sexta-feira, 20 de março de 2009

Borboletas na lua

- aquele chá.



Estou aqui, dia 23, sete horas da noite, em frente à sala dele. Só uma de mim; a outra está tentando se concentrar em seu relatório de Poções na Sala Comunal da Grifinória (na verdade, ela não vai conseguir tirar a imaginação do terceiro andar até copiar a conclusão do livro, se enfiar no banheiro feminino e dar duas voltas no vira-tempo). Espio o relógio no pulso e só confirmo o que tinha constatado: estou plantada em pé aqui há 20 longos e ansiosos minutos, sem coragem de bater na porta. Quando alguém passa no corredor, finjo amarrar os sapatos e ajeitar os cabelos, batendo impacientemente o pé como à espera de um atraso imperdoável. Quando fico sozinha, junto todo o ar dentro de mim e me controlo para não bater a cabeça na parede. Meu Merlim, Hermione, por que você ainda está assim? Não tem nada de mais, absolutamente nada, você vai entregar o livro de volta, só isso. Não é como se ele fosse... abaixar sua média ou coisa assim. É, é, claro que não. É só estender o livro, agradecer e ir embora! Não pode haver nada de complicado nisso. Qualquer feitiço é mais difícil, você sabe; e se você pode conjurar fogo dentro d’água, isso aqui é moleza. Mo-le-za. OK, tudo certo. Moleza. É agora, então. Respirando fundo. Endireitando a coluna. Moleza, Hermione, moleza. Um, dois, três e —

— O que você pensa que está fazendo — ah, meu Merlim, não essa voz —, à noite, no meio de um corredor que não é o da sua sala comunal?

Juro que o ouvi muito distante de mim; mas agora que me viro, Snape está praticamente encostando o nariz no meu (admito que isso não é lá muito difícil — Merlim, Hermione, você perdeu todo o respeito por professores nesta escola?!).

— E-eu — também perdi o controle das minhas articulações! — só vim devolver este li-livro para o professor Lupin, senhor.

— Ele te emprestou um livro? — Nem posso me sentir ofendida, porque seu tom de incredulidade é bem próximo ao dos meus pensamentos.

— Sim, senhor.

— Deixe-me vê-lo. — E não tenho escolha senão entendê-lo para o professor errado. Snape o folheia enquanto eu torço, por baixo da respiração, para que ele não fale exatamente:

— Mas isso não tem absolutamente nenhuma relação com Defesa Contra as Artes das Trevas. — O que acaba de dizer, é lógico que ele falaria! Ou gaguejo ou me calo; escolho o último porque estou sem argumentos; as borboletas parecem ter migrado para dentro do meu cérebro e levado embora minha coragem grifinoriana. De modo algum isso o satisfaz: — Tem, Srta Granger? — Ele força uma confirmação.

— Não, senhor.

— Talvez, Srta Granger, assumindo sua posição de intragável Sabe-Tudo, você poderia me responder por que um professor tomaria a liberdade de lhe emprestar um livro ficcional?

— O-senhor-poderia-perguntar-pra-ele... — Olhei para o lado e fingi não ter sussurrado nada disso, mas segundos depois percebo que não deu certo.

— O quê disse?

— Talvez... o senhor... pudesse... perguntar para o próprio professor Lupin. — Engulo em seco em diversas passagens e rapidamente abaixo a cabeça; não posso suportar sua ira furando meus olhos e passando do meu lado, arrastando suas vestes no chão e dando três batidas apressadas na porta.

— Lupin! — Ele quer matar.

A resposta do outro lado, contudo, vem macia e despreocupada. Minha ansiedade convertida em apreensão, me força a esperar pela absolvição do crime a que estava sendo acusada de cabeça erguida e peito inflamado, em sinal de certeza. Instantes depois, minhas bochechas inevitavelmente esquentam (pra frente, Hermione, olhe pra frente!).

— Pois não, Severus? — Ai, ali, ali, o sorriso gentil!

— Acabo de encontrar Hermione Granger sozinha, neste corredor, com a desculpa insolente de que veio lhe devolver este livro. — De viés, vejo seu braço ereto controlando a fúria.

— Ah, sim, sim, é verdade, combinamos que ela viria hoje. Gostou do livro, Srta Granger? — a pergunta me pega de surpresa. Tudo o que posso fazer é balançar a cabeça freneticamente. Que vergonha.

