segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Louva-deus

Sinopse: Maurício e Maria Alice se amaram. Nutriram uma paixão maior do que o próprio amor. Algo que movimentou suas vidas até o fim.
Um inseto.
Categoria: Originais
Gênero: Darkfic, Romance
Data: abril de 2008
Palavras:
Alertas: Mutilação.




Deixando a risada contida escapar pelas frestas dos lábios, correu agachado por entre as carteiras da sala de aula. Suas mãos estavam fechadas uma sobre a outra, em forma de concha. Em um momento, ele esticou o pescoço em direção à porta indevidamente aberta, escondeu seu corpo de criança por trás de uma mochila e aguardou. Não, nada, não era nada, só a impressão ruim de quando se faz alguma coisa errada. Engoliu-a e continuou, porque sem dúvidas a brincadeira era deveras divertida.
Ali, duas carteiras à frente: o assento de Maria Alice, o fichário cor-de-rosa estendido, as canetas coloridas com glitter ordenadas em dégradé, o estojo de florzinhas bem aberto. Sim, ali, bem ali. Pulou pulinhos contados, despejou o conteúdo das mãos e fechou o zíper do estojo rápido, bem rápido, segundos antes do sinal de intervalo bater e a manada de crianças ensandecidas entrar se matando.
Quando a pequena Maria Alice voltou do pátio, o menino – o Maurício – já estava estrategicamente localizado duas carteiras atrás, segurando um olhar feroz. Viu-a dar uma última risada com a amiga na porta, rebolar sua volta até sentar-se, procurar a próxima matéria entre as folhas, arrumar o cabelo e coçar o nariz, ansiosíssimo. Observou, angustiado, cada movimento da menina, seus dedinhos que envolviam lentamente a alça do fecho éclair, puxando-a, dente por dente, até o fim, até avistar a figura monstruosa do inseto verde, até ouvir o berro desesperado que –
Mas o berro não veio.
Maurício teve de se erguer sobre seu assento e tentar adivinhar, por entre as dezenas de cabecinhas hiperativas, como seria a expressão da menina-assustada-que-não-se-assustou. De costas, enxergou como pôde Maria Alice fechar de volta o estojo e esconde-lo na mochila. Na mochila? Na mochila! Coçou o ouvido. Não, não, o grito devia ter vindo sim, certamente, ele devia ter rido e agora não se lembrava...
Aguardar o fim da aula foi um suplício. Por fim, veio. Ele esperou a classe mais ou menos esvaziar e segurou sua vítima falha pelo braço.
O rosto de um era mais bravo que o do outro.
— Ai! Meu braço!
— Ele é meu! Me devolve! Você guardou ele na mochila!
— Seu, é? E você queria me assustar com ele?
Não respondeu. Esperou ter o bichinho de estimação de volta entre os dedos para se sentir seguro.
— Queria, sim. Mas você é uma boba, porque nem ligou.
— Bobo é você, tá? — mostrou a língua — Eu não tenho medo dessas coisas.
— Toda menina tem.
— Eu não, oras. Eu até acho ele bonitinho...
Um pegou o outro olhando para o louva-deus nas mãos do menino, as duas patinhas em forma de oração, os dois rostos abobalhados de admiração. Depois, vermelhos de vergonha.
— Eu tenho até uma aranha de estimação, sabia? Peluda e tudo mais — ela disse, a cabeça ainda abaixada.
— Mentira.
— Mentira nada! Vai lá em casa que você vai ver!
Com muita relutância, ele a seguiu até sua casa. De longe.
Foi quando começou o namoro.


