?
— Tudo.
Ele abaixou a cabeça, ela permaneceu a esperar.
Talvez fosse eternamente, não fosse ela interromper o nada:
— Agora você deveria puxar o assunto, entendeu?
— Certo.
— ...
— ...
— Túlio..?
— Você vem sempre aqui?
— O quê — a risada a deixou meio descabelada — foi isso?
— Ah, eu não sabia o que dizer, e você ficou me pressionando, daí —
— Essa é a cantada mais manjada do mundo!
— Quê, meu pai falou isso pra minha mãe quando eles se conheceram!
— E ela caiu?
— Acho que ela só não tinha o que fazer e resolveu namorar com ele.
— Sobre cantadas idiotas, meu pai fez a mesma coisa com a minha mãe.
— Qual?
— “Você acredita em amor à primeira vista?”.
— Essa é legal.
— Clichezinha também, vai.
— Você acredita?
— No quê? Amor à primeira vista?
— É.
— Não sei...
— As possibilidades são bem maiores quando o mesmo já aconteceu com a outra pessoa, sabia?
— É? Você calculou?
— Usei muitos guardanapos daqui pra isso.
— Então você vem aqui fazer contas, é?
— Sou engenheiro, oras.
— Mania ruim a nossa, hein?
— Você também?
— O quê? Faço contas absurdas?
— É.
— Você sabe quantos micróbios tem o suco de laranja daqui?
— Quantos?
— Em média de um trilhão e meio.
— Nossa, mas não chega nem perto do achocolatado. É assustador.
— É leite, tem que levar em consideração isso.
— Mas você já viu a xícara deles? Eles devem lavar com cuspe de — Ai!
Terceira cotovelada. O lugar do ataque já nem ficava mais dolorido.
— Seu troco.
— E o recibo?
— Recibo?
— É. Da conta.
— Já vou trazer o seu recibo — o tom de voz de Glória estava ressentido e rancoroso.
Cuspiu no primeiro copo que viu em cima do balcão, depois.
Cecília afinou a linha da boca.
— Começar de novo?
— É... acho que sim...
— Isso está ficando divertido — tirou sarro.
— Então! Você podia ficar.
— Não posso. As passagens já estão compradas.
— Você... vai ficar lá quanto tempo?
— Não sei.
— Ahn.
— ...
— ...
— Mas eu estou indo só pra espairecer um pouco.
— Seu chefe já te deu férias?
— Eu... eu não fui efetivada no meu estágio, depois da faculdade.
— Ah...
— ...
— Sinto muito.
— Que é isso. Eu nunca me dei bem na fábrica, mesmo.
— Imagino. Você não é do tipo. Eu também não gosto.
— Mas você tá trabalhando?
— Sou projetista, trabalho quieto.
— Taí uma coisa legal!
— É bem legal.
— É, né?
— É.
— ...
— ...
— Gosto dessas coisas que usam a imaginação — ela emendou.
— Eu também. Por isso, eu...
— Você..?
— Você vai achar idiota.
— Não, fala.
— Mas é tonto.
— Pára com isso. Fala.
— Eu escrevo.
— Você escreve? O quê?
— Ah, contos.
— Que tipo de contos?
— Ah... contos... de ficção científica.
— De verdade?
— De verdade.
— Sabe que eu escrevo, também?
— É?!
— Mas eu ainda não publiquei nada, nunca consigo terminar uma história... você publica em algum lugar?
— Só no meu blog. Tenho vergonha — baixou a cabeça — que alguém leia.
— Me passa o seu blog.
Cutucou a orelha para saber se tinha ouvido direito.
— Quê?
— Me passa o seu blog.
Então devia ser interferência dos seus outros pensamentos paralelos, ininterruptos.
— Você... não tá...
— Tô. Eu adoro ler. Leio muitas coisas na internet. E acho que você — sorriu — devia aprender a deixar de ter tanta vergonha.
— Puxa. E-eu nem sei o que — Ai!
— Ai!
As cotoveladas agora tinham sido em lugares diferentes, e por isso doeram mais. Ficaram roxas, depois. Simetricamente.
Era Glória.
Ela trazia o recibo da conta.
E a existência do mundo real, cheio de buzinas intermitentes de um irmão que esperava pela caçula na porta da lanchonete.
— Tenho que ir — pegou a bolsa —, senão vou perder meu vôo.
— Mas você não queria o endereço do — ?
— Não, ó, vamos fazer o seguinte...
Ele não conseguia se conter de êxtase: fogos de artifício artificiais ardiam diante de seus olhos. Quando Cecília lhe estendeu o papel, seu branco ficou pontilhado de manchas coloridas e aleatórias.
— Meu celular. Me liga.
E saiu.
Mas voltou correndo, toda molhada de chuva de verão.
— Espera. Tenho que te perguntar uma coisa.
— O quê?
— A faculdade, as contas malucas, os contos, Star Wars. Como você começou a gostar de mim? Como você sabia que éramos tão parecidos?
— Eu não sabia.
— Não?
— Eu só acreditei no amor à primeira vista. E nas probabilidades.
— Mesmo..?
— Na verdade, sempre que eu te via, aqui ou na faculdade, você estava lambendo a ponta da caneta, daquele seu jeito, fazendo palavras-cruzadas. E eu adoro, simplesmente adoro — Túlio corou — palavras-cruzadas.
*****
Era logo o começo do expediente, oito horas da manhã. Glória engoliu o ar e a reclamação por um bocejo largo e longo, de quem forçosamente perdia o melhor do sono. Para ela, começar de manhã era começar mal. Aquele seria um péssimo dia, da cor do pano limpa-balcão. Tirou-o do avental amarelado e pôs-se a executar sua interminável tarefa preguiçosa.
Escutou o telefone berrar sete vezes, como se propositalmente quisesse arrancar o restinho da moleza matinal. Bufou. Escutou um “alô” ali por perto.
— Alô? Quê? É, é daqui mesmo. Quê? Não, eu não tava aqui ontem não. Ontem tava a Glória. Peraí. — e o tom subiu: — Õ, Glóóóóóória! Telefooooone!
— Fala aí, Cida!
— Mas é pra você!
— Tenha compaixão, vai! Nem acordei direito ainda!
E só porque não queria ser (mais) xingada (que o normal), Cida se manteve na linha. Ouviu e tornou a chamar a outra:
— O homem aqui tá perguntando se você recebeu o pagamento de um cliente ontem.
— Eu não, né? A lanchonete recebeu. Eu só recebo salário.
— Ele quer saber da conta.
— Que tem? A conta dele? Ele não pagou?
— Ô, moço — voltou ao telefone —, você não pagou ontem, é? — mexeu a cabeça e tirou o ouvido — Ô, Glória.
— Fala, criatura!
— Ele quer saber da conta de uma moça.
— E eu servi umas cinqüenta ontem. Desliga isso, vai.
— Uma moça loira, ele disse.
— Quarenta e cinco era loira.
— Ô, moço, não dá pra saber, é muita gente. Que é? Que é? Calma, poxa, peraí! — e tentou uma última vez: — Ô, Glória!
— Caramba! Que foi?
— O cara ta me xingando aqui, não pára de gritar que tinha um número naquela conta!
— Claro que tinha, o valor da conta, mulher!
— Não, ele tá falando de um telefone. Que tinha um número de telefone no papel!
Palavrão.
Passos largos e compassados, firmes e mal-humorados.
— Cida.
— Quê?
— Vai te catar.
Apareceu por trás da colega e apertou o gancho contra o dedo, aliviando toda a desgraça da vida.
segunda-feira, 7 de julho de 2008
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