— Você lhe emprestou esse livro?

— Claro, Severus.

— Por que, Lupin?

— Eu realmente preciso de um motivo para compartilhar uma boa leitura? Porque sempre pensei que uma das tarefas de um educador fosse incentivar os livros e o estudo.

— Isso é ficção.

— É uma auto-biografia, Severus. E eu bem lhe recomendaria, é ótima, diria que já li cinco vezes.

— Não, obrigado, Lupin. Apenas faça a gentileza de acompanhar a Srta Granger até sua Sala Comunal. Se eu a vir andando sozinha, poderei tirar 10 pontos da Grifinória. — Ele enfia a faca fundo no meu peito e a arranca de súbito, eu quase posso senti-la minutos antes de ele sair com as vestes flutuantes.

— Não quer entrar?

Foi então que percebi que não precisava mais fingir amarrar o sapato, nem bater a cabeça na parede, nem ajeitar a postura, nem tomar coragem, nem bater na porta, ou muito menos devolver o livro que deveria estar nas minhas mãos, e que já está nas dele. Todo o meu receio e todo meu nervosismo não têm mais razão de ser, porque meu objetivo foi concluído, agora é só agradecer e sair — e, ainda assim, ele me convida para entrar em sua sala. Por um momento ou dois tento retomar o que ouvi só para ter certeza de que a frase não era só a impressão de um convite, mas logo desisto, porque suas sobrancelhas se levantam na espera. O melhor é explodir a emoção logo com a garganta:

— Aham. — E faço meu caminho de entrada o mais rápido possível.

Sua sala é, talvez, um pouco mais desorganizada do que eu poderia esperar, com algumas pilhas de livros se entortando e maletas abertas com algum conteúdo indecifrável. Ainda assim, melhor que a do professor Lockhart ano passado; aqueles quadros piscando, às vezes davam arrepios. Do lado do biombo, que divide escritório e quarto, vejo que uma chaleira deixa escapar o vapor em cima de uma mesinha redonda, no centro de duas cadeiras de madeira. Ele faz um sinal educado e eu sento, prestando atenção enquanto ele conjura duas xícaras e serve o chá.

— Receio que o professor Snape não tenha muita... — Ele pára no ar com o bule por um momento antes de continuar, pensando, olhando para o fundo da xícara. — Simpatia. Mas ele tem me ajudado bastante ultimamente. Hoje, por exemplo, era um das minhas noites de ronda pelo castelo, e como não tenho me sentido disposto, ele se dispôs a me cobrir. Gostaria que não ficasse ressentida com ele.

Esqueço o professor Snape automaticamente. Pela primeira vez, em meses, começo a notar o quanto aquela indisposição está visível em seu rosto: seus olhos estão caídos, não de tristes, mas de cansados, e embaixo deles escorregam duas grandes olheiras escuras. Os cabelos parecem estar surpreendentemente mais salpicados de fios grisalhos, principalmente na região da testa e das têmporas. Sua voz, também, parece rouca e mais gasta. Ele sorri, sim, mas agora a única impressão que tenho são as das linhas do rosto, muitas e mais aparentes. Ele não mente, certamente que não, e deve estar terrivelmente doente... terrivelmente...

— Ele o substituiu aula passada também. — Não encontro outro modo de continuar.

— Sim, é verdade. E como foram com os grindylows?

— Ele nos passou lobisomens ao invés.

É impressão minha ou seus olhos pareceram ligeiramente mais sombrios...? Impressão, Hermione, é certo; mal posso vê-lo agora por trás da porcelana. Está tomando chá. E seu gole é tão longo que tenho tempo de desconfiar de novo — Será que foi o que Snape fez? Será que foi algo que eu fiz?

Mas agora que ele pousa novamente a xícara no pires, vejo que quase ri.

— Severus realmente não gosta da sua classe. Nós só vamos ver lobisomens no fim do segundo semestre, é uma matéria muito adiantada.

— Sim, sim, eu tentei falar isso pra ele — me defendo —, mas ele nos passou mesmo assim.

— Eu vou conversar com ele. E se ele passou alguma lição, não precisa entregar, pode avisar o resto da sua sala...