*****

Anos se passaram.
A missa das oito da noite de domingo era sempre a mais cheia da igreja. Os bancos de madeira quase nunca eram suficientes, faltavam cadeiras de plástico, as pessoas sentavam no chão, nos colos; rezavam em pé, ultrapassavam as entradas principais, vazavam pelas janelas. Os fiéis vinham em bando: pais, mães, tios, tias-avós, filhos, primas, namorados, cunhados, sogros, noras, enteados, conhecidos distantes, adjungidos e afins – ocupando praticamente uma única fileira inteira, por exemplo, estavam duas famílias enormes, os Pereira e os Serafim, unidos pelo laço de mãos entre Maurício e Maria Alice.
O padre abençoou os ouvintes pelo microfone e os dispensou. Num segundo, todos os assentos ficaram vazios e todas as passagens (por uma ironia maldosa) viraram um inferno. Os amantes adolescentes apertaram ainda mais uma aliança prateada contra a outra e se misturaram à multidão.
— Na casa da tia Lurdinha! — a matriarca Serafim gritou para a filha — A gente vai jantar lá!
No segundo seguinte, era só confusão. A menina só pôde repetir o automático combinado minutos depois, quando se viu a salvo e a sós com o namorado dentro do seu Fusca 68.
— Na casa da minha tia Lurdinha, ela disse. Sua mãe vai ficar brava se você for jantar com a gente de novo?
— Ah, tanto faz, deixa ela pra lá. Eu só quero ficar com você.
Maurício se aproximou. Envolveu a cintura fina com os braços. Esqueceram de tia Lurdinha.
Se no primeiro segundo cada um ocupava seu respectivo assento, no próximo comprimiam-se como uma pessoa só. Uma única boca, uma língua contínua. Estalos. Os cabelos atrapalhavam enquanto as mãos se divertiam pelas curvas, para baixo, para baixo, para baixo –
Paf!
O inchaço na bochecha foi imediato.
— Quem você pensa que é, hein? Aliás, aliás – quem você pensa que eu sou? — o grito feminino era agudíssimo.
— Desculpa, Li...
— Desculpa uma ova, seu Maurício. Uma ova! — chamou-o pelo nome inteiro, virou-se para sua poltrona, cruzou os braços de lado, fez bico. Para completar a personalidade forte, finalizou: — Você não me respeita.
— Nem vem, Alice, nem vem! Queria que eu fosse que nem o Fábio, é?, que nem aquele seu primo safado, é?
— Tá vendo? Nem a família respeita!
— To te mostrando que seu sangue não é tão santo assim, não, viu?
Ela continuou muxoxando em seu cantinho fechado; ele resolveu se afeminar:
— Você também não faz questão de me entender.
— Você não faz questão de se segurar — replicou ela.
— Poxa, não dá, é difícil.
— Faz força.
— E como faço!
— Quando um não quer, dois não fazem, você sabe.
— Sei sim, Li, sei. Mas ás vezes não dá... eu te amo tanto... queria ficar pertinho...
Cheque-mate, Maria Alice estava completamente derretida. Tornou seu rosto de volta ao namorado com os olhos caídos de sentimento.
— Ah... Também te amo, mô. Mas sabe... tem que ser especial. Inesquecível. Eu-eu quero combinar uma coisa com você. Pra quando nós...
Na calçada da igreja, ainda tinha gente que rezava, fervorosamente.
Foi quando fizeram o pacto.

*****


Meses se passaram.
Maria Alice perdia o fôlego enquanto a irmã tentava lhe fechar o vestido branco. Algo começou a apitar no plano de fundo.
— Meu celular, Bê! Pega meu celular!
— Isso lá é hora de atender celular, é? — Maria Betânia largou o botão faltante e se dirigiu ao telefone móvel. Voltou com a expressão revoltada: — Ah, não, Li! Imagina que o Maurício quer falar com você agora!
— Daí que eu quero atender ele.
— Quê?! Você não tá falando sério!
— Pára com isso, vai! Daí logo.
— Dá azar o noivo ver a noiva antes do casamento, cruzes!
— Ele não vai me ver, vai falar comigo. Pára de ser tão antiquada assim, vai — atendeu-o só abrindo e fez sinal com a mão: — E sai e fecha a porta, anda, vai!
Esperou ter certeza de ter ouvido o clique para finalmente por o aparelho à orelha.
— Oi, mô.
— Sua irmã às vezes é bem chata, hein? — ele riu do outro lado da linha.
— Eu bem sei, ai, ai... viu, algum motivo especial pra conversarmos agora? Sabe, estou atrasada prum casamento...
— Talvez a gente acabe se esbarrando por lá — ele brincou —, mas pra garantir, eu tinha que te ver agora...
— Me ver? Onde você tá?
— Olha pra trás.
Ouviu um toque em vidro e o encontrou grudado à janela. Ela caiu na gargalhada.
— Nossa, você tá com saudades mesmo!
— Sempre, mô, sempre — meteu a cabeça para dentro — Vem, vamos conversar aqui fora, aproveita que a sua irmã pentelha não tá aqui. Se ela ver a gente junto, dá azar.
Maurício a ajudou a não rasgar o vestido cerimonial na travessia. Depois, encheu-a de beijos e elogios, juras de amor e votos de saudades. Desfilou para ela dentro de seu fraque alugado e permitiu-a arrumar-lhe o nó da gravata. Tudo isso a muitos decibéis abaixo do tom de uma conversa normal, porque serem ouvidos significava a morte, ou ainda talvez coisa pior.
Com cuidado, sentaram-se grudados à parede do quintal, ao lado do jardim.
— Você é muito teimoso por ter vindo aqui me ver — Maria Alice começou.
— E você muito mais ainda, por estar aqui — ele retrucou.
— É, é... acho que nós dois somos geniosos — ela riu — Pra falar a verdade, não sei nem como podemos estar juntos há tempo... já parou pra pensar nisso?
— É a nossa paixão — e apontou para um pontinho no jardim, verde sobre verde se misturando a todos os tons e formas da natureza minúscula criada no quintal de trás. Ela não poderia deixar de ver, no entanto: era a figura alongada, as antenas eretas, os enormes olhos minúsculos, as patinhas unidas em reza.
— Esse bichinho virou meu trabalho de conclusão de curso, quem diria — riu-se.
— E eu querendo assustar você com isso, hein?!
— Nunca que você ia conseguir... é uma paixão...
— Nossa paixão.
Abraçaram-se.
— Falta pouco pra hoje à noite.
— Mal posso esperar.
Instantes depois, a irmã caçula abriu a janela de trás e criou-se o caos. O noivo foi expulso e sua cabeça foi posta a prêmio até as nove horas da noite daquele dia.
Foi quando se casaram.


