- a história (parte II).
Ao levantar da cama no dia seguinte, Sakura ainda se sentia tonta. Lavou o rosto repetidas vezes com água fria, mas ainda via coisas estranhas nos lugares errados. Roupas por todos os cantos, embalagens de suco pronto espalhadas pelo chão, cartas Clow voando pelo teto.Tentou se convencer de que realmente não havia nenhuma gravata dentro do lixo e desceu para tomar café-da-manhã.
Shoran...
Havia mesmo sido ele o dono do corpo que ela vira tão assustadoramente jogado no chão?
Havia mesmo sido seu amigo a vítima de um assassinato tão inexplicável?
Havia mesmo sido o grande mago Clow o culpado pela morte da pessoa com quem ela mais se importava..?
Aquelas perguntavam martelavam doídas dentro de sua cabeça, como se não quisessem permitir que ela voltasse ao mundo real. Ignorou o pai e o irmão em casa, ignorou o caminho, ignorou os colegas da sala de aula. Somente se deu conta da verdade ao avistar a carteira vazia atrás de si.
Mas foi por apenas alguns segundos. Logo deitou a cabeça entre os braços e se permitiu perder-se entre pensamentos e palavras exteriores.
Shoran...
— Bom dia, alunos — a voz do professor Terada parecia muito distante — hoje vamos fazer algumas coisas novas na aula de artes...
Ainda podia vê-lo ao seu lado no dia anterior, sorrindo e conversando...
— ... vamos todos recortar algumas figuras em jornais e revistas...
Ainda podia sentir graça da conversa dele com Meilin...
—... vocês ainda podem fazer uso das tintas do armário da sala...
Ainda podia rir do seu rosto vermelho...
— Professor — agora a voz era diferente, feminina —, faltam algumas tintas.
Ainda podia se lembrar do seu rosto de preocupação...
— Deixe me ver — era a voz masculina de novo.
Ainda... ahn? Preocupação?
— Vamos ter que nos virar sem tinta vermelha — ouviu uma risadinha.
Ainda podia se lembrar das suas primeiras palavras quando chegaram ao teatro...
— Vamos começar a atividade...
Sakura, eu preciso falar com você.
— ... vamos montar cartilhas deste tamanho, de mesmo tema...
O que foi, Shoran?
— ... e uni-los a um rolo de filme...
É que eu... eu... eu vi —
— ... para testar a definição de imagem subliminar...
Ainda podia se lembrar da interrupção inoportuna naquele exato instante.
—... usada em 1957...
O que ele tinha visto?
— ... pelo publicitário americano James —
— EU NÃO AGÜENTO MAIS, SAKURA!
A explosão de seu primeiro nome em seus ouvidos fez com que Sakura levanta-se de ímpeto.
— O que significa isso, Li?
A voz do professor Terada era forte, assim como seu olhar. Ele se pôs a fitar firmemente a figura de Meilin Li que, ao lado de Sakura, estava em pé, suando, tremendo, os punhos fechados.
Mas ela ignorou o professor.
— Você fica aí deitada, de cabeça baixa, como se o seu mundo tivesse desabado! O seu mundo! Mas foi o meu que desabou! O Shoran era meu, Sakura, MEU!
— Mas, Meilin, eu —
— Eu não agüento te ver assim, como se ele significasse alguma coisa pra você!
— É lógico que o Shoran tem significado para a Saku... — Tomoyo tentou interpelar, mas foi interrompida.
— NÃO! Não tem, não tem, não, não TEM! Só eu tenho o direito de ficar triste!
— Senhorita Li, se a senhorita não se acalmar eu vou ter que chamar o diretor —
— E quer saber? AINDA BEM que ele morreu! Se ele não pode ser meu, não pode ser de mais NINGUÉM!
Antes que alguém pudesse dizer mais alguma coisa, a garota saiu correndo e bateu a porta da sala de aula atrás de si.
Sakura chorou.
— Por favor, Sakura, não fique assim.
Finalmente tinha dado a hora da saída. Elas estavam nos gramados da escola Tomoeda, Tomoyo com os braços envoltos na amiga, tentando consola-la.
— É Sakura... não fique triste — Kero agora saía surpreendentemente de sua mochila, e abraçava suas bochechas com seus braços curtos.
— Desculpem — ela disse, com a voz chorosa —, mas tudo o que a Meilin me disse... me deixou pior... será... será que ela..?
— Não diga uma coisa dessas, Sakura! — Tomoyo levou as mãos à boca — Meilin jamais poderia ter matado Shoran, eles eram primos!