Quando minha boca se abre, o som que sai dela é agudo, quase um guincho revoltado. Eu argumento que não, que injustiça, ele teria que cobrar pela lição pedida, afinal foram horas perdidas para fazer aqueles custosos dois rolos de pergaminho. Paro e logo tudo me foge, só me resta a idéia geral — ridícula idéia geral! Sôo como uma criança mimada. Hermione, que vergonha! Tento abaixar a cabeça pra disfarçar a cor das bochechas, mas sei que já foi tarde demais e, que pior, foi o começo da criancice, não o fim. Ele vai me achar uma boba e vai terminar a conversa e nunca mais vai me emprestar livro algum, e nunca mais vou conseguir olhar pra ele de novo por causa das malditas borboletas que sempre vão me lembrar como fui ridícula, ridícula, ridícula!

Eu paro com minha autoflagelação porque ele está sorrindo de novo. E isso definitivamente acaba com qualquer sofrimento.

— Se não é muito atrevimento, eu gostaria de saber... — Outro gole. — Minerva mencionou que você se matriculou em todas as disciplinas. Como você consegue?

— Ah... — Interessante como a pergunta me pegou. Se fosse a voz de Ron a que estivesse ouvindo, com as chamas do seu cabelo vivas e prontas para me acusar a qualquer momento, sem dúvidas eu teria perdido a paciência, saído da sala, voltado só para achar uma vingança. Mas agora, a pergunta me soa diferente. Não é uma curiosidade mórbida, é quase como se fosse... um elogio, uma admiração. Seus olhos sobre mim me deixam... Ah, quero falar eternamente pra nunca perder essa sensação! — A professor McGonagall conseguiu uma autorização do Ministério para me emprestar um vira-tempo. É assim que tenho assistido a todas as aulas. — Uma segunda sensação no estômago me lembra que falei demais, ai.

— Não, não, isso ela também me contou. — Minha consciência se alivia. — Eu quis dizer... como você fisicamente consegue? Seus dias duram muito mais do que um dia normal.

— É... difícil. Às vezes acabo ficando acordada mais do que poderia. Mas, ao mesmo tempo, acho que não seria capaz de deixar nenhuma matéria. Todas elas parecem tão... importantes.

— Entendo o que quer dizer. — Mesmo? — O terceiro ano é realmente uma época confusa, com todas essas novas disciplinas para se escolher com que trabalhar nos próximos anos. Pra muitos a sua decisão pode ser considerada louca, mas eu diria que ela é só bem atrevida. Mais chá? — Aceito logo, antes que as borboletas voltem à garganta. — Quando tinha sua idade, passei exatamente pelo mesmo problema. A diferença é que Dumbledore não aceitou que eu cursasse todas; tive que desistir de duas.

— Por que não?

— Acho que na época, o Ministro era menos flexível para alunos dedicados. Pros meus pais, foi um alívio, eu teria os deixado loucos. Mas os seus devem estar muito orgulhosos de você, não é?

— Ahn, bem, não é algo que eles possam contar pra qualquer um, mas comigo eles parecem bem... ah, satisfeitos...

— Não podem?

— Eles são trouxas.

— Verdade?

Repito em pensamento a mesma palavra, agora sem interrogação. Embora não saiba mais o que retrucar, não falo em voz alta porque esse é o tipo de resposta marcadora de fim de conversa e não quero terminá-la. Tomo um gole curto de chá e me afundo atrás da xícara, raciocinando rápido o que mais comentar, como mais estender, mas no fim acabo só confirmando com a cabeça. Meus pais são trouxas, e agora? Ao menos ele não parece incomodado. Sua expressão não tem nada de Malfoy.

— Então, podemos dizer que você é uma bela prova de que sangue bruxo não significa muita coisa.

Meu Merlim, preciso desesperadamente de um lugar pra me esconder, sinto as asas se degladiando dentro do meu estômago, logo elas vão irromper de volta às minhas bochechas — o chá, o bule! Agarro-o com aparente urgência (devo até mesmo tê-lo assustado, mas é melhor não olhar pro lado, as coisas podem piorar drasticamente) e ponho-me estrategicamente atrás de sua parte mais gorda, deliciada pelas paisagens da porcelana e pelo movimento delicado do líquido que cai. Claro que não. Enquanto engulo as borboletas com a garganta, tento degustar com o coração o que acabei de ouvir. Bela, ele me chamou de bela! Ele me acha bonita!