*****

Dias se passaram.
Só faltava a senhora Serafim engolir o telefone.
— Ô, seu Antônio — chorava para o patriarca Pereira —, minha filha não atende o telefone, não atende o celular, não falo com ela desde o casamento!
— Calma, minha filha, eles não são crianças, tão em lua-de-mel...
— Mas é uma chácara lá no quinto dos inferno, minha Nossa Senhora!
— O lugar é o paraíso, dona Neide.
— Paraíso? Paraíso no meio do mato, é, seu Antônio? Sei lá que que tem lá por aqueles canto, bicho, ladrão, sei lá, alguma coisa de ruim!
— Epa, a senhora não vem falando mal do lugar, não, que aquela chácara é herança de família, compreendeu?
— E se não fosse a sua família, a minha filha não tinha sumido, então!
Seu Antônio Pereira gritou satisfações do outro lado da linha, mas Neide não ouviu: o marido tinha lhe arrancado o aparelho das mãos.
— Ê, mulher, que chilique é esse? Pelo amor de Deus, deixa que eu resolvo isso... — limpou a garganta e chegou perto do telefone: — Ô, compadre, desculpa minha mulher aí. Ela é muito desesperada. Nós só queria que o senhor desse umas passadinha por lá, vê como é que eles tão, se tá tudo bem... é que vocês conhece mais o lugar e tal, né?
— Não quero mais ouvir ofensa dos outro, não, ouviu bem?
— Que é isso, seu Antônio, a gente considera muito a sua família, o senhor sabe disso! É só coração de mãe, sabe como é, né? Não tá se agüentando desde que a menina pôs o véu.
— Pô, a minha aqui também não — e finalmente trocou a seriedade pelo riso — Chega de mulher preocupada. To indo lá agora ver os dois.
— Então você me avisa depois?
— Po’deixá então.
E desligou.
— Você pára de ter ataque histérico, viu, Neide? Que é isso, fica agredindo o homem à toa... fique sabendo que ele falou que já vai na tal da chácara. Agora, sossega o facho!
Saiu, deixando a esposa sozinha no quarto, as mãos em cima do peito do coração disparado, como se quisessem acalmá-lo. Mas não poderiam. Tinha que ter notícias da filha.
Tirou um terço do bolso e se pôs a rezar.
Foi quando começaram as buscas.

*****


Horas se passaram.
Já era tarde da noite quando Antônio, seu irmão e mais dois sobrinhos chegaram à chácara oferecida à lua-de-mel dos recém-casados. Suas luzes estavam todas apagadas.
Entraram em todos os cômodos, passaram a mão pos todos os interruptores, desconfiaram de cada detalhe intacto. Nada havia acontecido naquela casa, além do mais pó acumulado.
Foi quando encontraram Maria Alice.
Ali, no último quarto, o supostamente do casal. O cheiro de podridão era insuportável. Ela estava de joelhos, os olhos cerrados repletos de lágrimas, a boca pintada de vermelho, em oração.
Quando acenderam a luz, centenas de louva-deuses saíram pulando numa enxurrada pavorosa.

*****


Minutos se passaram.
Pegaram uma lanterna, enfiaram-se no mato.
Foi quando encontraram Maurício.
Sem a cabeça.
Seu cadáver estava coberto de formigas.

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