— Mas ela disse “ainda bem que ele morreu”... “ainda bem”...
— E ela não parecia estar muito feliz com isso, não é?
— ...
— Ela só devia estar... muito chateada. As pessoas demonstram tristeza de diversas formas.
— Talvez...
— Eu já sei! — Tomoyo deu um pulo, e Kero quase caiu do ombro de Sakura — Que tal se a gente desse um pulo da casa do Yukito? Eu acho que ele ia te fazer muito bem.
Ela sentiu um pequeno sorriso se formando em seus lábios.
— É, acho que eu ia gostar...
Kero franziu os seus, mas se manteve quieto.
Nenhuma das duas reparou. Caminharam normalmente pelas ruas, quietas, pensativas, desanimadas. Soprava uma suave fina de primavera e várias pétalas de flores coloridas enchiam o chão e caíam em seus cabelos. Mas isso não as alegrava.
Finalmente chegaram. A casa era grande, imponente, tradicional. O portão sempre fechado, nunca trancado. Elas o empurraram e foram até a porta.
— Com licença — Sakura falou alto, esperando uma resposta — Yukito? Você está aí? É a Sakura!
— E a Tomoyo! — a outra acrescentou, tentando enxergar algo através dos vidros das janelas.
— Ninguém responde... será que ele saiu?
— Pode ser que ele esteja no quintal dos fundos, e por isso não ouça — Tomoyo arriscou —, vamos tentar abrir a porta.
Sakura girou a maçaneta. Click. Estava destrancada, e muito facilmente abriu.
— Acho que não devemos fazer isso... — Kero tremeu atrás das meninas.
— O Yukito é nosso amigo, não se preocupe! — respondeu Tomoyo enquanto avançavam para dentro, procurando vestígios de vida.
E tudo estava uma bagunça.
Por toda a casa, por todos os cômodos, havia revistas abertas e recortadas jogadas pelo chão, picotes de papel, tubos de cola e tesoura. Na sala de estar, o estado era mais crítico: não eram somente algumas revistas, mas sim pilhas e mais pilhas. A um canto, havia também um rolo de filme recortado e não rebobinado, envolto por figuras rasgadas – todas com uma estranha coincidência: eram pertencentes a embalagens de bebidas variadas, sucos, refrigerantes, cervejas, achocolatados e... todas as garrafas originais estava empilhadas na cozinha, cheias e vazias.
— O que aconteceu por aqui?
— Alguém andou com muita sede...
— E com muita fome — Tomoyo apontou para uma caixa em forma de coração em cima da mesinha de centro. Dentro dela, havia uma série de papéis de bombons amassados, e um pequeno cartão: Com carinho, T.
— Tem alguma coisa muito estranha por aqui — Kero falou sério —. Vamos embora antes que aconteça alguma coisa.
— O que poderia acontecer?
— Eu não sei, Tomoyo... mas não queria ter vindo aqui, em primeiro lugar...
— Por que..?
— Sakura, você não lembra do que estava escrito perto do corpo do Shoran?!
Era verdade... tinha esquecido desse detalhe.
Mas não demorou muito para que recordasse. Não precisava fechar os olhos para ver as vermelhas letras tortas em sua mente: ESSA ALMA FORA SACRIFICADA PELA RESSUCITAÇÃO DE LEAD CLOW.
— Pelo mago Clow... você acha que foi alguma carta?
— Não, Sakura. Por mais que algumas delas sejam violentas, elas nunca matariam por seu antigo mestre. Elas te respeitam agora. Mas se o assassino sabia o nome de Clow, ele pode não estar tão longe.
— Você está querendo dizer — ?
Kerberus assentiu com a cabeça.
— NÃO! — Sakura gritou — Yukito não poderia —
— Yukito não, Yue! Ele sempre adorou Clow, mais do que qualquer outro, e sempre se disse capaz de fazer qualquer coisa por ele!
— Mas Kero — Tomoyo tentava manter a voz calma, para não aumentar o desespero da Sakura que recomeçava a chorar —, Yue e Yukito são a mesma pessoa, e naquela hora Yukito estava na cabine de narração...
Ele abriu e fechou a boca repetidas vezes, como se esperasse que a resposta viesse, mas não veio. Desistiu e se calou.
— Yukito não poderia, mas...
Sakura pegou um dos recortes de propaganda de suco, e voltou a chorar, com mais força.
Sendo assim, Sakura descobriu...
a) os assassinos
b) o motivo do assassinato
c) a arma
d) a causa da morte
e) como o crime foi cometido
segunda-feira, 30 de abril de 2007
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