Calma (a voz que me vem às vezes nem parece minha!). É o primeiro beijo voltando outra vez. Não, Hermione, ele não te deu um beijo, e não, Hermione, foi só um modo de dizer. “Bela” antes de “prova” com o sentido de “bom”, de “ótimo”, nada relacionado à sua pessoa. Definitivamente. Mordo a língua e volto a repetir a voz da consciência. Pense com o cérebro, Hermione. Ele é seu professor, não o galã do Quadribol.

Mas teria sido tão bom saber que ele me acha bonita... Talvez eu possa considerar uma inversão de palavras só agora, só por um momento, e depois voltar à realidade...

Então meu dedão arde, o chá pelando fagulha das minhas unhas até minha saia, meu grito de susto me assusta mais ainda, eu levanto e tudo vai ao chão. Junto com o momento da minha vida.

— Você está bem? — Ele me puxa mais longe da bagunça e mais para perto dele, e tenho que me concentrar mais para não apagar.

— Eu... só me queimei um pouco, não foi nada, não foi nada. — Nunca antes tinha ficado tão feliz por ter decorado sozinha o feitiço de reparo. Minha varinha desliza entre meus dedos o mais rápido possível, antes que meu coração se parta de arrependimento em mais pedaços. — Sinto muito, professor, sinto muito, mesmo... — E lhe entrego o bule novo de volta, imperceptivelmente quebrado, com os braços estendidos para fazer uma distância de precaução.

— Não se preocupe, esse bule conhece esse tapete já há muito tempo... Acho que eu que tenho que lhe pedir desculpas. Acho que toquei em um assunto que te incomoda.

— Não, não, de modo algum! — Eu quebro sua louça e estrago seu chá, e ele ainda me pede desculpas? Merlim, acho que perderia o momento anterior por mais dez vezes só para viver este de novo! — Eu me perdi, estava pensando que... ahn... bem — e algo explode da minha língua — seria muito bom se todas as pessoas de Hogwarts achassem o mesmo que o senhor.

A solução pareceu bastante concebível. Finalmente raciocinando com o cérebro, Hermione, quem diria. E ele a aprova, vejo pela expressão de consonância nas linhas da testa e da boca. No fim das contas, também, a mentira não se saía tão mentirosa assim; realmente seria algo que a antiga Hermione pensaria, aquela que ainda não sonhava com primeiros beijos à noite.

— Realmente... seria...

Vejo suas sobrancelhas e as linhas de expressão se desmancharem de novo, num relance, pouco antes do fundo da xícara. Tenho a impressão de que o chá já tinha se acabado desde o gole anterior — não, tenho certeza disso, definitivamente —, mas mesmo assim ele o leva à boca por bastante tempo, talvez ainda por mais tempo do que seria de se esperar para esvaziar uma xícara como aquela. E quando parece cansar de sugar o nada, ele se vira até mim mais uma vez com a expressão oposta, um sorriso fino e um assunto brusco.

— Gostou do livro, Srta Granger?

A resposta ensaiada nos quase dois rolos de pergaminho na noite anterior dispara fácil pela minha língua. Eu quase sei o que estou falando. Quase, é, porque é impossível se concentrar em uma autobiografia, mesmo boa e decorada, quando a pessoa a sua frente parece fazer força para manter algo escondido. Talvez seja isso que o tem deixado doente. Talvez — será? —, talvez ele tenha me chamado pra cá exatamente para falar, e não tem coragem. Talvez ele esteja assim... por causa... do... beijo...?

De novo, de novo, de novo, Hermione, não! Para com isso! Aquilo nunca aconteceu.

Mas bem que...

É, eu podia perguntar o que acontece. Me mostrar aberta, preocupada, receptiva. Não seria de todo ruim. Quebraria a formalidade. Eu... eu posso se uma boa confidente, não posso? Harry já me pediu alguns conselhos. Sim, isso, eu o ajudaria, ele seria grato, gostaria de mim, começaríamos... Seria tudo perfeito! É isso. Vou esperar ele dar uma deixa, talvez me servir de mais chá e, quando ele pausar para pegar o bule, eu pergunto. Num fôlego só, pra não perder a coragem. OK. Vou fazer então. Vou perguntar! A qualquer momento. Qualquer um. Acho que... agoooo —

Mas ele é mais rápido que eu, seu bocejo acaba logo para um pretexto de cansaço, de aula cedo no dia seguinte, de vá-embora-logo-Hermione-para-que-eu-possa-dormir. Assim, acabou. Acabou? Não, ele se lembra do aviso do professor Snape, não posso voltar para a Sala Comunal sozinha, seria perigoso. Ele fará questão de me acompanhar quatro andares pra cima até a Grifinória. Minha última chance.

Levantamos quase juntos, ele me impede de ajudá-lo com a louça, abre a porta muito gentilmente e me dá passagem, sai e fecha a porta. Cruzamos o corredor na penumbra sob o mais profundo silêncio, e subimos o primeiro lance de escadas do mesmíssimo jeito. Como o quinto andar. E o sexto. Avisto o reflexo da moldura do Quadro da Mulher Gorda e meu coração começa a bater suas asas de borboleta. Meu Merlim, Hermione, diga alguma coisa! Você não tem mais convites para visitas noturnas nem autobiografias emprestadas, é realmente sua última chance! Agora consigo ouvir até os roncos da Mulher Gorda. Cada vez mais altos, e não é só obstrução do nariz dela. Eu preciso dizer alguma coisa. Alguma coisa, qual-quer-coi-sa! A boca abre, mas os lábios param. Ridículo! Estamos praticamente diante do quadro, e agora — não! — definitivamente diante do quadro, parados, um do lado do outro, completamente mudos até ele desejar uma boa noite e dar de costas, e eu internamente berrar que é o fim.

FIM!

Não, fim não, Hermione, vou dizer AGORA!

— Professor!

Ele se volta. “Sim?”, ouço-o rouco. Olho-o nos olhos. Eles estão caídos.

Não consigo.

— Espero que fique bom logo — É tudo o que sai, e a antena de uma borboleta faz cócega na minha garganta.

— Obrigado. — Contudo, sua resposta lenta só aparece depois de uma virada de cabeça teatral. Seus olhos se fixam sobre os vidros coloridos da janela, cortados pela luz de fora, e seu rosto, meio azul meio verde, se fecha; daí, sim, me responde com uma voz desgostosa e vai embora.

Ótimo. Tudo o que me resta são roncos e autoflagelação. Tenho ódio de mim mesma, muito ódio, ódio extremo, tanto que desejo mais que tudo desaparecer, morrer. Que cada centímetro cúbico meu de Hermione inche e infle de desgosto, até meu corpo explodir num único estouro surdo — mas isso passa de súbito, não sei se pelo engasgo mais alto da Mulher Gorda ou pelo senso de responsabilidade que tilinta no meu ouvido para me lembrar de entrar. Não tenho escolha, tenho? Digo a senha e entro. Constato racionalmente que devo ter chegado na hora certa, não me vejo fazendo lição junto com o resto das pessoas do meu ano. Eu deveria sentar com elas e terminar. É, deveria... mas acho que vou só encostar na janela e ficar olhando a lua, a luz colorida sobre mim, do mesmo jeito que ele —

Calma, Hermione. Lua..?

Eu corro aflita até as mesas.

— Neville, por favor, você tá com o seu Calendário de Astronomia? Eu preciso muito ver uma coisa. Muito, muito, muito. Eu acho — enquanto ele procura no meio dos papéis, a desculpa me vem como uma luva — que escrevi errado no meu relatório.

— É esse que eu tô copiando? — Mesmo que fosse, Ron ia errar, porque nem ao menos levantou os olhos do pergaminho.

— Aqui. — Neville me estende e eu o abocanho, sem tempo de agradecer.

Mergulho a vista na Tabela Lunar. As quartas e as quintas-feiras se adiantam. Nenhuma deixa passar. Nenhuma nega. Preciso fazer pouquíssimas contas; partindo da primeira, o resto é confirmação. Tudo perfeito, tudo faz sentido, todos os dias iguais, todos lua-cheia. Eu acho... que ele... é... um lobisomem. Acho. Não quero ter certeza. Não quero ser a Intragável Sabe-Tudo.

De repente eu tenho a resposta pra maior pergunta da minha noite, e tudo o que posso fazer é sentir a aglomeração de lágrimas que se forma no canto do meu olho.

— Mione...— a voz de Neville está longe — se você quiser, eu te ajudo a consertar o seu relatório.

Ah, Neville, será que você pode consertar a vida dele?

Como é horrível se sentir impotente, eu corro até meu dormitório para me afundar no travesseiro.


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